Work Text:
Raios de sol penetram o cômodo por entre as cortinas brancas, banhando o corpo de dois homens.
O leve incômodo causado pela luz quente faz Dante acordar. Ainda mergulhado na sensação inebriante do sono, ele não abre os olhos torcendo para que o calor o faça dormir novamente.
Se mexendo para maior conforto, o loiro sente uma brisa suave em seu rosto. Abrindo os olhos para descobrir a fonte do vento, Dante acaba de frente para o rosto adormecido de seu marido.
Um sorriso gentil se forma em seu rosto. A respiração suave e o subir rítmico do peito do músico é algo calmante.
É diferente de ver Gal acordado. Quando está dormindo ele fica mais relaxado, quase como se dormir com seu parceiro resolvesse os problemas de estresse que seu trabalho causa.
É bonito, para dizer o mínimo.
O médico fica ali, observando seu marido por mais alguns minutos. É sábado, não tem motivo para levar cedo, mas conhecendo Gal, é provável que ele fique na cama o dia todo. O que não seria um problema se ele levantasse para comer.
Eles precisam levantar ao menos para se alimentar.
Mas é realmente necessário acordar ele?
Depois de mais cinco minutos olhando o rosto – principalmente os lábios – do moreno, Dante decide acordá-lo. A ideia inicial era dar um beijo de bom dia, mas fazer isso com uma pessoa desacordada não é exatamente o que ele considera algo animador.
Desistindo de acordar seu querido com um beijo, Dante leva uma das mãos ao rosto do outro para o acordar.
“Sem beijo?”
O tom descontente e rouco que vem do homem de cabelos negros faz o médico abrir um sorriso ainda maior. Sua mão descansando na bochecha e lábios de Gal.
“Achei que você 'tava dormindo…”
A voz igualmente rouca responde com carinho.
“Eu 'tô acordado, não 'tô?”
“Você pode pedir um beijo de um jeito normal, sabe?”
“É melhor quando você me beija.”
Em um sorriso derrotado, Dante tira o polegar dos lábios macios de Gal e fica a milímetros da boca do outro.
“Você não vai me beijar?”
“Eu 'tô me preparando, calma.”
Cada uma das palavras pronunciadas faz seus lábios se roçarem. A atmosfera tranquila faz o médico desejar que esse momento dure para sempre, em contrapartida, o toque fantasma tortura Gal.
‘Ele não vai me beijar.’
Na verdade, Dante iria beijar ele. O único problema é que ele não foi rápido o suficiente para isso.
Gal quebra a distância tortuosa entre seus lábios. É um beijo casto, algo gentil e amoroso.
Ao menos, era casto. Gal aprofunda o beijo com um sorriso divertido, afinal, ele sentiu seu marido estremecer quando apertou levemente a cintura do loiro.
É ridículo, fazem 15 anos que eles estão juntos. Mesmo assim, Dante tem as mesmas reações com as mesmas coisas todas as vezes.
O mesmo rosto envergonhado quando se beijam, o mesmo arrepio quando Gal toca seu pescoço, os mesmos suspiros e até o mesmo jeito que seus braços sobem para o pescoço do moreno.
Gal ama esses hábitos.
Não é à toa que ele está sorrindo quando se separam.
Depositando beijos no rosto e pescoço do médico, Gal deseja poder ouvir esses suspiros para o resto de sua vida.
“A gente tem que tomar café…”
Ele parecia relutante em falar isso. As mãos apertando os ombros de Gal mostram-no que ele realmente não queria se separar.
“'Cê 'tá com fome?”
Descansando o rosto na clavícula de seu amante, Gal pergunta, deixando mais alguns beijos pelo local.
“Hm..um pouco na verdade…”
“Tudo bem.”
Nenhum dos dois tenta se levantar até que o estômago de Dante ronca.
“Acho que você precisa comer.”
“Mais cinco minutos.”
Os braços fracos do loiro abraçam o pescoço de Gal, que sorri com a ação.
“Você tem que comer, príncipe.”
“Ok…”
Em um longo suspiro, Dante se levanta, sendo seguido por Gal. Eles estão casados a sete anos, é pouco tempo comparado a outros casais, mesmo assim o músico ainda é grudento.
Andar com um homem de 1,85 te abraçando não é uma tarefa fácil, mas Dante a cumpre com prazer todos os dias. Ele que cozinha, afinal, Gal é péssimo nisso – uma vez Gal conseguiu acionar o alarme de incêndio tentando fazer um bolo de caneca.
Ao chegar na sala de jantar, o médico se depara com uma mesa de café da manhã já posta.
Há fatias de bolos, croissants, pães e frios, café e chá, além de um lindo vaso com várias flores azuis – que ele reconhece como algumas hortênsias, jacintos, miosótis e delfinos.
A voz rouca de seu marido e o hálito quente dizem “Feliz aniversário de namoro.” em seu ouvido.
Aniversário de namoro.
Gal ainda vai fazer Dante entrar em combustão algum dia.
Do ponto de vista dele, com base no pescoço e orelhas vermelha, esse dia não está muito distante.
“Você não gostou?”
“Não…não é isso…”
“Então?”
“Você é terrível.”
Se separando do abraço, Dante olha com carinho para as flores.
“Eu pedi ajuda da Bea pra escolher.”
“Eu imaginei.”
Os braços do músico giram em torno da cintura fina do médico. Um beijo sendo depositado na nuca do homem.
“Queria fazer o café pra você hoje…”
“Só isso?”
É fácil sentir o sorriso dele.
“Sim.”
“Você não vai comer?”
“Mais cinco minutos e eu vou…”
Não, não são só cinco minutos. Eles acabam comendo no sofá da sala, enquanto assistem a um programa de desafios apresentado por Arnaldo Fritz. Dante comendo e, vez ou outra, garantindo que o homem urso que o raptou esteja se alimentando também.
Mais tarde Gal tem que responder a perguntas como “Quem te ensinou a cozinhar?” e “Você quer que eu te dê aulas também?”.
Sempre dizem que rotinas estagnam um relacionamento, mas Gal não poderia estar mais feliz de viver na serenidade com seu parceiro.
