Chapter Text
O som do apito ressoou. Um timeout foi requisitado pela equipe de Clarkson, resultando em todas as atletas irem em direção a seus respectivos bancos.
– Então... — Jeff Sullivan, técnico das Nittany Lions, começou. — Provavelmente Desrosiers pediu o timeout para armar uma jogada e tentar empatar o jogo. — Suspirou, pegando a prancheta e anotando o posicionamento que o time iria tomar, também tentando prever o que o adversário faria a seguir. — Elas vão vir com tudo, então quer dizer que teremos uma situação de empty net. Jogar contra um time com uma jogadora a mais é sempre complicado, e como faltam poucos segundos no jogo, vamos adotar uma opção mais defensiva. — Ele olhou para todas as atletas, recebendo olhares atentos e alguns acenos positivos com a cabeça, então voltou a falar. — Quero a terceira linha de ataque; Sarah, Laura e Emma, é a sua vez de brilhar. Já na linha defensiva, vamos com o que temos de melhor; Nina e Steph... estamos contando com vocês. — Ainda que Sullivan visse as citadas assentirem com confiança, conseguia sentir que algumas de suas atletas tinham vontade de estar no gelo, o que o motivou a lembra-las que eram um time, e todas tinham participado para conseguirem chegar até ali. — Antes de voltarmos nossa atenção para o gelo novamente, gostaria de dizer que só de vocês conseguirem ter chegado até aqui, já são merecedoras de serem campeãs... e isso só foi possível porque cada uma de vocês deu o máximo que podia para ajudar o time. — Passou o olhar por todas ali, mesmo que ainda tivesse aquela sensação de poder se entregar mais, já tinha algo mais amistoso. — Chegamos aqui juntos, vamos vencer juntos, certo? — Um uníssono “certo” ressoou. — Somos um time, vamos mostrar nossa força no gelo e no banco torcendo e mandando força para as que vão entrar no rink agora.
Jeff olhou para a capitã que assentiu firmemente, entendendo a mensagem do que deveria fazer a seguir. Elise se aproximou mais do técnico, entrando no círculo que tinham feito durante o timeout para ouvir as ordens dele.
– Fight on, State! — A capitã bradou, levantando o punho erguido.
– Fight on, State! — As outras atletas gritaram, levando o ânimo de todos no time, assim como da torcida que ali estava.
Novamente o som do apito ressoou na arena, e todos foram para as suas posições, preparadas para agir assim que o face-off determinasse quem ficaria com o puck.
Como era de se esperar, a Universidade de Clarkson ganhou o face-off, optando por uma tática mais ofensiva, retirou sua goleira em seguida, ficando com seis atacantes e sua meta completamente indefesa.
Elise olhou para cima, para o telão da arena, encontrando os dígitos que a fazia ficar apreensiva.
11...
Ela queria estar no gelo, preferia ajudar o time na defesa do que simplesmente ficar no banco e esperar que tudo desse certo. No entanto seu técnico não concordava com isso, Sullivan colocou a terceira linha, a melhor defesa que tinham, para os últimos momentos. Aquilo era bem sensato, mas ainda assim Elise preferia estar no gelo ajudando as companheiras, ficar no banco torcendo não era algo que ela gostava de fazer — ainda mais sendo a capitã.
Uma contagem mental se deu início na mente de Elise, mal percebendo que tinha começado a contar baixo, levando as pessoas ao seu redor a imitá-la.
10... 9...
O clima estava tenso, enquanto o time da Pennsylvania se defendia, o adversário passava o puck de um lado para outro tentando achar uma brecha na defesa.
8... 7...
Enquanto que o ataque da Universidade de Clarkson, as Golden Knights, procurava mover o puck e desestabilizar a defesa, então conseguir chutar ao gol para, ao menos gerar um rebote, e uma chance clara de gol, as Nittany Lions — como era conhecido o time da Pennsylvania — se mantinha firme.
6... 5...
Stephanie Campbell, a defensora da Penn State, caiu numa finta da left-wing de Clarkson, abrindo então o espaço tão procurado pelas atacantes, fazendo com que todos no banco — e todos que estavam torcendo para as Lions — prendessem a respiração.
4... 3...
O primeiro chute foi bloqueado por Sarah Tremblay, no entanto o puck, sobrou para a center e melhor jogadora do time de Clarkson, tendo uma visão praticamente limpa do gol. Porém a estrela que brilhou mais forte nessa hora foi a da goleira da Penn State, Allison Williams.
2...
A australiana conseguiu afastar o puck com seu left-pad, jogando-o para a borda do rink, atrás de seu gol. Rapidamente as jogadoras foram em sua direção, batalhando pelo puck.
1...
O jogo já estava praticamente ganho, mas ainda assim tudo é perigoso com apenas 1 gol de vantagem no hockey. E sendo o esporte que é, um segundo é o tempo mais que necessário para se empatar e levar o jogo para a prorrogação.
0.
De repente o mundo parou, foi como se aquele momento fosse eternizado na mente de todos. Com o estouro do cronômetro, a felicidade junta do alívio tomou conta do time da Pennsylvania; enquanto que ao time de Clarkson restou apenas decepção. O local estava dividido... alegria, tristeza, vencedores, perdedores, glória, fracasso... era esse o momento que estava sendo gravado, essas sensações.
Com o som da buzina do goal horn, parece que o encanto finalmente foi quebrado e gritos eufóricos eram bradados pela parte vencedora. Já para a parte perdedora restavam lágrimas, choro, cabeças baixas, e algumas poucas se mantinham firmes, engolindo o orgulho e prometendo a si mesma uma revanche no futuro.
Todas as jogadoras que estavam no banco da Penn State correram em direção a sua goalie, pulando nela e a abraçando. A felicidade era tanta que não sabiam como comemorar. Por mais que tenha sido o segundo título da maior parte do time, as emoções tomavam conta delas e sequer pensavam em alguma coisa — o título passado foi importante, mas isso não diminuía a importância desse que acabaram de conquistar.
Com as emoções mais calmas, chegou a hora do aperto de mão tão tradicional do hockey. Não importa se seja seu maior rival e durante o jogo juras de ódio fossem clamadas em meio ao trash talking, o respeito entre atletas que o esporte clamava era maior que qualquer rivalidade. Palavras de incentivo e felicitação eram trocadas, assim como uma promessa de um jogo mais disputado da próxima vez.
Finalmente chegou a hora de receberem o troféu da Division I da NCAA. Eram as maiores campeãs do hockey feminino, mas ainda assim o gosto por mais e a felicidade de poder erguer o troféu sempre eram apreciados. “Não importa o passado, temos sempre que olhar para o futuro e aproveitar as novas oportunidades que surgem”, sempre dizia Jeff Sullivan, o técnico do time.
Fotos foram tiradas, risos e abraços trocados. Apenas o time da Pennsylvania estava no gelo, comemorando com sua torcida. O ritual de cortar a rede do gol foi feito e finalmente, pela primeira vez no dia, elas disseram para si mesma: Somos campeãs.
Elise patinava pelo gelo, acenando para a torcida enquanto mantinha o sorriso no rosto e uma parte da rede do gol na outra mão. De longe viu seu irmão, Levi, nas cadeiras, abrindo o sorriso ainda mais. Estava realmente feliz por ele estar ali; não era muito ligada à família (que também não era grande), apenas seus avós maternos poderiam ser considerados mesmo como família, além de Levi, mas eles estavam longe na Alemanha, além de sua idade já avançada, vir para Boston apenas para ver um jogo não era algo que podia pedir.
Levi retornou o sorriso, e isso foi mais que o bastante para saber que, ao seu modo, ele estava orgulhoso do seu feito.
Subitamente Elise sentiu um braço nos seus ombros a puxando para um abraço. Não precisou sequer virar para ver quem era, apenas cinco pessoas eram capazes disso, e dada pela diferença de altura, só podia ser um.
– Ele realmente veio, huh? — Jeff Sullivan disse num tom animado.
– Aham. — Elise respondeu, se virando para o técnico que a olhou com os olhos marejados. — Ele nunca perde uma final e... Sully, você tá bem?
– Claro que estou, Elsie... — Sullivan disse risonho, fazendo sua capitã revirar os olhos pelo apelido que lhe fora dado. — Só estou orgulhoso de vocês.
– Aham... — Elise acompanhou o riso do homem.
– Seu primeiro título como capitã do time, como se sente? — Perguntou, ficando de frente para a alemã, segurando em seus ombros.
– Tecnicamente é o segundo, já que fomos campeãs da CHA ano passado. — Respondeu num tom casual, arrancando um riso do técnico. — É muito bom. — Disse por fim.
Elise finalmente se sentia completa como capitã, tendo conquistado o título da NCAA. Em sua primeira temporada como capitã — e segunda como jogadora no time —, levou as Nittany Lions ao título de divisão (College Hockey America, a CHA), mas não conseguiram chegar às finais do Frozen Four, o que a deixou se questionando se era uma boa capitã ou não. A única coisa que a impediu de renunciar ao C que carregava em sua jersey foi uma conversa longa com o técnico do time.
– Vamos? — Sullivan a chamou, colocando uma mão em seu ombro direito, fazendo com que Elise saísse de dentro de seus pensamentos, o encarando com seus olhos azuis. — Temos muito o que comemorar... — Sorriu, mostrando o caminho dos vestiários com a mão livre. — Vamos?
xXx
Quando as costas de Elise colidiram com a cama, ela finalmente se sentiu livre. Depois de um longo semestre cheio de emoções e estresse, a alemã poderia descansar nas amadas férias de verão. Claro, adorava estar na Universidade, seja estudando ou jogando hockey, mas uma pausa era sempre bem vinda.
Suspirando, ela se levantou, andando até a mesa no outro cômodo e pegando seu celular, voltando para a cama em seguida. Desbloqueou a tela e leu as notificações, na maior parte eram mensagens em grupos, mas uma chamou sua atenção mais que as outras.
“Já tenho tudo preparado aqui em Berlin para a sua chegada.
Você vem com a sua amiga, não é mesmo?
Me avise quando estiver pegando o avião.”
— Levi
Elise não pôde fazer nada além de sorrir. O zelo e a preocupação de seu irmão com ela a deixava realmente feliz. Não por ele se preocupar em si, mas sim pelo fato dele o fazer sem ter nenhuma outra intenção por trás, apenas por gostar dela.
“Sim, vou com a Allison... a australiana.
O voo está marcado para às 17h, então chegarei no começo da tarde.
Qualquer coisa aviso.”
— Elise
Provavelmente, pela diferença de fuso, o irmão só veria no dia seguinte, então colocou o celular na mesa de cabeceira e fechou os olhos... talvez conseguisse descansar alguns minutos antes das amigas chegarem para ter a despedida.
Sorriu consigo mesma imaginando Berlin e em todos lugares que levaria Allison, tentaria a todo custo fazê-la se apaixonar pela capital alemã — já que, depois da universidade ela se mudaria para lá, e caso a amiga quisesse visita-la, teria que se locomover até Berlin.
Sua vida começaria em Berlin. Apesar de suas tentativas de ir contra as ordens impostas a ela, Elise nunca conseguiu de fato algo que lhe desse um gosto de vitória; mesmo quando conseguia uma pequena vitória, era apenas um meio-termo da situação. Foi assim que acabou vindo estudar na Pennsylvania State University. Sua mãe lhe ordenara estudar nos Estados Unidos para ficar próxima dela e atender a todas suas necessidades, assim como se mostrar para a sociedade como uma herdeira Ackerman... mas de tanto discutir, conseguiu com que fosse para State College. Não era Nova York como sua mãe queria, porém ainda assim estava nos Estados Unidos.
Relembrando de tudo o que tinha passado apenas por ter nascido onde nasceu, Elise acabou se frustrando e se sentando na cama com certa raiva. Se anteriormente só queria descansar, agora o que mais desejava era que o último ano passasse.
Antes que conseguisse se irritar mais, a alemã teve sua atenção chamada pelo barulho da porta do apartamento do dormitório abrindo. Se levantou e andou até o local, dando de cara com suas amigas, abrindo um sorriso. Era exatamente daquilo que ela precisava.
– Está pronta? — Allison, sua melhor amiga e goleira do time de hockey, perguntou.
– Só um pouco, vou trocar de roupa. — Respondeu com um sorriso, logo voltando para seu quarto.
Não precisou nem sequer procurar por algo arrumado para vestir, só mudou de jeans e colocou uma blusa branca, pegando uma camisa quadriculada de manga longa, assim como pondo nos pés um tênis preto. Se olhou no espelho e suspirou ao ver os cachos loiros-escuro desgrenhados; passou a mão neles e se contentou com o resultado. Eram apenas amigas próximas que iam numa lanchonete ali perto, não tinha pra quê nada além disso.
No fundo Elise sorriu. Apesar das imposições, ela estava livre da maior parte do peso de ser uma Ackerman, principalmente a que ela mais odiava: como se vestir e se portar apropriadamente. Não que fosse algo realmente ruim, mas ela considerava fingir como algo extremamente errado, afinal não era de sua natureza se passar por outra pessoa, ela era quem era e os outros deviam apenas aceitar isso.
Balançando a cabeça, ela tentou afugentar esses pensamentos. Finalmente saindo do quarto e se reencontrando com Allison, Rachel, Nina e Jules.
– Vamos? — As chamou com um sorriso nos lábios.
Rapidamente chegaram à lanchonete costumeira. Fizeram seus pedidos e começaram a discutir sobre as férias de verão. Cada uma ali tinha um destino diferente... Rachel iria visitar a família em Toronto; Jules também iria para o Canadá, mas seu destino era Haliburton; Nina, a única do grupo que iria permanecer em solo americano, iria para Denver. Apenas Allison e Elise iriam ficar juntas em Berlin.
– Vocês sempre passam as férias de verão juntas. — Comentou, Juliette.
– Não é sempre, vai ser a primeira vez que ela vai comigo pra Berlin, no ano passado eu fui pra Melbourne, mas foi só isso. — Elise respondeu, nem sequer levantando os olhos de suas mãos.
– Dá no mesmo. — Jules retrucou, apenas para ver sua capitã revirar os olhos e a canadense sorrir.
– Enfim... — Rachel começou; pensando em como mudar o assunto. Era a única que não estava no time de hockey da universidade, o que a dava a liberdade de não ter esse senso de disputa constante que via em todas ali presente, ainda que em Allison em menor quantidade. — Como está o coração de vocês? — Disse a primeira coisa que veio à cabeça.
– Se você está falando no sentido figurado da coisa, se referindo a estar apaixonada ou coisa do tipo, então não posso te dar uma resposta satisfatória. — Elise suspirou. — Não estou interessada em relacionamentos no momento.
– Não estou interessada em relacionamentos no momento. — Juliette repetiu a alemã num tom brincalhão, o que a fez receber um olhar mortal da capitã, fazendo com que todas rissem.
– Eu estou–
– Ela está cada dia mais apaixonada pelo Andrej! — Agora Elise já estava com um sorriso no rosto. Brincar com sua melhor amiga, a fazendo ficar constrangida com coisas bestas, era a melhor opção para fazer seu humor melhorar.
– Ellie! — Allison exclamou de uma forma manhosa, fazendo um biquinho.
– Tá vendo? — Falou num tom convencido. — Estou totalmente certa.
– Já eu estou muito bem com o Tyson. — Juliette se meteu, mudando o foco para si.
– Todas nós sabemos disso. — Elise disse num tom seco. — Podemos ver, inclusive.
– Nossa, El. — Jules suspirou. — Você realmente precisa de um pouco de–
– O que eu preciso é de liberdade, não de um macho. — Cortou a amiga, fazendo Nina cuspir o refrigerante que bebia ao ouvir suas palavras.
– É por isso que você é nossa capitã! — Allison disse, rindo.
– Cold as always, queen Elsa. — Nina soltou, fazendo com que as garotas rissem ainda mais.
– Tá, tá... — Elisa abanou a mão. Realmente detestava o fato de ser comparada com a personagem de Frozen; ainda mais por algo tão banal quanto a pouca semelhança entre os nomes. — E você, Rachel?
– Meu foco está todo na bolsa de estudos que vou ganhar, homens vem depois. — A mais nova disse com orgulho.
– É por isso que é minha amiga! — Elise exclamou, passando o braço esquerdo pelos ombros de Rachel e a abraçando lateralmente.
– ELISE! — Rachel gritou com o movimento súbito da amiga, atraindo a atenção de todos para si.
Porém as pessoas que estavam sentadas à mesa apenas riram. Elise logo soltou Rachel e voltaram a conversar.
– Nina... — Jules começou.
– Vocês sabem que eu sou comprometida. — A americana disse prontamente.
– Sim, e como ele está? — Juliette incitou. — O relacionamento, digo.
– Está ótimo. James e eu estamos muito bem.
Todas na mesa se entreolharam e se voltaram para a amiga.
– É sério! — Soltou um riso. — Ele estava comentando sobre se casar, mas... vocês sabem... é cedo ainda!
Gritos foram ecoados pela mesa, novamente atraindo a atenção das pessoas, e mais uma vez nenhuma delas realmente se importou com o ocorrido. Essa reunião era quase que religiosa para aquele grupo, já era quase uma rotina para elas, irem ao menos uma vez por mês na lanchonete conversar e comer — se não fossem ali, iriam para o apartamento de uma delas.
– Nunca diga nunca! — Juliette riu.
– Nunca se sabe o dia de amanhã, né?! — Elise ergueu as sobrancelhas, e todas riram mais ainda.
A conversa continuou nos mais diversos assuntos, e só pararam quando perceberam que já tinha passado das 23h. Dividiram a conta e voltaram para seus dormitórios, afinal todas iriam viajar amanhã, e, mesmo que o tempo de viagem seja diferente, não significa que não teriam novas aventuras.
xXx
“Wir sind hier.”
— Elise
