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Numa hora entre a noite e o dia, sob a luz escassa de um dia que ainda não amanheceu, eu e Juyeon fazemos amor antes do mundo acordar. No silêncio, escondidos na penumbra do meu quarto, no espaço estreito de uma cama de solteiro, nos movemos encaixados, e sinto que o tempo não passa enquanto nossas peles se misturam.
Não tínhamos planejado, mas quase nunca planejamos por causa de nossas agendas. Acordamos, sem descobrir quem foi o primeiro, e instintivamente sabemos que o outro não está mais dormindo, um conhecimento que não é ensinado, mas aprendido no convívio. Uma sensação me pinica, um anseio familiar, e na troca de palavras sussurradas, manifesto meu querer que felizmente encontra companhia. Brinco, dizendo que provavelmente sonhamos juntos com isso — o que explicaria nossa vontade de despertar —, e Juyeon ri, tirando a minha roupa sem discutir, me despindo dentro do casulo, me provando a minha razão.
É gostoso porque nem eu ou ele temos ânimo para muita artimanha, de forma que nossos corpos se unem com preguiça. Não é preciso muito para alcançar o limite, relaxados demais para impor barreiras, para camuflar o que queremos; e é tão simples fazer que ambos nos perguntamos se não deveríamos transar nesse horário, dessa mesma maneira, sob essa luz mortiça.
Já sei que isso não irá se repetir, assim como nada se repete em nossas vidas, mas o fenômeno ficará gravado em nossas células como se ele acontecesse com uma enorme frequência, tamanha é a influência da sua simplicidade. E quando ele desbotar, teremos um vislumbre de algo parecido e nos lembraremos de quando fomos pegos de surpresa por um desejo, tirados do conforto para atender a urgência da fome, e gememos nossos nomes no pescoço um do outro sem entender o que nos possuiu.
Na quietude de uma cidade ainda adormecida, entorpecido pela névoa do orgasmo, eu flutuo sobre algodão. Sinto a boca de Juyeon na nuca, aberta e quente no osso saliente da coluna. Seus dedos, inquietos, rabiscam minha pele com uma lentidão intencional, ameaçando meus arrepios sem nunca extraí-los de suas tocas. O calor de seu corpo me cobre por inteiro e eu me permito tímidos espasmos sob seus toques inocentes, roçando meus pés em sua panturrilha, respirando profundamente enquanto ele desbrava minha pele morna e sensível com uma sutileza meticulosa e delicada.
Abro os olhos quando a mão dele envolve meu pulso jogado ao lado da minha cabeça sobre o travesseiro e examino a discrepância dos tamanhos. Seus dedos grandes e gentis engolfam a circunferência que desaparece na mera sombra deles. Persegue linhas na minha palma como se as refizesse, como se ele fosse o autor original delas, e estou respirando pequeno, com medo de interromper isso, com medo de arruinar o quanto isso me deixa com o coração apertado.
O toque que reside no meu peito desce numa reta até meu umbigo e derrapa na forma arredondada do meu ventre, pegando o retorno até meu mamilo, circulando seu desenho, e eu acho que é isto o que Juyeon está fazendo, está reforçando meus contornos, me refazendo . Ele é o único que tem o mapa para corrigir as linhas, para dizer onde elas deveriam ficar. Se não fosse assim, como ele consegue encontrar precisamente cada falha, cada pinta, os relevos pronunciados, as dobras onde deve afundar os dedos?
Seu beijo no meu pescoço desperta meu resmungo mais profundo e se eu não estivesse sedado, teria dito “te quero de novo”, mas eu prefiro ficar assim com ele colado nas minhas costas, me voltando pro prumo. Penso que não existe nada mais solene e precioso que acordar antes de todo mundo e fazer amor com Juyeon.
Com a mente fresca pelo sono e o corpo adocicado pela descarga do prazer, eu conseguiria adormecer de novo já que não é hora de levantar, mas prefiro ficar boiando na sensação entre a lucidez e os sonhos, sentir quando os lábios de Juyeon resvalam meu ombro e seus dedos correm por caminhos familiares. O que será que ele encontra de tão interessante? Como não se cansa mesmo depois de ter o que queria? Por que ainda está aqui para mais um pouco, embora ele não vá receber mais nada? Parece um tolo esperançoso — ou apaixonado , como ele escolheria dizer, duas palavras sinônimas.
Eu me viro em seus braços e o encontro em um beijo vagaroso. Eu continuo de costas para ele enquanto nossas línguas entrelaçam e eu carrego meu braço para cima, enrolando meus dedos no seu cabelo indomado. Ele imobiliza o pulso do travesseiro num aperto macio e meus pés se movem na cama, escorregando entre suas pernas. Paramos ao mesmo tempo sob um comando invisível, as bocas grudadas num eterno beijo, e a impressão que eu tenho é que vou ficar assim pra sempre, atado a Juyeon. Isso até a língua dele fazer cócegas no céu da minha boca e me tirar um sorriso grogue.
Suspiro grande e cheio de satisfação quando Juyeon continua o beijo que mais parece uma sucção tímida dos meus lábios. Desço para trás e ele me acomoda em seu peito, seu braço completando a volta em torno dos meus ombros, a mão que estivera em meu pulso alocada em meu rosto, macia e pesada. Sei que ele está excitado apenas escutando sua respiração áspera, mas ele não se impõe, prefere o mesmo que eu ao me beijar e encostar sua pele quente na minha sem nos levar a lugar algum.
“Mais tarde”, eu penso que ele vai me prometer, olhos fechados que denunciam o cansaço. “Mais tarde e vamos fazer amor de novo”, e eu vou concordar, apesar de saber que não vamos cumprir porque o dia vai raiar e vamos ter que sair da cama. É por isso que ele não diz e é por isso que não vou cobrar.
Na tranquilidade de um dia que demora para despertar, sinto que o tempo parou e esquecera de avisar. Tudo parece suspenso. Por alguns segundos, a percepção disso me aflige, acelerando meu coração. Quero olhar o relógio, quero ter certeza de que não estou aqui há horas. Isso me desconcentra tanto que Juyeon precisa intervir e me acalmar, amansando minhas arestas. Quase não consigo voltar para seu abraço, distraído com esses pensamentos intrusivos.
— Por que você gosta de mim?
A pergunta não tem destino, pois era para ser um devaneio e não uma curiosidade barulhenta. Tenho medo sempre que sinto essa necessidade forte de perguntar, quase nunca me deixo dizer o que penso, mas estou tão chateado com minha própria facilidade de interromper a calmaria que não consigo reter a dúvida. A mesma dúvida insidiosa que me persegue a cada deslize meu. Por que você ainda está aqui? Por que ainda não me abandonou? Como consegue gostar disso?
Sinto a vibração da confusão dele em meu corpo e me preparo para uma briga, um exaspero, qualquer coisa que faça sentido para guerrear contra esse mal que aflige meus pensamentos. Juyeon, entretanto, nunca vem armado para lutar comigo. O que ele faz é sempre me dissuadir com carinho, beijar minha testa enrugada, tecer elogios ao meu respeito.
Antes que ele me responda, reformulo a pergunta.
— O que você gosta em mim?
Perguntar motivos talvez não seja a melhor abordagem. Vou ficar frustrado com a subjetividade, pois Juyeon tem esse jeito de resumir suas respostas, como se tudo fosse simples de resolver. Gosto porque é fofo , ele diz para uma infinidade de coisas. Eu amo coisas fofas , como se isso fosse dar um jeito em todas as questões universais.
A sua demora me faz checar se ele não dormiu. Seu olhar semicerrado me encontra no meio do caminho e meu instinto é ficar consternado com sua paciência proposital.
Seu sorriso entrega a disposição que ele tem em não me agradar de imediato.
— Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia — ele diz antes que eu tente apressá-lo, a voz baixa e rouca pelo desuso.
Seu dedo dá uma volta na minha têmpora, seu polegar na minha orelha.
— Quer tomar café? Ninguém levantou ainda.
Juyeon é sensível ao menor barulho, então sei que ele diz a verdade. Minha primeira reação é recusar, mas quando ele pronuncia ninguém levantou ainda , mudo de opinião no mesmo instante. Quando se vive com outras pessoas, qualquer oportunidade para viver uma amostra da solitude me deixa com sede.
Nós nos vestimos e andamos na ponta dos pés, eu mais desconfiado que Juyeon, que não precisa checar para ter certeza que não tem mais ninguém acordado. Admiro sua confiança e me apoio nela para experimentar o conforto de deixar alguém cuidar dos detalhes.
Na cozinha, invento essa realidade em que moro sozinho no apartamento e que meu namorado veio me visitar na noite passada. Crio esse cenário em que eu e ele vivemos vidas comuns, que não precisamos temer o futuro ou coisa alguma. Neste horário que parece congelado no tempo, sob o véu do silêncio, é perfeitamente possível viver assim sem ter com o que me preocupar.
Não hesito antes de voltar para o quarto a fim de apanhar minha câmera, pois não posso desperdiçar essa luz nem esse sentimento. Fotografo Juyeon preparando seu café, suas costas nuas, seus braços estendidos e suas mãos na bancada. Peço para ele se sentar numa das cadeiras perto da janela e ele faz poses, banhado pela claridade pálida e azulada de um dia nublado que teima em sair de seu aconchego.
Minha favorita é uma em que ele apoia um pé no assento e o braço nas costas da cadeira, dobrando o cotovelo para descansar a cabeça no punho. Fico aéreo quando os olhos escuros dele atravessam a lente e me fazem voltar ao que fazíamos na cama, rastros do seu carinho formigando em minha pele. Acho que devo demonstrar fraqueza com meu suspiro entrecortado, pois Juyeon vem como um predador e se debruça sobre mim, encostando minha lombar na bancada. Com um beijo imperativo, ele encerra a sessão de fotos e eu me seguro em seus ombros. Eletricidade faísca no ar entre nós e quando a água ferve, solto um gemido tímido.
Juyeon precipita seus quadris, esfregando o pênis duro em minha virilha, deixando bem claro que não é o único afetado.
— O que deu na gente hoje? — ele lê meus pensamentos.
Ele tenta se recompor, mas eu o impeço, pois não quero pensar que eventualmente seremos apartados e a raridade do momento será extinta. Juyeon compreende minha necessidade premente, voltando a me pressionar, roçando nossas pélvis com uma malícia nítida e uma prática invejável. Ele agarra meus quadris e ganha espaço entre minhas pernas, esfregando seu desejo em mim de forma acelerada. Eu mordo o lábio para conter minha vontade de gritar enquanto eu só preciso receber o que ele me dá e eu quero implorar, mas não consigo, minhas mãos apertadas em seus braços firmes.
O orgasmo é seco e eu caio em seu peito, exausto. Estamos ofegantes e um pouco constrangidos quando trocamos um olhar rápido. O que é isso? , parecemos nos perguntar, mas nenhum de nós busca a resposta. Não é urgente, sequer relevante. No entanto, sei que mais tarde ainda vou sentir Juyeon em mim e vou ficar duro só de pensar, meu corpo inapto diante do inominável que despertamos. Vou queimar como se tivesse febre, tentando conciliar o anseio que vai me pedir para fazer coisas tolas, e vou cruzar o olhar com Juyeon, sabendo que ele estará querendo o mesmo. Reviro os olhos ao prever; o dia vai ser longo com a presença dessas vontades.
Sentados à mesa, comemos sem palpitar sobre nada. Juyeon bebe seu café e eu bebo um chá de pêssego. Ocasionalmente trocamos beijos e tem algo de irresistível em nossa proximidade quando lambemos sal e açúcar da boca um do outro.
— Você não vai me responder, não é? — Eu desisto ao me escorar na mesa.
— Eu acho que você não vai aceitar tudo como resposta, vai?
Meu sorriso é tímido e eu emito um som de chateação. Pela ternura com que ele me olha, sei que entende que tenho uma necessidade diferente agora.
— Você sente quando eu gosto de você? Quando eu faço assim… — ele sussurra e se aproxima de mim a ponto de roçar seus lábios na minha bochecha. — Depois assim… — Ele prossegue e beija um caminho até o pé da minha orelha. — E assim… — Sinto seu riso se juntar ao meu e ele faz cócegas na minha orelha. — Você sente que estou dizendo “gosto disso e disso, e daqui, e daqui também…”?
Estou corado e sem fôlego quando ele continua a trilha, repetindo as mesmas palavras a cada beijo que deixa para trás. Não consigo competir quando ele faz isso, é impossível.
Seu hálito tépido lambe meu pescoço e eu quero me esconder, envergonhado. Consigo ouvi-lo mesmo quando ele não diz nada e percebo sem surpresa que sim, eu sinto quando ele gosta de mim. Eu só não parei para ouvir, sentir , atentamente.
— Eu gosto muito dessa parte em específico — ele insinua a minha boca e me olha com as pálpebras baixas. — Por que quando eu digo pra essa daqui, ela fica tão doce.
Eu não aguento mais tanta provocação e o beijo em troca, querendo agora empurrar as minhas palavras na língua dele. Te amo te amo te amo .
O barulho distante de uma porta nos assusta. Minha realidade inventada se espatifa no chão.
Minha reação involuntária é investigar os ruídos, mas sinto algo escorregar pelo meu braço e parar no meu pulso. Juyeon me puxa e o retorno para o meu quarto é feito com um pouco de pressa. Nos deitamos sobre o edredom e meu coração permanece acelerado, parece que vou sufocar. O dia clareou demais, o tempo voltou a correr.
— Não faça essa cara — Juyeon me repreende com suavidade.
Me ajeito na cama e me estendo ao lado dele, apoiando minha nuca em seu braço. Trago a câmera para cima e busco as fotos recentes da galeria. Juyeon está etéreo em todas elas e considero revelar a que eu mais gostei para colar no meu mural de fotografias.
— Não é uma pena quando momentos sublimes são interrompidos?
— E não é muito melhor pensar que aproveitamos quando tivemos a oportunidade?
Eu viro meu rosto e me deparo com sua expressão leve e divertida. Nós dois vivemos de forma intensa, mas com perspectivas tão diferentes. Enquanto Juyeon desfruta do ineditismo com a esperança do próximo momento, eu me entrego como se fosse a última vez com o medo de que nunca mais vou experimentar algo parecido. Formamos uma combinação e tanto, eu e Juyeon, apesar da minha inconsequência me render mais danos.
Um exaspero abandona meus lábios e faço questão de me virar na cama, dando as costas para Juyeon.
— O que foi?
— Você é muito nerd .
Ele ri. Sua mão encaixa em meu ombro e novamente seu corpo me recobre com seu calor. Sinto seu hálito em minha orelha e eu me encolho involuntariamente, querendo me proteger das cócegas. Juyeon vira a lente da câmera para nós e bate algumas fotos sem conferir o resultado. Tento me esconder atrás da mão e Juyeon insiste, o que começa uma luta pela posse da máquina, que continua a registrar o que está acontecendo sem eu conseguir impedir.
Juyeon vence ao sair de trás de mim para assumir o posto sentado em meus quadris. Fico preso e desalinhado sob seu foco, rindo atrás das palmas que uso como armadura para o rosto.
Inevitavelmente preciso ceder porque ele não vai me permitir a liberdade sem obter o que pretende, e eu deixo Juyeon arrumar meus braços ao meu redor. Ele acende o abajur ao lado da cama e o tom amarelado se derrama sobre nós. Vejo seu sorriso escapar de seus lábios e fico envergonhado ao receber essa atenção amorosa.
— Olha aqui pra mim — ele pede e eu fico sério ao encarar a câmera. — Lindo .
Dou risada e corro para trás das minhas mãos outra vez, incapaz de lidar com seu afeto tão cedo. Juyeon me repreende em sua voz cálida e me persuade a abandonar o refúgio com seus dedos carinhosos.
A sessão de fotos termina comigo e Juyeon enrolados, rindo das fotos tremidas que captaram pouco das nossas formas. As que ficaram boas interrompiam a sequência de borradas e penso que o sabor da vida tem um pouco dessa galeria. Um pouco de mim, um pouco de Juyeon — um pouco de seu foco e um pouco da minha dispersão.
