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Hermione não costumava viajar sozinha. Era uma dessas coisas que sempre pareceram melhores na teoria do que na prática. Mas ali estava ela, na segunda noite a bordo do Venice Simplon-Orient-Express, sentada à mesa mais afastada do vagão-restaurante, com uma taça de vinho branco intocada e um livro aberto apenas para disfarçar a ausência de companhia.
Do lado de fora, o mundo passava em reflexos borrados: campos, vilarejos adormecidos, luzes tênues perdidas no escuro da Europa. Aquele tipo de silêncio que parecia feito de veludo. Hermione gostava daquilo. Ou achava que gostava. Ainda estava aprendendo a diferenciar solidão da escolha deliberada de passar um tempo sozinha.
Foi só quando ouviu o som leve dos passos se aproximando que ergueu os olhos. A mulher a sua frente atravessava o vagão com uma elegância que não exigia esforço. Cabelos loiros-prateados presos com suavidade, um blazer preto, sobre uma camisa branca com os punhos largos à mostra, rebelando-se contra qualquer expectativa de perfeição. A expressão era atenta, mas não fria. Quando os olhares se cruzaram, algo mudou no ar, e Hermione soube imediatamente quem era.
Fleur Delacour parou ao lado da mesa, a surpresa contida nos profundos olhos azuis quebrou o gelo.
– Granger?
A voz roçava o sussurro. Nos 'erres', persistia um leve sotaque francês, imperceptível aos ouvidos que não fossem nativos do inglês. O trem permaneceu, encantado demais para aceitar um volume mais alto.
– Delacour – respondeu Hermione, com um aceno de cabeça que era meio cordial, meio alerta.
Fleur hesitou. Não havia outras mesas vazias. O garçom apareceu atrás dela, sorrindo com formalidade e fazendo um gesto discreto na direção do assento oposto ao de Hermione. A loira a encarou com uma pergunta silenciosa.
Hermione fechou o livro e empurrou-o para o lado, abrindo espaço.
– Claro.
Fleur agradeceu com um sorriso pequeno, apreciando o gesto, mas sem querer se comprometer com ele. Sentou-se com leveza, ajeitou-se à cadeira de madeira lustrosa, olhou em volta.
– Não posso dizer que não estou surpresa... bem, de todos os lugares possíveis para nos esbarrar, um trem rumo a Veneza não seria o meu primeiro palpite.
– Estou de férias. O que, honestamente, é quase tão improvável quanto o resto – respondeu Hermione, pegando a taça sem beber.
Fleur soltou um riso baixo. Um tremor breve, como se também estivesse fora de lugar.
– Recebi o bilhete de presente. Minha avó concluiu que estou deprimida e acredita que viajar ao modo trouxa fará com que eu encontre momentos de paz e reflexão.
– E você acredita?
A loira parou por um segundo, observando a intimidade que se criava. Dividiam uma mesa, então que pudessem conversar sem amarras.
– Talvez. Mas não tanto quanto ela gostaria.
Hermione a observou por alguns segundos. Fleur não era a mesma jovem deslumbrante do Torneio Tribruxo, tampouco a resistência feroz que lutou na Guerra Bruxa. Era ainda mais bonita agora. Mais contida. Havia algo gasto e vivo nela ao mesmo tempo. E Hermione sentiu, com a mesma clareza com que sabia conjurar um patrono, que aquela noite poderia lhe reservar gratas surpresas. Ou, ao menos, uma boa companhia para o jantar. Mesmo que ainda não soubesse nomear a sensação.
– Você está sozinha? – perguntou Fleur, sem afetação.
– Sim. E você?
Fleur assentiu, encarando o vinho intocado de Hermione como se houvesse ali uma resposta melhor que a sua.
– Sempre achei trens românticos – disse por fim. – Mas nunca viajei com ninguém que os tornasse assim.
– Talvez o romance esteja no silêncio – respondeu Hermione, sem pensar.
Fleur ergueu uma sobrancelha. Depois sorriu graciosamente.
– Você gosta de silêncios?
– Só dos confortáveis... Eu não tenho mais paciência para suportar manipulações.
Fleur concordou, levantando discretamente a mão para o garçom. Um homem um pouco mais velho do que elas, posturado em seu uniforme limpo, passado e bem alinhado. Enquanto mantinha os olhos azuis no salão, continuou a falar sem medo de fazer perguntas.
– Desculpe a indelicadeza, mas quantos anos você tem hoje para falar sobre paciência com tanta convicção?
Hermione recostou-se na cadeira, e pela primeira vez desde que se sentara ali, deixou os ombros relaxarem.
– Vinte e três.
– Vinte e cinco.
– Há quase dez anos eu te vi entrar pelas portas de Hogwarts e reclamar da culinária do castelo.
– Você não pode me julgar, eu estava preocupada em caber no meu vestido de baile.
– Pelo que me lembro, você coube muito bem.
Fleur sorriu com a memória, ainda mais pela sutil provocação de Hermione. Então devolveu o elogio.
– Pelo que me lembro, você estava deslumbrante ao lado do Viktor.
– Isso parece ter surpreendido você.
– De maneira alguma. Obviamente ele era desejado por todas as minhas colegas em Beauxbatons, mas nenhuma delas tinha um sorriso tão bonito quanto o seu.
O garçom se aproximou com o cardápio antes que Hermione pudesse acrescentar alguma outra coisa. Sabia que Fleur sustentava flertes com quem quer que achasse interessante. Não que tivesse realmente algum objetivo, parecia mais um movimento automático para ela, um costume. Porém não pode evitar uma fisgada no peito ao pensar que era considerada aos olhos daquela mulher.
– Permita-me? – disse Fleur, despertando Hermione do pequeno devaneio, voltando-se para o atendente com a confiança tranquila de quem já viveu muitas mesas bem postas.
Hermione arqueou as sobrancelhas, mas não protestou. Estava intrigada. E havia algo de curioso naquela pequena interrupção, um corte súbito na rotina de sempre. Ver Fleur falando italiano com o garçom – baixo, claro, preciso – fez com que sua mente desacelerasse, era como escutar música.
– Escolheu por mim? – perguntou, quando o garçom se afastou com os menus fechados.
Fleur virou o rosto na direção dela, os olhos cor de céu sustentando o olhar de Hermione por um instante a mais do que qualquer outra vez em que se encontraram anteriormente.
– Sim. Espero que não se importe. Você parece... exausta da responsabilidade.
Hermione inclinou a cabeça, Fleur era inesperada. E, para sua própria surpresa, agradavelmente inesperada.
– Em um dia comum, eu detestaria. Mas estou de férias... então acho que agradeço.
Fleur sorriu.
– Eu morei em seu país por alguns longos anos. Aprendi que bruxas inglesas não costumam aceitar bem ordens à mesa.
– Não aceitei. Só... cedi, por curiosidade – respondeu Hermione, tocando a taça com os dedos, sem levar aos lábios. – E o que pediu?
– Um risotto com açafrão e cogumelos. E um Pinot Noir de Vosne-Romanée. 1990. Velho o suficiente para ter perdido o medo. Jovem o suficiente para ter algo a dizer.
– Isso soa bem ensaiado.
– Eu gosto de vinhos. Eles me fazem discursar melhor.
Algo dentro de Hermione, não um alarme, mas um sino de vento, soou, discreto, avisando que algo tinha se deslocado no ar.
O maître se aproximou em silêncio, apresentou a garrafa com um leve gesto e serviu um pouco na taça de Fleur. Ela levou o vinho ao nariz, fechou os olhos por um instante, e depois umedeceu os lábios na borda do cristal. Um quase imperceptível aceno de cabeça bastou, a aprovação estava clara. O homem serviu o restante, com precisão, e tão logo saiu de cena.
Hermione observava, sem saber ao certo o que era mais raro: permitir que alguém conduzisse a cena, ou o prazer repentino que isso lhe dava. Tomou um gole.
– É mais leve do que eu esperava.
– Isso te desaponta? – perguntou Fleur, achando ter decepcionado.
– Não, não desaponta. Só me fez prestar mais atenção.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Era uma pausa que não exigiu resposta, apenas uma deixa no ar para notar a presença uma da outra. Quando a comida chegou, envolta em um aroma sutil de ervas aquecidas, Hermione sorriu. Estava faminta, e não sabia.
– Você sempre acerta jantares?
– Quase. Quando eu cozinho, posso ou não explodir uma panela.
– Ah, você está sendo modesta. No período em que estive no Chalé das Conchas você se mostrou uma ótima anfitriã.
– É, talvez... Mas quase morrer deve ter feito tudo parecer mais acolhedor... ainda assim, obrigada pelo elogio.
Hermione esboçou um sorriso pequeno, discreto, mas verdadeiro. Estava fazendo isso bastante naquela noite. Lembrar de Fleur cuidando dos seus ferimentos, depois da tortura na Mansão Malfoy, reacendeu um carinho pela francesa que o tempo afastadas quase apagou.
Fleur fingiu não observar. Bebia o vinho com lentidão. Pausava entre um gole e outro, dando a impressão de ponderar algo, prestando atenção aos sons de Hermione.
– E então? – perguntou, ajeitando o guardanapo com elegância. – Ainda apaixonada pelas leis?
Hermione ergueu os olhos.
– Surpreendentemente, sim. Ou... talvez mais pelo que elas podem ser. Fui promovida recentemente. Agora estou assessorando o chefe do Departamento de Execução das Leis Mágicas.
– Isso soa... importante.
– Importante, burocrático, e cheio de gente que acha que a guerra resolveu tudo. Quando, na verdade, só embaralhou.
– E você, claro, está determinada a reorganizá-las.
– Alguém tem que fazer – Hermione bebeu o vinho. – E você? Ainda em Gringotes?
Fleur suspirou. Longo, leve. Como quem já pensou sobre isso mais do que gostaria.
– Por enquanto – girou a taça devagar. – Estou voltando a Paris depois dessa pequena viagem. Há uma vaga interessante no Ministério Francês. Mas... ainda gosto do cheiro dos cofres subterrâneos.
Hermione sorriu.
– Isso é algo que um dragão diria.
– Dragões são mais previsíveis, ma belle.
– Estive mais perto de um do que gostaria de admitir.
– Eu me lembro bem! Foi um verdadeiro pandemônio quando vocês invadiram o banco, não queira saber dos detalhes...
Um instante. As duas beberam ao mesmo tempo. O trem curvou uma esquina invisível nos trilhos, e a luz balançou de um jeito breve. Do lado de fora, o mundo era todo noite e sombra.
– Você e Bill... – começou Hermione, sem saber bem por que havia dito em voz alta.
Fleur não hesitou.
– Acabou. Civilizadamente. Sem escândalo. Sem lágrimas. O tipo de fim que parece bom demais para ser verdade, e por isso mesmo deixa um gosto estranho – Fleur encheu novamente a sua taça, fazendo o mesmo com a de sua companhia. – A guerra nos fez casar muito cedo. E a paz nos mostrou que não sabíamos quem éramos depois dela.
Hermione assentiu, sem comentar. Havia uma compreensão que não precisava ser dita.
– E você? – Fleur perguntou, olhando-a diretamente agora. – Ronald te espera em Veneza?
– Também estou sozinha.
Fleur não rendeu. Apenas deixou o silêncio durar, oferecendo-lhe um lugar à mesa. Hermione, pela primeira vez em muitos meses, aceitou.
O jantar seguiu com temas leves: livros recentes, a política internacional, o novo ministro britânico. Fleur, sempre escutando com atenção, fazia perguntas que não exigiam respostas longas. Hermione retorquia sem se dar conta de que estava relaxando. E depois de duas taças, riu de uma piada boba. Não porque fosse brilhante, mas porque queria rir na presença de alguém.
E Fleur, sem anunciar, percebeu.
A sobremesa veio sem que pedissem: peras ao vinho com lascas de chocolate amargo. A francesa explicou que era cortesia do maître para hóspedes que pediam Pinot Noir sem hesitar. Hermione fingiu acreditar, mas havia um brilho em seus olhos que a entregava. Sabia que Fleur decidiu novamente por ela.
Conversavam sem assunto definido. Divagavam. Sobre a diferença entre memória e saudade. Sobre como o mundo bruxo tratava mulheres veela que não sorriam o suficiente. Sobre o silêncio dos corredores do Ministério quando se trabalha até tarde demais. Fleur mencionou uma vez em que foi confundida com uma estagiária em Gringotes, mesmo já sendo membro da comissão de política monetária do banco. Hermione contou sobre o dia em que confundiram seu nome com "Heloísa", na Suprema Corte dos Bruxos, e ela deixou passar, só para ver até onde iria.
O jantar terminara. As taças estavam vazias. E mesmo assim, nenhuma das duas parecia pronta para se despedir.
– Há um vagão-bar nesse trem? – perguntou Hermione, já sabendo a resposta, mas aparentando dúvida como quem oferece uma saída.
– Há – disse Fleur, com um meio sorriso.
– E ele serve chá?
– Serve jazz – Fleur confirmou, satisfeita. – Uma taça a mais ou uma música a mais?
Hermione simulou pensar, mas seus olhos já haviam respondido.
– Uma música.
As duas se levantaram. Fleur recolheu o blazer com um gesto elegante, e Hermione esperou. Não havia toque. Nem convite. Só o pacto silencioso de continuar a viagem juntas.
O vagão-bar cheirava a lenho encerado e malte. Hermione reconheceu o odor, o mesmo do Caldeirão Furado. Os espelhos nas paredes estavam manchados pelas decadas, e o pianista, um homem com sobrancelhas grisalhas que pareciam fugir da testa, massacrava La Vie en Rose aparentando mau humor.
– Encantador – Fleur mentiu, conduzindo Hermione para se sentar perto da janela.
– Desejam continuar com o vinho? – Um novo garçom chegou sem que percebessem. Hermione ficou pensativa sobre como ele descobriu que as duas beberam vinho no vagão do restaurante. Havia comunicação efetiva entre os funcionários?
A inglesa hesitou. Olhou para Fleur. Depois, para o homem. Tão alinhado quanto qualquer outro funcionário do trem.
– Chá, por favor.
Fleur sorriu com os olhos.
– Tão cedo para voltar a tomar decisões?
– Apenas uma concessão à sobriedade.
– Sensato.
Não falaram muito. Às vezes, as palavras não ditas são as mais eloquentes e elas pareciam entender isso, até Hermione, então, questionar.
– Você sempre fica tão quieta quando está decidindo se gosta de alguém?
Fleur quase engasgou enquanto tomava mais vinho.
– Quieta? Non. Só estava pensando que... é curioso o fato de... pera aí! Você está presumindo que eu estou avaliando você?
– Não está?
– Acredite, eu teria levantado na primeira garfada se você não tivesse me intrigado, chérie.
Fleur reagiu instintivamente, levantando uma sobrancelha. Havia o velho brilho nos olhos azuis que lembrava a adolescente petulante do Torneio Tribruxo.
– E você já decidiu se gosta da minha companhia?
– Intrigante não é o mesmo que agradável, Delacour – os olhos castanhos de Hermione fixaram-se nos de Fleur, desafiadores. – Mas já que estamos avaliando... sim, eu também teria ido embora se você fosse chata.
– Você não respondeu se gosta de mim.
– Você também não.
Elas se encararam. O trem balançou ao ritmo em que avançava, e a luz dourada do vagão projetou sombras sinuosas entre as duas. Fleur quebrou o silêncio primeiro.
– Eu nunca decido essas coisas tão rápido... preciso de mais dados – seus dedos tamborilaram na taça de vinho.
Hermione inclinou a cabeça, captando a sutileza no convite para que continuassem a conversar. O garçom reapareceu nesse momento, interrompendo o diálogo.
– Mais alguma coisa, senhoritas?
Ambas responderam simultaneamente.
– Não, obrigada.
O sincronismo inesperado fez com que Fleur soltasse uma risada baixa, enquanto Hermione disfarçou um sorriso atrás da xícara.
Quando o relógio do trem marcou meia-noite, a inglesa se levantou.
– Preciso descansar. Foi um bom jantar, Fleur.
– Foi – disse, sem acrescentar nada.
Hermione hesitou ao se afastar. Depois virou-se, já alcançando o corredor.
– Você escolheu bem. O vinho. A comida. As palavras. Obrigada por hoje.
Fleur levantou a taça quase vazia, como um brinde tardio.
– Merci de m'avoir laissé le choix.
– Je n'ai pas pu dire non.
Hermione sorriu, um pouco cansada, um pouco entorpecida. Depois foi embora.
Fleur ficou por mais um tempo, ouvindo o piano se desfazer no escuro. Não pediu outra taça. Apenas olhou para a porta onde Hermione desaparecera e refletiu, com uma calma incômoda, um entendimento que não lhe era comum. Conhecia Hermione desde que a garota tinha quinze anos e ela própria, dezessete. Haviam, é claro, trocado várias palavras durante os momentos em que frequentavam os mesmos eventos da família Weasley. Porque aquele encontro inesperado despertava seu repentino interesse, era algo que desejava descobrir.
