Actions

Work Header

Dente de Leão

Summary:

O inverno se estica rigidamente sob as montanhas ao redor de Konoha, trazendo consigo a neve, algumas doenças sazonais e um lobo cinzento gravemente ferido.
Umino Iruka, um médico traçando seu caminho de volta para casa montado em seu fiel escudeiro Pakkun, vislumbra aqueles grandes olhos bicolores em meio a neve, o cheiro metálico de sangue e compadecido, oferece sua ajuda ao lobo.

Notes:

a paciência com certeza é a minha inimiga e vocês irão querer meu pescoço em uma bandeja de metal, mas só se vive uma vez!!
em geral não se preocupem com as tags, é uma oneshot (deveriam ser dois caps mas isso fica com meu eu do futuro) bem tranquila, só tem descrições de um machucado mas nada que vá causar desconforto, acredito.

Work Text:

 

A neve caía com pequeníssimos flocos sobre o casaco de Iruka, que o puxava sobre os ombros para certificar-se de esconder seu nariz avermelhado no manto fofo. As árvores, com seus grandes galhos debruçados em neve, montavam o caminho do médico de volta para casa. 

Ele conhecia aqueles troncos, alguns com marcas de seu treinamento com arco, outros marcados para fazer um caminho de fácil acesso em noites mais escuras. De toda forma, mesmo que não pudesse ver o chão sob seus pés, haja vista que estava tomado por neve, Iruka e Pakkun, seu alazão marrom de humor ácido e apaixonado por bloquinhos de açúcar, conheciam aquela estrada bem o suficiente para sentir que estavam nela. 

Portanto, a cavalgada aconteceu sem pressa. Pakkun em seu trotar calmo e orelhas sempre atentas, Iruka divagando sobre a nova música que aprenderia tocar em sua velha viola e o que faria para o jantar. Talvez um ensopado? Ele trouxe consigo alguns cortes de porco e búfalo, farinha e mais outras coisas que já estavam em falta, a pequena agenda em sua bolsa era sempre muito útil em salvar-lhe de esquecimentos.

Ademais, ele precisava limpar o estábulo de Pakkun no dia seguinte, assegurar-se de que estaria quentinho o suficiente e que o feno fosse reposto. Pakkun é um excelente cavalo! Merece ser tratado como tal! 

A noite de repente se afunda em um silêncio que vai além do comum, os cabelos da nuca de Umino Iruka se arrepiam, Pakkun para, suas orelhas virando de um lado ao outro enquanto tenta inalar mais profundamente o que quer que a humanidade de Iruka não o permita sentir como o cavalo.

Então ele ouve um rosnado baixo e grave, a sensação de perigo se instaura em seu sistema, mas ele a faz parar. 

Pakkun recua um passo, mas Iruka o detém puxando levemente a guia. O cavalo parece irritado com isso, os músculos da perna tremendo enquanto bate a ferradura na terra com força, fazendo a neve se esbagaçar sob seus pés, ameaçando pisotear seja lá o que estivesse entre as árvores. 

Pela apreensão de Pakkun, a coisa deve estar à esquerda. Os dedos de Iruka apertam-se ao redor da guia, apreensivo sobre o que fazer, o arco preso em suas costas esquecido, sabem os deuses por qual razão. 

Bom, bem sabem os deuses…

A visão de Iruka no meio do nevoeiro é péssima, apenas borrados, um vento frio e o estranho odor metálico ao seu redor. Mas não parece ser uma ameaça de fato, ou isso lhe diz seu coração bobo. Ele trava uma pequena batalha interna sobre descer e averiguar ou seguir e ficar com aquela dúvida em seu coração. 

Ele solta a guia de Pakkun, o cavalo sente a corda encostando em sua crina e caminha mais um pouco, o rosnado se faz presente, agora mais perto e Iruka vê.  

Grandes olhos cinzentos brilhando para si, um deles parece quase vermelho, à sua esquerda, como Pakkun já sabia. 

— Não se mexe — recomendou ao cavalo.

A coisa rosnou novamente.

Pakkun empurrou sua cabeça no peito de Iruka assim que ele pousou no chão com um baque, o afastando à força, mas sabia que era um pedido em vão, haja vista que Iruka já se desvencilhou de si para ir a frente.

O constante rosnado se quebrou em um latido de choro, havia dor no meio de tanto medo. Iruka nunca viraria as costas para aquilo.

Ele se moveu lentamente, passo a passo até uma moita ao lado de um grande tronco. O médico estava nervoso, seu coração batendo nas orelhas, rápido, sonoro, fazendo seu peito subir e descer rápido demais para seu auto controle falho. 

Um galho se quebra, Pakkun se assusta e relincha, o coração de Iruka acelera, o que quer que estivesse atrás da moita tentou correr, mas caiu logo depois com um uivo de dor que faz a expressão do médico se contorcer de imaginar o quão ferido a criatura deve estar.

Contando apenas com a graça da lua para iluminar o que estava após, mesmo com a neve caindo sem parar, o Umino continua. Movimentando-se lentamente, agora usando sua voz, calma como o sussurro do vento… a linha tênue entre o real e uma alucinação.

Estou aqui com você — ele assegura, controlando ao máximo seu corpo para que não assustasse… o lobo — Você está seguro.

Era um lobo. 

A primeira coisa que o médico reparou além dos grandes olhos cinzentos brilhando perigosamente em sua direção foi o uivo baixo, fora a quantidade de sangue na pata daquele lobo. Escorrendo como poça e manchando a neve. Os dentes da criatura rangiam sempre que este tentava fazer qualquer movimento.

— Ah, deuses… — Iruka analisou preocupado, se colocando de joelhos em frente ao lupino, mas hesitante em trocá-lo — em que briga você se meteu, senhor Lobo? Foi bem feia ter como base a quantidade de sangue nessa patinha gigante. Eu posso te ajudar, sabia? — não, ele não sabia se o lobo sabia, mas na sua cabeça conversar com o animal o ajudaria, assim como fez com Pakkun desde sempre — Sou médico — ele sorriu, e vislumbrou os olhos do animal brilhando mais ainda —, me chamo Umino Iruka. E você, senhor Lobo?

Um uivo baixo veio como resposta. Bom, ele pensa, pelo menos alguma comunicação tem sido estabelecida.

— Tenho um material de primeiros socorros aqui, vamos enfaixar para ajudar a estancar. Você quer sair daqui? Minha casa não é muito longe — ele se move, ainda lentamente, puxando um rolo quase acabado de gaze da sua bolsa — Você pode ir no Pakkun e eu caminho com vocês. O que acha, senhor Lobo? 

E ele uiva novamente, esticando sua pata em direção ao médico, e se fosse humano, com certeza haveria uma expressão de dor em seu rosto. 

Lutando com a neve e a escuridão, Iruka tomou cuidadosamente a pata do lupino, limpando o excesso de sangue com a ponta de seu casaco, algo nada higiênico, mas luta-se com as armas que se tem. Ele enrolou a faixa na pata do animal com firmeza, tomando agora consciência do quão grande o lobo era, sendo quase o triplo de um lobo comum.

Após tudo feito, Umino se afasta levemente, somente para dar ao lobo espaço para lamber sua pata de forma analítica e julgar o que desejaria fazer. 

Pakkun, na estrada, bate levemente a ferragem no chão como aviso. Ele está incomodado. Iruka olha para ele sobre o ombro, franzindo as sobrancelhas como quem pede paciência ao cavalo e então se levanta, um bocado de neve caindo em seus cabelos por ter batido num dos galhos de árvore cheios de neve, ele ri e sacode a cabeça. 

O lobo o observa, assustado, em alerta e fascinado.

— Acha que consegue levantar? — ele pergunta agora para o lupino. — Acabei usando magia demais na aldeia, não posso forçar meu núcleo para lhe curar, não agora. Creio que me entende, sim? 

Então o lobo força seu corpo para cima. E se antes Iruka o achava grande, agora ele parecia enorme, de pé chegaria tranquilamente aos dois metros,  mesmo sob as quatro patas ele ainda era gigante e corpulento. 

— Venha comigo, senhor Lobo. Vamos tratar essa sua pata machucada assim que chegarmos. 

E assim, aquele homem de coração puro, o cavalo e o lobo seguem lentamente pela estrada e sob a neve cada vez mais expressa. 

A determinado ponto, Iruka consegue enxergar sua casa ao longe, com as lamparinas acesas, uma mochila jogada na porta e um par de botas muito reconhecíveis para si.

O pequeno furacão Uzumaki.

— Vamos conhecer um rapaz muito falante e enérgico — contou Umino ao senhor Lobo — Espero que seja afeiçoado a raposas.

E sem tempo para uma segunda resposta, uma cabeça loira despontou da porta aberta, enchendo os pulmões para gritar suas boas vindas mas se acalmando ao ver o que havia ao lado do médico. Ele estava de queixo no chão.

— Iruka sensei, onde você achou isso? 

O rosto do homem se dobrou numa careta feia assim que entrou na lateral coberta de sua casa, tirando o peitoral de flechas e o casaco espesso, o deixando sobre a mureta de madeira, chamando o lobo para subir no deck de madeira que estendia toda a lateral da casa.

— Isso são modos, Naruto? 

— Oh. Hm… desculpe sensei. É que ele é gigante! — pontuou o rapaz, sua euforia mal contida em sua voz — O que houve com a pata dele?

Iruka balançou a cabeça negativamente, tirando sua bolsa e a colocando no deck junto das demais coisas que Pakkun carregava.

— Não faço ideia, mas deve ter sido em alguma briga por território. — ele balançou a mão em direção ao rapaz loiro e o entregou sua bolsa — Vá e pegue minha maleta de primeiros socorros que fica no quarto, uma bacia com água e panos, por favor.

— Sim senhor! — Naruto bateu continência e correu para dentro. 

Iruka sorriu, logo voltando ao senhor Lobo, que ainda lhe observava de forma analítica e, podendo o descrever melhor, Umino conseguia ver a cor cinzenta de sua pelagem, os olhos castanho avermelhados, uma cicatriz no olho, como um corre de ponta a ponta, semelhante a sua própria cicatriz que ia de uma bochecha a outra.

— Vou desmontar os arreios do Pakkun, você pode me esperar? Prometo que é só enquanto o Naruto traz as coisas.

O lobo inclina a cabeça para o lado, não lhe respondendo, mas deitando no deck enquanto Iruka toma isso como um sim e acelera seu trabalho com Pakkun, desmontando tudo em tempo recorde. 

Quando o loiro volta, o médico pede delicadamente para que ele se afaste, oportunidade a qual Naruto decide levar Pakkun para a baia enquanto Iruka se dedica ao lobo Naruto senta na porta traseira da casa e observa Iruk trabalhar.

— Vamos começar?

Ele diz ao licano antes de desatar o curativo de emergência retirando a gaze, os pelos da pata do senhor Lobo tendo se transformado numa grande bagunça de sangue e sujeira, com cuidado  destreza, Umino Iruka corta os pelos ao redor da ferida, sempre falando ao lobo o que faria, mantendo sua voz no mesmo tom neutro que usou na floresta.

Não há muita demora, mas nitidamente muito cuidado em cada etapa. Ele lava a ferida, apara os excessos pelos, analisa sua profundidade e, chateado por não poder usar seu chakra para fechar a ferida, acelerar o processo de regeneração e estabilização das células, se limita a passar um unguento para que não infeccione, dando seu máximo para diminuir a umidade no pelo do lobo. Ele refaz a atadura, dando aquela pata por encerrado. Então volta a analisar o animal, procurando algum outro machucado, estes que realmente foram encontrados, sendo cuidadosamente tratados.

Por fim, Iruka dá dois tapinhas amigáveis nas costas peludas do lobo, este que estava metade dormindo, metade acordado, muito relaxado com os cuidados do médico. Ele reúne os materiais novamente, separando as bandagens que deveriam ser descartadas e devolvendo sua caixa a Naruto.

— Caso queira tem uma lareira quentinha lá dentro, posso pedir que Naruto seque seu pelo e depois você descansa enquanto faço algo para comermos.

O lobo não se move.

— Você pode ficar — disse Umino Iruka, sem ter consciência do coração do licano acelerando gradativamente — pode entrar e deitar perto da lareira, só cuidado para não derrubar as coisas. Você é bem grandão, me entende? Não duvido que seja um pouco desengonçado, com todo o respeito. 

Naquela noite de nevasca, o lobo dorme na porta da casa do médico.

Na manhã do dia seguinte as orelhas do lobo se levantam, a casa se agita nas primeiras horas do dia,  vozes altas, panelas batendo, as janelas se abrem, o sol é tímido, quase inexistente, mas aquelas pessoas ainda assim estão cientes do tempo. 

O médico cumprimenta o lobo. 

O lobo vira a cara e isso tira uma risada daquele homem.

Durante o resto do dia o lobo desaparece. 

Iruka fica preocupado mas conhece a natureza solitária de alguns lobos, principalmente os que vivem sem alcateia, o que parece ser o caso daquele lupino. Ele suspira, esticando as costas e rumando em direção a sua estufa, dedicando boa parte de seu dia a ficar ali. 

Lentamente, dia após dia, enquanto o inverno fica cada vez mais rigoroso, o lobo volta em períodos aleatórios, sempre sujo de neve e mato, com seu olhar atento, as orelhas em pé e fungando quando Pakkun o recebe batendo a ferragem na terra. 

Um dia ele senta aos pés de Iruka na estufa e fica ali, simplesmente respirando enquanto o médico se debruça sobre suas longas horas de estudo.

Noutro ele aceita o convite de Iruka para entrar em sua casa, deitando sobre o carpete em frente a lareira até que uma tigela de bolinhos de carne e leite quente é colocada em sua frente, sua cabeça vira para o lado, tentando entender o que seria aquilo. Iruka ri dele, maravilhado com a fofura daquele ato e acena para o lobo dizendo:

— Coma, você precisa ser forte. 

O lobo não questiona. 

Um dia, próximo ao fim de tarde, quando a neve desistira de cair e agora tentava descongelar, o lobo sacudiu seus pelos antes de entrar na casa, esfregando suas patas no pano da porta – muito ciente das vezes em que o médico gritava para que o menino loiro limpasse seus pés antes de entrar –, e sentado num banco com uma viola em seu colo, dedilhando alguma melodia muito aconchegante sobre dentes de leão serem a praga mais bonita que o mundo poderia ter feito, o médico cantarolava lindamente aquelas palavras sobre amor e esperança.

O lobo ficou sentado ali.

O médico lhe chamou para entrar.

Ele obedeceu.

Às vezes o lobo caçava com Iruka e Pakkun.

Uma vez ele trouxe uma lebre e o médico bateu palmas para ele.

Agora, quando Iruka viaja para Konoha, ele fica sentado na porta da casa do médico, rondando o território, protegendo e vigiando.

O garoto loiro aparece na casa de Iruka às vezes, sempre gritando de forma animada, algo que faz seus ouvidos sensíveis doerem, mas ainda há afeto quando o ouve. 

No passado, Iruka o disse que ele deveria entrar, e que estava tudo bem. 

O lobo se vê afundado em sua forma mais rude, amedrontado pelas suas próprias garras, perdido entre as partes de si. Mas, no fundo de seu coração havia algo que o aquecia a alma…

Numa noite de intensa nevasca, gravemente ferido após ter sido atacado por uma alcatéia, ele vagou sem rumo até encontrar algum lugar cujo território não houvesse cheiro de bando. Era frio mesmo em sua densa pelagem, um frio que lhe irrigava a alma trêmula em pânico. Distante de sua própria mente, o lobo se deu por vencido, sem forças para caminhar, seu corpo ferido, afundado na neve, escondido em arbustos. Mas ele ouviu o trotar de um cavalo, longe, tão longe e tão perto, batendo a pata agressivamente no chão. Perto. Ele rosnou sabe se lá para quem, os olhos afundados num brilho cinzento e então ele tenta correr e cai logo em seguida, o peito subindo e descendo com tanta dor que o mínimo movimento era insuportável então… aquela voz.

Estou aqui com você — dizia. — Você está seguro.

Então ele deixou que acontecesse.

 

O verão se apossou aos poucos do tempo, o sol agora impunha sua presença, a neve derretida transformava tudo em um lamaceiro e os campos se esforçavam para ser verdes. “Aos poucos”.

Aquela semana foi uma das que Iruka estava indo para Konoha, coçando o topo da cabeça do lobo e prometendo que voltaria logo “É mais um caso gripal, dessa vez o Hokage caiu” e “Talvez Naruto passe aqui, ele e alguns amigos. Ele tem ido para várias missões grandes, me sinto orgulhoso dele. Ah, e seja amigável, tudo bem?” o lobo espirrou, não querendo obedecer a ladainha de ser amigável.

Eles partiram, Naruto veio com seus amigos que por incrível que pareça eram muito dóceis e menos barulhentos do que ele, e então foram embora. 

O lobo ficou sozinho. 

Cansado de lobo, lobo, lobo e lobo.

As suas costas estalaram, ossos se reorganizando e pelos recuando, ele estufou o peito nu e gemeu com a leve tensão de seus músculos, os alongando como um animal após sua soneca. Ele olha o ferimento curado de seu calcanhar, as cicatrizes de garra nas costelas e a de seu olho. É ele, em carne e forma humana. 

Aquele homem desnudo limpa seus pés antes de pisar na varanda, destrancando a porta e abrindo as janelas da casa, sentindo o vento veraneio em suas costelas. Ele se banha no pequeno lago que há atrás da casa, uma incrível engenhoca sobre uma nascente, pedrinhas delimitando seu espaço enquanto matinhos crescem ao seu redor do caminho de pedras. Ele é humano. Da ponta dos dedos longos, a cicatriz no olho direito, os fios de cabelo platinados, os pelos de seu braço, dedos dos pés a ponta do nariz e a pinta de seu queixo. Humano como a muito tempo se negava a ser.

Ele é pálido como a cor de seus pelos. Uma folha rabiscada de cicatrizes.

Um, expira, dois expira. 

Ele veste uma roupa de Iruka, fascinado com o cheiro de ervas medicinais, lavanda e rio. Ele limpa uma coisa e outra, vai a estufa somente porque aquele é o lugar favorito de Iruka, lê aqueles livros mesmo que para si a combinação de ervas e equilíbrio de células nada faça sentido, organiza o estábulo, porque agora a pastagem de Pakkun será verdinha e bonita. No cair da noite ele acende as lamparinas, pega um livro na estante da sala e senta na porta da casa enquanto a chaleira está chiando atrás de si.

Tudo parece calmo.

Silencioso. 

Até que no fundo ele consegue sentir uma agitação anormal. 

Um relincho alto.  

Pakkun

Então ele corre com os pés descalços, o trotar cada vez mais duro contra a terra, o lobo se ira, nervoso, estressado, afoito. Ele corre em direção ao cavalo, vendo Iruka deitado nas costas de Pakkun e o pânico se apossa de suas entranhas. Tem cheiro de sangue. 

Ele se contém, porque seja lá o que for, a mínima queixa que deixar nesta terra, no seu território, ele o encontrará. 

Pakkun trota com toda sua força, olhando para os lados relinchando com quem chama o lobo então para e se vira em choque para o homem. Sem tempo para grandes explicações, ele tira Iruka das costas do cavalo, o deitando no deck, um gemido de dor atravessa seus ouvidos e a mão do médico vai diretamente para o braço que parece ter sido mordido com crueldade.

Oh — diz quando consegue focar sua visão no rosto à sua frente, lindos cabelos platinados, um olho preto e outro vermelho vivo, como o sangue escorrendo por seu braço, já uma cicatriz atravessando seu olho numa linha vertical perfeita, ele tem uma pintinha próximo a ponta direita inferior da boca e ah , aquele corpo quente e acolhedor…. um sorriso doloroso ilumina o rosto de Iruka, deixando sua mente relaxe e vagar na beleza daquela criatura metade humana e metade… — senhor lobo. Estou… tão feliz em ver você.

E então tudo desapareceu apesar de seu esforço para não perder o licano de vista.