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Florescer Espiritual

Summary:

Em um templo sem nome e sem localização aparente no mapa, Chanyeol, um homem desestruturado e confuso, surge como uma fênix. Sem memórias claras de onde veio e para onde ia, sabia apenas que a última coisa que fizera antes de apagar por completo, tinha sido lutar. Dentre às chamas que eram suas incertezas, Chanyeol teve de recomeçar sua jornada e entender seu papel ali, mesmo que para isso tivesse de seguir as ordens do guardião arrogante daquele local, a Kitsune com nome de Sehun.

[CHANHUN | MITOLOGIA JAPONESA | LIGHT ANGST]

Notes:

helwa — De novo escrevendo pro exozone e é uma honra como todas as outras vezes, só tenho a agradecer pelo carinho da equipe e pela primeira vez estou compartilhando de uma collab aqui no meu perfil! Foi incrível escrever com a randandanie, todas as ideias, o enredo que foi pensado por ela (ô mulher criativa!), os debates e tudo... Foi demais. Também, foi minha primeira vez mexendo com uma mitologia desse tipo e espero ter sido respeitosa e passado a fantasia que ela significa pra mim. Espero que curtam a história e que se apeguem a cada momento com nossos lindos personagens. Até a próxima aventura!

Randandadanie — Debut no exozone (puts puts, saveiro pega no breu *intensify*), foi uma delicia participar, eu adorei o tema e poder ter a oportunidade de escrever esse plot que eu amo tanto pra esse projeto foi muito bom, obrigada pela oportunidade e espero que tenha fica a altura do que foi planejado.
É também o primeiro collab que eu fiz, e foi a melhor primeira experiência que eu poderia ter, tudo bem conversado, nossas escritas e ideias sempre em sintonia, serio surreal de como fluiu, muito obrigada helwa pela confiança de aceitar o collab comigo. Escrever mitologia e fantasia é um desafio, mas sempre é gratificante, espero que gostem tanto quanto eu gostei de escrever!

Work Text:


Os guerreiros mais antigos falavam sobre glória, coragem e patriotismo ao chegar no final de uma longa e dura batalha. No entanto, o que pingava no rosto do rapaz era sangue grosso em pequenas gotas macias, molhando os olhos, que permaneciam fechados, e escorrendo por entre o tilintar das lâminas frias. Ele não possuía consciência se o lamurio dos homens se assemelhava mais a um cântico dos anjos ou um chamado do inferno.

Não conseguiu levantar os braços acima das costas para ver o que tanto lhe incomodava, apesar de também não fazer ideia de qual dor lhe apetecia mais nos segundos que se decorreram. O primeiro pensamento a vir na cabeça dele foi seu nome, bateu na porta da garganta e o fez falar sozinho, sentindo as gotas de sangue ao lado direito da face e as orelhas se inundando com o som dos gritos. Pareciam ser muitos, como se ele estivesse preso do lado de fora de uma prisão que queimava seus condenados com óleo fervente.

— Chanyeol. Meu nome é Park Chanyeol — foi o que saiu de seus lábios antes mesmo que ele pudesse reunir forças e abrir os olhos. Um homem que renasceu através da fala e não da visão. Tudo permanecia escuro pois ele não sabia o que fazer ao certo. O nome que deixara a garganta há alguns segundos o desnorteou, e ele enfim ergueu o corpo, soltando um murmúrio de desespero.

Vários outros murmúrios o acompanharam, e quando os olhos ganharam uma coloração clara pelos raios solares, os fechando brevemente, por conta da iluminação absurda após um longo período sem abri-los, inspirou, perdido. A única coisa que permeou a memória foi a sensação das gotas e do cheiro ferroso de sangue, procurou pela extensão dos braços e de fato estava respingado pelo líquido. O estômago chegou a fazer um ruído estranho e não lhe restou dúvidas de que tudo o que estava acontecendo não deveria passar de um pesadelo. As figuras estendidas uma atrás das outras pareciam como completas assombrações, criaturas que ele não sabia nomear, mas que somente aquilo foi suficiente para surgir um estranhamento que perturbou sua cabeça. 

Como se um véu tivesse passado na frente de sua visão, uma cortina preta e densa, Chanyeol apagou outra vez. Não caiu acima do solo, muito menos adormeceu, mas ultrapassou os sentidos etéreos e quando respirou e conseguiu ouvir o som da própria respiração, latente e cansada, sabia que estava acordado de novo. Não fazia ideia de qual realidade era aquela, mas não parecia muito com a anterior, com exceção das vozes distantes que se assemelhavam muito aos gritos que ecoaram nos ouvidos. Ali, estava coberto dos pés aos fios de cabelo pelas densas folhas verdes escuras de árvores imensas. Caso alguém o questionasse, não saberia dizer quais horas poderiam ser ou até mesmo qual a região do planeta em que Chanyeol pisava, mas ele tinha plena consciência de que estava no próprio corpo e que tinha dito há alguns segundos, horas ou minutos, o próprio nome.

Precisava caminhar para chegar até qualquer que fosse o destino, mesmo desconhecido. Os pés pinicavam fora de um par de sapatos e ele notou alguns machucados no dedão esquerdo. Mordeu o interior da bochecha, indagando se era tão real quanto as sensações externas e continuou a caminhar no breu sem fim, a lua prateada, maior do que se lembrava da última vez, invadia os espaços entre a densa folhagem das árvores banhando seu rosto e iluminando um único caminho reto floresta a dentro. Na língua havia gosto de derrota e, conforme seus passos aumentavam, o desejo de chegar a alguma alma viva sucumbiu ao seu interior. Aos poucos, Chanyeol começou a ter consciência do que queria e do que fazia antes de acordar ali, após um distante pesadelo. Queria voltar para a guerra que deixou para trás, queria se vingar de todo o sangue derramado de pessoas inocentes nas próprias mãos, queria justiça.

Sentindo que não encontraria ninguém nos próximos minutos de caminhada, apressou a si mesmo, murmurando baixo e grosseiro, quase ao ponto de gritar:

— Malditos. Malditos sejam todos aqueles… infernais. Se encontrasse cada um dessa maldita guerra, mataria sem pestanejar. Mataria com meus próprios dentes… Eu acabaria com eles! — Mordeu as costas da mão, fechando os olhos. Raspou os lábios pela extensão, melando a pele com saliva. O rosto ganhou uma coloração vermelha assim como o pescoço e ele percebeu que precisava de algo para molhar a garganta. Devia buscar primeiramente por um lago ou alguma fonte que aparentasse estar limpa. Não, ele não se importava se estivesse suja, toda a ardência que penetrava os poros o fez perder a noção. — Que inferno, será que não tem ninguém por aqui? — A voz saiu como um trovão, irritada e carregada.

Após as passadas o irritarem, enxergou uma ínfima — porém poderosa — chama de esperança, o que outrora poderiam ser reconhecidos como ruídos incessantes e barulhentos, ganhara a uniformidade de uma voz baixa e chorosa. O tom era agudo como uma rã que coaxava e Chanyeol, curioso e instigado, não perdeu tempo. Quase tropeçou sem propósito em uma rocha ao lado dos arbustos, e encontrou a dona da voz que não estava sentada muito menos em pé. Seu corpo parecia flutuar no ar com a liberdade de uma pena. O rosto, ao virar e encarar Chanyeol, pediu por ajuda. Pobrezinha, se soubesse que o homem necessitava daquilo tanto quanto ela não teria começado a se lamentar, mas ele nada fez para impedir, pelo contrário, rumou com os braços fortes até ela em uma tentativa de enlaçar o corpo e verificar se possuía algum ferimento.

— Ei, ei, calma… — Ele respirou fundo e acalentador, tentou puxar o queixo da figura para que olhasse para si. A figura não parava de derramar lágrimas pesadas acima das folhas caídas no chão da floresta, os pingos causando um ruído peculiar. Se Chanyeol achava tudo ruidoso anteriormente, tinha mudado sua percepção ao dar atenção para aquilo que ele achava ser um delírio choroso. — O que… o que aconteceu? Pode me contar — ele disse buscando naquele ser um vestígio de algo que o pudesse ajudar, percebeu estar sendo egoísta quando foi ignorado pelo choro insistente, tentou então uma abordagem diferente — Eu juro que vou tentar fazer o máximo para te ajudar. Mesmo que eu esteja todo… acabado. Não sei o que aconteceu direito por aqui, aquela… aquela maldita guerra-

— Eu perdi tudo. Perdi tudo, entende? — O bolo de palavras que tinha saído da boca do ser transformou-se em palavras coerentes e, ao invés de um choro doloroso de se ouvir, as sentenças tiveram ganhado um significado ainda mais difícil do que os ruídos. — Minha família foi morta e eu os vi bem aqui, nos meus braços. O meu pai gritava por mim e dizia que não tínhamos culpa disso… não tínhamos culpa de todo o sangue jorrado nem das vidas tiradas, mas que precisávamos pagar por aqueles que não conseguiram fazer seu papel de herói conosco.

Uma pontada certeira atingiu o fundo do peito de Chanyeol e o homem sentiu a dor de um guerreiro quando escutou aquilo. Ele segurava ainda as mãos dela como uma forma de acalentá-la, mas o que tomou conta de sua atenção era algo muito maior do que ele previra. De repente, um sentimento não nomeado tomou parte de si e ele não conseguiu ignorar tamanha excitação por voltar àquela guerra da qual a mulher tanto falava. Porque mesmo que Chanyeol estivesse a escutando, pensava no próprio corpo lutando. Abandonou as palmas alheias para levar os dígitos até a nuca, onde os cabelos raspados, no tom escuro como a noite, estavam repicados de mal jeito, com um corte lateral que não ardeu quando ele o tocou com o indicador, mas ativou no automático tudo o que passara. O som quebradiço das lâminas cortando no vento, aquela que o feriu de forma grave em um raspão desaparecendo na pele. Questões sem resposta, vítimas inocentes e homens como ele que não conseguiram salvar aqueles que precisavam.

— Por que eu não consegui? Por que a guerra pareceu não ter um fim? — Chanyeol fez a pergunta solta e retórica, os olhos azulados inconsoláveis o fitaram.

— Ela não acabou. A guerra não acabou.

— Então como estamos aqui? O que houve depois de tudo? — A boca secou como uma fonte no meio de um deserto e então Chanyeol teve que apoiar o peso do corpo nas pernas quase bambas, fraquejadas pela veracidade que apresentara na fala da criatura.

— Eu não… eu não sei. A verdade é que não me lembro — gaguejou, buscando, de alguma forma, prender a atenção em uma coisa que não fosse os olhos azuis e obscuros dela. Começaram a parecer com dois globos ocos de carne no fundo. Ela limpou o nariz que escorria, para prosseguir: — Só o que vaga em minha mente são as imagens… Tudo… tudo destruído. Aqueles que lutaram por nós não conseguiram salvar nem metade… metade do nosso povo. Acredita nisso? — Ela procurou na face de Chanyeol por uma resposta concreta, mas apenas o que ele conseguira fora deixar um suspiro pelos lábios abandonados. — Uma guerra sem um fim. Mas foi o fim, para mim. Eu perdi todos que amava. Você perdeu também?

Permaneceu calado, sem algo melhor para dizer do que “não sei.” E aquele silêncio atípico para uma floresta, mas preenchida ruidosamente pelos lamentos da alucinação e os sons tão característicos e traumáticos da guerra que se arrastavam por cada direção daquele lugar, confundindo a audição treinada do guerreiro que não conseguia nem mesmo encontrar um caminho físico ou um coeso dentro da própria mente atormentada.

Ele parou lá, como em transe, ainda sem contagem de tempo e sentido de pertencer, ele continuou em silêncio atordoado buscando uma estratégia, como na guerra, era tudo que ele sabia se relacionar. Com a guerra, o que fez antes de ser guerreiro? Não sabia, foi somente feliz cumprindo seu propósito, mantendo sua honra.... Que honra? Ele levou a mão aonde deveria estar sua bainha e nela sua espada, mas encontrou um vazio, igual ao do seu peito referente a sua única serventia. E qual seria? Se os acontecimentos vinham apagando a brasa que queimava em seu interior pela guerra que dedicou a vida, naquele lugar ela parecia não fazer sentido. Precisava voltar, mas por onde, não tinha um caminho a vista, ou nada a vista que não fosse a entidade e seu brilho espectral, e isso era o que menos o assustava, aquilo o espantava menos do que morrer sem um propósito.

Acompanhado dela, que nem precisou de um convite para fazê-lo, buscou entre o breu qualquer coisa que não fosse um tronco escuro e retorcido, as folhas verdes e mucosas que insistiam em cair sobre si, como se precisassem o enterrar. Caçou qualquer coisa que os olhos pudessem alcançar com a iluminação fraca que a criatura vinha a emitir. E achou em algum momento um acampamento velho e montado precariamente por quem sabe quem naquele lugar de ninguém. Com a brasa da fogueira quase a se extinguir, voltar a trazer vida à fogueira fora seu propósito momentâneo, enquanto o balbuciar daquele delírio em forma humana, que era constante, a ser assimilado quando se aproximara como se precisasse de alguém para escutar.

— Tem algo, ao menos algo, que essa guerra possa ter trazido de bom? Vivíamos em paz antes de... — O olhar que buscava respostas brilhou por um momento atormentado, como se relembrasse uma situação tão específica que parecia revivê-la, e voltou a emitir aqueles sons que nem pareciam mais um choro, e sim gritos reprimidos.

— Eu não poderia dizer, eu não consigo me lembrar de outra coisa que não fosse um inimigo e um campo de batalha — o guerreiro respondeu, enquanto assoprava o tronco em brasa, que entre as fendas vividas e quentes segurava seu último impulso para não se apagar, e que se incendiou uma vez mais para queimar o que lhe fosse alimentado.

— Foi uma guerra que começou por motivos fúteis, mercadoria, exploração, poder… Tudo isso contra quem vivia em harmonia com o restante das províncias, essas que queriam permanecer pacificar foram massacradas — a criatura explicou com o remorso quase palpável sendo engolido junto do bolo que se formava na garganta do soldado, ele sabia daquilo, talvez não daquela perspectiva, mas contava como se não tivesse percebido que ele aparentava ser um guerreiro. — De que lado você estava?

— Eu... — Ele parou antes de poder responder pois nem ele mesmo conseguia se lembrar da resposta. Ele estava do lado que vencia, que venceu por muito tempo, era só isso que importava, a única recompensa que recebia era a vitória. — Do lado certo — respondeu ambíguo.

— O lado certo morria, devíamos todos morrer para os caprichos daquele exército, daquele povo. O capricho dos homens foi o que nos matou — ela disse quase como se tivesse feito descoberta, daquelas que dava paz em esclarecer algo, e aquele sentimento de quietude veio junto com a exaustão da longa caminhada e monólogo. Seus olhos se fecharam e Chanyeol suspirou, igualmente sem forças para que pudesse fazê-la falar algo que não soasse um delírio.

Os caprichos da humanidade. Era por aquilo que Chanyeol lutou? Ele não saberia dizer, mas a vastidão do que apunhalou seu peito o demonstrava que ele ainda havia de terminar aquilo que os outros não conseguiram. Que ele próprio não conseguira provar seu valor para almas perdidas, como aquela ao seu lado, não sofrerem, não chorarem rios de lágrimas pesadas, para não se lamentarem por algo que não tinham culpa. Chanyeol tinha e daquilo ele sabia. Poderia mudar o mundo se tudo não tivesse acabado, se ele não fosse apunhalado — porque na mente do guerreiro, existia uma lembrança vaga de imensa dor — por mãos inimigas.

A alma se deitou próxima à fogueira. A brasa ardia e as pequenas faíscas voavam no breu. Sem uma vida pela qual se recordar, sem nomes de pessoas próximas para que pudesse prometer voltar, Chanyeol adormeceu por algumas horas. O fogo não se apagava e a onda de ventania que passava por ali apenas serviu para agravá-lo. Os ruídos que vinham de dentro da floresta fizeram o guerreiro se levantar, batendo as palmas das mãos na face para ter certeza de que estava ali, de que existia.

Resmungando pelo vento frio que não o deixava aproveitar a quentura da fogueira, sentou-se. As coxas grossas dele estavam cobertas por uma bermuda chamuscada e, de repente, prendeu a respiração. A sensação do fogo na pele, das minúsculas faíscas que caíram em seus pés o fizeram se lembrar de uma boa parte de quem ele era e de todo o horror que acontecia. A cicatriz do corte na lateral da cabeça, próxima aos fios, o fez ter certeza daquilo, Chanyeol fora abatido na cabeça e nas costas. Um golpe covarde de alguém ainda mais covarde que ele. Entrara em transe desde então, sem chances de acordar durante um bom tempo e com a garganta seca pedindo por água.

“Um guerreiro abatido. É isso que eu sou? Sou resumido a uma… a uma derrota?”, ele sussurrou sozinho, rindo amargo. 

A presença da espectral recolhida entre as próprias pernas tinha o abandonado, sumido junto do vento, levada como uma miragem igual ele imaginou que fosse, e agora ele estava apenas com os pensamentos lhe servindo de conversa fiada. Um monólogo que não o levaria a lugar nenhum. A raiva que crescia como uma semente no interior de Chanyeol começara a aparecer na superfície. De uma maneira literal e crua, a pele de Chanyeol começou a queimar, a chamuscar assim como o tecido da veste que cobria suas pernas. Ao invés de vestir uma pele humana, no lugar começaram a crescer penas douradas e vermelhas como o sangue que pingava na batalha. Ele fechou os olhos com tanta força que os sentiu arder, e pouco a pouco, a semente dava lugar à uma planta feroz.

Chanyeol explodiu até o meio da fogueira, renascendo em um movimento súbito, as penas esvoaçando no ar. A alma quase morta ergueu o corpo que flutuava, surpreso com a vivacidade dos próprios movimentos. Porque era aquele corpo que ele começou a habitar: o de uma fênix poderosa. As tatuagens pretas e profundas que na forma humana o compunham, como um Yokai se manifestaram em manchas escuras no meio da penugem, e as garras gloriosas de ave estavam cravadas no solo, a terra levemente úmida o fazendo se sentir vivo.

Cheio de um desejo insaciável e a raiva que o consumia, Chanyeol içou voo, flamejante e sedento pela vitória, pelo senso de justiça. Se existia um lugar no meio de todo aquele breu que podia fazê-lo ser um herói outra vez, era o que ele faria. Acima das árvores escuras e densas, notou um vislumbre de luz do que poderia ser uma segunda chance. E como uma fênix, renasceu.

Não sabia como tinha feito aquilo, podia notar vagamente as penas douradas entrarem no campo periférico de sua visão enquanto procurava um limite da vastidão da floresta. Não era igual a nada que já havia visto. Já tinha decorado e mapeado cada território, e explorado cada zona de guerra, mas até o último galho da copa da floresta parecia indescritivelmente diferente de tudo que havia pousado os olhos, era como se cada caule e lâmina das folhas estivesse o querendo puxar de volta para baixo, sussurrando seus juramentos que um dia fez, seus cânticos de guerra, os sons da vitória, todo tipo de coisa que o faria voltar. Mas ele sabia que, uma vez lá dentro, se sufocaria com outros barulhos dos que faziam suas juras de guerreiro parecer ciranda de crianças, suas canções um presságio de terror e os sons de vitória viraram gritos que ele podia escutar só da memória ecoar na sua cabeça.

E em busca de um novo ponto que não fosse a vastidão de folhas escuras, ele avistou uma grande estrutura despontando pelo topo do mastro no alto do telhado em um verde esmeralda, que reluzia tão forte quanto o restante da construção, como se cada mastro, viga e parede tivesse sido lustrado com a atenção divina. Era tanto brilho naquele ponto que chegava a incomodar os olhos da fênix, mas ainda assim era algo diferente da vegetação cansativa. Naquele momento, acelerou e mergulhou em direção do que deduziu ser algum tipo de templo, só algo assim deveria carregar tamanho brilho etéreo, e talvez um esclarecimento para sua situação peculiar.

De guarda baixa, como se tivesse perdido seu posto de guerreiro, não esperava retaliação de um local que parecia dos deuses, mas foi recebido por uma flecha dourada, da qual só viu o brilho da ponta e a sentiu fincar naquele corpo nada costumeiro para si. Mas a dor de um ferimento era corriqueira para um soldado, se deixasse de lutar contra a agonia naquele momento poderia cair ainda dentro da floresta da qual escapou, não podia deixar-se perder logo na fronteira. Então, se esforçou como um projétil passando a parede invisível que o separava de sobrevoar o templo e se lançou ao chão como a flecha disparada em direção ao seu peito.

E foi certeiro, em direção chão terroso e duro, mas onde preferia cair do que voltar à floresta tortuosa. Se sentiu incendiar novamente, sentindo pura brasa correndo nas suas veias uma última vez antes de se extinguir e fumegar pelos seus poros, aquela fumaça e a sensação de estar apagando o acometeu uma vez mais, e antes que pudesse se entregar ao fim do seu queimar viu vagamente um par de olhos escuros e adornados por marcas vermelhas como sangue, um rosto que vagamente o lembrava uma raposa, e só pôde pensar em uma coisa antes de perder a consciência: era sua presa.

Sonhou vagamente com isso, fantasiou com uma floresta parecida com a que acordou. No começo, imaginou não ser sonho e que sim estava de volta ao seu inferno, mas a falta dos gritos acusatórios os diferenciavam. A raposa o encarava insistente — não uma comum, uma Kitsune, de pelagem alva com suas nove caudas que resplandeciam brilhantes em movimentos mínimos —, o assistindo como se estivesse esperando sua presa se movimentar. Mas diferente do que o olhar predatório parecia mostrar, a criatura se virou caminhando elegante, criando um caminho invisível que Chanyeol sabia ter que seguir. Assim o fez durante o que pareceu horas de caminhada. A raposa espiava pelas brechas entre as caudas todas as vezes que parecia perder o passo da trilha, com aqueles olhos tão familiares. Até que em um momento algo com um brilho conhecido fez todo o restante do ambiente parecer sumir. Era a mesma criatura que apareceu para si mais cedo, dentro da floresta escura, com a mesma claridade azulada, mas sua feição era diferente da tristonha, parecia distorcida em dor. E foi aí que percebeu que uma de suas antigas espadas atravessando o corpo sobrenatural, reconheceria aquela lâmina em qualquer lugar, e era ela a fonte de desconforto do ser. Ele tomou alguns passos até ela e com os passos ecoando como em um cômodo vazio foi notado por ela uma única vez.

“Você podia nos ter salvo...”, ela disse cambaleando de encontro ao guerreiro, que prontamente correu para a segurar, e buscando entendimento a encarou, mas só encontrou fúria e indignação naqueles olhos que um dia só pareciam precisar de compreensão. Estava em busca de vingança. Ele sentiu a agonia da sua outra espada o atravessando, que era empunhada por aquela alma cheia de rancor. “Mas você é parte do problema.”

Ele tentou alcançar a empunhadura da sua espada, mas ouviu a alma negar, afundando mais a lâmina em seu peito.

“Só se entregue a vergonha.” E aquelas foram as últimas palavras que ele escutou.

Despertou em um pulo, se sentando e se arrependendo do movimento brusco assim que sentiu a pontada no peito. Estava parcialmente nu, sem contar o cobertor fino e o curativo envolvendo o peito como cobertura. As ataduras muito apertadas pareciam sufocar o fôlego que custou para recuperar depois daquele sonho, sufocavam até os caules e pétalas das flores de tinta entalhadas na sua pele que despontavam por debaixo das bandagens e tecidos.

— Que bom que acordou. — Uma serena voz veio do outro lado da sala, tirando Chanyeol da contemplação da própria situação, mas ainda em êxtase quando encontrou o mesmo par de olhos adornados de linhas vermelhas que viu quando caiu, e as mesmas caudas e orelhas de pelos reluzentes do sonho, os cabelos longos eram da mesma coloração, era definitivamente o mesmo, mas com um corpo humano e de alguma forma também raposa. A criatura continuou a dizer enquanto desfrutava do seu silêncio perplexo: — Como se sente?

— Foi você que atirou em mim! — constatou exaltado quando ligou o quebra-cabeça, e tentou se levantar, outra vez um pulo, mas a dor o trouxe de volta a repousar. “Ainda sou uma presa ferida na toca da fera”, pensou enquanto se sentia incapaz de demonstrar outra coisa senão uma carranca desgostosa.

— E você invadiu o meu território, ou o pássaro fez — respondeu em calmaria, derramando o chá em duas das xícaras dispostas na mesa em que se encontrava, as caudas pareciam ter parado totalmente enquanto a bebida tocava a cerâmica como se prestasse total atenção somente naquela tarefa, e só assim que terminou, deixando líquido fumegante descansar, continuou a falar: — Me diga, o pássaro era você? É você?

— Acho que o meu peito perfurado já foi uma prova. — Chanyeol, ainda estava desconfiado e ríspido apesar de todas as aberturas que o Kitsune parecia deixar para que ele se explicasse. — Quem é você?

— Eu não terminei de tirar minhas dúvidas sobre você, então só saberá se eu achar que deve — respondeu antes de levar a xícara aos lábios, ainda o encarando por de cima da cerâmica e do vapor.

— Você tentou me matar! Quem devia estar fazendo as perguntas sou eu. — O guerreiro se pôs de pé em um impulso, dessa vez nem a dor o parando de se impor, expondo a sua nudez por alguns segundos, e sentido o olhar da Kitsune pesar mais enquanto tentava se enrolar nos lençóis mais uma vez.

— Não se pode morrer duas vezes, pode? — respondeu ainda com aquele tom de superioridade, como se soubesse cada pecado que já tivesse cometido e os desembrulhava na sua frente, pouco a pouco.

— Duas vezes... — Então era verdade, aquela ideia vagamente passou pela sua cabeça, é a primeira coisa que vem a sua cabeça quando se acorda tão ferrado quando acordou pela primeira vez, mas não podia estar morto, sentia o vento em sua pele, o ferimento no peito, o remorso na alma.

Ele parou por alguns segundos contemplando a própria desgraça e assimilando essa nova informação, que era terrivelmente difícil de acreditar, como poderia ele estar morto?

— Sente-se, eu não terminei de entender você. — Vendo a confusão no rosto do rapaz ele convidou mais como um mandato para que fizesse e, quando ele ainda apresentou resistência, tentou criar alguma confiança: — Sou Oh Sehun, o mestre desse lugar. Agora sente-se, preciso entender o seu propósito.

Propósito? Era aquilo que também estava procurando para si, e somente por isso se rendeu a se sentar junto de Sehun. Tentando manter uma postura imponente e amedrontadora, que costumava fazer efeito em outros soldados, diplomatas e vítimas, mas que não fez efeito nenhum já que o olhar para cima de si continuava o mesmo, de curiosidade e nada mais.

— Então, como chegou aqui? — continuou incisivo quando o invasor pareceu afetado pela plenitude que seu captor levava aquele interrogatório, sem mostrar um sinal de se impressionar com a tentativa de demonstração de força do seu alvo.

— Ah, isso, você atirou em mim, se lembra? — Desacreditado, o guerreiro riu soprado antes de ironizar a sua resposta, que para ele era óbvia.

— Acho que você já notou que não está no seu mundo, ou no plano dos vivos — explicou pacientemente, a ignorância daquela alma não o afetaria, não costumava cuidar das mais hostis, mas quando uma delas cai bem no seu colo, não podia recusar ajuda a uma alma perdida.

— Eu acordei na floresta — dado por vencido, respondeu sinceramente, mas sem abertura para explicações mais profundas, não estava totalmente são para dar detalhes das atrocidades que permeavam a sua cabeça.

— E como saiu de lá?

— Pela porta da frente. — Mas não conseguia se manter aberto à sinceridade quando era questionado de forma que achava tão desleixada, como se ele não estivesse realmente prestando atenção, e sim só amaciando a carne para lhe dar o bote. O seu captor permaneceu no silêncio, como se o deixasse sozinho, perturbado pelos próprios pensamentos, e para sua própria sanidade respondeu francamente: — Não é fácil explicar, mas foi como um Hou-ou1, algo quando eu acordei, um queimar dentro de mim, buscando pelo exterior, e só aconteceu.

— Você não pode ser rei, mas definitivamente era uma fênix, e depois? — continuou, ainda não parecendo nem um pouco impressionado ou compadecido com o que ele vinha contando. Talvez fosse corriqueiro para ele, era uma Kitsune afinal, que coisas aqueles olhos tão antigos já não deveriam ter visto?

— E depois você atirou em mim e eu caí, já não repassamos isso?

— Claro, você foi considerado hostil por ter vindo sem ser solicitado e não é sempre que vemos uma fênix cruzar o meu céu — explicou o motivo do machucado no peito do guerreiro, como se fosse nada, uma mera forma de “se proteger”.

— Seu céu? — Mas não foi o descaso de ter sido alvejado por uma flecha e ver o responsável não ligar para uma explicação plausível. Como alguém poderia ser dono de todo o céu?

— Sim, todo esse lugar é meu, do fim do rio Sanzu2 a última folha da sua floresta, que claro, também é minha, não sua — Sehun explicou, mostrando uma expressão brilhante enquanto as caudas pareciam se eriçar orgulhoso das suas terras, do seu reino.

— Se é tudo tão seu, por que não sabe dizer o porquê de eu estar aqui? — Chanyeol questionou toda essa onipotência que ele dizia ter sobre o lugar.

— É claro que eu sei! — E pela primeira vez Sehun pareceu incomodado com ser questionado sobre a sua soberania, mas no fundo ele não tinha desvendado o porquê de o guerreiro ter habilidades tão peculiares de tudo que já havia chego ali depois de si.

— Então me diga — exigiu convencido por ter arrancado mesmo que uma única reação que não fosse aquela calmaria que o irritava

— Você está aqui para ser mais um servo — respondeu deixando sua xícara descansar na mesa, com um sorriso cínico, sabendo que não era fácil para um guerreiro ser rebaixado de posição em tantos níveis daquele jeito.

— Eu não sirvo para nenhum mestre.

— As coisas sempre mudam. — A Kitsune se levantou da mesa, deixando seu manto transparecer nos detalhes em dourado que era alguém de realmente importância, mesmo em um outro mundo ou plano, deixando Chanyeol encarando besta a mudança de atitude enquanto ele caminhava para a porta, arrastando a mesma para sair, mas não antes de deixar suas ordens para ele: — Termine de se recuperar, tem roupas novas perto do colchão. Vamos conhecer seus colegas de guarda em algumas horas.

...

Chanyeol cruzou os braços, olhando para as próprias pernas dentro das roupas limpas e cheirosas que a Kitsune tivera deixado para si. Ele resmungou como uma criança birrenta quando fora deixado sozinho no cômodo, a voz cínica e tranquila saindo dos lábios alheios o deixando perturbado de certa forma. O guerreiro sentiu um comichão estranho na beira da barriga, como um sopro forte que o deixava gelado, tremendo. As mãos, que antes entraram em combustão, estavam calmas e o cheiro de flores, que se espalhava pela construção onde estava, entrava em suas narinas e o fazia ter memórias que sabia não possuir controle algum sobre. Cogitou, por um momento, ter sido entorpecido com alguma bebida estranha dada por Oh Sehun, mas logo a consciência o abateu forte e ele teve certeza de que, se fosse para estar morto, naquele momento já nem poderia respirar mais. Agradeceu pela sorte de estar vivo de alguma forma, ainda que não confiasse na figura da raposa. Raposas eram traiçoeiras, não? A questão culminou em sua mente. Inspirou fundo e saiu pela porta de madeira, encostando a mão levemente machucada na parede gelada, fitando as inúmeras gravuras que por ali permeavam.

O cheiro de flores, tal como aquelas rabiscadas no próprio corpo, fora ofuscado pelo aroma de comida fresca.

Saiu de seu transe e se colocou novamente a caminhar. O templo mais se assemelhava a uma imagem referente a sonhos bonitos do que uma construção de verdade. Chanyeol teve que, vez ou outra, passar os dígitos pelos próprios olhos à procura de algum véu que o estivesse mantendo fora da realidade, alguma coisa que o puxava de volta para a dúvida sobre onde estava verdadeiramente. 

Caminhou devagar até passar próximo a uma escadaria de madeira, descendo por ali e fitando a porta de onde vinha o cheiro gostoso de comida. Ao abrir, se deparou com uma mesa ampla e recheada com pratos coloridos e apetitosos, tudo o que ele precisava no momento. O estômago não roncava como deveria ser comum, mas tudo parecia tão atrativo que não podia segurar a boca de salivar. Um riso melodioso chamou sua atenção.

— Pode se servir, Chanyeol — Sehun pintou o nome do guerreiro como uma brisa fresca, fazendo a pele de sua nuca se arrepiar. — Mas vou precisar de você depois.

— Um serviço por um prato de comida. Certo — Chanyeol riu seco, balançando a cabeça em negativo. Cortou a distância entre si e a mesa recheada, para que pudesse fitar com mais precisão o que poderia comer.

— Tudo tem o seu devido preço, ao menos você entendeu isso rápido. — Coçou a garganta, levando uma das mãos até o pelo macio da própria cauda. — É bom que entenda rápido que eu não sou um perigo para você, rapaz. Ao menos, não ainda. Se permanecer comportado, posso guiar você. Basta apenas ser bonzinho.

Chanyeol decidiu não contestar a fala, mas inclinou o rosto em sua direção e os olhos escuros captaram a feição da Kitsune, assim como o movimento majestoso de suas nove caudas, o laranja do Sol que entrava pela janela batia em cada um dos fios. O guerreiro piscou os cílios e resmungou consigo mesmo antes de pegar um prato vazio e despejar uma boa quantidade de peixe cru, todo fatiado, além de uma cumbuca com Gyudon banhado ao shoyu. Com as sobrancelhas franzidas, ainda ressentido pela forma mandona que Sehun falava consigo, enfiou os dedos no meio dos hashis e começou a mordiscar. Aos poucos, sua expressão raivosa foi se transformando até que ele estivesse fechando os olhos pelo tamanho sabor a cada mordida.

— Pelo visto gostou dos pratos, não? — brincou Sehun, ajeitando as madeixas longas atrás das costas, erguendo o corpo.

— Uhum. — Voltou a abrir os olhos, encarando Sehun como se quisesse matá-lo com as próprias mãos. Mas estava debaixo de seu teto, afinal, comendo de sua comida e ainda são e salvo. Respirou e tentou ignorar o sentimento de raiva e indignação que tornava a aparecer em seu peito.

Para abafar os pensamentos, olhou os diferentes cantos do cômodo e coçou a madressilva na cintura, no lado esquerdo. As tatuagens no corpo pareciam queimar em alguns segundos. A lembrança recente e fervente de ver os desenhos pretos virando manchas escuras o pegou desprevenido e ele passou a mastigar o peixe cru em modo automático, com a visão catatônica e as mãos tremendo em movimentos leves.

Sehun apareceu em sua frente antes que ele tivesse algum tempo para reagir às próprias vibrações do corpo. O rosto dele estava sereno como a brisa da manhã, uma brisa tão desconhecida por Chanyeol quanto qualquer outra coisa. A ponta erguida e bem esculpida do nariz de Sehun de fato lembrava o focinho de uma raposa traiçoeira, mas os olhos demonstravam algo diferente, um sentimento confiável, amistoso. A Kitsune levou a palma das mãos até sua face, elevando o olhar dele até o seu, em uma conexão breve e confortável. Estranhamente confortável, Chanyeol parou de tremer e voltou a comer como antes, os pensamentos voltando para o real presente.

— Termine de comer e venha comigo, Chanyeol. Preciso levar você até algumas pessoas.

Chanyeol estava cheio como um animal faminto após comer sua caça, com os lábios vermelhos de uma bebida da qual ele esquecera o nome, e a barriga cansada. Queria muito descansar, dormir e apagar como havia feito anteriormente, mas Sehun ordenava que ele não o fizesse, que o seguisse até o lado exterior do templo, em passos pesados e nervosos. A Kitsune andava em sua frente, dando passadas leves, semelhantes a uma pena pousando no chão após uma brisa calma de verão. Chanyeol mordeu o interior da bochecha, incerto sobre onde ele o levaria, se mantendo na defensiva mesmo sabendo que talvez não seria morto pela criatura graciosa que Sehun era.

O ar estava tranquilo e deixou Chanyeol com uma sensação morna. Parecia que ele havia se esgueirado pela floresta e ficado na beira de um rio, mas era apenas a ventania daquele horário específico. Sehun disse, quase silencioso, que não ficava muito longe dali. Andaram por quase vinte minutos, se Chanyeol estivesse aguçado na área de cálculos — e se quer que o tempo passasse ali do mesmo jeito que aprendera. Os olhos fixaram nos fios compridos e aparentemente sedosos de Sehun e ele se perguntou se o rapaz nunca teve a ideia de cortá-los. Era muito mais fácil do que ter de cuidar de mecha por mecha, além de que dava a ele uma aparência estranha. Chanyeol não sabia dizer o porquê, mas sua barriga comichou não apenas pela quantidade de comida enfiada na goela por gula; talvez fosse receio de estar seguindo o outro, sentindo o aroma dele bater nas folhas da floresta e chegar até suas narinas. Cutucou a ponta do nariz, fazendo um movimento negativo para si mesmo. As dores nos machucados pararam e ele somente se deu conta quando tocou um arranhão na bochecha, na forma de uma pétala de flor. Seria irônico se estivesse abaixo do pescoço, onde o corpo era coberto pelas tatuagens de flores. 

Assim que chegaram, um festival acontecia de longe. Luzes coloridas e brilhantes através de lanternas flutuantes faziam os olhos de Chanyeol saltarem, tamanha beleza que ele pensava nunca ter visto anteriormente. O som de sinos e de cantoria preenchia o local e, conforme ele e Sehun se aproximavam, as mãos do outro acenando para um punhado de pessoas que andavam de um lado para o outro chamaram a atenção do guerreiro. Ele viu um grupo de crianças brincar com um rapaz moreno, enquanto rodavam em volta das longas vestes azuis, ele sustentava um sorriso grande no rosto e os cabelos pretos balançando para todos os ângulos.

— Jongin — chamou Sehun, de costas para Chanyeol. O moreno, que se revelou ser a figura chamada, fez um sinal com as mãos para que as crianças esperassem e foi até o encontro de ambos, segurando um violão amarronzado nas mãos.

As crianças se dispersaram, almas vagantes e coloridas. Chanyeol piscou algumas vezes, para ter certeza de que via aquilo de fato. Os espectros se entrelaçavam como se não tivessem corpo, nenhum osso ou ligação por entre eles, impedindo de baterem uns nos outros.

— É um prazer vê-lo por aqui, Sehun — O sorriso largo de Jongin exibia seus dentes, e assim que viu Chanyeol, as sobrancelhas franziram em curiosidade. — Olá, tudo bem? — A voz melodiosa dele tocou o peito de Chanyeol. Diferente de Sehun, seu timbre era rouco, mas acentuado como um cantor. Pelo instrumento nos braços e a canção que tocava antes, não poderia ser outra coisa.

— Tudo, tudo. Sou Chanyeol. — Não ergueu a mão ou se curvou em respeito, apenas fez um movimento estranho com os ombros e Jongin entendeu aquilo como um aceno.

Sehun os observava com uma certa sagacidade, lançando um olhar malicioso para Jongin como se dissesse que deveria ter paciência com a personalidade gritante de Chanyeol. Ele apenas mexeu a cabeça, divertido.

— É um prazer ter você aqui. O que achou das crianças? — O tom na voz era paterno, como se ele estivesse falando sobre as criaturas que criara durante uma vida inteira, sobre os frutos que colhera como se fossem as almas pequenas que corriam e brincavam.

— Eu…

— Está indo bem, Jongin — Sehun interrompeu Chanyeol, ou melhor, o ajudou a não passar vergonha na frente de Jongin por não saber o que dizer e passou os dedos nos próprios fios, os jogando acima do tecido leve. — Mas não pense que eu não fiquei sabendo de suas gracinhas com Kyungsoo, sim? — As bochechas de Jongin coraram fortemente, assim como as orelhas, e ele apertou os dígitos no instrumento. — Isso não é lugar para pregar peças. Em ninguém. Faz de você um tanto imaturo, e sei que você não é dessa forma. Vai irritar Kyungsoo se continuar desse jeito e eu não permito, ouviu bem?

— Sim, senhor. — A voz não saiu vacilante como Chanyeol achou que sairia. Pelo contrário, a garganta deixou as palavras com convicção. Como se não pudesse responder em negativo para Sehun, ou ele cortaria sua garganta. — Eu… Foi só um deslize. Às vezes, é difícil me manter tão sério. Para levar as almas embora, Sehun.

Sehun fez um movimento compreensivo com a cabeça, fechando os olhos, breve.

— Mesmo assim, não é desculpa para agir dessa forma, estou entendido? — Levou uma das mãos até a cabeleira de Jongin, bagunçando os fios. O sermão ganhou um lado carinhoso, no fim. Mas Jongin ainda prosseguiu com a postura tensa.

— Tudo bem, juro que vou me comportar. Tentar ao máximo — afirmou dessa vez, sorrindo de canto.

— Esse é nosso novo membro, Jongin. O leve até Kyungsoo para mim, por favor? — Ele assentiu. —  Pode deixar que eu cuido das crianças para você.

Chanyeol estava confuso, mas antes que pudesse questionar qualquer que fosse a coisa, Sehun começou a dizer, em palavras calmas, que Jongin cuidava das almas das crianças para que elas pudessem partir com calmaria. A música que saía dos instrumentos que Jongin tocava deixava o ambiente silenciosamente harmônico até que as almas pudessem descansar, pouco a pouco, ganhando um espacinho a mais nos amontoados cheios de tecido onde eles descansavam e dormiam. Apagavam até que estivessem em paz, passando para o outro lado sem muita euforia. Foi aí que Chanyeol entendeu o sorriso brilhante no rosto de Jongin, as roupas combinando com sua feição e personalidade.

No fim, Chanyeol foi afastado de Sehun com o motivo de que deveria encontrar Kyungsoo. Não sabia quem era esse tal, mas não pôde ficar para questionar a Kitsune que, no momento que partiram para cumprir suas ordens, se abaixava para que as crianças pudessem tocar e sentir a ponta de suas orelhas. Ele se sentiu meio vazio ao se distanciar de Sehun, a aura que o tranquilizava ficando cada vez mais longe, mas Jongin ao seu lado o conduzia com gentileza. Até que não era tão ruim ficar próximo a Jongin. Não era como Sehun, com certeza, onde as pitadas de tensão explodiam pelo ar. Ele exibia uma companhia repleta de frescor ao guerreiro amargurado.

O guia era falante conforme ia perdendo a vergonha, seguindo as margens de um rio enevoado, andando pela beira em uma linha reta e imaginária, como se fosse uma brincadeira enquanto se equilibrava. Pela névoa espessa, se via apenas vislumbre da superfície do rio, mas sem chance de imaginar o que aguardava naquelas águas escondidas. Se era mesmo como escutara em vida, o rio Sanzu é repleto de corredeiras fortes nas margens, e infestado de ninhos de cobras no fundo, onde as almas carregadas de pecados mais graves devem passar. Chanyeol se perguntava, em silêncio, se era ali que devia ter acordado, mas imaginava que a floresta tinha sido pior por experiência.

—… Então, sim, eu prego essas peças porque quero me aproximar dele, sabe? Sehun é muito distante, mas ele é igual a mim, entende o que eu digo? — Jongin estava falando a um bom tempo, mas Chanyeol só captou algumas palavras sobre sua vida ali e o outro guardião que iriam encontrar, que ele dizia ser como ele.

— Na verdade, não — respondeu sinceramente vendo o rapaz soltar um bico momentâneo não esperando aquela resposta.

— Tudo bem, depois que arrumarmos uma posição para você assumir, essas coisas vão fazer sentido — sorriu, voltando a caminhar de forma animada.

— O que você era antes daqui? — perguntou cortando os pensamentos de se acostumar com uma função fixa naquele lugar, esperançoso que pudesse encontrar uma saída.

— Não me lembro, faz muito tempo — disse sem fazer muita questão da pergunta.

— Não parece algo fácil de esquecer, tem certez...

— Sim eu tenho, não me lembro. — A animação pareceu morrer por um momento na voz de Jongin, ele mesmo impondo que aquele tópico estava fora de conversa e então voltou a se esgueirar pelas árvores, abrindo espaço entre as folhas mais baixas e dando visão ao cais. — É aqui.

— E o que viemos fazer? — Chanyeol observou o lugar em busca de alguma pista.

— Não sei, Sehun não te contou?

— Não...

— Jongin! — Pôde-se ouvir uma voz imponente chamar no meio da névoa, como se o rio os chamasse de dentro das densas cortinas enevoadas, a imagem fez gelar a espinha e se amaldiçoar por ter sequer pensado que deveria estar ali. Talvez tivessem vindo buscá-lo. Isso até perceber um homem antes de eles se esgueirarem pela densidade, em vestes escuras e padrões prateados contornando pela extensão do tecido que, se não estivessem ensopadas, seriam bem elegantes.

— Kyungsoo! — Jongin também o chamou na mesma força, imaginando que seria recebido com agrados mas, conforme se aproximou, foi recebido com um baque molhado das flores, que em algum momento fora um arranjo bonito de flores, mas agora só estava molhado, retorcido e com algumas flores chamuscadas. — O que aconteceu?

— Você pergunta? Eu estou encharcado, meu barco está virado e minha lanterna se apagou, como eu vou ser capaz de iluminar o caminho para as almas desse jeito? E tudo por quê? Por causa da sua surpresa maldita! — respondeu largando o arranjo contra o peito dele, que segurou antes que caísse.

— Mas você não viu os fogos? — perguntou com a fagulha de inocência da situação falhando na voz.

— Não sente nem vergonha? Como eu ia ver algo no fundo do lago? Eu ainda consigo ver as cobras se eu fechar os olhos — o barqueiro o repreendeu desacreditado com as bobagens do guardião.

— Então você não viu os fogos? — ele insistiu na pergunta, mas dessa vez tirando dos bolsos uma fileira de fogos pequenos, que ele acendeu com um estalar de dedos, e como um truque de mágica as faíscas brilhantes rodopiavam para perto de Kyungsoo, como se Jongin as controlasse para fazer um bonito espetáculo particular, mostrando o verdadeiro resultado do que era para ser a surpresa que Jongin quisera fazer.

Chanyeol estava envergonhado de encarar aquele momento, como se fosse muito íntimo para ele presenciar. Conseguia ver nos olhos daquele que descobriu ser o Kyungsoo que o gesto tinha amenizado o humor. A expressão, ora irritadiça para com Jongin, suavizou como se soubesse que ele não tinha feito por mal. Ele não disse nada nos momentos que recuperava a paciência, pois sua situação ainda era encharcada e impossibilitada de fazer o seu trabalho, mas assim que abriu os olhos deu de cara com Chanyeol que não tinha notado até aquele momento.

— E quem é esse? — Ignorou sua atual situação afastando os resquícios de pólvora colorida com a mão.

— A esse é… é — Jongin tentou responder, mas estava incomodado por ter sido ignorado, era seu melhor truque e nem assim receberá um ato de ternura de volta de Kyungsoo.

— Park Chanyeol — tomou a frente se apresentando, sentiu um vazio logo após, não tinha mais uma posição de poder que acompanhava seu nome, agora era só morto, e mortos não tinham títulos.

— E por que o trouxe aqui? — ainda não se dirigindo ao guerreiro, ele perguntou.

— Sehun me confiou a tarefa de trazer ele até você — Jongin tentou retomar a atenção para si, tentando mostrar que estava em uma missão importante.

— E por quê?

— Ah… Nós não sabemos, ele não disse. — Jongin buscou o olhar de Chanyeol enquanto dizia, esperando que ele tivesse uma resposta melhor, sabia como Kyungsoo não gostava de perder tempo, mas o guerreiro permaneceu em silêncio, perturbado demais pelos pensamentos que o afogavam e a irritação que brigavam para o manter são.

— Típico daquela raposa, sempre tratando tudo como um dos joguinhos dele — o barqueiro disse entre os dentes cerrados enquanto encarava os dois imaginando o que seu “chefe” queria mandando aqueles problemas para si. — Bem, Chanyeol, já que você não sabe o que veio fazer aqui, acho que já acabamos com as apresentações.

— Mas você nem se apresentou.

— Sehun te mandou aqui, então assumo que deva saber quem eu sou, a não ser que nem isso ele te contou — o barqueiro continuou sem muita abertura, e quando viu que o rapaz não responderia, se virou para Jongin de uma maneira até muito terna para a situação que se encontrava quando chegaram. — E você, mocinho, me ajude a virar o barco, eu irei te perdoar se você remar algumas viagens para mim.

— Sério? — Jongin perguntou esperançoso, recebendo uma afirmação enquanto Kyungsoo se virava para dentro da névoa e ele corria para acompanhar. 

— É claro que é sério.

— E eu? — Chanyeol que tinha sido deixado de lado na situação toda, finalmente se desesperou quando viu seu guia acompanhar o barqueiro para dentro da névoa.

— Você vai ficar bem, pode zanzar por aí, Sehun vai te encontrar de todo jeito — Jongin disparou as palavras antes de se entregar às densas nuvens.

Sozinho pela primeira vez desde que tinha sido derrubado do céu, Chanyeol olhou ao seu redor, sem nem saber o que procurava. Sua vida tinha se acabado, mas ainda se considerava vivo de alguma forma — se conseguia questionar aquilo significava que existia. Ainda assim, parecia que sua consciência estava perdida se dissipando dentro daquele reino espiritual que parecia se misturar com ele, fazendo se sentir parte da terra, do ar, quase como se perdesse a consciência para aquele mundo. E ficando cada vez mais embriagado daquelas sensações, ele decidiu caminhar sem rumo, esperando achar algo que o fizesse voltar aos sentidos.

O momento com Jongin e Kyungsoo serviu para deixar Chanyeol mais conflituoso do que outrora. A interação entre as duas pessoas deixou seu peito abafado e na boca fluiu um gosto esquisito. Não se lembrava de absolutamente nada de quando não estava naquele lugar, a não ser os gritos de guerra, e aquilo o deixava angustiado. Teria Chanyeol conhecido alguém para se sentir confortável no outro mundo? Na outra realidade onde não era apenas um ser nômade naquela terra estrangeira? Ele não tinha resposta para nenhuma das questões que o atacavam de segundo a segundo. Guerreiros lutavam e, ainda que ele não quisesse admitir para si mesmo, tivera perdido também a batalha contra o medo. O receio fazia parte de cada um dos pelos de seu corpo, de cada gota de sangue e de suor.

Com aquele pensamento flutuando dentre as outras centenas de dúvidas, andou murmurando sozinho e descontente. Os pés acompanhavam uma trilha verde para floresta adentro, o cheiro de grama molhada próxima a um rio tomou sua curiosidade. De vez em quando, aparecia uma criança ou um filhote de lobo, uma ave pequena, deixando os aromas novos entrarem pelas narinas e os olhos se esbugalhando ao enxergar criaturas brilhantes à sua frente, coisas que ele nunca teve oportunidade de apreciar em vida. Não se pareciam com vagalumes, mas sim como espíritos leves e soltos. Ele desejou tocá-los por um segundo, na cabeça os pensamentos começando a se dissipar. Indo embora a euforia, ficou apenas o som da natureza, uma cantoria que parecia etérea demais para ser só ambiente. Chanyeol costumava ser feito de ferro, fogo e espírito guerreiro. Queimava em suas veias a sede pela vingança de uma guerra não vencida, a voz da criatura lamuriosa de antes, dizendo que os heróis fracassaram.

A cantoria foi se intensificando conforme a caminhada avançava, os vagalumes chegando mais próximos ao rosto de Chanyeol. Ele chegou a tocar em um, rapidamente, no mesmo instante em que a voz suave sussurrava palavras cantadas no ar, encantando o homem. Ele sabia já ter ouvido aquela voz outra vez, mas parecia ser outra. A tonalidade estava pacífica de uma forma que ele nunca experimentou outrora, passou pela sua língua como uma faca afiada e suave, silenciosa. A curiosidade o moveu, as pernas firmes pisando no meio das folhas e interrompendo o silêncio da floresta (com exceção da voz melodiosa), afastando algumas criaturas que por ali andavam. Tinham animais de todos os tipos, desde uma pequena coruja de pé no galho da árvore mais alta, até um esquilo que coçava as orelhas e fazia Chanyeol se embolar no meio dos arbustos, com medo de pisar nos seres frágeis.

Havia uma fonte termal bem à esquerda de onde ele estava passando, foi até ela que seguiu caminho. Sem rumo, Chanyeol procurou unicamente pela voz bonita que o deixou instigado, as respostas para as dúvidas que viviam dentro de si não seriam facilmente sanadas, ao menos disso ele sabia. A água corria em cascatas majestosas e a ponta dos dedos coçou para pular na limpidez do líquido. O faria se não tivesse enxergado o dono da melodia cantada. Se o dono não fosse seu guardião, Oh Sehun, com certeza não teria sequer pensado antes de se banhar na fonte. Mas o corpo largo e quadrado dele deixou Chanyeol engolindo em seco. Suas costas pingavam gotas grossas d'água no solo, escorrendo pelos ombros e revelando as bandas aparentemente macias dele. O estômago de Chanyeol revirou em antecipação, ao que exatamente ele não fazia ideia. Mas seus pés não conseguiram deixar o local.

As orelhas ariscas de Sehun se inclinaram quando Chanyeol deu mais dois passos, cortando a distância de antes. Sua cauda, que ficou leve e dançou no vento, tinha cor de damasco e carvão na ponta. Chanyeol não tinha visto aquela parte específica do corpo alheio, assim como também estava descobrindo pela primeira vez as pernas compridas e torneadas do guardião. Por um momento, quis desviar o olhar, por não saber se estava sendo indiscreto ao extremo ou desrespeitoso. Mas Sehun parou de cantar e arrumou os fios para o lado, virando o rosto para Chanyeol e o convidando a entrar.

— Não seja tímido, guerreiro. Eu sei que essa água é boa demais para ser desperdiçada — sorriu de canto, erguendo uma das sobrancelhas finas. Suas mãos apontaram para a água da fonte e ele abaixou as pernas até estar com o umbigo banhado pelo líquido limpo.

Chanyeol não o respondeu, o pescoço vermelho pela raiva repentina de ter sido chamado de tímido pelo guardião. A cauda molhada de Sehun balançou de um lado para o outro, e Chanyeol apertou firme o próprio pulso antes de retirar as vestes brancas que tinha ganhado do templo de Sehun, as abandonando em meio à grama da borda do lago. Não evitou levantar o olhar pelo mísero segundo, para ver se Sehun estava curioso sobre o seu corpo. Mas a Kitsune mantinha a face pacífica nas linhas de expressão, tinha apenas um leve corar nas bochechas que Chanyeol não pôde ter certeza ser fruto da imaginação fértil ou uma verdade vergonhosa para o grande guardião daquelas terras.

— Por que veio aqui? — Sehun perguntou, levando um punhado d'água até os fios, lavando o pescoço.

— Eu não sabia muito bem o que fazer. Depois que você pediu pra que eu fosse até Jongin e Kyungsoo, acabei ficando confuso. Não sei porque me pediu pra ir até lá, se eu fiz diabo de coisa alguma. — A confissão saiu mais raivosa do que ele próprio esperava, mas Sehun apenas assentiu, certo de que levantaria dúvidas no rapaz.

— Eu apenas queria que você os conhecesse. Você vai passar um bom tempo neste lugar, então eu não poderia deixar de, por hora, mostrar mais dos nossos colegas daqui. Não precisa ser… tão esquentado assim, Chanyeol. — A acidez no final da frase deixou Chanyeol calado por alguns segundos, a água morna acalentando alguns arranhões na pele e o movimento das mãos de Sehun provocando ondas até si.

— São muitas coisas pra assimilar.

— Eu sei que sim, todos se sentem dessa forma. — Abaixou a cabeça, passando a língua nos lábios, os umedecendo. — Há uma pedra para se lavar, aqui. Pode vir e se banhar com mais propriedade, eu não vou morder você.

A voz imperiosa de Sehun incomodou Chanyeol, que, brusco, se aproximou e enxergou uma pequena porção de rochas onde algumas pedras de sabão estavam acumuladas. Pegou uma na palma da mão e passou nos músculos duros, notando que Sehun estava fazendo um movimento mágico acima dos fios. Em um segundo, as orelhas já não estavam mais lá, assim como a cauda úmida que antes pingava na superfície, desapareceram.

— Por que… por que escondeu suas… suas orelhas?

— Eu só não quero assustar você, guerreiro — brincou com o termo nos lábios, pela primeira vez, parecendo mais divertido do que mandão. — Você tem uma postura muito firme, parece uma montanha de tão grosso. Já disse que não precisa ser tímido.

— Mas! Eu não tô-

— Não precisa ter medo de mim, Chanyeol — ele sussurrou, dessa vez, mais perto do que antes. Alguns de seus fios estavam colados à bochecha esquerda, pela umidade que evaporava da fonte, e o cheiro de rosas e especiarias invadiu as narinas de Chanyeol.

Ele ficou mudo quando as mãos de Sehun tocaram suas costas, traçando e dançando com a pontinha dos dedos em movimentos instintivos.

— O que está fazendo?

— Uma massagem. Posso? — Virou o rosto, encarando Chanyeol firme. Se a resposta fosse negativa, se distanciaria sem nem pensar duas vezes.

— Pode. Pode fazer — disse como se estivesse resmungando e abriu os braços nas laterais. Os olhos não estavam pregados a lugar algum, já que as costas eram massageadas por Sehun.

Os dedos da Kitsune formaram elipses em volta de algumas flores de lótus abaixo das costas de Chanyeol, bem no início onde ficavam as bandas do rapaz. Em um movimento rápido, Chanyeol se virou e por reflexo levou a mão até a cintura, onde, outrora, ficava empunhada sua arma de combate. Respirou rápido e quando Sehun notou o que ele iria fazer, afastou-se e riu, colocando a palma das mãos na frente da boca.

— Chanyeol, eu não vou atacar você, era só ter me falado para me afastar — gargalhou, recebendo um olhar levemente inseguro e envergonhado dele.

— Sehun, droga. Não faça isso — murmurou, arqueando o canto do lábio. Sehun encarou isso como um sorriso, ou o esboço de um.

— Eu não vou apertar a sua bunda ao menos que você me peça, sim? — brincou, levando os dedos esguios até os braços fortes de Chanyeol. — E é "guardião", não Sehun. Se acostume a me chamar assim, por gentileza. — A voz carregada de seriedade repuxou o baixo ventre do guerreiro que, o fitando, assentiu.

Voltou a massagear seus ombros, mesmo que de frente, tomando cuidado para não ultrapassar o limite do corpo alheio. A aura pareceu ganhar um tom acalorado conforme da boca de Chanyeol saiam alguns suspiros de deleite. O corpo vivia tensionado por conta das guerras travadas, Sehun sabia reconhecer um homem que não via o que era relaxar há um bom tempo.

— O que você faz aqui? Digo, nessa floresta. E nesse templo — Chanyeol perguntou, a voz em uma legítima curiosidade e os olhos desviados do rosto de Sehun, que naquele momento apertava um pouco da pele de seus braços, calmo.

— Eu sou um guia, mais do que um guardião. Eu estou acostumado a receber… pessoas como você, mas não tão explosivas — riu baixo e Chanyeol o acompanhou, o peito para cima e para baixo. Sehun gostou do tom do riso genuíno dele, e continuou sua fala: — Vou guiar você também, guerreiro. Te mostrar um propósito. Só peço para que tenha um pouco de paciência, ou tente. Esse será seu novo lar, por enquanto.

Ele assentiu e Sehun movimentou o corpo na água, as orelhas mais humanas molhadas com os respingos de seus fios compridos. Fios esses que foram acariciados por Chanyeol, os olhos brilhantes.

— Esse cabelo… Por que você usa ele tão grande assim?

— Desde que eu me lembro, o uso assim. Me sinto mais confortável e reúne minhas forças, de um jeito bom.

— É bonito. — A sinceridade repentina pegou até mesmo Chanyeol de surpresa, que ia formular algo para retirar o que tinha dito, mas Sehun foi mais rápido em aproximar a ponta do nariz de seu pescoço, inspirando o cheiro de sabão natural.

— Obrigado, guerreiro. Meu olfato é mais apurado que o seu e você tem um cheiro característico de receio — disse, provocativo. Selou a pele quente dele, ouvindo um arfar sair de sua garganta. Os lábios encostaram como uma pluma, levando arrepios ao corpo inteiro de Chanyeol.

A pedra de sabão que estava nas mãos de Chanyeol caiu na água, provocando uma sequência de ondas na água, e mesmo que quisesse se agachar para escrutinar o objeto, a imagem do íntimo de Sehun o pegou de surpresa. A água estava muito mais límpida do que ele se lembrava e ele conseguiu fitar tudo. Sehun não pareceu notar, pois deixou mais alguns beijos molhados em seu pescoço, o ar convidativo não permitiu com que Chanyeol se afastasse. Ele não queria se afastar, por isso levou uma das mãos até os fios da Kitsune outra vez, alcançando a nuca e fazendo um carinho esquisito ali, mas que ele pareceu ter gostado, quase ronronando enquanto beijava seus ombros. 

A fonte parecia ter esfriado com o passar dos minutos e, antes que os selares de Sehun pudessem passar de seu queixo até a boca, ele cortou o contato com sua pele, se afastando minimamente. Sehun estava com os olhos que expeliam sede, o nariz avermelhado e a respiração descompassada. Talvez tivesse sim passado um pouco do limite. Mas respeitou o espaço de Chanyeol e apenas ajeitou os fios antes de retirar o sabão acumulado no peitoral dele com uma porção d'água, tomando cautela ao observar cada micro expressão de seu rosto.

— Melhor agora? — o guardião questionou, recebendo uma resposta positiva de Chanyeol. — Peço para que me acompanhe, então. Percebi que você não tem mais suas espadas e precisamos dar um jeito nisso, certo?

— Tudo bem, guardião. — Chanyeol arrumou os fios curtos com a mão esquerda, ainda absorto nos toques anteriores que recebia de Sehun. Abriu um sorriso sincero quando o ouviu falar sobre as armas, estava com uma certa saudade de sentir as veias pegando fogo ao empunhar uma espada. — Agora?

— Não há mais demoras quando um guardião deseja, Chanyeol.

Aquelas palavras foram as últimas que reverberam nos pensamentos de Chanyeol durante todo o caminho, era como se água e os dedos de Sehun tivesse esfregado de si todas as preocupações, naquele momento ele só conseguia seguir o guardião sem nem questionar, confiando nele quase de olhos fechados enquanto até as pálpebras relaxavam como nunca tivera feito em vida ou morte. Isso até ouvir o barulho da porta arrastando, o trazendo de volta aos sentidos e percebendo que haviam voltado ao templo, a casa do guardião.

— Vou te dar algo que vai gostar, guerreiro — Sehun disse o guiando a uma parte do lugar que parecia cada vez mais o puxar para baixo, contra o chão, o guardião não parecia afetado, desfilando naturalmente naqueles passos elegantes.

O destino era um quarto que fumegava por todas as frestas do chão, com um poço no centro que parecia fogo líquido. Chanyeol observou Sehun enquanto ele arregaçava as mangas e prendia o cabelo para então mergulhar as mãos no líquido, ele até tentou alcançá-lo para impedi-lo, mas Sehun começou a falar normalmente.

— Que tipo de arma empunhava antes? — perguntou enquanto dividia sua atenção com o que parecia buscar dentro daquele reservatório de líquido brilhante.

— Eu costumava carregar duas espadas — respondeu um tanto relutante quanto ao porquê daquele lugar tão peculiar, perguntas que naquele momento pareciam em vão.

— Interessante. Gostava de usá-las?

— Sim, mas por que todas essas perguntas?

— Como eu disse, todos aqui têm uma função, então você também terá.

— E por que eu preciso das minhas armas de volta? — O guerreiro que existia nele ainda gritava por se sentir despido sem suas armas, mas elas também o lembravam daqueles gritos e sensações que vinham o assolando desde que tinha chegado ali. Elas eram o motivo da sua ruína e desgraça, não tinha completa certeza de que as queria de volta, se é que fosse isso que ele estivesse procurando lá dentro.

Ele nem conseguiu prestar atenção na resposta que saiu dos lábios do guardião quando o viu puxar de dentro uma massa incandescente, a levitando entre as mãos até uma pedra. Chanyeol observou calado a arte da forja enquanto Sehun suava em cima das peças que iam tomando forma de duas belas lâminas distintas em alguns pontos. Enquanto uma parecia ser vermelha como o fogo que queimava dentro de Chanyeol — ele mesmo pensava como uma cor podia representar tão bem o visualmente o que sentia —, a outra era mais elegante com uma cor alaranjada que se se assemelhava às pontas das caudas da Kitsune. Comparação que Chanyeol mesmo fez enquanto sentia o estômago vibrar com aquela ter sido a primeira coisa que conseguiu lembrar com aquela coloração; tinham tantas, ele sabia, mas era aquela a única que vinha a mente.

 — Elas serão suas a partir de agora, cuide bem delas. — Sehun terminou seu ofício em meio às divagações do guerreiro, o pegando desprevenido sem o responder. — Não gostou?

— Não é isso, elas parecem realmente... eficientes — ele respondeu, descrente por não conseguir falar algo coeso com o que passava nos seus pensamentos.

— Tenho certeza que são para o trabalho que vou te dar — o guardião concordou analisando seu belo trabalho.

— E o que seria?  — Se aproximou tentando também dar uma boa olhada naquele presente.

— Você vai saber mais para frente, agora nós devemos só descansar, não concorda? — Sehun percebeu que ele não o havia ouvido da primeira vez que explicou, então o impediu de encarar mais se colocando em frente às peças, acabando por ali aquele trabalho cansativo o dando um momento para finalmente assentar na cabeça todas as emoções daquele dia.

— Ah, sim, claro. — Ainda com um receio de voltar a ficar sozinho, ele parou por um momento observando o guardião andar até a porta e chamando atenção quando disse: — E obrigado, elas são magníficas.

— É uma palavra bonita essa — comentou parando no batente enquanto sorria de canto pelo trabalho reconhecido e por finalmente ouvir palavras doces do guerreiro. — Vamos, me acompanhe, vou mostrar onde irá dormir.

Chanyeol o seguiu nos corredores, com a luz mais baixa, já que lá fora já estava escuro, apesar de não parecer ter uma hora exata. Mas era relaxante passear pelos corredores daquele lugar tão bonito sem receio como da última vez. Seus sentidos ainda gritavam socorro, mas o clima agradável parecia o ajudar a manter esses rugidos silenciados. Sehun o deixou em um quarto no andar abaixo dos seus, com algo para comer, que ele fez de bom grado, e um bom lugar para descansar. Mesmo assim estava desacostumado. Haviam muitas coisas que ele se lembrava, mas tinha certeza que fazia muito tempo que dormira embaixo de um teto, costumava estar sempre nas tendas erguidas nos territórios conquistados, às vezes tendo uma visão privilegiada das estrelas, e era naqueles momentos que mesmo em guerra ele encontrava paz. E em muito se revirar em seus lençóis, ele carregou algo confortável para se deitar e abriu a porta que dava para o jardim interno e se deitou no deque, cercado pelas estrelas, era um mapa totalmente diferente do que ele lembrava, mas mesmo assim era reconfortante, e até mesmo desafiante, ter um novo céu para decorar.

Mas o céu das suas memórias eram os mesmos dos seus pesadelos. Ele pode ouvir ainda de olhos fechados os gritos e correria do lado de fora e se levantou em alerta, viu seus companheiros recuando daquele último lugar conquistado. Porém ele mesmo não sabia o momento de desistir, levou suas mãos às espadas que só deixavam sua cintura naqueles momentos, e não as encontrou, ele só sentiu novamente um golpe raspando a sua cabeça e a lâmina atravessando seu peito. Ele não sabia o que doía mais, se era a lâmina passando por tudo que o mantinha vivo ou a impotência de não poder lutar para continuar, ele levantou o olhar e só viu uma figura distorcida na escuridão, no seu rosto não tinha aquela expressão que se via na maioria dos guerreiros, ele parecia assustado, um pobre garoto entregue para guerra. Mas mesmo assim sentiu os próprios braços involuntariamente tentando alcançar o menino, seu subconsciente gritava para que não, mas era só uma lembrança se repetindo.

O toque repentino de um par de mãos o trouxe do mundo dos sonhos em um tranco que o fez sentir novamente o ferimento enfaixado que já tinha esquecido que havia feito. Ele se agarrou à primeira coisa que viu na frente, sentindo as vestes de tecido macio amarrotarem nos dedos cheio de vincos pela força que se segurava. Mas não era só tecido que ele tinha se agarrado, compartilhava um abraço desajeitado com Sehun, que por alguns momentos deixou toda a soberania que tentava passar, sendo algo que o fizesse seguro.

— O que está fazendo aqui fora? Eu te escutei gritar — ele perguntou sentindo o corpo do guerreiro se assustar novamente com aquela quebra de silêncio.

— F-foi uma lembrança ruim. — Vulnerável demais para toda a pose que mantinha, foi sincero, ainda sem largar a segurança que tinha entre os dedos, esfregando os no tecido, o fazendo lembrar que aquilo sim era real.

— Eu posso te ajudar a esquecer, sabia?

— E como faria isso?

— Me dê um minuto — Sehun disse tentando se levantar, mas sentindo ser puxado pelas vestes de volta naquele abraço. — Só um minuto, prometo que nada de mal pode te machucar aqui.

Chanyeol o largou contra a vontade, não seguro que nada podia o machucar, sua própria cabeça estava o ferindo, a ponto de não ter noção de quem era na verdade. Mas aguardou a volta do seu guardião pela porta que manteve aberta, com uma série de velas que ele deixou pelo quarto conforme foi acendendo.

— Eu não sou uma criança que precisa de luz no escuro.

— Pode não ser criança, mas definitivamente precisa de uma luz — aconselhou trazendo o de volta ao quarto e se ajoelhando, junto a ele, onde devia ter dormido e continuou a dizer quando as coisas pareciam no lugar: — Aliás, funciona com as crianças também, Jongin que me ensinou.

Arrancou uma risada fraca do guerreiro, que encarou o guardião, agora mais calmo, podendo reparar no quão cansado também aparentava, diferente de como o viu durante o dia. Com o cabelo solto e bagunçado pela face, até as orelhas arrepiadas. Seus pensamentos foram interrompidos pelos dedos de Sehun traçando as linhas das tatuagens nos seus braços, as juntando nos ombros, e deixando apertos constantes, como se tentasse tirar as preocupações do guerreiro as apertando para fora dos poros. Não soube quando, mas cedeu a cabeça nos ombros do guardião, respirando pesado contra seu pescoço, fechando os olhos enquanto sentia sua mente se desligar, caindo finalmente em um sono sem turbulências.

O ressonar baixinho que saía da boca de Chanyeol preencheu todo o cômodo. O que antes era um ambiente sossegado e sem mais irritações logo pela manhã, fora interrompido bruscamente pelas batidas rápidas na porta deslizante do quarto. Sehun, que antes dormia tranquilo no travesseiro bem acolchoado, soltou um resmungo alto. Se tinha uma coisa que o guardião detestava, com toda a certeza do mundo, era ser despertado quando não havia pedido. Mas já seria tarde demais para avisar Jongin, o intruso, que deu de cara com o rosto enraivecido de Sehun ao abrir a porta, ouvindo um "entra!" do outro lado. 

— O que houve, Jongin? — Sehun cruzou os braços, meio sem jeito, por ter sido pego dormindo ao lado de Chanyeol.

Chanyeol ainda soltava alguns barulhinhos pelo nariz, esparramado entre os lençóis com parte da barriga exposta, os desenhos perfeitos de algumas pétalas de girassol cobrindo sua derme. Jongin sentiu as orelhas ganharem um tom avermelhado por estar olhando tão intimamente para Chanyeol daquela forma, mais ainda quando notou que ele estava ao lado de Sehun, que abanava a cauda de um lado para o outro, respirando profundo e o olhando com olhos incriminadores.

— Eu… É… — Buscou as palavras certas, a culpa batendo em si quando percebeu que era um pouco tarde demais para se desculpar pela invasão repentina. — As crianças. Elas… são muitas. Mais do que o normal.

As orelhas da Kitsune expandiram para os lados, como se o perigo estivesse sendo pressentido.

— Se puder me explicar sem gaguejar, Jongin. Seria maravilhoso.

— A leva de crianças está enorme. Sério, gigante. É como se tivesse aberto um buraco na passagem, sabe? — Sehun concordou, instigado e preocupado. — E os animais estão agitados. Mais que o normal, tanto que até os coelhos estão loucos! Pulando no meio das moitas, uma algazarra enorme. Você precisa ver, eu não sei o que faço com as crianças.

Ele ponderou por um momento, escutando um murmúrio rouco vindo da sua esquerda. Chanyeol tinha acabado de despertar, e os cabelos curtos estavam desalinhados de uma forma adorável, se Sehun tivesse o direito de pensar aquilo. Ele se assustou e cobriu o rosto com uma das mãos grossas, ouvindo o som do riso de Jongin.

— Não precisa se preocupar, Chanyeol — Jongin disse de uma forma doce, gesticulando com as mãos. — Você é muito fofo dormindo.

Parecendo não entender muito bem o que ele dizia, ainda sonolento, Chanyeol amassou a bochecha no meio dos lençóis e fechou os olhos outra vez, em uma tentativa de assimilar que tinha acabado de acordar. E de que tinha dormido ao lado de Sehun, uma Kitsune cheirosa e molenga. Ainda se lembrava da sensação dos braços do guardião passando em seu pescoço, o jeito como as unhas afiadas traçaram um rumo invisível nas tatuagens e como ele simplesmente adormeceu em suas mãos. Não que tivesse grandes memórias de outrora, de outro mundo que não fosse o mundo de Sehun, seu guardião. As armas que agora empunha e que eram suas, feitas na noite passada, foram criadas por Sehun. O que mais naquele local poderia ter sido feito por ele? Por sua magia inexplicável e sensorial? Chanyeol não tinha a resposta, mas a pergunta batia na cabeça como uma enxaqueca árdua. Tal como doía naquele instante, certo de que a luz que adentrava pelas frestas das janelas altas incomodavam sua visão.

— Bom, voltando… — Sehun coçou o olho, as orelhas em pé atrás dos fios longos e macios. — Eu vou seguí-lo, então. Pode ser algo de não muita relevância, mas é sempre bom averiguar. — Jongin concordou, dizendo um "sim, guardião" em baixo tom. — Pode ser algum presságio, mas não tenho certeza. Nada incomum ocorreu nas últimas horas.

Ele disse horas como se fossem pequenos minutos, Chanyeol observou. E então percebeu que não tinha muita noção de tempo naquele lugar e que apenas o nascer e pôr do sol eram o que o mantinham no lugar. Se é que podia dizer que estava ok. Ao menos, não estava com as costas doloridas como anteriormente, muito menos estressado. Estava com os músculos todos relaxados pelas massagens recentes que ganhara de Sehun.

— Chanyeol, vou pedir que Kyungsoo fique com você por enquanto.

— Eu não…

— Calma, Chanyeol. Eu não terminei de falar. — Mexeu as sobrancelhas, a linha reta o fazendo parecer tão sério que colocava medo em indivíduos desavisados.  — Quero que fique com Kyungsoo porque eu e Jongin vamos cuidar disso, averiguar, qualquer termo que quiser usar. E eu preciso que você afie suas armas, caso haja algum… imprevisto. Tudo bem?

Chanyeol ponderou por um momento, espreguiçando os braços e concordando.

— Certo, eu só preciso ficar com Kyungsoo enquanto isso e afiar minhas armas?

— Isso, Chanyeol. — Ergueu o corpo esbelto, movendo a cauda até a direita, os fios laranja daquela parte específica da Kitsune fazendo Chanyeol se distrair, embolado nos tecidos. — Não demore. Ouviu bem?

— Ouvi, guardião. — Rolou os olhos, mesmo sabendo que o outro não veria. Começou a desgostar da voz mandona dele, até que Jongin, divertido, se afastou, acenando com uma das mãos.

Foi aí que Sehun se inclinou e deu um meio sorriso para si. Chanyeol nunca poderia imaginar que o sorriso de uma Kitsune imperiosa poderia ser tão exuberante como aquele. E como apenas o arquear do canto de seus lábios poderia causar um tumulto em seu estômago.

Se levantar e trocar as vestes antes que Kyungsoo chegasse até ali foi uma tarefa fácil para Chanyeol, mas o complexo mesmo, que batia nos quatro cantos da mente e o deixava meio perdido, era pensar na noite tranquila que passara com Sehun. Há tempos que o corpo do guerreiro se dedicava a conhecer e travar batalhas difíceis, sangrentas e ruidosas. Uma companhia como Sehun poderia ser sim perigosa, cheia de regras, ordens até cair os cabelos, mas a empatia e o carinho que vinham dele eram totalmente simbólicos, ferventes. Quando os sons das lâminas no campo de batalha vinham à sua memória, Chanyeol fazia questão de tomar nota e dizer para si mesmo que já não estava mais lá. Ainda que o cheiro do sangue, ferroso e intrínseco, grudou-se em sua alma para todo o sempre, ele lavava pouco a pouco estando em um local diferente como o templo de seu guardião. Nunca admitiria para Sehun em voz alta algo como aquilo, mas ele sim sabia, que a cada segundo passado, o guerreiro amargurado que permanecia em si, se esvaía. Nunca desistiria de lutar, mas a visão que tinha de tudo ao seu redor poderia ser outra, caso ele se permitisse.

Quando Jongin havia dito que eram muitas almas jovens, Sehun não imaginou que fossem de fato grupos espalhados e alvoroçados. Para correr até lá, precisou transfigurar o corpo em sua forma original de raposa, abandonando as pernas e braços humanos e ganhado pelos alaranjados. O focinho cheirou toda a trajetória até chegar na beirada do lago, onde o barco levemente consertado de Kyungsoo pairava. O interior estava vazio, mas do lado exterior haviam as milhares de crianças, os olhos confusos e os rostos esbranquiçados. Estavam confusas também, mas mais confusas do que o normal. Jongin diria que pareciam crianças de verdade, não apenas os espectros que pensavam em brincar e correr que ele via todos os dias. Pareciam jovens à procura de algo, com medo, pavor de alguma coisa. Ele somente esperava que não fosse algo maior do que ele poderia prever. Do que até mesmo Sehun estava acostumado a lidar.

Com o objetivo de descobrir o que de fato acontecia, Sehun pediu a Jongin que fosse conversar e tranquilizar os seres flutuantes, enquanto que ele farejou, farejou e farejou. No fim, nada gritante encontrou, nada que pudesse dar alguma resposta a ele. Haveriam alguns acontecimentos do qual ele não tinha consciência? Algo passou por fora de seus dedos? Ele nunca ficava sem saber de algo. Nunca.

Passeou pela borda do rio, prestando atenção em cada par de olhos que passava por si. As crianças não não davam os sorrisos usuais, que espremiam as bochechas gordinhas e faziam suas pálpebras fecharem, pelo contrário, estavam apáticos e pesados, como se precisassem de certo tipo de descanso. Algo despertou a audição da Kitsune que avançou à sua direita, com firmeza em cada uma das passadas, causando ruídos nas folhas secas que caíam direto das árvores. Calculou os passos, fazendo as patas tomarem cuidado dessa vez, tinha que agir como a boa natureza de raposa falava, traiçoeira, silenciosa.

Porém tudo o que viu foi a cabeleira desarrumada e os braços fortes segurando ambas as espadas recém forjadas de Chanyeol, que assim que o viu, arregalou os olhos, mais surpreso do que a Kitsune.

— O que faz aqui, guardião? — A voz de Kyungsoo, que acompanhava Chanyeol, fez a raposa despertar ainda mais o focinho eriçado e a boca aberta.

— Ele… Esse é o Sehun?

A Kitsune fez um barulho cotidiano de estresse, esperando que Chanyeol já soubesse sobre sua verdadeira forma. Mas o jeito como o guerreiro o olhou curioso, até mesmo abandonando o aperto firme nas armas, deixou seu coração quente. Enroscou a cauda na perna de Chanyeol, farejando seu tornozelo e fazendo o mesmo com seus pés. Chanyeol tentou afastá-lo, tímido por estar sentindo cócegas.

Ele e Kyungsoo estavam ali porque o alvoroço começou a aumentar de tal forma que eles ouviram direto do templo. Sabiam que algo suspeito estava por perto, mas não era como se conseguissem chegar até o núcleo sem Sehun. Naquele instante, com as mãos humanas em volta do próprio pulso, a Kitsune pensava em qual dos planos seguir, mas por mais que fosse alguém organizado e centrado, estar pronto para uma batalha era impossível. Enxergaram, no canto do lago, onde deveriam estar os barcos de Kyungsoo, um amontoado de almas incessantes. Elas vinham em grupos, duplas, pedaços. Já não mais vinham apenas os jovens com os quais Jongin estava acostumado a receber, mas também almas já datadas, almas experientes e raivosas, sombrias.

Por um momento, Chanyeol se esqueceu da tranquilidade que aprendera com Sehun. Antes mesmo que o guardião mandasse que Chanyeol empunhasse suas empadas outra vez, já estava com as narinas expirando fundo e, na palma das mãos, as armas feitas pelo guardião flamejavam com sede pela batalha. Não sabia se existiam "almas malignas", criaturas más que andavam por aquele local como as que apareciam em seus pesadelos, mas teve certeza de que precisava acabar com elas no momento em que colocou os pés na água, pulsando ao se aproximar de uma das criaturas azuladas. Algumas possuíam tons mais fortes como os raios de sol, aqueles que queimavam os olhos e ardiam o rosto. 

Assim que começou a levar a ponta das lâminas em cada uma das cabeças invisíveis, Chanyeol teve um dejavú completo, respirando o mesmo ar de quando havia travado sua última luta, na qual ele carregara um fardo pesado com o nome de derrota. Daquela vez, não deixaria nada passar pelas espadas que usava para arremessar os corpos alheios até às águas, a respiração acelerada como o coração que dentro do peito parecia querer rasgar a carne e dar todo o sangue de si naquela luta. O corpo de Sehun não estava ao lado do seu, como ele achava estar, mas sim distante, como se observasse a luta e não tivesse vontade nenhuma de interferir. Como se tivesse nascido para exercer aquele papel, o de governar e fazer tudo conforme os próprios gostos. Chanyeol não soube se a raiva que iniciou a bater na cabeça e nas entranhas tivera sido fruto da falta de atitude do guardião ou se aquilo não era demais para si mesmo.

Só soube quando a pele ardeu de tal maneira, se recordando da primeira vez que aquilo acontecera, a derme humana ganhando um tom esquisito até atingir o alaranjado e vermelho de penas de fênix. Exatamente como estava acontecendo no segundo em questão. Não apenas seu corpo entrou em combustão, como também os corpos das almas chorosas e raivosas, explodindo para todos os cantos possíveis do lago, atingindo a grama verde e a manchando de vermelho. Vermelho fogo. Vermelho fênix.

Pela segunda vez, se ele sabia bem contar quando aquilo acontecia, levantou voo com as asas quentes e procurou pelo pico da montanha onde Sehun estava, sem muita consciência de o que procurava ao certo. Fitando o olhar compreensivo e inabalável de Sehun, Chanyeol usou as garras de fênix para pousar sobre uma rocha dura, no meio de algumas moitas compridas. Estava exausto, se é que tinha uma palavra que conseguiria definí-lo. Estava morrendo de medo, do que exatamente ele não tinha ideia. Talvez o receio de fracassar outra vez, mesmo quando cortava as almas no meio e as enxergava se esvaindo pelo corte das lâminas, mesmo quando ganhava, Chanyeol temia a derrota. E ali, derrotado, Chanyeol sentiu calmamente o rabo enrolado de Sehun chegar para mais perto, as orelhas levantadas e o focinho molhado. Ele pedia que brincasse consigo, inconscientemente. Chanyeol queria saber se era mesmo o Sehun de que tanto conhecia. O Sehun que impunha regras, que assistia a batalha de longe, que o abraçava forte no meio da noite…

Estava de fato perdendo a cabeça, mas ao menos sabia que não estava sozinho. As chamas, os gritos e o alvoroço. Tudo parecia passar quando Sehun estava ao seu lado, o fazendo se derreter em seus toques, inspirando Chanyeol a tentar ser um pouco mais do que apenas fogo, sangue e batalhas perdidas. Chanyeol, mesmo que em sua forma de fênix, falava, o bico passeando pelas orelhas da Kitsune e brincando com ela expressava o quão significativo era aquele momento. E mesmo que o mundo espiritual estivesse aos pedaços ao redor de si, nada seria comparado ao calor que emanava de Sehun.

O mesmo tipo de calor emanava das bochechas de Jongin enquanto ele se aproximava das margens do rio, o dia todo estava esquisito, turbulento e sem sentido, seu guardião sumiu e o deixou sem ordens, não sabia o que fazer com todas aquelas almas, se sentia uma pai de mãos atadas, e acabou por tentar fugir do alvoroço umas outra vez. Então ele quis voltar àquele que sempre permanecia o mesmo, desde que chegara, era um porto seguro para ter certeza de algo naquele caos. Mas fora do ordinário, Kyungsoo do lado de fora do seu barco, o forçando em direção a água enquanto a embarcação resistia ao esforço. Alguns dos longos cabelos do barqueiro, que se desfizeram da amarra, grudavam no rosto suado e com a expressão dura e descontente, e até assim Jongin o achava belo. No momento que chegou àquele lugar, indefeso e confuso com a memória bem vivida e assombrosa de como tivera morrido, e mesmo depois que Sehun o encontrou e o deu um motivo para se alegrar, ele se perguntava se aquele sentimento era mesmo alegria. Aliás estava morto, como poderia sentir algo? Isso mudou quando encontrou Kyungsoo, seu guardião não o tinha contado que tinha alguém ali que não fossem eles e as almas. Mas ele era muito curioso e, depois de muito andar pelas beiradas do rio, ele o encontrou, ao longe, já afastado da margem, de pé no seu barco, enquanto transportava uma alma, que claramente estava inquieta, espiando aos lados do barco enquanto o fazia sacudir, mas aí Kyungsoo começou a cantar com uma voz melodiosa, uma canção antiga de ninar, que acalmou a alma perturbada e aqueceu as bochechas e o coração de Jongin.

E isso nunca mudou. Kyungsoo notava todas as vezes, mas nunca perguntava o porquê, assim como não fez quando Jongin se aproximou e o chamou depois de um tempo o observando de longe, que claro, ele notou desde o começo, mas tinha algo incomum no olhar de Jongin, no qual Kyungsoo tinha medo de deixar florescer.

 — Por que não está no barco? — perguntou recostando no barco, enquanto observava Kyungsoo largar a madeira, cansado e irritado.

— Está emperrado, não está vendo? — respondeu ríspido, era óbvio o problema, e ele não estava no clima para tolices naquela situação.

— Mas por que ele está emperrado? — Jongin já andava blindado de algumas respostas assim, então ele só continuava a fazer perguntas, como uma criança curiosa.

— E como eu vou saber... — Kyungsoo se interrompeu percebendo que não tinha buscado o porquê de o barco estava encalhado na margem, então ele largou a traseira do seu bote e deu a Jongin uma gentileza da qual vinha abrindo cada vez mais exceções nos últimos dias. — É uma boa pergunta, porque não me ajuda a descobrir?

— Sério? Eu posso ajudar sim!

Animado demais para a situação, Jongin se escorou no barco em busca de algo que estivesse o mantendo encalhado, enquanto Kyungsoo momentaneamente se virou para poder analisar do lado de fora. Fora só um instante para ouvir um baque metálico no chão, Jongin tinha forçado um pequeno suporte para a lanterna, fazendo com que tombasse e se apagasse.

— O que você fez? — Kyungsoo voltou em passos pesados para perto de onde o desastre tinha ocorrido, onde sua lanterna de ferro voltou ao chão, apagada novamente, com as cinzas espalhadas pelo chão.

— Eu só encostei, eu juro, não sei como aconteceu — disse sincero, mas ainda sim com um desespero culpável na voz, que só fez a cara repreensiva de Kyungsoo crescer.

— Como você conseguiu fazer isso? Milênios com esse barco e nenhuma avaria, é só você aparecer que tudo se bagunça. — Irritadiço demais com a quantidade de almas que viu entrar no fundo do lago, com o caos que Sehun deixara para cuidarem, e agora sua lanterna, a única fonte de luz para si naquele lugar derrubada, Kyungsoo falhou em filtrar as palavras naquela bronca.

Jongin permaneceu em silêncio, só recolheu a lanterna derrubada, entrou no barco e se dispôs a tentar consertar. Era notável na mudança de atitude que tinha ficado magoado, Kyungsoo nunca tinha visto o sorriso dele desaparecer daquele jeito, como se não fosse voltar tão cedo. O barqueiro o acompanhou dentro da pequena embarcação, receoso do que dizer em seguida, vendo que Jongin ainda não tinha voltado a sua normalidade alegre e inabalável, começando a cantarolar baixinho em seguida. Não sabia bem se queria a atenção irritante do rapaz de volta, mas foi isso que aconteceu, assim que ele conseguiu encaixar o suporte da lanterna no lugar, Jongin se sentou ao seu lado com um sorriso orgulhoso nos rostos.

— Viu só, eu não só bagunço tudo. — Apesar do sorriso de lado, a mágoa na voz ainda era palpável.

— Eu não quis dizer assim, é só que... — Kyungsoo deu uma pausa buscando melhor as palavras e a coragem para dizê-las, ele endireitou as costas no barco. — Você é diferente desse lugar, às vezes até acho que nem pertence aqui e por isso a bagunça, você destoa de todo esse clima ameno, um pontinho de luz no meio dessa névoa.

— Mas eu gosto daqui, sabe? Das crianças, de você também — Jongin comentou desenhando pequenos padrões com os dedos no tecido que cobria sua perna, ele sabia que aquele gostar era mais do Kyungsoo poderia entender.

— Não disse que você não pode gostar, só que você merecia mais — o barqueiro segredou, algo que pensara da primeira vez que o viu, sorridente demais para si, humilde demais para uma Kitsune como Sehun, mais merecedor do que aquele destino aprisionado.

— Mais do quê? — ainda confuso, Jongin perguntou.

— Eu não sei ao certo, é só um sentimento, sabe? — No fim era só isso que Kyungsoo achava que era, um instinto que martelava a sua cabeça, desde que ficara preso ali, de que tinha uma saída. Mas já havia cruzado todo aquele rio, se tivesse ele saberia.

— Tenho vários desses, o tempo todo, no começo achei que fosse incapaz de tê-los, mas aí... — Jongin também tinha esses pressentimentos, às vezes eles sumiam quando se ocupava com as crianças, ou fingindo que aquilo era seu maior objetivo, óbvio que gostava, mas quando chegaria a sua vez de descansar?

— Aí? — Kyungsoo insistiu quando o rapaz se perdeu nas memórias.

— Eu lembro das coisas que me fazem feliz. — Não exporia quais em voz alta, mas as risadas das crianças, as lanternas do seu festival e a única canção que ouviu de Kyungsoo definitivamente eram suas favoritas e sufocavam as da vida passada que foram, sem dúvidas, feitas para serem esquecidas.

— Lembranças de antes daqui? — sem saber das coisas que rondavam a cabeça de Jongin, perguntou; ele mesmo tentando se lembrar, coisa que não conseguia. Não se lembrava de nada desde que chegou ali, às vezes pensava que nunca tivera sido nada além de um barqueiro, mas uma dor aguda no seu peito voltava como um lembrete que aquilo era uma lembrança de uma dor tão forte que ele podia não se lembrar da onde vinha, mas ela o acompanharia para sempre.

— Não — respondeu grosseiro, mas era sempre assim, um ódio momentâneo, um que ele cortaria tão rápido que não daria tempo de tecer na mente uma memória.

— Você tem boas memórias daqui? — Kyungsoo voltou a dizer, não sabendo como lidar com aquilo estranho e monossílabo que nunca via sair dos lábios de Jongin.

— Claro que sim, você não? — Voltou a encarar o barqueiro no canto dos olhos, o vendo suspirar pesado, esticando as pernas dentro do barco.

— Acho que não tenho desse tipo, na verdade, a eternidade é uma infelicidade pra mim. Eu gostaria de poder descansar, pra não ter esse sentimento que falta algo, ou simplesmente esquecer o presente também. Mas o além do túmulo me prendeu aqui, vivo para sempre.

— Você podia dar uma chance pro lugar. Desde que vim para cá nunca te vi longe das margens, tem coisas bem diferentes desse porto — Jongin disse enquanto se ajeitou no seu assento, acabando por ficar com os ombros encostados com Kyungsoo, e aproveitar da situação tão calma para recostar a cabeça no seu ombro. O barqueiro parou por um momento, assustado com a proximidade, fazia tempo que não sentia um toque quente assim.

— Talvez eu possa tentar.

— Você podia passar um tempo com as crianças, tenho certeza que vai gostar — Jongin sugeriu enquanto só sentiu o assentir com a cabeça, ele suspirou antes de continuar: — Eu gostaria de ter uma pra mim, como uma filha ou filho, criá-los, sabe? As alminhas sempre vão embora muito cedo.

Kyungsoo sentiu um aperto onde deveria ficar seu coração, sabia que era impossível, e doía saber que tinham certas coisas que nunca conseguiriam ali. Ele nunca conseguiria descansar, Jongin nunca poderia ter sua família, mas ainda assim ele nunca mais queria ver aquela expressão triste no rosto do rapaz.

— Seus filhos seriam extremamente bagunceiros, os mais barulhentos também — Kyungsoo comentou vendo Jongin se desencostar dos seus ombros indignado, mas o interrompeu antes que pudesse reclamar. — Mas se eles carregassem o mesmo sorriso, seriam os mais bonitos também, e se levassem sua essência, os mais preciosos.

Só conseguiu sorrir em resposta, tímido e sem saber como reagir a um tipo de Kyungsoo que até aquele momento não tinha presenciado. Voltou a deitar sobre o ombro do rapaz e sentiu ele rir pela sua timidez, e ele só fechou os olhos aproveitando o som da risada, que não tinha tanta oportunidade de ouvir do barqueiro, e a brisa costumeira no rosto.

Mas em milênios de constância, sentiram o vento mudar de temperatura quando o ar quente cortou por cima deles, os alertando de algo, uma fênix cruzou o céu em um feixe de aviso de que algo estava errado.

Decidiram por fim, receosos ao ouvir o som de patas dos animais se aproximando, seguir até onde o guardião estaria. Ao chegarem no templo, encontraram Sehun com os cabelos presos em uma espécie de coque desajeitado, alguns fios caindo na lateral do rosto e, nas mãos, panos úmidos de cor branca. Seu rosto não parecia indiferente como na maioria das vezes, as sobrancelhas exibindo uma linha grossa de expressão e a boca seca, mordiscada. Demorou para que visse Kyungsoo e Jongin se aproximando e assim que o fez, mexeu o queixo, indicando que deveriam segui-lo.

— O que houve, guardião? — Jongin andou rapidamente ao lado do outro, com as mãos atrás das costas e a voz trêmula. — Foi algo grave?

— Muito grave, Jongin. — Sucinto, Sehun deixou as toalhas acima da mesa da entrada do templo, erguendo as pernas para que conseguisse apanhar as pétalas de flores que ficavam em um pote de cerâmica amarelada na estante. — Chanyeol explodiu, de maneira literal.

Jongin e Kyungsoo se olharam, confusos.

— Ele está se recuperando no momento e não podemos prosseguir com a luta agora. De qualquer forma, as almas não vão vir nesse momento. É o que meus instintos indicam, ao menos. — Despejou as pétalas acima do tecido molhado e se limitou a piscar os olhos algumas vezes, sem encará-los.

— Mas o que de fato aconteceu? Foi culpa do Chanyeol? — Kyungsoo franziu a feição, olhando o guardião.

— Não. Não assim. Ele explodiu por conta de seus traumas, ao aniquilar algumas das almas impuras.

— Ele vai ficar bem? — O tom de voz de Jongin denunciava uma preocupação verdadeira e Kyungsoo sentiu aquilo. Levou uma das mãos, cuidadoso, até o ombro de Jongin, numa tentativa de tranquilizar seu ser.

— Vai. Já está ficando, vou cuidar dele. Preciso que se preocupem com o que estiver acontecendo ao redor. A situação está contida por um tempo indeterminado, mas não vai demorar muito até que encontrem… uma brecha. — As orelhas da Kitsune se moveram de um lado para o outro, pressentindo os ruídos feitos no andar de cima. — Preciso averiguar a situação do Chanyeol, vocês podem cuidar de tudo lá fora por mim?

Eles nunca diriam não, ainda que o medo rondava suas cabeças e eles estivessem absortos na desconfiança que a falta de respostas de Sehun pudesse significar.

— Agradeço, rapazes. — Moveu a cabeça positivamente, fazendo sinal para que pudessem deixar o templo. — Descansem e tomem cuidado com as almas perambulando por aí.

— Vamos descansar, guardião — sorriu Jongin, que apreciava os mínimos gestos gentis que Sehun demonstrava de vez em quando.  

Deixaram o templo com as mentes funcionando a um milhão, como se fossem feitos inteiramente de preocupação. Sehun não estava diferente, apesar de não deixar a postura sumir de si muitas das vezes. Subiu as escadas com a cauda enrolada no meio das pernas, balançando contra o vento que adentrava o templo repleto de frestas e buracos nas janelas bem iluminadas. Chanyeol havia pousado no topo do templo, onde Sehun teve que assumir outra vez sua forma natural para que conseguisse acompanhar seu ritmo, pulando com as patas sorrateiras pelo meio do local. Assim que o alcançou, sentiu pesar como não acontecia há tempos. As penas da Fênix foram, pouco a pouco, indo embora. O que restou foram apenas carne humana e sua derme levemente chamuscada, os cabelos escuros com algumas partes faltando e seus olhos se abrindo lentamente. Sehun teve de agir com a costumeira paciência para lidar com as dúvidas de Chanyeol outra vez. Só se lembrava das almas impuras chegando em bandos, mas nada de explodir e reacender como uma fênix outra vez. Explicou tudo aos poucos enquanto levava seu corpo pesado até a sauna, onde despejou água e algumas ervas para limpá-lo por completo.

Os pés de Sehun pisaram no fim da escadaria e ele enxergou Chanyeol, já acordado, tocando em algumas bolas de vidro que haviam acima da cômoda mediana do quarto de hóspedes. Por um segundo perdeu a compostura de guerreiro carrancudo e mostrou um Chanyeol doce e adorável a Sehun, que sorriu e adentrou o quarto, fingindo que não havia visto nada. Chanyeol, abrupto, retornou com os objetos à cômoda, rapidamente deixando uma das bolinhas escapar de seus dedos. A Kitsune foi mais rápida e a pegou em menos de dois segundos, brincando com os olhos bonitos na frente de seu rosto.

— Fui ver Kyungsoo e Jongin. — Sehun levou as toalhas úmidas até o peitoral de Chanyeol, sentindo o arrepiar de sua pele abaixo dos dedos. — Vão descansar e depois cuidar das almas a meu pedido.

— E o que não é a seu pedido neste lugar, guardião? — Ambos riram baixo, mas Sehun ergueu uma das sobrancelhas, líder.

— Não vamos começar com essa conversa de novo, vamos?

— Não, não. — Abanou as mãos, nervoso. 

— A dor passou? — Antes que Chanyeol conseguisse respondê-lo, ele tomou as mãos do guerreiro e as afastou do próprio corpo, podendo traçar os dígitos ali em busca de algum músculo, algum ponto de dor que estivesse visível em seu toque.

— Uhum. — Ele se limitou a não dizer mais nada, respirando difícil por conta de alguns hematomas nas costas.

Sehun começou a fazer o que deveria ter feito desde o início e checou a temperatura de Chanyeol ao encostar a palma das mãos em sua derme, notando como estava naturalmente morna e tirando um peso enorme de si. A Kitsune sabia bem que Chanyeol estava com mais minhocas dentro da cabeça do que qualquer outra coisa, e que todas as coisas que o fizessem se lembrar de minutos atrás poderiam fazê-lo acender em chamas novamente. E Sehun queria que ele relaxasse de alguma forma. Pensando nisso, moveu o braço até esticá-lo e pegar uma xícara branca e pequena, a enchendo de um líquido rosado com cheiro de pétalas de sakura. Chanyeol fungou levemente, como se o aroma tivesse despertado algo em si, e fez uma careta quando a Kitsune aproximou a borda de sua boca.

— Bebe, vai te ajudar a relaxar — sorriu sem mostrar os dentes, impulsionando a xícara para a frente.

Ele por fim aceitou de bom grado, mesmo que no primeiro gole tivesse estranhado o gosto adocicado demais. No terceiro, já estava encolhido no colchão, bebericando o líquido enquanto fechava os olhos. A bebida era um preparado quase que instantâneo que Sehun fazia para deixar de reserva quando ele, Kyungsoo e Jongin, ficavam estressados ou doloridos demais. Na floresta imensa, existiam muitos tipos de plantas e flores e Sehun se sentia grato por conhecer cada uma como a palma de sua mão. Decidiu encostar na parede também, soltando o cabelo que outrora estava amarrado, penteando alguns fios com as unhas longas. Chanyeol suspirou, aliviado, abrindo os olhos e pegando Sehun mexendo nos próprios fios. Estava cansado e queria uma massagem. A massagem que Sehun fizera si cairia bem outra vez, mas não teve coragem de pedir ao guardião, que exibia uma expressão tão serena que era difícil até querer respirar perto de si.

O estômago de Chanyeol começou a borbulhar e ele não sabia se era pela bebida doce, o desejo ardente de explodir em chamas ou o nervosismo de estar pensando demais em Sehun e deixando de pensar nas preocupações que o rondavam. Esquecia às vezes das questões que viviam na cabeça. Era complexo ficar voltando toda a hora para elas quando se tinha Sehun ao seu lado. No exato momento em que ele começara a pensar naquilo, as mãos do guardião foram parar na extensão de seu pescoço, acariciando aquela pele exposta com os dedos e se divertindo com as sobrancelhas franzidas do rapaz. Após ter trocado momentos íntimos com ele, não sabia o que mais esperar. O que mais poderia vir a lhe ocorrer, mas ele soube de uma coisa: que se derreteria em seus braços até não poder mais. Não tinha ideia se os presságios, a luta e o alvoroço recentes eram sinais de algo maior. E se fossem, Chanyeol queria mandá-los para o espaço. Pois assim que virou o rosto e encontrou os lábios de Sehun bem próximos aos seus, ele não pôde evitar retribuir o selar que se estendeu a partir dali.

Os toques de Sehun em seu corpo não eram precisos e ásperos, mas suaves e dispersos, indo desde a sua nuca, onde os cabelos estavam começando a crescer, até a cintura, onde costumava guardar as espadas forjadas por ele, e os toques pareciam apagar toda a carga que aqueles lugares carregavam. Todas as vezes em que sentia sua boca se colando em alguma parte específica do corpo, se arrepiava e as bochechas ganhavam um tom avermelhado. Os suspiros e arfares que deixou sair da garganta não foram nem meramente calculados, mas saíram como as explosões do corpo, impulsivas e quentes. Sehun arrancava o melhor de si, ainda que despropositadamente calmo. 

A ventania que percorreu ao longo de todo o lago fez com que Jongin e Kyungsoo ficassem com a pele arrepiada ao adentrar a água, confusos demais com todo o alvoroço que as almas estavam causando e, principalmente, por não terem noção nenhuma do que de fato acontecia. Estavam cuidando das criaturas perdidas havia algumas boas horas após terem descansado. Ambos dormiram abaixo das estrelas, na grama que ficava na montanha onde Chanyeol tinha entrado em combustão. As folhas verdes coçaram suas peles, mas eles tiveram um momento tranquilo, talvez uma paz superficial, quando fecharam os olhos e aproveitaram a companhia um do outro. Certo de que Sehun não diria o que estava acontecendo por ali, por não saber ou simplesmente não ter as respostas, Jongin preferiu acreditar que as coisas se consertariam em um período não muito distante, visto que era corriqueiro que as almas escapassem em quantidades imprevisíveis às vezes. Mas Kyungsoo, continuou como sempre, desconfiado.

Jongin ouviu um barulho estranho ao redor do barco onde ele e Kyungsoo estavam fazendo o transporte de algumas almas que começaram a se acalmar.

— Kyungsoo, ouviu isso? — Fez uma concha com a mão direita no ouvido, na tentativa de ouvir a origem do estrondo. Mais uma vez. — Ouviu?

Kyungsoo fez que sim, movendo os lábios como se estivesse tentando decifrar o que de fato havia caído na água. Ou estava abaixo dela, não tinha certeza. Para se certificar, foi breve nos movimentos, fazendo um gesto com o queixo, que Jongin entendeu como "cuide delas para mim", e Jongin assentiu. As jovens almas estavam com os globos oculares vazios e os rostos sem expressão, como se tivessem acabado de terem as próprias vidas sugadas de si. Não possuíam as curiosidades que Jongin sempre via, ou os sorrisos largos. Estavam distantes.

Movendo o corpo até que conseguisse enxergar a parte submersa do barco, Kyungsoo, que já estava há tempos acostumado com seu velho amigo, bateu algumas vezes na madeira para que tivesse noção se tinha sido algum perigo externo ou só um aviso. Caso fosse alguma espécie grande de peixe ele saberia dizer, afinal, o provável animal teria repetido o mesmo ruído de antes. Mas nada, apenas um estrondo pesado como se algo batesse e voltasse, em um tique-taque profundo. 

Suspirando, ele arregaçou as mangas e buscou na água, partindo do casco lateral até a beirada. Os dedos sentiram na madeira onde a água botava pressão e em menos de minutos conseguiu encontrar de onde vinha. Não era algo pequeno como esperava, ainda que soubesse ser pesado. O objeto que se revelou era um baú. Um baú dourado que cabia nas palmas das mãos e enferrujado em algumas partes, como se fosse uma moeda antiga e que precisasse de reparações. Kyungsoo nunca prestou atenção em como as coisas naquele local pareciam velhas até enxergar o baú em questão.

O pegou em mãos e levou até o solo do barco, onde Jongin, achando curioso, foi de encontro. As bochechas regadas de vermelho pelo frio incomum que se intensificava, deixou um meio sorriso nos lábios, incentivando Kyungsoo a abrir o objeto. Não que algo nocivo fosse sair de dentro do compartimento, mas sentiram um estranho sentimento nas entranhas. O mesmo que Chanyeol sentia todas as vezes em que renascia como uma fênix, quando explodia e compartilhava inúmeros dejavus e memórias perdidas sobre quem era antes de tudo. Eles apenas não faziam ideia de que compartilhavam a mesma sensação.

— Você vai mesmo abrir isso hoje ou…? — Apressado, Jongin juntou uma das mãos ao ombro de uma jovem alma, como se a acalentasse, prestando atenção em seus movimentos flutuantes.

— Se acalme, Jongin. Por favor. — Jongin assentiu, rolando os olhos.

Quando Kyungsoo o abriu, o barco se remexeu em uma intensidade violenta, fazendo o corpo de ambos cair no solo, deixando as almas alvoroçadas novamente. De repente uma voz grossa e alta preencheu os ouvidos de todos ali, inclusive as almas atordoadas, que não sabiam para onde olhar ou prestar atenção. Jongin não saberia dizer quem estava mais perdido com toda a situação.

A voz parecia estranhamente familiar, mas ao mesmo tempo estrangeira. Um sotaque diferente arrepiou os pelos do corpo de Jongin, que tocou o braço de Kyungsoo e o fitou profundamente. Estavam com aquele sentimento outra vez. Até que de súbito, os sussurros graves da voz começaram a tomar corpo, ganhando as palavras e fazendo sentido na cabeça de ambos. Alguns fios dourados de um amarelo forte começaram a sair da caixa, tomando rédeas no ar e fazendo o desenho de uma figura robusta e firme. Ela passou a dizer que explicaria o porquê de estarem ali, e o porquê de tudo estar ocorrendo como das últimas horas. Do último dia.

"Mesmo sem um nome, seu Guardião se levantou em seu trono. Em um templo sem habitantes. A Kitsune de cauda esguia e orelhas sorrateiras sempre teve um propósito e sempre soube ao que servir. Sehun nunca esteve como o resto de vocês, vagando para lá e para cá. É por isso que exatamente desde sempre quis que alguns em especial ganhassem propósitos diversos. Kyungsoo fora o primeiro, sua vida toda foi acompanhada de uma doença que o carregou para o túmulo, ele chegou diferente das outras almas, para ficar como Sehun, já que um local como este não poderia permanecer vazio nem se quisesse. A primeira pessoa a trazer as almas em nosso gigante lago."

Os olhos curiosos e arregalados de Kyungsoo ficaram pesados com a revelação. Para si, sempre esteve junto de Jongin e Sehun. Mesmo com o sentimento de confusão às vezes, jamais imaginaria que fora o primeiro, após Sehun, a habitar aquele local.

"Mas as pessoas levadas aqui, literalmente almas passando para seu pós-vida, estavam insanas. Algumas, mais do que outras. Mas o que preocupava seu grande guardião eram as jovens. As crianças que precisavam de uma figura, assim como elas, jovial e pura. De sorriso belo e atitude passiva. Assim trouxemos Jongin, nosso querido Jizo. "

Jongin apertou o braço de Kyungsoo com uma força descomunal. Sem saber o que pensar.

"Para Sehun, a harmonia estava criada ali. Sabendo que jamais poderia deixar este local, fez então do templo um lar para si e seus dois companheiros, ainda que a eles não fosse revelado muita coisa. Após um período enorme de sofrimento e tranquilidade andando lado a lado, uma ave sobrepujou os céus. Desta vez, era Chanyeol. Ele não veio com um aviso prévio ou algum propósito, mas Sehun tentou encontrar em suas chamas uma razão para que estivesse entrado no maldito purgatório. Porque é isso que o ambiente todo representa. O que ele é. Um purgatório recluso como uma redoma sem chave. Mesmo sem ideia do que a fênix fervente poderia significar, Sehun passou a conhecê-lo melhor, dedicando seu tempo a estudar os gestos e memórias que apareciam na superfície às vezes. Tentando, de alguma forma, descobrir quem ele era. E apesar de aparentar saber de tudo o tempo todo, Sehun sempre foi um mero personagem. Assim como todos vocês, que passaram e que passarão um dia pelo purgatório. Vocês carregam suas sinas e com elas, constroem o fim de sua vida, no além-vida. O elemento surpresa para nosso Guardião foi a aparição dessa fênix. Uma falha no meio de tantos ciclos, repetições e tradições. O que virá é nada mais do que o imprevisível, o fim."

E com esta fala, Kyungsoo e Jongin ficaram a pensar. A palma da mão de Jongin ainda firme na alma vagante e seus pensamentos pulando de memória em memória, revisitando aquilo que conhecia e se sentindo um rolo por não ter desconfiado de nada, como Kyungsoo fazia. As expressões raivosas queimavam na face deste, que se provou nunca estar totalmente errado e alheio, desconfiado de Sehun desde o primeiro momento em que sentiu sua presença. Quando abrira os olhos pela primeira vez naquele mundo e em seu barco fora agraciado pela voz melodiosa de seu Guardião. A frustração que elevou em seu peito não era apenas gigantesca, como também avassaladora, deprimente e além de tudo sem esperanças.

Diferente dos agradáveis sons das respirações que os embalaram o sono, os murmúrios desesperados os despertaram pela manhã. Um coral desesperado e atormentado se arrastava por todo o vale. As orelhas de Sehun captaram o perigo antes mesmo que seu corpo despertasse. Depois de sentir ter relaxado toda uma eternidade, uma maior da que havia vivido ali, experimentou tudo voltar de uma vez quando se levantou, ainda despido da maior parte das suas vestes, e pode ver pela fresta da entrada do templo, centenas das almas, grupos de almas, elmos e armaduras fundidos como uma única entidade, guerreiros sem identidades vistos só como soldados descartáveis que se juntaram em desespero de pertencer. Almas mais comuns mas em desespero igual a todos os outros, todos de algum grande confronto de guerra que superlotavam o pós-vida em busca de descanso. 

Todas essas pareciam vir de um único local, e Sehun pela primeira vez em toda sua estadia naquele lugar, se sentiu impotente. Ele nunca soube o que o fim na profecia que tomou conhecimento significava, uma droga de enigma, sabia que a fênix seria o mártir de algo, mas não se incomodou quando chegou e era só mais uma alma atormentada. Mas aquilo era definitivamente a visão do fim. Um fim de ciclo? Um fim da solidão? Um fim do reino que nunca tinha sido seu, mas que tomou posse? Não sabia, mas a prepotência que criou naquele lugar, falava mais alto, tinha que parar de alguma forma. 

Então ele respirou fundo vendo seu guerreiro ainda dormir tranquilamente, com o sono tão pesado e finalmente tranquilo, que nem os murmúrios que sempre o assombravam pareciam o atingir. Precisava ir sozinho e por isso se transformou e seguiu caminho para fora, sendo facilmente avistado pelas almas. Se as de antes pareciam tristes e murchas, essas eram a personificação da guerra, do ódio, de vidas tiradas cedo demais, por um conflito que não era deles. Sentia de relance uma ou outra mão raspar rente ao seu pelo, mas era mais ágil e inteligente, mas quando mais parecia chegar perto de onde a viam, a concentração se tornava mais espessa de se desviar.

O esforço todo foi em vão, não conseguiria passar todos eles, mas dava claramente para ver de onde eram invocados, de todos os lados da floresta de onde Chanyeol saiu, milhares deles, desde o começo da guerra. Provavelmente adormecidos e cansados de tanto vagar por aquela floresta sem fim, e despertados pela chama viva que a fênix acordou naquele lugar, todas elas tentaram se dirigir à luz de uma vez só. Sehun sentiu a garganta amargar por pensar aquilo, mas naquele momento só sentiu ter um jeito de resolver aquilo e restabelecer paz no seu reino, devolver Chanyeol de volta para sua floresta e deixá-lo lidar com a sua parcela das almas. Ele devia ter percebido antes aquilo, assim como Kyungsoo cuidava das enfermas, Jongin das inocentes, Chanyeol acabou ficando com o mais dos pesares: as traumatizadas.

Ele tentou buscar outras ideias, outras resoluções ou desistir da ideia, mas uma voz o chamou de longe tornando impossível arrumar mais desculpas. Se existisse uma forma de pecar no pós-vida, Sehun sentia que aquele era o maior que ia cometer contra si mesmo.

— O que está havendo? — A voz de Chanyeol soou mais alto do que os gritos e os lamentos, enquanto ele se esforçava para abrir caminho entre as almas, empunhando suas lâminas contra elas, era um jeito de as entregar a paz afinal.

— Você não me contou que a floresta estava infestada de almas atormentadas. — Sehun voltou a forma de homem ainda naquela dança desviando das almas, mas continuava na mesma distância, incapaz de chegar mais perto para fazer o que precisava ser feito.

— Mas não estava, eu encontrei somente uma e ela estava no máximo perdida e abatida — Chanyeol continuou a gritar em resposta entre os golpes desbravando o caminho em direção ao guardião, desesperado por não ter uma resposta continuou a árdua tarefa de gritar e lutar. — Nós podemos dar conta disso, vamos dar um jeito.

— Vamos sim — disse quando o guerreiro chegou perto o suficiente para a floresta e Sehun sussurrar para si. — Me desculpe.

Chanyeol não teve tempo nem de indagar, ou respirar, só sentiu as mãos contra o peito, não da forma que sentira nos últimos dias. Um empurrão certeiro, de volta para o dentro da floresta, que doeu mais do que o machucado quase sarado, quando sentiu a manada das almas passarem por si, enquanto ele lutava por extinto contra elas, a cabeça tomada de dúvidas nem lhe conseguia aquecer de ódio já que esfriará de decepção.

Não teve um momento em que o Guardião não se arrependeu, imaginando que as almas estivessem buscando se apaziguar e iriam acabar voltando para quem faria isso na floresta. Vagou pelo vale, que vinha a cada segundo ser mais inundado delas, algumas indo direto para o rio, enquanto enxergava ao longe o barco de Kyungsoo, transportando somente duas pessoas. Todos tinham desistido dele, quem não tinha feito, ele havia entregado as trevas, pela sua ganância de permanecer ali reinando eterno. A soberania não valia a dor no seu peito ou a cabeça atormentada.

Era uma via de mão única perecer sozinho no final daquela estrada, por sua própria culpa. Ele não queria aceitar, seria tarde demais para buscá-lo, e nem se fizesse, nunca seria perdoado, nem se achava merecedor, mas não deixaria o permanecer naquele terror assim. Ele voltou na sua forma de raposa pelo mesmo caminho que fez, cada vez mais lotado, tanto que as almas pareciam se fundir umas nas outras totalmente escuras, já sem feições, só gritos e uma movimentação de massa liquefeita que se espalhava pelo chão, absorvendo tudo. 

Ele pulou por onde conseguia estabilidade, vez ou outra sentindo as patas afundarem naquela massa, até que ele encontrasse um resquício de qualquer coisa que não fosse escuridão, e se não encontrasse, deixaria ser absorvido junto do vazio. Ele pode ver Chanyeol ao longe, com uma única chama acesa ainda lutando precariamente, involuntariamente pela sobrevivência, de cabeça baixa e olhar desfocado, desferindo golpes como um zumbi sem vontade. Continuou a correr até ele, esperando o encontrar enquanto ainda tinha algum resquício dele ali, mas o viu cair de joelhos assumindo a derrota que era destinado no mundo dos vivos e ali.

O massa consumia o mundo para dentro dela, Chanyeol afundava pelos joelhos, largando as armas e fechando os olhos esperando o fim, pelo menos aquele ele sabia como estava vindo. Decepcionante e traído.

Mas sentiu um par de mãos o segurar pelo rosto, imaginou que fosse alguma alma que ainda restava mãos, mas a quentura era real demais. Se rendeu a acreditar uma última vez, abrindo os olhos para encontrar Sehun de olhos marejados. Não sentiu raiva, estava decepcionado mesmo o vendo ali, mesmo que tivesse voltado, e ainda sim estava feliz de que ele tivesse feito.

— Eu não mereço seu perdão, mas pelo menos agora toda dor vai passar — Sehun disse ainda sentindo o desespero gritar pelo medo da inexistência, Chanyeol não parecia capaz de responder, mas sua expressão parecia serena quando levou a mão no mesmo gesto de carinho ao rosto do guardião. — Espero que em outra vida, se é que mereço uma, possa concertar isso.

— Nós não precisamos nos esforçar, só descansar. — Chanyeol sentiu uma lágrima solitária descer pelo seu rosto. Morrer ainda era morrer, e era assustador, mas ali, daquele jeito ainda parecia mais calmo do que toda sua vida. — E se for desse jeito, entre suas mãos, está tudo bem.

Não sentiam muito mais de seus corpos, a massa já quase passava dos ombros, desaparecendo aos pouquinhos. Mais uma última vez, de olhares grudados e uma expressão serena, se beijaram uma última vez. A última essência de suas existências sendo aquele perpetuar do amor nos seus últimos clarões de memória, que permaneceu vivo até que aquele vazio líquido tivesse absorvido todo o rio, seus últimos habitantes do barco, para o descanso eterno.