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Penso que o fato mais engraçado de ser prodígio, é o dia que você nota isso.
Lembro-me exatamente da hora que tomei consciência que toda minha família sussurrava elogios para meus pais, que sorriam orgulhosos. Apesar de toda aquela felicidade, estava chovendo. Chovendo tanto fora de casa, quanto dentro de mim.
E depois daquele dia, com uma extensa lista matemática feita na minha frente, eu descobri que meu destino já estava traçado.
Logo eu, que não acredito em destino.
Segunda-feira, 25 de agosto de 2062
Era meu primeiro dia de aula do terceiro ensino médio que eu fazia. Era cedo demais, perto demais, pesado demais, complicado demais e exaustivo demais. Mas eu já estava ali de qualquer forma e não era por mim… Quer dizer, de certa forma, era. Mas principalmente, pela humanidade… e pela minha família.
- Namjoon, você tem que chegar na escola antes! - Eu ouvia minha mãe, que falava de forma autoritária. Muitas vezes eu me perguntava porque simplesmente eu não poderia ter me mudado sozinho para Nova Alasca, a tal cidade revolucionária na parte menos fria do Alasca, que já beirava os 5° graus no fim do verão.
- Estou pronto, mãe - eu apenas murmurava a resposta, desinteressado o suficiente para nem notar que minha gravata estava torta, fato que apenas notei após minha mãe chegar e ajustá-la em volta do meu pescoço.
- Você é tão desajeitado, meu filho! - Ela disse, em uma súplica. Era um fato em minha vida que a inteligência era o único ponto forte em mim, todo o resto era medíocre demais para ser relevado em texto. Minha mãe botou as duas mãos em meus ombros, encarando meus olhos de forma que me obrigasse a desviá-los - Mamãe está orgulhosa de você, tá bom? Nós só estamos aqui por sua causa… Mas você tem que ter um senso de moda, meu filho! - Ela ajeitou meu cabelo, o que basicamente significava um cabelo lambido para baixo.
- Até mais tarde, mãe.
Ela sorriu e deixou dois tapinhas na minha cabeça. Fui até a porta e fechei-a, indo até o elevador e descendo enquanto bagunçava meu cabelo no espelho. Tirei de minha bolsa de carteiro azul escura um suco de laranja de caixinha e rompo a embalagem de papel do canudinho, jogando-a no lixo perto da saída do prédio.
A minha rua não tinha nada de diferente de todas as outras ruas da cidade que não habitavam mais de 3.000 pessoas sortudas. Os prédios têm 20 andares, brancos e com alguns ladrilhos coloridos, sendo a única diferença. Meu prédio era o “Verde, J3”, ou seja, estava na rua J3 e tinha a cor verde, algo definitivamente nem um pouco criativo. As ruas eram calmas, calmas até demais para alguém que morava em Seul. Mas o que deixava tudo um pouco mais falso, sombrio e desconfortável (em minha opinião) era a barreira protetora, uma grande barreira magnética com plasma que imitava a luz solar e, de quebra, soltava um calor agradável para o clima ainda frio do Alasca. Havia poucos alunos da OVFA andando pela minha rua. OVFA, única e mais aclamada escola de ensino médio (conhecida como High School).
Era uma escola peculiar, eu diria. ONU Vanguard of Future Academia, basicamente, A Academia da vanguarda do futuro da ONU, algo que é bem promissor.
Meu primeiro ato ao descobrir que ia para essa academia, foi entender e aceitar que eu faria parte da “Vanguarda do Futuro”, que basicamente significa uma linha de frente, como as de guerra. Inimigo? O futuro.
Em 2062, poucas coisas poderiam impedir os humanos. Animais selvagens? Esses mal existiam. Acidentes? Nunca! Os automóveis completamente computadorizados tomavam conta do trânsito. Brigas de rua? Os drones te observavam e não queriam saber o que acontece se te pegarem.
Mas havia uma coisa que os humanos não poderiam impedir pois não havia medo que interferisse. A mais pura e bela natureza em sua forma mais impiedosa, os desastres naturais.
E essa cidade, Nova Alasca, foi projetada unicamente para tomar conta de algo que não podemos, o aquecimento global e desastres generalizados. O aquecimento global apenas aumenta mais a cada ano, um aumento absurdo e extremamente rápido que precisa ser contido de forma quase que desesperada. A trinta anos atrás, ainda haviam cidades enormes litorâneas que hoje em dia se encontram completamente submersas pela água cada vez mais abundante com o derretimento das geleiras. Nisso a antiga cidade de minha mãe, Busan. Também havia cidades como Rio de Janeiro e boa parte da Flórida (contando com todo o terreno de Miami) que hoje em dia apenas dá para ver coisas extremamente altas, como o Cristo Redentor e o topo de alguns prédios.
Por isso a famosa Vanguarda do Futuro foi criada. Uma organização de gênios e bilionários que fazem de tudo, ou pelo menos dizem fazer, para impedir mais desastres. E nisso se formou a OVFA, uma escola exclusiva para pessoas com mais de 150 de QI ou que consigam pagar 500 mil dólares por mês e manter notas altas.
Nasci em uma família pobre e estar lá era quase um sonho! Ser eu, em geral, era quase um sonho. 161 de QI, o mesmo número de Einstein.
Lembro-me de que ao o resultado do meu teste dar tão alto, minha família comemorou. Meus primos simplesmente partiram a me odiar e meus tios, me idolatrar. Eu era a carta da loteria deles, um alfinete no meio da palha que finalmente foi achado. Mas enquanto minha família festejava com litros de álcool e músicas altas, eu com meus seis anos me perguntava:
“Por que minha família está tão feliz?”
E foi nesse pensamento que eu cresci e agora estou aqui, servindo puramente e unicamente como moeda de troca para uma boa vida a todos os meus parentes. Meu unico dever é me matar de estudar para conseguir manter minha vaga na escola, fazendo relatórios e debatendo continuamente porque dessa forma, minha familia receberia moradia de graça.
E é por isso que preguiçosamente passei pelos portões da OVFA meio nervoso ao ver meus dois primos mais velhos me esperando em uma pilastra da grade que rodeava a construção. Minha tentativa de fugir de fininho não adiantou, pois ouvi um assobio alto e já sabia o que ia acontecer.
- Oh ET quatro olhos, vem aqui! - Sangwoo gritou em coreano, o que me fez ir até lá trincando o maxilar, aqueles dois me irritavam profundamente. Sangwoo e Han, gêmeos com 20 anos e que vivem totalmente pelas minhas custas - Vê se tu arranja uma ervinha ‘pra nóis, moleque.
- Eu não vou catar maconha pra vocês. E se me dão licença, eu tenho que fazer algo para manter vocês aqui - respondi também em coreano, murmurando um "vagabundo filhos da puta” em inglês, língua que eles não sabiam muito bem ainda.
- ‘Coé ET - Agora foi Han, levantando o skate e o segurando embaixo do braço - ‘Tá chapando? Respeito com os mais velhos, moleque ingrato!
- Ingrato é você, seu filho da puta - falei em um tom normal, tentando não transparecer minha raiva - Se você se encontra tão incomodado, porque não para de viver às minhas custas e vira homem?
Dou as costas para eles, andando normalmente para dentro da escola. Caminho até o banheiro, olhando de canto a canto e tentando mentalizar padrões. Era óbvio quem era bilionário e quem era inteligente. Os bilionários podiam ir com qualquer roupa que quisessem, pois assinavam um contrato para, qualquer foto postada, marcarem a escola (a famosa influência de rico). Já quem não tinha dinheiro para isso, nem influência, permanecia com os uniformes constituídos de roupas quentes e confortáveis da cor verde, sempre com uma gravata preta e uma blusa social.
Definitivamente o ambiente era completamente diferente da escola passada, em que simplesmente haviam pessoas nem aí para o ensino, gritando e rindo uns com os outros nos corredores. Mas naquele lugar, logo no primeiro dia, era possível sentir uma grande desconfiança uns dos outros, como se estivéssemos em um grande reality show e houvesse um culpado entre eles.
Os nerds (que se constituíam na maioria da escola) não comentavam filmes e seriados geek, muito pelo contrário. Alguns sentavam nas cadeiras flutuantes espalhadas pela escola e meditavam, fiquei extremamente surpreso ao ver aquilo, pois eu nunca havia visto alguém meditar assim. Outros, sentavam em seus cantos e revisavam seus horários. E puxa vida, nunca tinha visto tanto nerd lindo na minha vida.
Inspirado na ação de revisar, fui até o armário que foi me indicado por holo-mail, sendo este o 81. Abri o armário com minha digital, enfiando lá dentro minha bolsa após tirar meu holo-computador, que se consistia em apenas uma tira parecida com uma régua de 15 centímetros, mas mais espessa e com a cor branca. Pego uma mesa holográfica, um quadrado 4cmx4cm que vinha com uma caneta compacta dentro. Era apenas clicar o botão em cima e apareceria uma mesa com várias opções do que fazer, o que era prático para criar mapas mentais.
Enfio tudo no bolso da calça, fechando meu armário e me mexendo. A sala de cálculo ficava no primeiro andar, ou o térreo, dependendo de como você quisesse chamar. Os armários ficavam ao redor da construção, perto da floresta ecológica que rodeava toda a cidade. Então para entrar, era apenas buscar a entrada mais perto. Entro e vejo várias pessoas andando em direções diversas, tudo muito quieto e até meio sabático. Fiquei pensando se havia algum tipo de regra para não ser permitido conversar nos corredores, tipo a regra de correr.
Entro na sala de cálculo, me sentando em uma das partes que era possível se apoiar na parede translúcida, com falta de opacidade o suficiente para ser capaz de olhar para fora. A aula começa às 8 e são 7:55. Um bom horário para chegar. Tiro minha mesa holográfica do bolso e dou um toque em um pequeno botão, que ativa só com o meu toque. Assim abre uma pequena superfície holográfica com alguns ícones aparentes, como os ultrapassados celulares. Clico no bloco de desenhos, tirando a caneta de dentro do pequeno quadrado e começando a rabiscar algumas coisas aleatórias.
Primeiro uma folha de maconha, com as linhas meio tortas e felpudas. Sem significado algum, apenas acho a estética interessante. E talvez sempre tivesse tido a curiosidade de como era a sensação de estar chapado, mas nunca, jamais conte isso para a minha mãe. Mas é uma ideia que só passa na minha cabeça, não sou afim de drogas, juro.
Depois desenhei um menino, com um piercing na língua (no caso ele mostrava a língua) e no nariz. Ah, como eu queria ter piercings. Ser inteligente é muito difícil quando você quer parecer um marginal.
Comecei a desenhar um morango com óculos escuros, desenho sem fundos subliminares, quando o professor de cálculo chegou e finalmente notei que a sala estava cheia. Do meu lado, estava uma menina chinesa (Consegui identificar por conta dos padrões asiáticos) e uma menina russa atrás de mim, ambas me encarando com a força do ódio. A russa era bilionária, dava para ver apenas por analisar seu vestido da Chanel, que poderia muito bem ser considerado um outdoor inteiro da Chanel. Já a chinesa, era inteligente.
Peguei meu Holo-computador, o ligando da mesma forma que a mesa, qual eu movi mais para o canto. Apareceu o teclado rosa claro holográfico (com uma mistura de plasma, de forma que desse a sensação de estar tocando) e uma tela branca, que logo se transformou na página inicial do computador.
Passei a aula toda desconfortável e tenso, pois o olhar das duas estavam focados em mim a todo momento. Cheguei a catar um espelho na mesa holográfica, para ver se havia algo de errado no meu cabelo, não tinha, então apenas continuei tentando não ligar enquanto fazia os exercícios que surpreendentemente não eram tão difíceis quanto eu achei que seriam.
Acabou a aula 50 minutos depois de começar, levantei, fechei minhas coisas e meti no bolso, arrastando a cadeira confortável para debaixo da mesa com o pé e a ajeitando para sair do local com a mão no meu bolso. Mas ao passar pela porta, sou barrado pelas duas meninas.
- Sou a China - Diz a russa.
- Sou a Rússia - Diz a chinesa.
- Você sentou no meu lugar - O sotaque russo da menina me fez soltar uma risada anasalada, não pelo fato do sotaque (já que o meu não é dos melhores também) mas pela ironia geral de alguém se chamar China e ser da Russia e alguem se chamar Russia e ser da China - Tá rindo de que, seu bocó?
- Me perdoem, só achei o nome de vocês geopoliticamente engraçado - Falei, balançando a cabeça para tirar a franja da frente dos olhos - Mas posso trocar de lugar com a… - ponderei por alguns segundos o nome dela, raciocinando um pouco até chegar na conclusão - China.
- Obrigada - Diz Rússia, pegando na mão da amiga e saindo dali.
Dou de ombros, sorrindo internamente com a situação diferente. Olho para os cantos, abrindo o meu holo-mail para checar onde e o que era minha próxima aula, descobrindo que era música, no segundo andar.
E assim, depois de mais duas aulas, finalmente teve a primeira pausa. Com a grade de aulas, era possível ver que haviam duas pausas para lanchar ou descançar e uma do almoço, todas tendo uma hora de duração, o que era de fato extremamente pacifico, pois não era corrido como nas outras escolas, em que eu tinha que enfrentar filas gigantescas para conseguir pegar meu humilde lanche e, nessa, perder o pátio inteiro, enfiar a comida goela abaixo e voltar para a sala.
As coisas no mundo afora ainda eram muito mais primitivas do que em Novo Alasca. Lá as comidas vinham via tubos de ar, onde você poderia estar em qualquer canto da escola e no fim dos corredores (nas paredes com janelas para ver os arredores) havia um catálogo em que você poderia escolher o que queria e de uma pequena máquina transparente provavelmente de acrílico sairia. Isso era para comidas em saquinhos e congeladas, caso você quisesse algo quente, era apenas ir em algum refeitório que tem em todos os andares, rápido o suficiente para não formar filas.
De certa forma, não existia lugar mais pacificamente calmo do que aquela escola. Peguei meu relógio e abri o messenger, fazendo um vídeo pedindo um salgadinho de gergelim com queijo, que logo chega na minha mão. Mando para meus amigos de Seul, com um “chorem, geração passada” que é respondido por vários emojis de dedo do meio e palavras de baixo calão.
Todos os meus amigos eram, em média, 3 a 4 anos mais velhos que eu, todos maiores de idade. Nisso, eram incluídos o Hoonie, a Maria e o Taeyeong. Poucos amigos pra alguém que fez 2 ensinos médios, mas eles eram os famosos “De verdade”, apesar de não conversarmos tanto.
Peguei meu salgadinho e o abri, fechando a aba de mensagens com um balanço no pulso e comecei a andar por ai. Analiso as salas, criando um mapa mental da escola por onde eu andava. Lembro que no segundo andar tem várias salas de esporte, então ando por aí até, finalmente, encontrar a sala de piscina. Entro lá e observo duas grandes piscinas olímpicas com algumas pessoas nadando na pausa. O cheiro de cloro era forte, mas não tanto para me incomodar. Vejo que em cima das piscinas haviam várias plataformas de sustentação, com escadas para ser possível a manutenção das lâmpadas.
Naquela hora, faltando 40 minutos para o fim da pausa e o início da aula de artes, eu decidi que seria uma ótima ideia subir lá em cima. E dito e feito, subi rapidamente, com medo de estar fazendo algo proibido. Lá em cima havia algumas pessoas lanchando e conversando, uma até fumando um cigarro eletrônico escondido. Me sentei ali, notando que não haviam câmeras por perto, então se concentrava em um lugar seguro para fazer qualquer coisa contra as regras da escola.
Fiquei encarando as pessoas nadando lá embaixo até que uma conversa chamou minha atenção. Tinha um não binário e uma garota conversando, as duas com um tom meio preocupado.
- Você soube? Aquele garoto do segundo ano… Acho que o nome é Xiaoxiao, ele zerou uma prova,
- O que?! - Elu fez cara de espanto, completamente chocade com a informação - Ele zerou uma prova? Caralho ele vai ser expulso, vai ser a segunda expulsão da escola. O que vai acontecer com ele e a familia dele?
- Pelo o que eu sei eles vão ser expulsos da cidade e não vão ter direito a um pagamento de reembolso. É foda isso, se eles não tiverem uma base financeira do outro lado, eles vão falir - Meu corpo todo se arrepiou, acabou que eu fiquei nervoso pelo tal de Xiaoxiao. Se isso acontecesse comigo e a minha família, seria o fim. A gente moraria eternamente na rua e a prioridade definitivamente não seria para mim, já que quem vacilou foi eu - Eu soube que ele está bem preocupado… e até mesmo um pouco revoltado. Me contaram que ele descobriu algo sobre a escola que é meio barra pesada, tá ligado? E que se sair pro público pode acabar com a reputação da OFVA.
- Eita bestie, serio? - Suspiro, ficando nervoso com a fofoca mal contada - E você sabe o que ele descobriu?
- Me contaram que ele descobriu que… - Ela sussurra algo no ouvido do amigue, que a encara completamente assombrade - É serio, barra pesada assim.
- Caralho… E o que vai acontecer com ele se ele contar?
- Eu acho que ele vai ser morto… - Aquela sequência de palavras me faz ter outro arrepio, sem entender absolutamente nada do que elas estavam falando.
Suspiro e me levanto, indo até a beirada da plataforma e vendo aquela piscina logo embaixo dos meus pés. Respiro fundo, sentindo a adrenalina que vem conjunta com o medo invadir todo o meu corpo, se eu caísse dali, eu sobreviveria?
Dei um passo para trás, meio temeroso com a ideia de que eu poderia simplesmente morrer e depois disso conseguiria descobrir todos os segredos do fim da vida. Olhei para o lado, vendo que eu havia atraído o olhar das duas pessoas conversando anteriormente, desvio o olhar, indo até a escada e descendo.
Sai da sala de piscina, vendo que faltavam 10 minutos para começar a aula, então vou andando preguiçosamente até a sala de artes, mas outro burburinho me chama atenção. Algumas pessoas estavam olhando para a porta da sala da coordenação em um montinho, todas prestando muita atenção ao alguém dizer “Ali está o Xiaoxiao”. Me junto junto com eles silenciosamente, encarando a situação.
Um menino chines com uma grande marca vermelha no rosto de algo que parecia um tapa e alguns hematomas pelo pescoço. A expressão de choro estava obvia em seu rosto e ele segurava uma pasta na mão. Ele deu duas batidinhas na porta, sendo atendido e assim ele entrou na coordenação. Uma moça alta com cabelos cacheados ruivos saiu de lá, nos encarando de forma que fez o montinho se dispersar.
Cheguei na sala e a única coisa que eu penso é naquele garoto, não consigo prestar atenção nas instruções de desenho da professora, de forma que o pincel ficava em minha mão apenas para rodar entre meus dedos de forma incansável enquanto meus pensamentos estavam em turbilhão.
A hora do almoço foi da mesma forma que a aula de artes, a comida era integral, arroz, feijão, carne de laboratório que imitava carne bovina, algumas folhas e um comprimido de vitamina D. Mas tudo que eu consegui comer foi um pouco da salada, já que os pensamentos de que havia algo que ninguém mais soubesse eram incessantes.
Para minha sorte, os pensamentos começaram a se esvair e a fome foi tomando conta, de forma que fosse conveniente a próxima aula ser de culinária. Quando terminei de cozinhar um macarrão ao molho branco comi um pouco do que tinha feito e definitivamente, minhas habilidades culinárias eram simplesmente uma merda.
O resto do dia foi mais lento do que eu esperava, pesquisei algumas coisas nas aulas de pesquisas para formular o relatório semanal do aquecimento global. Fui para a ajuda voluntária, não tão voluntária assim. Havia apenas 3 opções: centro de pessoas com câncer avançado, centro de idosos e centro de crianças com transtornos especiais abandonadas.
Não sou o maior fã de idosos e a última vez que eu esbarrei em alguém com algum tipo de transtorno eu não soube como agir. Logo eu apenas tive uma opção de ajuda “voluntária”. Fui para o centro de pessoas com câncer, lugar onde eu ficaria por dois períodos e depois voltaria para a escola para escrever os relatórios das minhas pesquisas e ter a última aula, sendo a de física. Entro no grande local com três grandes alas, indo para a esquerda e sendo recebido por uma mulher com 1,50 de altura e cabelos verde escuro que me indicou para qual local eu deveria ir e, de primeira mão, eu iria conversar com os enfermos.
Caminhei até a sala que a moça havia me indicado junto com um folheto que ela havia me dado. Analisei-o e vi que o título era bem grande e estava escrito “Dias de Kim Namjoon 503”, dizendo os quartos e informações de pessoas que eu cuidaria três vezes por semana. Segunda eu cuidaria de um menino chamado Linn que era um pouco mais velho que si mesmo e tinha câncer de pele e fígado. Sexta cuidaria de uma senhora chamada Rosa com câncer de sangue e domingo, de um senhor chamado Linxiao com câncer de estômago.
O ambiente era o mais doente que eu conseguia pensar, o lugar fedia a baixa imunidade e eu me perguntava se naquele lugar eu não acabaria doente também apenas por andar junto com a morte. Mas ergui a cabeça, apesar de não gostar daquela situação e fui até o quarto 402, o quarto de Linn.
- O-olá? - Falei, batendo na porta e ouvindo um “pode entrar” muito suave de dentro. Entrei, me deparando com uma cortina verde. Dou a volta nela até chegar à frente de uma maca onde descansava um menino com traços russos e americanos, eu conseguia o reconhecer de algum lugar, provavelmente ele era o filho de algum milionário famoso. Mas sua situação era tão deplorável que eu simplesmente não era capaz de invejar sua fortuna, pois ele estava cheio de marcas vermelhas na pele, algumas inchadas demais e outras enormes, junto com aquelas olheiras marcadas e escuras que dava a impressão de que ele já estivesse morto. Respirei fundo, pensando em ir embora dali mas seguindo firme - Sou Kim Namjoon, eu vou ficar com você nas segundas…
- Boa tarde, Kim Namjoon - Ele sorri, fechando o livro que estava em sua mão e o deixando apoiado no cobertor verde claro - Sou Linn, mas acho que você já sabe disso.
- Sei sim - Me aproximo, coçando minha nuca - O que você está lendo?
- Um livro meio antigo - Ele mostra um livro físico bonitinho com uma capa azul clara e um título de “Pachinko” - Eu acho interessante os livros físicos, apesar da maioria dele ter sido escritas antes dos anos 2030… Você gosta de livros físicos?
- Gosto - Sento na poltrona do lado da dele, olhando o livro - Acho mais interessante que os por neurotransmissores, por dar a sensação de estar ali mesmo, marcado. Além de que o intuito de ler é bem melhor do que as palavras só surgirem nas nossas cabeças.
- Eu compartilho a mesma ideia! - Ele sorri, alisando a capa do livro - Os médicos disseram que seria bom para minha saúde mental fazer alguma atividade que não houvesse radiação, então apenas uni o útil ao agradável.
Naquele momento eu pensei o quão triste deveria ser ter que se afastar daquela forma e me senti completamente horrível por sentir pena dele. A sensação de sentir pena era a mais babaca que eu conseguia sentir, um sentimento de “eu tenho algo que você não tem e não vou fazer nada para tentar reverter”.
Ele se mexeu, pegou um livro e me deu, entendi o recado e comecei a ler, da mesma forma que ele abriu o próprio livro e mergulhou na leitura, e foi nessa forma que ficamos durante 1h20.
Quando o horário bateu às 19:40 eu me despedi de Linn, deixando o livro ali com ele para quando eu voltasse eu terminasse. Andei de volta até a OVFA, o que demorou uns 10 minutos já que o hospital era meio longe e finalmente fui para a aula de fisica, a ultima do dia.
Não aconteceu nada de novo na aula de física, apenas… Física? E quando bateu o sinal, eu senti como se tivessem passado anos desde que as aulas tinham começado. Era quase impossível acreditar que aquela seria minha rotina diária, 13 horas completamente focadas para a escola. Peguei minhas coisas no armário e cheguei em casa depois de andar por uns 10 minutos novamente, me encontrando com meus primos na esquina, mas por conta do meu humor que não estava nada bom, eu apenas ignorei e entrei no meu prédio. Subi junto com algumas pessoas no elevador com as paredes verde claras, me sentindo completamente fora de órbita até chegar no meu andar, onde eu entrei em casa.
Minha mãe, ao notar que eu cheguei, veio correndo em minha direção e me deu um abraço forte, coisa que eu julguei completamente desnecessária.
- Oi filho! Muito bem, você chegou em casa! - Ah você me jura que eu cheguei… - Como foi seu primeiro dia? Fez muitos amigos?
- O meu primeiro dia foi normal, mas não fiz amigo nenhum - me desvencilhei dela, tirei meu casaco, o pendurando no cabide ali perto junto com minha bolsa- Conheci uma russa chamada China e uma chinesa chamada Rússia e esse foi o auge do meu dia, para ser sincero.
- Imagino que todos devem ser bem focados nos estudos - ela sorriu - você vai focar também né, por nós! Lá deve ser bem pesado, mas eu sei que você consegue. Pensa que vai fazer bem pra mim, pro seu pai, pras suas tias, tios e primos! E não se esqueça dos seus avós.
- Ok mãe - Revirei os olhos, sentindo aquela pressão e ansiedade crescerem no meu peito - Lá é… intenso. Mas eu dou conta.
Sai sem dizer mais nada, indo em direção ao meu novo quarto. Passo pela porta e a fechei atrás de mim, encostando-me nela e deslizando minhas costas até o chão. Apoio minhas bochechas em minha mão, sentindo meus olhos lacrimejarem e tudo que se repetia em minha cabeça era um “eu não queria estar aqui”, várias e várias vezes.
Levanto, tentando engolir o choro. Analiso o meu quarto que não se parecia nada com meu quarto minúsculo em um apartamento pequeno na Coreia do Sul. Ele era maior, bem maior. No meio do quarto tinha uma cama de casal com um cobertor azul escuro liso, lençóis pretos novos, uma pelúcia de elefante entre os travesseiros e uma mesinha com um abajur do lado. Em cima da cama, uma janela grande o suficiente para ver boa parte da rua sem problema algum, mas definitivamente não tinha uma vista bonita. No canto esquerdo, estava meu armário particularmente quase vazio e uma porta de correr que dava ao banheiro. Era possível notar vários posters de filmes colados pela parede e, no canto direito, meu computador com uma escrivaninha lotada de gavetas também lotadas.
Abri a primeira gaveta da escrivaninha, tirando meu holo-celular de lá e me deitando no centro da minha cama, tirando o meu elefante chamado Moonchild (ou Moon) de lá e me abraçando nele. Mexo um pouco nas redes sociais, coisa que logo me cansa pois muitas pessoas cortaram contato comigo desde que virei da Vanguarda do Futuro.
Desligo o holo-celular, o colocando na mesa do lado da cama, onde eu coloquei meu relógio e minha holo-mesa para carregar em uma superfície elétrica.
Abri uma pequena gaveta na tal mesinha, tirando de lá o meu remédio para dormir e o de ansiedade, tomando os dois de uma vez a seco, me deixando com a sensação de não ter sido capaz de engoli-los logo em seguida.
Desligo as luzes com o comando de voz, me virando para o lado e enfiando meu nariz no Moon, sentindo aquele grande e enorme vazio dentro de mim. Eu tinha 15 anos e simplesmente odiava esse fato. Depois dos meus 6, cada ano que se passava era simplesmente um inferno e aquele estava sendo o pior dos piores. Eu conseguia ver a luz no fim daquele escuro túnel que eu começara a entrar, mas eu me perguntava se valia a pena passar por tudo aquilo e me arrepender do que tem no final.
“No fim eu sou só uma criança amedrontada que todos tiram proveito” - Eu já estava chorando, sentia como se cada pedaço do meu corpo não quisesse estar ali e não quisesse fazer parte daquele organismo vivo que não fazia sentido algum além de ser uma moeda de troca.
Meio fraquejando eu arrastei a coberta para cima de mim, ficando encolhido e chorando em silêncio com os pensamentos invasivos que tomavam conta de todo o meu corpo. Eu não sabia porque eu tinha nascido e a minha maior curiosidade era descobrir o sentido de tudo aquilo. Acho que essa é a maior sina de ser um gênio, entender tudo menos a própria existência.
Eu vivia me perguntando, será que Sócrates sabia quem ele era? E Aristóteles? Einstein se sentia feliz consigo mesmo ou ele só vivia para a matemática? Se bem que naquela época, não existia certo ou errado… ou será que existia?
Eu já sentia meus sentidos se descontrolando, meus olhos nublados por conta das lágrimas e minha respiração rápida demais. Não podia contar para minha mãe, não por ser coisa demais para ela cuidar, mas sim porque a ansiedade poderia acabar com tudo que eu havia lutado para construir apenas por todos se darem conta de que não adiantava eu ser um gênio e não conseguir lidar com isso.
Eu nunca soube lidar com o óbvio e acho que foi nessa bagunça das entrelinhas, que eu finalmente consegui cair no sono.
