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véu sobre a Lua

Summary:

Minho sabia que não seria um final de semana fácil, mas tinha esperança de que por respeito à sua felicidade, lobos e vampiros deixariam os sentimentos conturbados existentes entre as comunidades porta afora do local onde oficializaria sua união com Hyunjin. Para sua infelicidade, nada saiu exatamente como planejado.
Duas presenças inesperadas e uma conversa acalorada foram as peças responsáveis pelo declínio da noite que passou meses programando.

Notes:

Essa fic nasceu pq a binny pediu com jeitinho e era pra ser MinChan, mas no meio do caminho meu amor pelos Hyunhos tomou ela de volta. Um beijo Binny, obrigada pela ajuda com tudo e por nomear a história.

Boa leitura e não esqueçam de deixar kudos! 🤍

ps: breves inspirações em The Vampire Diaries e The Originals

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Minho sempre gostou de assistir cerimônias de parceria. Desde filhote ele adorava as festas que duravam dias, a fartura de comidas e bebidas, o reencontro com membros da alcateia que não via com tanta frequência e o clima de felicidade que contagiava a todos. Aos olhos dele, o ato de entrelaçar sua vida à de outra pessoa, para que dividissem a mesma linha do destino até serem chamados de volta pela Mãe Lua, era de certa forma poético.

Conforme crescia, Minho se pegou várias vezes imaginando como seria viver algo assim. Sonhava acordado pensando em quem seria seu alguém, de que forma se conheceriam e, claro, o quão bela seria a cerimônia de parceria deles. Apesar da curiosidade, ele vivia despreocupadamente. Se relacionou com várias espécies de maneira superficial, mas tinha certeza de que seu coração escolheria um lobo, afinal, sempre ouviu seus avós dizerem que não há como entrelaçar o destino com o de outros seres e, bem, apenas um licantropo poderia liderar a alcateia ao seu lado.

Mas então, durante a faculdade, um vampiro virou a vida de Minho de cabeça para baixo.

No início ele não sentia nada por Hyunjin, apenas o achava… interessante . A curiosidade o levou a se aproximar, uma amizade foi criada e, por cerca de três anos, Minho lutou contra os sentimentos que começaram a tomar de conta do seu peito quando ouvia a voz melodiosa do vampiro lhe contar sobre séculos passados ou quando percebia aquele sorriso com presas sendo dado em sua direção.

Foram anos difíceis, Minho não queria abrir mão de seus planos de vida e muito menos decepcionar os pais ou a alcateia. Como primogênito, ele foi criado para ser o próximo alfa e liderar todos assim que o pai se retirasse daquela posição. Era por isso que negava a si mesmo, pois além de saber que assumir uma relação com alguém de outra espécie era completamente diferente das diversões momentâneas que tinha vivenciado, sabia que a ação exigia uma dose de coragem que ele não possuía. 

Minho então optou por enterrar os sentimentos que nutria por Hyunjin no fundo da alma e decidiu se afastar do vampiro assim que terminou a faculdade.

Para o azar dele, o que sentia pelo outro já estava enraizado em todo seu ser, portanto, a tentativa de se manter distante não surtiu o efeito desejado. E assim, Minho descobriu que correr por uma floresta desconhecida de olhos vendados durante a noite era mais fácil do que domar um coração resoluto, principalmente quando este parecia ter escolhido Hyunjin como par. 

Perceber a profundidade do que sentia por Hyunjin o levou a se afundar em um espiral de emoções, onde questionava inúmeras vezes o que havia de errado consigo. Minho pensava que, se licantropos só escolhiam um companheiro para toda a vida e ele aprendeu que este também precisava ser um dos seus, como todas as suas entranhas imploravam pela presença de um vampiro ao ponto de adoece-lo? O erro certamente estava nele, não havia outra explicação. 

Foram Yongbok e Chaeryeong, seus irmãos mais novos, que o acolheram e ajudaram. Os dois passaram semanas pesquisando casos parecidos com o de Minho e, quando enfim encontraram relatos similares, correram para contar que ele não seria o primeiro lobo a ter um vampiro como par e que não havia nada errado em se permitir viver aquilo. Ambos prometeram estar ao lado do irmão mesmo que os pais e o resto da alcateia fosse contra. Eles afirmaram que, se fosse necessário, deixariam a alcateia e seguiriam o irmão mais velho como alfa onde quer que ele fosse, mas ainda assim, Minho não quis arriscar e apenas se permitiu afundar.

Afundou sabendo que definharia, sabendo que seu coração doeria pela ausência de Hyunjin até cansar de bater, sabendo que não há como um lobo viver longe daquele que foi escolhido para ser o detentor de todo seu afeto. Distante de Hyunjin, Minho enfim entendeu a razão pela qual diziam que amar, sendo um licantropo, era uma dádiva e uma maldição. 

Não havia o que ser feito. Ainda que os irmãos implorassem pedindo que ele reconsiderasse, Minho se recusava. Ele preferia retornar aos braços da Mãe Lua a ser uma desonra para a alcateia e para os pais. A dor que sentia por estar longe de Hyunjin era visceral, tão forte que o fazia perder o fôlego, mas ainda assim, ele não se permitia nem mesmo considerar a possibilidade de tê-lo ao seu lado. 

Na mente de Minho, ainda que ele cogitasse passar por aquela óbvia desonra e fazer algo a respeito do que sentia, era improvável que um vampiro velho o suficiente para assistir a queda e assunção de diversos impérios, fosse de alguma forma retribuir os sentimentos de licantropo que recém havia completado 23 anos. Doía pensar sobre isso, pois o sentimento de rejeição piorava sua condição e o deixava ainda mais debilitado. 

No fim, nada restava a ser feito, Minho estava irredutível.

Completamente ignorante da luta que o licantropo enfrentava contra os próprios sentimentos, Hyunjin facejava seus dilemas pessoais. Para ele, era mais que óbvio que Minho o fascinava, intrigava e instigava. Havia se encantado por muitas pessoas durante a vida, mas nada que pudesse ser comparado ao que experienciou ao conhecer o lobo, o que encarava como um grande… problema

De fato, no início Hyunjin pensou que se tratava apenas de uma atração boba. Entretanto, aos poucos se viu cativado pela jovialidade, graciosidade e amabilidade de Minho. Encantar-se por Minho foi tão natural para o vampiro quanto o ato de respirar para um humano.

Infelizmente, por estar caminhando pela terra há mais de três séculos, Hyunjin conhecera lobos o suficiente para saber que estes ficavam com outros lobos. Apesar de conseguir enxergar nos olhos de Minho o desejo quando o encarava, também observava a relutância existente por trás das íris castanhas. 

Assim, não cultivou esperança alguma de que alguma coisa aconteceria entre eles, e nem mesmo tentou fazer algo a respeito da nítida atração que sentiam um pelo outro, apenas deixou que os dias passassem sucessivamente.

Hyunjin aprendeu a conviver com o som das batidas do coração de Minho acelerando sempre que chegava, com os olhares que o lobo o dava quando acreditava que não estava prestando atenção e com a profundidade das íris dele sobre as suas. Às vezes achava que iria enlouquecer, mas estava disposto a conviver com tudo aquilo desde que pudesse se manter por perto durante a curta existência de Minho. 

Foi com a decisão que Minho tomou de se afastar que Hyunjin não conseguiu lidar bem, com a ausência das perguntas sobre o passado, com a ausência do suspiro que ele soltava ao final das gargalhadas, com a ausência dos olhos se tornando pequenos quando ele sorria… Tentou respeitar a vontade do lobo, no entanto, o desespero, a saudade quase visceral e a mensagem de Yongbok pedindo para que ele fizesse algo ou perderia seu irmão para sempre o fizeram se mover. 

Há cinco anos, em uma noite estrelada, Hyunjin deu o primeiro passo para o que seria o começo da história deles. Depois de uma conversa que teve com Minho em uma cama de hospital, o lobo teimoso enfim concordou em dar uma chance a eles, desde que o vampiro prometesse estar ao seu lado em todos os momentos. 

E foi assim que os dois acabaram ali, na cozinha de uma casa alugada no meio da floresta, cortando legumes enquanto esperavam os convidados para o ritual de parceria que fariam. 

Minho descobriu com a ajuda de Jeongin, um amigo bruxo, que havia um feitiço capaz de interligar a vida deles. Não seria a mesma coisa de uma cerimônia licantropa e nem duraria para sempre, mas era uma possibilidade de viver por um período mais longo ao lado de Hyunjin, algo que eles ansiavam.

Chaeryeong e Yongbok foram os primeiros a chegarem, os dois cumprimentaram o cunhado com um abraço caloroso enquanto repetiam o quão felizes estavam por eles. Poucas horas depois, Changbin e Jisung, melhores amigos de Hyunjin há mais de dois séculos, bateram na porta de madeira e foram recepcionados por Yongbok, cujo sorriso se iluminou ao ver Jisung após tantos meses. Minho e Hyunjin sorriram para a cena, se perguntando quanto tempo mais o irmão e o amigo demorariam para perceber o que todos já sabiam. 

Lado a lado, vampiros e lobisomens terminavam de organizar o que faltava para recepcionar o restante dos convidados, incluindo alguns poucos membros da alcateia Lee. Mentalmente, Minho torcia para que o final de semana acabasse sem sangue espalhado pelo chão encerado, não queria ter que pagar uma taxa extra para o dono da casa.

 

🐺❤️🦇

 

Minutos antes do sol se pôr, o som de mais um carro se aproximando ecoou distante pela floresta ao redor da casa. Dessa vez, Minho sabia que não se tratava dos irmãos ou dos amigos de Hyunjin, o que fez o nervosismo tomar de conta de seu corpo.

— Todos conseguimos ouvir seu coração bater acelerado, meu amor. – A voz serena de Hyunjin soou rente ao ouvido de Minho, que estava parado no arco da cozinha enquanto observava a porta com expectativa. Nem mesmo havia notado o vampiro se aproximando, mas estava grato por sentir a palma fria da mão dele em suas costas. — Me conte que tipo de pensamento está nublando sua mente, meu bem. Você sabe que estou sempre aqui para dividir seu fardo e o ajudar a se manter calmo, certo?

— Sei que sim. – Sorriu pequeno, ainda encarando a entrada de casa. — Tenho receio de que… – sem virar na direção de Hyunjin, ele fechou os olhos e respirou fundo na tentativa de organizar os pensamentos antes de externá-los. — Tenho receio de que qualquer coisa dê errado, Hyunjin. Vejo muitos cenários ruins, em um deles o chão acaba ensanguentado por uma discussão que escalonou pra algo mais físico, em outro todos os nossos convidados estão gritando entre si e eu sou oficialmente expulso da família por defender você e nossos amigos de algo que deveria ser uma piada, mas é apenas um desrespeito ridículo.

O vampiro soltou uma risada ao ouví-lo. Não estava zombando de Minho, apenas achava adorável ver o noivo se importando com algo que para si era ínfimo. Devagar, se aproximou dele e envolveu a lateral de seu corpo em um abraço.

— O chão não estará pintado de vermelho e nada do que possam vir a dizer será levado como ofensa, muito menos nos afetará – assegurou, não abrindo margem para discussão. — Já ouvimos inúmeros insultos ao longo dos séculos, meu amor, principalmente advindos dos lobos. O que me preocupa é a remota possibilidade de seus sentimentos serem feridos… – deixou um selar na têmpora do amado. — Prometi que me manteria inerte e comportado, mas duvido que consiga enrijecer minhas feições caso o desrespeitem ou que Jisung e Changbin não mostrem suas presas para aqueles que o ofenderem, sabe bem como eles o estimam.

Dessa vez foi Minho quem sorriu ao imaginar a cena. Antes que pudesse respondê-lo, o toque característico de seu pai ressoou na porta, o obrigando a desencostar de Hyunjin conforme os dois caminhavam em direção ao som. Após respirar fundo, levou a mão até a maçaneta e a girou, revelando as figuras familiares de seus pais.

— Eu ‘tô tão feliz por você, meu filho! – exclamou sua mãe, avançando para envolvê-lo em um abraço caloroso. Quando o soltou, virou o rosto na direção de Hyunjin e o cumprimentou com um sorriso, que ele prontamente retribuiu. — Fico feliz em poder ver você novamente, querido.

Hyunjin não teve muito contato com Yeon, mas gostou da mulher nas poucas vezes que a encontrou. Ela sempre foi respeitosa e afetuosa, apesar de se preocupar com a decisão de Minho, nunca foi contra a relação dos dois. Em contrapartida, aquela era a primeira vez que se encontrava com o sogro, que desde o princípio foi veementemente contra o relacionamento que eles mantinham. 

Joong permaneceu mais reservado, observando a cena toda com uma expressão séria no rosto. Seus olhos demoraram sobre Hyunjin como se o estivessem avaliando. O vampiro nada fez, apenas sustentou a encarada. Ao se dar por satisfeito, o homem direcionou as íris para o filho e se pôs a finalmente falar. — Espero que tenha tomado uma decisão bem pensada, garoto. Você bagunçou muitas coisas para que esse ritual acontecesse. E ainda que não seja de fato uma cerimônia de parceria, não é algo para se levar de ânimo leve.

Minho se afastou dos braços da mãe e respirou fundo para poder respondê-lo.

— Eu sei, pai. – Apesar do tom calmo, Hyunjin conseguia ouvir o cansaço na fala do amado, motivo pelo qual se aproximou outra vez e deixou que a mão repousasse em sua cintura. A ação fez com que Minho levantasse os olhos em sua direção e abrisse um sorriso pequeno antes de voltar a encarar Joong. — Tenho total ciência do que ‘tô fazendo. Sou feliz com o Hyunjin e espero continuar caminhando ao lado dele enquanto a Mãe Lua me permitir viver. Sei que não é a mesma coisa que um ritual licantropo de verdade , sei que vou acabar vivendo por mais tempo que um lobo comum e alguns dos nossos consideram isso antinatural, mas não vou abrir mão de viver com quem meu coração escolheu como par. O senhor bem sabe que não podemos fazer nada quando nosso coração escolhe…

Um breve silêncio pairou entre eles antes que seu pai enfim respirasse fundo e concordasse com a cabeça. 

Joong lembrava como se fosse ontem da mensagem desesperada que recebeu de Yongbok, onde o filho mais novo contava que Minho tinha tentado resistir a escolha que seu coração havia feito e por isso acabou no hospital. Ainda que jamais tivesse agradecido Hyunjin diretamente, Joong era grato por ele não ter permitido que seu primogênito morresse. Não foi fácil aceitar a ideia de um vampiro como genro, mas abandonar Minho e perder sua cerimônia jamais seria uma opção.

Na tentativa de aliviar o clima estranho, Hyunjin estendeu sua mão direita em direção a Joong, acompanhada de seu sorriso mais gentil e cheio de covinhas para cumprimentá-lo.

— Bom, é um prazer finalmente conhecê-lo, senhor Lee. – Foi sincero em cada palavra. Hyunjin entendia a preocupação do sogro para com o filho, mas estava disposto a fazer com que ele percebesse pelo menos uma pequena porcentagem da profundidade do que sentia por Minho. — Agradeço por estar aqui e espero que saiba que, enquanto a Mãe Lua e o próprio Minho me permitirem, farei tudo o que estiver ao meu alcance para que seu filho seja feliz.

Minho, observando a cena com atenção, sentiu uma pontada de nervosismo se formar em seu peito, perguntando a si mesmo se o pai iria aceitar o gesto de Hyunjin ou se permaneceria impassível. Por um instante que pareceu durar uma eternidade, seu pai e seu noivo se encararam, como se medissem um ao outro em silêncio. Então, finalmente, Joong estendeu sua própria mão e apertou a do vampiro, aceitando o gesto de boas-vindas.

— Espero que seja bom em manter promessas e que faça do meu filho o lobo mais feliz que já caminhou por toda essa terra, Hwang – devolveu Joong ainda tocando a pele fria de Hyunjin. O rosto do homem continuava sério, porém o semblante de agora era um tanto mais aberto. — Se não, que a Mãe Lua me dê forças, vou caçar você até o fim dos meus dias e cravar uma estaca no seu coração. 

Um leve sorriso de alívio se espalhou pelo rosto de Minho e, consequentemente, pelo de Hyunjin, que reiterou que jamais faria algo para machucar o amado. Com um aceno discreto, Minho guiou todos para dentro da casa, deixando para trás a tensão do momento conforme se aconchegavam na enorme sala de estar. 

Por enquanto nenhuma gota de sangue espalhada pelo chão , pensou o lobo.

 

🐺❤️🦇

 

Alguns primos de Minho, como Heeseung, Taeyeong e Jeno, chegaram minutos depois de Joong e Yeon. No entanto, os pais deles se recusaram a participar daquela "heresia abominável" — palavras dos mesmos. As presas de Jisung se tornaram visíveis no instante em que ele ouviu Hee repetir a fala de sua mãe, o que acabou por arrancar uma risada de Minho e Yongbok, que não se chocaram com as palavras de Hee, pois já sabiam o que a tia pensava de tudo aquilo.

Jeongin não demorou a chegar com Jungwon, ambos bruxos do clã Yang. Os dois ficaram responsáveis pelos preparativos da parte mágica do feitiço em si, explicando detalhadamente aos noivos mais uma vez o que precisariam fazer e falar quando estivessem sozinhos no instante em que o eclipse lunar daquela madrugada atingisse o ápice. Minho já havia decorado todos os passos, mas ainda assim insistiu em pedir para os irmãos-bruxos repetirem a explicação, apenas para não correr o risco de esquecer algum detalhe importante que pusesse tudo a perder.

Chan e Seungmin, um casal de vampiros amigos de Hyunjin, também estavam presentes. Eles repetiram inúmeras vezes o quanto estavam alegres por verem o Hwang feliz. E quando Minho se levantou para pegar um copo d’água enquanto os outros estavam distraídos conversando, Seungmin se aproximou sorrateiramente dele para fazer uma ameaça discreta.

— Se você por acaso partir o coração do Hyunjin — sussurrou com uma mistura de diversão e seriedade —, vou contra a minha dieta de beber apenas sangue refinado só para drenar o seu, pequeno lobo.

— Você é fofo quando tenta ser ameaçador, Minnie – respondeu, desviando o foco da geladeira ao sorrir para o vampiro. — E só pra você saber, meu sangue é ótimo! O Hyunjin adora beber quando ‘tá me comend…

— Eca. – Cortou a frase de Minho com uma expressão enojada no rosto, que acabou arrancando uma risada dele.

— Não precisa se preocupar, seu hyung está em boas mãos, prometo – disse Minho com a voz gentil. — Nunca ouviu falar que o coração de um lobo só ama uma vez, Seungminnie?

Antes que Seungmin pudesse responder, Chan, que não havia desviado sua atenção do marido em momento algum, apareceu e o arrastou para longe dizendo que não deixaria que os dois começassem a trocar farpas daquele jeitinho carinhoso deles, não naquele dia.

Por acreditar que ninguém além dos que ali já estavam se juntariam à comemoração, Minho decidiu que era hora de iniciar a festa na parte dos fundos da casa. Lá, havia uma enorme mesa recheada de pratos e bebidas diferentes, pensados exatamente para agradar as duas espécies enquanto o horário para o ritual não chegava.

Minho estava verdadeiramente feliz. Ele tinha passado o dia todo inquieto, pensando em como seria juntar lobos e vampiros debaixo do mesmo teto, mas agora, os vendo conversar de maneira respeitosa e amigável, percebeu que se preocupou em vão. 

Hyunjin compartilhava o mesmo sentimento do amado. Não mentiu para ele ao dizer que, assim como os amigos, estava acostumado com ofensas vindas de outras espécies, principalmente dos lobos. Andavam pela terra há muitos séculos, haviam aprendido a ignorar pessoas e palavras rudes. No entanto, nenhum dos licantropos ali presentes estavam sendo desagradáveis, muito pelo contrário, eram bastante corteses.

O real receio de Hyunjin era que Minho acabasse de alguma forma machucado, duvidava muito que ele ou qualquer um de seus amigos deixaria que a ação passasse em branco. Todos os convidados o apreciavam demais, não que fosse muito difícil, Minho era adorável, sempre fora. 

Em meio ao clima amistoso, logo as apreensões foram esquecidas. Nem de longe a cerimônia parecia com os devaneios adolescentes de Minho, entretanto, ele a considerava muito melhor do que um dia imaginou. Amava Hyunjin com todo seu ser, e o amava ainda mais por ter concordado em participar de tudo aquilo ao seu lado. 

Foi movido por essa felicidade que, horas depois, quando o sangue que ele havia comprado para os vampiros acabou na mesa de bebidas, Minho levantou para ir até a cozinha encher a garrafa uma outra vez.

— Não precisa vir comigo, amor. – Ofereceu um sorriso amoroso para Hyunjin e deixou um selar nos lábios dele, prontamente se levantando para repor o líquido carmim. — Você fica fazendo companhia pros nossos convidados e eu vou até lá, tá bem? Aproveita pra ligar o som, sei que você quer ouvir uma daquelas suas músicas instrumentais velhas que ninguém conhece!

Enquanto Hyunjin sorria ao fazer exatamente o que ele pediu, na cozinha, Minho retirava as bolsas de sangue do frigobar e enchia a enorme garrafa térmica. Ao terminar, uma batida vindo da entrada ressoou pela casa o surpreendendo. Por conta da conversa alta e dos vários cheiros diferentes espalhados pelo lugar, ele não conseguiu identificar quem estava atrás da porta. Curioso, o lobo girou mais uma vez a maçaneta, se deparando com duas figuras que conhecia bem. 

O silêncio pairou sobre os três conforme se encaravam. Dong, avô de Minho, se mantinha com uma expressão dura e olhar frio sobre o neto. Já Hari, sua avó, apesar de portar o mesmo semblante do marido, o observava com mistura do que parecia ser afeto e decepção.

Com um sorriso ensaiado para momentos desconfortáveis no rosto, Minho tentou encobrir o descontentamento que sentiu ao encontrá-los por saber que, agora, com a presença deles, toda e qualquer possibilidade de sua noite continuar sendo tranquila havia acabado.

— Boa noite, avós – cumprimentou, tentando manter a voz firme apesar da inquietação que sentia. — Não sabia que viriam.

Hari continuou a encará-lo com um olhar gélido, enquanto Dong apenas assentiu brevemente, mantendo-se em silêncio. A presença deles ali era como um peso nos ombros de Minho, sufocante e opressor. Nada bom , pensou, já sentindo os músculos de todo o corpo tensionarem apenas por imaginar o estrago que eles poderiam fazer.

Apesar de tê-los convidado, ele tinha quase certeza de que não apareceriam. Os dois já haviam deixado claro que não aprovavam o relacionamento dele com Hyunjin e, bem, apenas os chamou por insistência de sua mãe. Passou semanas pensando em como evitar todo e qualquer conflito entre ambas as espécies, entretanto, com os avós presentes, a tarefa seria impossível.

— Que eu saiba, tenho até às duas da manhã para fazer você desistir dessa ideia ridícula de pseudo parceria com um vampiro – disse Hari com frieza, sua voz cortando o ar como uma lâmina afiada enquanto marchava para dentro da casa sem ser convidada, com Dong em seu enlaço.

Minho sentiu um nó se formar em sua garganta ao fechar a porta após a passagem dos dois. Não de tristeza ou de choro, mas de raiva. Ele se viu cerrando os punhos conforme sentia a indignação borbulhar dentro de si, estava cansado de ter que defender seu relacionamento, de ter que justificar sua felicidade para aqueles que se recusavam a entender e de ter que ouvir pessoas tentando fazê-lo desistir de Hyunjin.

— Avó, por favor... — começou ele, mas foi interrompido por Dong, que sobrepôs sua fala.

— Estamos tentando colocar juízo nessa sua cabeça há anos, garoto. Deixamos passar por um tempo pois acreditávamos que seu pai iria conseguir controlar essa sua rebeldia antes que fosse tarde demais, mas não, claro que você iria ainda mais longe para envergonhar o nome de nossa família – cuspiu com ferocidade, caminhando para perto de Minho. — Você foi criado para ser o próximo alfa dos Lee, mas não passa de uma criança irresponsável e inconsequente! Por acaso pensou em como isso afetará nossa alcateia, ou seu egoísmo o cega ao ponto de pensar apenas em si mesmo, menino?

Minho sentiu um misto de dor e frustração diante das palavras de seu avô. A acusação pesava sobre ele como uma âncora, o arrastando para o fundo de um abismo de desespero que jurava há muito ter se afastado. Ele queria gritar, esbravejar contra a injustiça daquelas palavras, mas se viu paralisado pela intensidade da raiva que sentia e pelo resto de respeito que ainda tinha pelos senhores à sua frente, ainda que não merecessem.

— Isso não tem nada a ver com rebeldia ou egoísmo! – bradou Minho, sustentando as íris duras nas de seu avô conforme caminhava para longe da porta, parando bem próximo ao homem. — Eu amo Hyunjin, e não vou desistir dele só porque vocês estão presos a preconceitos estúpidos . Tenho certeza de que a Mãe Lua jamais o colocaria em meu caminho se fosse contra nossa união, somos todos filhos dela, avô.

Minho conseguia ver a indignação de Dong tomar forma, notou as pupilas dilatadas e percebeu que ele diria algo, mas não estava disposto a ouvir nada do que ele falaria, então decidiu encerrar a conversa por ali, optando por voltar para os fundos da casa.

Antes de sair da sala e deixar a presença dos avós, anunciou com a voz fria: — Se quiserem ficar, farei questão de que sejam bem recebidos por todos, mas se vocês ousarem desrespeitar meus convidados ou estragar minha cerimônia, eu mesmo os arrastarei porta afora.

Minho nem mesmo conseguiu dar um segundo passo, pois logo Dong se enfiou na sua frente, o encarando com olhos que faiscavam raiva e desprezo. 

— Garoto insolente! – vociferava Dong, cada vez mais alterado. — Você não faz ideia do que diz, nada deixará para nós além de uma mancha em nossa honra ao se misturar com sanguessugas e os trazer para perto de nossa família. Você macula toda a nossa linhagem, Minho. Tenho vergonha de saber que meu sangue corre por suas veias e sinto raiva de mim mesmo por um dia ter acreditado que você serviria para nos liderar. 

A fala do avô o pegou de surpresa, deixando-o momentaneamente sem palavras, apenas o encarando boquiaberto. Hari, se aproveitando do silêncio do neto, também se pôs a falar.

— Você não tem ideia do que está fazendo, Minho – disse com a voz dura. Ela, por sua vez, o olhava para com uma expressão de tristeza e resignação, como se lamentasse profundamente as escolhas que ele havia feito. — Desrespeitando nossos costumes, comendo e bebendo com vampiros, os mantendo em sua vida e influenciando seus irmãos mais novos… não parece nada com o filhotinho que sonhava em encontrar seu parceiro e festejar a união com toda a alcateia presente. Quantos de nós vieram hoje, garoto? Quantos de nós aceitaram ver você pisotear em nossas tradições?

Poucos , pensou Minho. De fato, apenas alguns primos, seus pais e seus irmãos haviam aparecido. Se ele juntasse todos os Lee presentes na parte de trás da casa, não chegaria a um quinto da alcateia. Minho passou a noite toda ignorando esse fato, mas ali, com a avó esfregando a realidade em sua cara, foi obrigado a encarar os fatos.

— Eu preferia que você tivesse desistido de tudo anos atrás – confessou Dong, com as íris nubladas pela raiva. — Preferia um neto morto a um cujo coração de lobo foi fraco o suficiente para escolher um sanguessuga maldito como par. 

Minho virou o rosto na direção do avô com tanta rapidez que sentiu o pescoço estalar. Estava imaginando coisas, certo? Seu avô, que ajudou a criá-lo e o ensinou quase tudo que sabia sobre ser um lobo, não havia dito que preferia que estivesse morto… certo? Ele buscou em vão e de forma incansável nos olhos de Dong algum sinal de arrependimento, e nada encontrou além de repulsa. Desviou então sua atenção para a avó, que por sua vez, se recusava a encará-lo.

Ser chamado de insolente, inconsequente, irresponsável, rebelde e egoísta definitivamente não estava em sua lista de acontecimentos para um dia que deveria ser especial, mas o que o afetou mesmo, foi ouvir o avô dizendo que o preferia morto

As palavras de Dong repetiam como um disco arranhado pela mente de Minho. 

Morto, ele preferia que eu estivesse morto. 

Minho não conseguia mais sustentar as íris nas dos avós. A presença deles o deixava cada vez mais agitado. Ele pensou em todas as vezes que ponderou se deveria mesmo chamá-los, ainda que tivesse feito o convite apenas para agradar os pais, e se culpou por não ter se mantido fiel às suas vontades. 

Com a mente agitada, Minho se viu reconsiderando se deveria continuar com a festa. Não duvidava de seu amor por Hyunjin, mas perguntava a si mesmo se aquele ritual — ainda que não fosse uma cerimônia de parceria de fato —, não era demais. Talvez os avós estivessem certos, talvez ele não devesse mesmo estar fazendo aquilo, talvez… 

Não , pensou. Não havia nada de errado com suas ações ou consigo. Ele já havia saído daquele lugar, não permitiria que ninguém o fizesse duvidar de suas escolhas outra vez. Estava certo do que queria e não deixaria que os avós estragassem sua noite.

Sua mente viajou para um dia em específico que conversou com Hyunjin, que sempre o acalmava ao dizer que era sua vida e suas decisões. Lembrou da noite em que, ao aninhá-lo contra o peito, o vampiro contou como a história sempre se moldava ao longo das eras. Hyunjin compartilhou que viveu tempos onde lobos eram proibidos de se relacionarem com alguém do mesmo gênero mesmo entre eles, mas sabia que hoje as mais variadas alcateias aceitavam esse tipo de união. Com a voz doce, o amado lhe disse que dependia apenas dele, e que se ele quisesse, estaria ao seu lado para o que desejasse e pelo tempo que permitisse.

Hyunjin. 

Minho precisava de Hyunjin, precisava do conforto que jamais pensou que encontraria em seu corpo frio, precisava o sentir perto e precisava de sua voz gentil o assegurando de que estava tudo bem. Mas, principalmente, precisava dele para sair dali. A fala hostil de seus avós estavam fazendo sua mente girar, precisava que eles parassem de falar tanto quanto precisava se afastar dos dois.

E então, quando ele enfim conseguiu dar um passo para trás e por um pouco de distância entre si e o avô, sentiu uma palma fria tocar em sua costa e aquilo foi o suficiente para fazê-lo soltar o fôlego que nem notou ter prendido.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Hyunjin, sua voz cortando o ar como uma lâmina afiada. Ele olhou para Minho com uma mistura de preocupação e amor, tanto amor que o lobo sentiu os olhos marejarem por ter cogitado outra vez se deveria ou não continuar com o ritual deles. Sem pensar duas vezes, Minho escorou o corpo junto ao tronco do noivo e ali ficou, tentando fazer a mente desacelerar.

Hari lançou um olhar fulminante para o vampiro, enquanto Dong parecia ainda mais enfurecido. Hyunjin não percebeu suas expressões, na verdade, ele nem mesmo desviou o olhar da direção de Minho, cujas íris pareciam desfocadas. Chamou pelo nome dele, mas o outro não fez menção alguma a respondê-lo, apenas se aconchegou mais e mais na curva de seu pescoço, inalando aquele cheiro que não falhava em mantê-lo ancorado.

Apesar de conseguir ver os lábios de todos se movendo, os ouvidos de Minho não captavam mais uma palavra sequer. Era como se sua cabeça estivesse embaixo da água. Antes de Hyunjin chegar, ele se sentiu sufocar pela intensidade da discussão e pelas palavras duras dos avós. A fala de Dong foi o que mais o abalou, trazendo à tona todos aqueles pensamentos que anos antes o levaram a quase desistir de tudo sem nem mesmo tentar.

Minho não percebeu o começo da crise, mas logo tudo parecia demais para que pudesse suportar. Os avós já haviam sido duros consigo, no entanto, nunca chegaram a ser tão incisivos e, bem, Minho nunca precisou lidar sozinho com nenhum deles anteriormente ou ouvi-los dizer que preferiam que ele não estivesse vivo .

— Meu bem, preciso que você fale comigo. – pediu Hyunjin, com a voz embebida de preocupação. Ele logo notou que a respiração de Minho estava um tanto mais acelerada que o normal, além do coração batendo com rapidez e da pele não tão quente como de costume.

Hyunjin conhecia os sinais, sabia o que tudo aquilo significava, e odiava ter que ver o amado dessa forma. Havia prometido que estaria ao lado de Minho a todo momento durante aquela noite, e agora sentia ter falhado com ele por estar ausente justo quando os avós chegaram.

Apesar de não ter certeza do que tinha acontecido, o vampiro sabia que um deles — ou talvez os dois — era o responsável pelo estado que encontrou Minho. Queria drenar todo o sangue de seus corpos e depois separar as cabeças de seus pescoços pelo que quer que tivessem feito ou dito, mas não ousaria desviar os olhos de Minho nem deixá-lo sozinho, não sabendo que ele precisava de seu apoio.

No instante em que Hyunjin fez menção a carregar Minho para longe de Hari e Dong, os dois começaram a esbravejar consigo. Ele nem mesmo os encarou, estava ocupado demais com o noivo que começava a tremular e se encolher a cada entonação mais elevada que as vozes dos dois alcançavam.

O contato constante da pele de Hyunjin tocando a sua fez com que Minho conseguisse se acalmar um pouco. Mas então, quando os avós começaram a gritar, seu corpo tensionou outra vez, e ele se viu segurando a camisa de Hyunjin como se sua vida dependesse deste contato. Não queria ficar sozinho com eles de novo, não queria ouvir o que eles tinham a dizer, não queria lidar com nada daquilo, não queria ter que continuar perto deles.

— Se vocês não calarem suas malditas bocas agora , eu juro que os farei viver um inferno na terra antes de matá-los com minhas próprias presas. – Hyunjin grunhiu rispidamente após sentar no sofá com Minho sobre seu colo.

A ameaça pairou no ar, carregada de uma energia tensa. O olhar de Hyunjin, frio e implacável, transitou sobre os avôs de Minho como um desafio. Receosa, Hari se calou no mesmo instante e deu um passo para trás. Dong, no entanto, se aproximou furioso do estofado enquanto apontava o dedo na cara do vampiro.

— Como ousa falar assim comigo e com a minha esposa, seu verme sugador de sangue! – rugiu ele, avançando um passo mais perto de onde os dois estavam. Ao ver a forma que o neto se retraiu ainda mais, não pode evitar a nova onda de desprezo que tomou conta de si. — Minho, você não se contenta em envergonhar nossa família se relacionando com essa criatura maldita e agora até mesmo permite que ele nos ameace por ser fraco ao ponto de não conseguir se defender sozinho? – zombou, a voz impregnada de desdém. — Você é patético , garoto. Fico feliz por saber que jamais será nosso alfa, não precisamos de alguém tão incapaz como você na liderança da alcateia.

Raiva ferveu dentro do corpo de Hyunjin. Ele sentia como se estivesse prestes a explodir, a sede pelo sangue de Dong era tamanha, que as presas começaram a latejar em sua gengiva. Cerrando os dentes em aviso, ele encarou fixamente os olhos do homem, suas próprias íris faiscando em uma mistura de fúria e menosprezo. 

— Você nem mesmo vale as palavras dele, é apenas um lobo velho patético, desprezível e tão infeliz que ousa vir aqui, no dia do nosso ritual , para insultar o neto por não conseguir aceitar que o mundo não funciona da forma que você deseja. – Sua voz era fria como o gelo, transbordando indignação. — Saia daqui, Dong. Saia daqui enquanto ainda tenho respeito pelo meu sogro e me obrigo a evitar que ele veja a cena desagradável do pai com o pescoço rasgado, corpo banhado pelo próprio sangue podre nesse chão de madeira e com as vísceras espalhadas pelo tapete. Vá embora enquanto ainda sou misericordioso e permito que você respire, ainda que não mereça tal graça. 

Conforme Hyunjin falava, as mãos de Minho apertavam o tecido de sua camisa com mais força. A presença dele em seu colo era a única coisa que o mantinha ancorado, o impedindo de agir movido pelo ódio. Mas Dong, por sua vez, não recuou diante da resposta afiada do vampiro, muito pelo contrário. As palavras foram como uma faísca em um barril de pólvora. Dong soltou um rosnado gutural, sua expressão se contorcendo em uma máscara de fúria descontrolada. Ele avançou mais um passo na direção dos dois no instante em que as garras começaram a emergir de suas mãos.

Hyunjin se preparou para correr com Minho para longe do alcance de Dong, ele não conseguiria lutar com o noivo nos braços, e se recusava a deixá-lo sozinho uma derradeira vez. Felizmente não foi preciso se mover, pois no segundo seguinte Changbin e Jisung irromperam pela porta da cozinha, imobilizando o lobo mais velho ao mesmo tempo em que uma voz familiar cortou o ar.

— O que está acontecendo aqui? – perguntou Joong, com os olhos arregalados ao testemunhar a cena do pai, cujas garras despontavam dos dedos, imobilizado pelos amigos de seu genro. Os três estavam a centímetros de distância de Hyunjin, que segurava um Minho encolhido em seus braços de maneira protetiva enquanto mostrava as presas para Dong de forma ameaçadora.

A presença de Joong fez com que Dong congelasse por um momento. Lentamente, ele se virou na direção do filho, sentindo como se um lampejo de clareza enfim passasse por sua mente ao cruzar as íris com as de Joong. Aos poucos, Dong se soltou dos vampiros que o haviam segurado e deu um passo para trás, sem jamais deixar de encarar seu primogênito.

Enquanto isso, Minho respirava pesadamente nos braços de Hyunjin, sentindo as lágrimas acumularem em seus olhos. Aquilo era tudo o que ele não queria que acontecesse em um dia que deveria ser apenas feliz. Sentia a cabeça latejar, o peito doer e o corpo tremer. Queria ter respondido Dong com mais intensidade, queria ter se levantado e protegido o noivo como prometeu para si mesmo que faria. Não conseguia sentir nada além de constrangimento, sabendo que agora todos os convidados estavam ali encarando a cena horrível que seus avós realizaram, ele queria sumir .

— Hyunjin – Chamou com a voz pequena e trêmula, falando pela primeira vez desde que o vampiro chegou. Ele agora estava com os olhos fechados, não queria encarar nenhuma das pessoas dali. Faria seu pedido baixinho, se agarrando à ilusão de que caso falasse baixo, nenhum dos outros o ouviria ser tão vulnerável, ainda que todos tivessem audição aguçada. — Me tira de dentro dessa casa, por favor. Eu não quero ficar aqui, sinto como se não conseguisse respirar direito com tanta gente. Me leva pra fora, por favor .

Hyunjin não pensou duas vezes antes de levantar do sofá com Minho em seu colo, o levaria para onde ele quisesse e se encarregaria pessoalmente de ajudá-lo a se acalmar. Os avós dele que se explodissem, apenas Minho importava naquele momento, nada além dele e de seu bem-estar merecia sua atenção. 

Mas então, antes que saísse porta afora, ouviu Hari falar consigo:

— Para onde você pensa que vai com meu neto, seu maldito? 

Minho tremeu outra vez sobre os braços de Hyunjin, agarrando ele com um pouco mais de força, o que o fez com que sua irritação crescesse diante de toda aquela situação. Quem infernos essa mulher achava que era para ficar em silêncio durante todo o momento em que o marido foi intragável com Minho e agora agir como se importasse? Ele iria virar para respondê-la, mas a voz do noivo transpassou a sua antes que pudesse dizer algo. 

— Não sou seu neto a partir de hoje e não quero nenhum de vocês dois aqui quando eu voltar. – Ele não falou alto, mas todos o ouviram com clareza sua voz trêmula ressoar pela sala. — Dong disse que preferia um neto morto a um neto cujo coração escolheu um vampiro como par e a senhora não disse nada, então não ouse me chamar de neto. Eu renego vocês dois e rogo para que a Mãe Lua mantenha nossos caminhos separados nessa e em todas as outras vidas. – A mulher arfou em surpresa, assim como vários dos outros convidados. — Saiam daqui antes que eu volte, ou eu juro que não vou impedir Hyunjin fazer o que desejar com vocês dois.

Hyunjin não esperou que eles dissessem algo antes de tirar Minho dali. Ele ouviu quando a sogra explodiu de raiva ao rosnar para Hari e Dong, assim como ouviu Seungmin segurar Jisung e Chan fazer o mesmo com Changbin, tudo para impedi-los de atacar os avós de seu noivo, mas não fez qualquer menção a virar na direção deles ao sair da sala.  

Em silêncio o vampiro caminhou com Minho pela floresta ao redor da casa, e a cada passo que dava, sentia o coração afundar conforme a última fala do amado ressoava em seus ouvidos como uma música repetida. Apenas o ato de imaginar uma vida sem o lobo que carregava nos braços era excruciantemente doloroso para Hyunjin. Ele sempre soube que um dia aconteceria, claro, mas evitava ao máximo se permitir cair naquele espiral de pensamentos que nada trariam além de uma tristeza antecipada.

Hyunjin viveu bem por séculos antes de o encontrar, mas hoje, depois de o ter conhecido, duvidava muito se seria capaz de sobreviver por pelo menos um dia após perdê-lo. Jeongin assegurou a eles que Minho viveria uma vida mais longa se comparada a de outros lobos, disse que o ritual seria capaz de retardar o envelhecimento de seu corpo, no entanto, não era uma solução definitiva e, para ele, qualquer coisa menor que a eternidade ainda seria pouco. Hyunjin também sabia que, independentemente do quanto Minho o ame, jamais aceitaria ser transformado em um vampiro, então tudo que lhe resta são anos contados e a esperança de que no próximo ciclo de vida dele, ambos possam se reencontrar.

Ao chegarem em uma enorme clareira, Hyunjin se encostou no tronco largo de uma das árvores e sentou sobre os galhos secos e folhagens por ali espalhados. Devagar o vampiro aconchegou o noivo com delicadeza em seu colo, e com as pontas dos dedos, passou a fazer carinho nos fios de cabelo macios dele.

— Estou com você, meu bem. – A voz de Hyunjin estava regada de afeto, não passando de um sussurro caloroso e reconfortante, e aquilo era tudo que Minho precisava ouvir. — Estou aqui como sempre estive, e continuarei aqui pelo tempo que você me permitir ficar ao seu lado.

Minho ainda não se sentia preparado para falar novamente, então, em resposta, apenas se aproximou mais de Hyunjin e o abraçou apertado antes de deixar que as lágrimas enfim caíssem. Quando seu soluço de choro cortou a noite, foi mais pesaroso do que Hyunjin esperava ouvir. Ele queria poder tirar toda dor de Minho, transferiria para si mesmo se pudesse, tudo para não vê-lo sofrer.

— Ele disse que preferia um neto morto , Hyunjin. – Minho falou alguns minutos depois, com o timbre carregado carregado de mágoa e tristeza. — Morto . Me chamou de egoísta, insolente, irresponsável e disse que preferia que eu tivesse morrido . E ela não retrucou, Hyunjin. – Ele se afastou apenas o suficiente para encará-lo com os olhos marejados, mas ainda o segurava como se sua vida dependesse daquele contato. — E-eu só lembrei de quando nossa relação começou, de quando eu também achei que fosse melhor morrer, de como eu quase morri sem nem tentar lutar por nós. H-Hyunjin, eu d-desisti da gente e q-quase m-mor-

O licantropo mesmo conseguiu terminar de falar, não antes de cair no pranto novamente. Hyunjin o segurou outra vez contra o peito, abraçando Minho o mais forte que podia sem machucá-lo. Suas entranhas reviravam de tanta raiva que sentia de Hari e Dong. Raiva por terem desenterrado memórias dolorosas para seu amado, por terem o machucado e por terem-no feito pensar em quando quase abriu mão da própria vida para não ‘envergonhar’ a alcateia. 

Shhh. Não pense nisso, meu bem. Já passou. Você está aqui, Minho – assegurou, deixando um selar demorado na cabeça dele. — Você não desistiu da gente. Você está aqui comigo e até mesmo encontrou um ritual para que pudéssemos entrelaçar nossas vidas. Nada do que eles disseram é verdade, aqueles adjetivos jamais o definiriam. Nenhuma palavra sequer que tenha saído da boca deles deve ser absorvida, confie em mim.

Hyunjin continuou a murmurar palavras doces para o amado na tentativa de acalmá-lo e, aos poucos, o pranto de Minho cessou. A respiração dele enfim se tornou mais estável conforme o sono ia se apossando de seu corpo. Minho, tendo a certeza de que não havia lugar mais seguro para estar do que nos braços do noivo, se permitiu então descansar.

Notando que o mais novo havia dormido, Hyunjin não conseguiu desviar os olhos dele, gravando mais uma vez todas as feições do lobo no fundo de sua alma. A fala de Minho ainda reverberava em sua mente, o fazendo lembrar da fatídica noite em que o cunhado o procurou desesperado, implorando que fizesse algo antes que fosse tarde demais para o irmão.

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Após tantas décadas, Hyunjin havia até mesmo esquecido como era sentir medo, mas a ligação de menos de um minuto regada pelo choro de Yongbok foi o suficiente para recordá-lo. No instante em que desligou a chamada, ele correu como um louco porta afora, assustando Changbin e Jisung, que estavam consigo na casa que dividiam. O vampiro saiu em disparada, fazendo bom uso de sua velocidade e agilidade, pois um carro jamais o levaria até Minho com tanta rapidez, e cada segundo importava. 

Ao chegar na porta do quarto indicado, encontrou os irmãos de Minho de olhos vermelhos velando o sono dele. Assim que Yongbok notou a presença de Hyunjin, deixou Chaery sozinha e caminhou em sua direção. O abraço que o vampiro recebeu foi tão repentino e apertado que precisou de um momento para reagir. Yongbok tremia, as palavras saíam rápidas e atropeladas dos lábios dele, quase incompreensíveis, entre soluços pesados

— Eu tentei... eu juro que tentei... – murmurava, a voz falhando. — Eu pensei que ele fosse melhorar, que fosse lutar... mas ele só... desistiu

Hyunjin fechou os olhos por um instante, sentindo o peso esmagador daquelas palavras cair sobre seu corpo. Ele apertou Yongbok de volta, uma mão acariciando seus cabelos loiros na tentativa de acalmá-lo e a outra, foi esticada na direção da pequena loba sentada ao lado da cama do irmão, um pedido silencioso para que ela também se aproximasse de si. 

— Tenho certeza de que vocês fizeram de tudo para que ele mudasse de ideia. – A voz do vampiro era baixa e suave, transparecendo o afeto que sentia pelos dois mesmo após muitos meses sem contato. — Minho é teimoso, sempre foi. Não é culpa de vocês, queridos, e ele odiaria vê-los tão abatidos.

Hyunjin os acalentou da forma que pode, mantendo os dois nos seus braços e nada dizendo, pois nada havia a ser dito. Chaery foi a primeira a secar as lágrimas e, tocando devagar o ombro de Yongbok, a garota os guiou para fora do quarto do hospital. Naquele momento, quando foram deixados finalmente a sós, o vampiro se aproximou da cama com passos lentos.

Minho estava pálido, mais do que Hyunjin jamais o vira. Seus lábios estavam secos e rachados, e o corpo, magro e enfraquecido, parecia mais uma sombra do lobo que ele um dia conhecera. Cada detalhe doía, como se uma estaca invisível estivesse sendo cravada no peito do vampiro.

Puxou uma das cadeiras deixadas pelos Lee mais novos para perto da cama e se sentou, os olhos fixos no rosto de Minho. A ideia de saber que ele havia desistido deles sem nem mesmo tentar, doía mais do que poderia descrever. Ao mesmo tempo em que se entristecia pela decisão dele, se sentia hipócrita, pois havia feito exatamente o mesmo.

Hyunjin, ainda que soubesse a forma que afetava Minho, não deu um passo sequer em sua direção. Manteve em mente a máxima de que lobos ficavam com lobos, e nada fez. Dilacerava sua alma saber que se permitiu ser afastado ao ponto de não ter ideia alguma do que estava acontecendo ou de como Minho estava sofrendo.

Agora, era obrigado a ouvir aquele batimento cardíaco lento, totalmente diferente das batidas aceleradas que estava acostumado a fingir não escutar ao se aproximar dele durante a universidade. Um som que antes o arrancava sorrisos, nesse momento era apenas um lembrete cruel de que tinha uma parcela considerável de culpa na escolha de Minho.

A cada pulsar fraco do coração do lobo, Hyunjin sentia o medo crescer dentro de si. Ele, que havia sobrevivido por séculos, enfrentado guerras e seres há muito extintos, se via apavorado como nunca antes. Porque a possibilidade de perdê-lo era mais aterrorizante do que qualquer ameaça que já enfrentara.

— Eu deveria ter dado o primeiro passo – disse com a voz cheia de pesar. — Deveria ter tentado fazer você enxergar o mundo de outra maneira. Se eu tivesse dito algo, talvez estivéssemos em um lugar totalmente diferente. Sinto que falhei com você, Minho. 

Rodeado pelo silêncio, esta foi a sensação mais próxima do sufocamento que Hyunjin sentiu desde que havia deixado de respirar, séculos atrás. Devagar, deslizou os dedos pelos cabelos de Minho, com um carinho leve, quase reverente. Mesmo que pudesse ver a vida dele escapar por entre suas mãos, ainda o seguraria com tudo o que tinha, devia aquilo à ele.

Assistia, com a dor tomando conta de cada célula de seu corpo, o peito de Minho subir e descer lentamente, em um ritmo frágil, mas constante. Mesmo que ele ainda estivesse ali, vivo, era impossível ignorar que a vida Minho estava perto demais do fim — e tudo porque ambos se eximiram de fazer algo a respeito do que sentiam.

Um coração licantropo ama apenas uma vez. Alguns consideram uma dádiva da Mãe Lua para seus filhos favoritos, outros, veem como uma maldição dada pela divindade. Hyunjin, por sua vez, nunca pensou muito acerca do tema, entretanto, assistindo o corpo debilitado de Minho, se questionava como poderia ser uma dádiva esmorecer por algo que estava além de seu controle.

Hyunjin se culpava por presenciar Minho acamado e ser, de certa forma, um dos responsáveis pelo estado em que o lobo havia se colocado. Pelas frases incompletas ditas por Yongbok, conseguiu finalmente entender o que aconteceu durante o ano de rádio silêncio. 

— Como pode você nunca ter cogitado a possibilidade de eu sentir o mesmo? – questionou em vão, a voz quase um murmúrio. — Sou seu, Minho, sempre fui. Mesmo que você volte para os braços da Mãe Lua, continuarei seu. Hoje e para sempre. Apenas seu.

A voz de Hyunjin era baixa, quase como uma promessa, mas havia uma firmeza nela. Foi nesse momento, enquanto o vampiro se afundava em pensamentos e observava o amado respirar, que um movimento lento chamou sua atenção. Minho mexeu os dedos, um tremor leve e hesitante, como se estivesse tentando atravessar a escuridão para voltar à consciência.

— Minho? – chamou suave, quase com medo de quebrar o momento.

Lentamente, como quem retorna de uma batalha árdua contra o sono, Minho enfim despertou. A visão de Hyunjin ali, tão próximo, fez seus olhos se estreitarem, tentando descobrir se aquilo era real ou apenas mais um de seus delírios. Havia sonhado várias vezes com cenas como aquela, mas nada tão vívido e palpável quanto agora. Quando piscou pela terceira vez e ainda encontrou Hyunjin sentado próximo a si, aceitou que era real e se pôs a falar.

— Por quê... – A voz dele saiu rouca, pouco mais que um sussurro. — Por que você ‘tá aqui?

Hyunjin sorriu, um sorriso pequeno e triste, mas verdadeiro.

— Porque você não pode se livrar de mim tão fácil assim.

Minho fechou os olhos outra vez, como se estivesse tentando processar a realidade. Ele parecia exausto, não apenas fisicamente, mas de uma forma que ia além do corpo — uma exaustão da alma.

— Você não entende... – murmurou, buscando as palavras que pareciam escapar de seus lábios conforme as lágrimas tomavam conta de seus olhos. — Isso não pode acontecer. Nós não podemos… Eu não posso… 

Hyunjin segurou o rosto dele com delicadeza, forçando-o a abrir os olhos e encará-lo outra vez.

— Eu imagino que seja difícil, meu bem – disse baixinho, fazendo um carinho suave na bochecha dele. — Você não precisa lutar sozinho. Nós podemos enfrentar isso juntos, Minho. Peço apenas que me deixe entrar e ajudá-lo, nada mais. 

Minho não respondeu imediatamente. Por um momento, parecia prestes a afastar Hyunjin, mas a mão dele permaneceu onde estava, hesitante, porém firme junto a palma fria do vampiro.

— Eu... não sei como fazer isso. – A voz dele era um sussurro quebrado e perdido, confessando o que considerava ser seu maior segredo. — Não me preparei para a possibilidade de ser recíproco, apenas para aceitar o fim.

Hyunjin se inclinou ainda mais perto, até que suas testas se encostassem, e fechou os olhos.

— Me permita ajudá-lo, meu bem – pediu, se afastando para deixar um selar na testa do lobo. — Viveremos um dia de cada vez e, durante o tempo que você me conceder tal privilégio, estarei ao seu lado. Não desista sem tentar, deixe-me demonstrar a imensidão de meus sentimentos por você, Minho. Caso não tenha me ouvido antes: sou seu, sempre fui. Esconder isso de você foi um erro gravíssimo, então, por favor, considere me permitir consertar.

Minho respirou fundo, como se estivesse finalmente permitindo que uma pequena parte do peso que carregava fosse embora e, em seguida, assentiu com a cabeça. Não conseguia dizer nada, drenado demais pela sucessão de acontecimentos, ele apenas segurou firme a mão do vampiro e voltou a dormir.

Hyunjin, ouvindo os batimentos do lobo se tornaram mais fortes e ritmados, ainda que vagarosos, compreendeu que Minho havia escolhido viver — não apenas sobreviver, mas viver de verdade, viver ao seu lado.

 

🐺❤️🦇

 

O farfalhar das árvores e o canto das corujas foram responsáveis por retirar Hyunjin de suas lembranças, o trazendo de volta para o presente, presente este onde conseguia ouvir com nitidez o pulsar compassado do coração do amado, algo bem diferente de suas memórias dolorosas.

Aproximadamente três horas se passaram desde que o casal se sentou contra a árvore, o eclipse lunar tomaria os céus em poucos minutos, e seria esse o exato momento em que o ritual deveria começar. No entanto, Minho ainda dormia com tranquilidade nos braços do amado, e Hyunjin se recusava a ser o responsável por acordá-lo. Ele precisa descansar , pensava enquanto se mantinha estático.

Não foi preciso despertá-lo, pois o lobo logo acordou sozinho e desorientado. Minho não se lembrava de ter dormido, apenas de chorar e chorar e chorar. Ainda assim, não se surpreendeu, tudo o que aconteceu o exauriu, precisava recarregar de quisesse continuar com seus planos.

— Hyunjin… – chamou com a voz rouca. — Que horas são?

— Uma e quarenta, meu bem – respondeu com suavidade. — Você se sente melhor? Precisa de alguma coisa?

Uma e quarenta!? – repetiu assustado. 

O ritual! Precisava levantar o quanto antes, precisava conferir se o local que estavam serviria, precisava ter a certeza de que tinha com eles todo o material necessário. Saiu do colo de Hyunjin com tanta rapidez que cambaleou, só não foi de encontro ao chão por conta da agilidade do vampiro, que logo ficou de pé e o segurou pela cintura delicadamente.

— Sem pressa, querido – disse, com a sombra de um sorriso tomando conta de seus lábios em seguida. — Não há motivo para tanta avidez, Minho. Você passou horas sentado na mesma posição, seu sangue precisa circular direito, dê ao seu corpo alguns minutos, por favor.

— Nós não temos tempo, Hyunjin! – devolveu exasperado. Se o ritual não fosse feito neste dia, conseguiria se ligar à Hyunjin apenas no final do ano seguinte, e para ele, era demais esperando por algo que poderia fazer agora. — Eu preciso que esse formigamento idiota passe o quanto antes. São menos de vinte minutos para conferir se tudo está pronto para nosso ritual.

— Você ainda quer continuar com o ritual? – questionou com cautela. Ao ver as sobrancelhas de Minho franzir e seu olhar se tornar confuso, emendou: — Não me olhe assim, meu bem. Com toda a sucessão de eventos desta noite…

Minho sentiu a raiva aquecer seu corpo. Não de Hyunjin, jamais de Hyunjin. Claro que o ritual deles ainda estava de pé, não permitiria que Dong e Hari o tirassem aquilo, não depois de tudo que fizeram e falaram. A vida e as escolhas eram suas . Nada e nem ninguém além de si mesmo teriam poder sobre elas. Não viveria pelas expectativas dos outros, independente de quem fossem. 

— Vamos fazer isso hoje e vai acontecer exatamente da forma que planejamos nos últimos meses. Quando as sombras cobrirem a Lua, nossas vidas irão se entrelaçar e então, quando a Lua tomar os céus novamente com todo seu esplendor, dividiremos o mesmo destino até meu último suspiro.

Hyunjin apenas concordou. Estava verdadeiramente feliz por ouvir tamanha certeza na voz de Minho. Quando o lobo contou sobre o ritual, Hyunjin mal conseguiu conter sua alegria. Ficou contente por diversos motivos, no entanto, o principal foi a possibilidade de prolongar a vida de Minho, pois cada segundo a mais ao lado dele seria uma dádiva.

— Se é o que quer, meu bem, é o que faremos.

Devagar, Hyunjin soltou a cintura de Minho, o deixando encostado na árvore para que tivesse onde se apoiar enquanto a câimbra passava. Prometeu que voltaria antes que sua ausência fosse sentida, fazendo uso de sua super velocidade para buscar a mochila que eles haviam separado com todos os materiais necessários para o ritual.

O ritual em si precisava acontecer nos poucos minutos de cobertura total da Lua. Meses atrás, quando souberam que existia um feitiço capaz de interligar a vida deles, Jeongin os contou que tal feitiço só poderia acontecer em um eclipse lunar, pois aquele era o único momento em que o poder da Lua se tornava menos opressivo sobre os lobos. Segundo o bruxo Yang, era como se uma espécie de véu cobrisse os olhos da Mãe Lua naquele pequeno intervalo de tempo, permitindo então que o destino de um lobo fosse interligado com o de outro ser.

Para que o ritual acontecesse, Hyunjin e Minho precisariam de pedras da lua enfeitiçadas por bruxos durante um eclipse lunar parcial e uma adaga de prata embebida em verbena para cortar a palma de suas mãos. As pedras foram cravadas em dois aneis, eles os usariam como uma memória física de seus destinos interligados, tal qual as alianças de compromisso que os humanos adoram exibir. Essas joias serviriam, além de tudo, como uma promessa corpórea de que o amor deles ultrapassa a barreira natural do tempo. Já a adaga de prata faria com que o corte na pele de um lobo demorasse a cicatrizar, assim como a verbena faria o mesmo com a pele de um vampiro, vez que a cura de ambas as espécies era quase instantânea quando se tratava de cortes majoritariamente superficiais.

Fiel a sua palavra, Hyunjin retornou em menos de três minutos, carregando consigo uma mochila preta e um sorriso largo estampado no rosto. Minho sorriu de volta e esticou a mão na direção do amado, que logo entrelaçou os dedos nos dele.

— Acho que podemos continuar aqui, me parece um ótimo lugar para unirmos nossas vidas – disse Minho, com as íris grudadas nas de Hyunjin, que apenas concordou com sua escolha e se permitiu ser levado por ele.

Lado a lado, o licantropo e o vampiro caminharam pela clareira, parando exatamente no centro dela. Ali, banhados pela luz da lua, os dois aguardaram ansiosamente pelo ápice do eclipse. E então, quando as sombras ameaçaram cobrir o astro, Hyunjin decidiu quebrar o silêncio.

— Eu esperei três séculos para conhecê-lo e esperaria milênios se fosse necessário, Minho – disse, com a voz suave e reverente. — Torço para que você consiga sentir e saber o quanto o amo, venero e admiro. Os cinco anos que vivi ao seu lado foram os melhores de toda a minha existência e acredito, sem a menor sombra de dúvida, que tudo que me aconteceu serviu para que eu chegasse até aqui, para que pudesse ter o privilégio de estar com você. Eu o disse uma vez e repetirei por todo o tempo que a Mãe Lua me conceder: sou seu. Penso que já era seu antes mesmo de saber que você existia. – A primeira lágrima de Minho caiu e Hyunjin logo levou o polegar frio para recolhê-la. — No dia que você me contou do desejo que tinha de fazer este ritual, uma alegria pura e genuína tomou conta de todo o meu ser. Para mim, já era uma honra e um orgulho saber que você me estimava ao ponto de querer viver ao meu lado, mas saber que você me ama tanto que pretende entrelaçar nossos destinos… é muito além do que um dia cogitei ser possível e palpável para um vampiro. Amo você, Minho, e o amarei ainda que o nosso laço se finde com seu último suspiro.

Minho queria respondê-lo à altura, dizer que conseguia sim sentir o amor que emanava dele e que o amava tanto que o coração parecia que iria explodir a qualquer momento, mas não conseguia organizar os pensamentos em uma frase coerente. Jamais poderia competir com Hyunjin quando se tratava de expressar os próprios sentimentos, então se ateve ao básico.

— Eu sinto, Hyunjin. Eu sei – afirmou, com a voz falhando. — Eu amo você. Amo você com todo meu coração e minha alma. Não sei me declarar e nunca fui muito bom com as palavras, mas amo você tanto . Cada pulsar do meu coração é para você. Me sinto tão amado por você que às vezes me questiono que fiz de tão bom em outras vidas para merecer conhecer você nessa.

Hyunjin sorria. Ter Minho dizendo que se sentia amado era como a melhor das músicas para seus ouvidos. Já havia conquistado muitas coisas durante todo o período que caminhou pela Terra, mas nada se comparava com aquilo, nada o trazia tamanha euforia e alegria. Por mais que desejasse, não pôde continuar a se declarar para o amado, pelo menos não agora, pois o eclipse total finalmente havia tomado os céus.

Com o rosto molhado pelas lágrimas que havia derramado, Minho se abaixou em direção à mochila e retirou de dentro dela a adaga de prata pelo cabo de couro, evitando assim que o metal o queimasse. Pegou também o frasco com chá de verbena e os aneis, mantendo um consigo e entregando o outro para Hyunjin. Em seguida, abriu o frasco para embeber a lâmina da adaga e, com ela molhada, esticou a palma da mão esquerda para Hyunjin, que logo a sobrepôs com a sua direita.

Enquanto segurava a mão dele sobre a sua, Minho usou a adaga com a outra mão para fazer um corte diagonal na palma de Hyunjin. Nada muito profundo, apenas o suficiente para sangrar por alguns minutos. Hyunjin tomou a adaga de Minho e repetiu o mesmo processo na mão esquerda do lobo, que soltou um resmungo pelo ardor da prata contra sua pele.

Os lábios de Hyunjin se curvaram em um pequeno sorriso ao ver o frazir de sobrancelhas de Minho e, sem pensar muito, trouxe o pulso dele na direção de seus lábios para deixar um beijo ali. Sem demora, o vampiro logo juntou as palmas cortadas e as apertou uma contra a outra, exatamente como Jeongin os havia instruído.

E então, em uma só voz, ambos proclamaram enquanto se perdiam nas íris um do outro:

— Prometo honrar, respeitar e amar você, acima de tudo. Compartilhar os fardos e as bênçãos que a Mãe Lua colocar sobre mim. Ser seu cúmplice, seu amigo, seu conforto e santuário, sua família e seu lar. Ser sua casa, para que sempre tenha um lugar para voltar. Estar ao seu lado na alegria e na tristeza, nos tempos bons e maus, na saúde e na doença. E, acima de tudo, ser seu, agora e para sempre, durante todos os dias que me restam sob esta terra. Com essa promessa, me ligo a você, para que possamos, enfim, dividir um só destino.

O próximo passo para selar a promessa e finalizar o ritual, era a troca de aneis, seguido por um beijo. Após colocarem os aneis nos respectivos dedos, Hyunjin lentamente se aproximou mais de Minho, levando a mão não cortada na direção da curva do pescoço dele. Com delicadeza, acariciou a bochecha do amado e fechou o pequeno espaço existente entre eles.

Foi um beijo suave, tranquilo como o farfalhar das árvores e o sussuro do vento na noite, mas cheio de emoção. Hyunjin sempre o tocava como se ele fosse uma preciosidade, e Minho todas as vezes sentia que poderia ser capaz de derreter sobre seu toque frio.

Quando o eclipse acabou e a Mãe Lua reinou outra vez sobre os céus, o lobo e o vampiro puderam sentir, mesmo que ainda estivessem de olhos fechados, pois o peso da promessa e da ligação instantaneamente caiu sobre seus ombros.

Ao afastarem os lábios, tocaram as testas uma contra a outra e ficaram naquela posição, aproveitando o silêncio e a brisa fresca da floresta.

— Estamos ligados, de corpo e alma – disse Minho, com alegria evidente em sua voz. Mal podia acreditar que havia enfim entrelaçado seu destino com o do amado. — Eu amo você, Hyunjin.

Hyunjin sorriu e se afastou um pouco, apenas o suficiente para levantar a mão de Minho que abrigava o anel e trazê-la na direção de seus lábios.

— Amarei você até meu último dia, meu bem – ele respondeu, deixando um beijo na pedra e fincando as íris nas de Minho no momento seguinte.

De coração leve, Minho sorriu e se jogou nos braços de Hyunjin, que o segurou com todo carinho e cuidado. Talvez a noite não tivesse acontecido como ele havia planejado, mas não poderia negar que, independentemente dos caminhos que o levaram até ali, estava mais feliz do que nunca. Afinal, ele sabia que, enquanto respirasse, Hyunjin sempre seria seu lar.

 

Notes:

Passei dez meses gerando essa história e particularmente estou muito feliz com o resultado. Senti falta de hyunhos onde o Minho é venerado pelo Hyunjin, então fiz minha parte e botei essa fanfic no mundo.

Me contem o que acharam nos comentários! 🤍

 

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