Chapter Text
— Você sabe que precisa resolver isso, não sabe?
O peso de suas palavras flutua pelo ar, atravessando o espaço que nos separa na cama e pousando em minhas costas antes que as cinzas do meu cigarro possam alcançar o cinzeiro.
Do lado de fora, os galhos da árvore no quintal arranham o vidro da janela do nosso quarto, em uma tentativa desesperada de descontar o frio que sopra contra a cidade empedrada. Sentado na beirada da cama, também sinto vontade de atravessar a vidraçaria e fugir do ambiente claustrofóbico que me encontro.
— Não é nada demais, Elisa. Eu só estou cansado por causa do trabalho, você já sabe bem disso. — Opto por descontar minha frustração no cigarro entre meus dedos, sentindo a fumaça quente se apossar de meus pulmões, queimando tudo de dentro para fora até que escape por minha boca como um fantasma.
Elisa tosse um riso. Não preciso ver seu rosto para saber que a piada sou eu.
— É, eu sei bem — Ela retruca, como se a nossa, não, minha situação, não fosse um estresse para minha mente tanto quanto para a dela — Você tem certeza que não tem nada além disso?
O tom de sua voz traz um sorriso involuntário para meus lábios e, antes que eu possa me preocupar com sua reação pelos buracos que meu cigarro espalha pela nossa roupa de cama, a puxo para meus braços, tomando todo o cuidado para que nenhuma brasa toque sua pele de seda.
— O que você está insinuando, senhora Kim, é ultrajante.
Ela grunhe e me empurra pelos ombros, me xingando pelo tecido que cobre a cama e amaldiçoando meus malditos cigarros em sua língua materna, o que me faz sorrir ainda mais.
— É Elisa, para você. Marido.
— Certo… — Recebo seu rolar de olhos habitual quando puxo mais nicotina para os pulmões. Contínuo o cigarro e a pergunta: — Do que estava me acusando especificamente, esposa?
— Suicídio — Ela franze o nariz quando a névoa acinzentada encontra seus cílios grossos e me desfaço em um sorriso que beira fascínio, admiração pura — Não culposo, é claro.
Elisa sorri e seus cílios tocam as bochechas de forma teatral. São do mesmo castanho escuro dos olhos que me convenceram a fazer qualquer coisa que ela desejasse quando adolescentes, o mesmo efervescer veranil que escorre nos olhos de nossos filhos e, ainda assim, aqui, cerca de vinte anos depois, não pertencem à mesma mulher por quem me apaixonei quando ainda era um garoto.
Como se precisasse ser lembrado, o coração nos faz um favor e cobre meu corpo de adrenalina dos pés à cabeça.
Me apaixono por Elisa, mais uma vez.
— Meu amor, você sabe que não tem com o que se preocupar. Não existe outra mulher neste mundo que possa tomar seu lugar.
— Eu sei — E ela realmente sabe. — Mas, Deus… Taehyung. Já faz algum tempo, entende?
A pele entre suas sobrancelhas se crispa, frustrada. Por dentro, meu ego se contorce da mesma forma ao ser lembrado por minha própria esposa que, apesar de meus esforços, ainda consigo falhar com ela em nosso acordo.
— Elisa…
— Olha, eu entendo, tudo bem? Eu sei que você nem sempre consegue controlar, mas, eu já não sei mais o que pode resolver nossa situação.
Sua voz tropeça quando sai da boca, minha culpa explode no peito. A beijo. Nossos lábios, peritos em cada passo que antecede os suspiros e lamúrias sôfregas de nossos corpos, buscam saciar os desejos que queimam sob a pele de Elisa e que, em mim, não causam erupção.
Ofego, torço para que ela não perceba que a culpa é responsável pela reação, e não seu corpo. Meu cigarro está prestes a me queimar os dedos quando Elisa se afasta, seus olhos me marcam antes que as cinzas possam tentar.
— Resolva isso. Ou eu vou.
Suas curvas são beijadas pela luz perolada que atravessa as cortinas quando ela vai para o banheiro, me impedindo de pedir desculpas pela falta de emoção que transborda meu corpo a ponto de respingar em nosso casamento. Agradeço e me martirizo, mais uma vez, por ela não fazer questão das minhas palavras quanto faz das minhas atitudes.
Quando ela retorna de seu banho, os longos fios de cabelo caem em cascata por seu peitoral, e o roupão de veludo, idêntico ao que ganhamos em nosso casamento parece ser mero atributo à sua figura. O tecido pesado escorrega por seus ombros e a recordação da primeira vez em que a vi sendo minha esposa é mais rápida do que posso assimilar.
Não me lembro do nome da mulher, talvez fosse Carol ou Catarina, mas era uma de suas amigas de infância. Loura, branca e podre de rica. Elisa deveria estar acostumada, tendo nascido no berço em que nasceu, a receber presentes de boa qualidade. Mas algo naquele roupão, ou melhor, nas intenções de sua amiga, foi o que fez que o tecido fosse jogado fora, descartável como o mais vagabundo dos tules.
Quando perguntei sobre, a indiferença presente em seus olhos me causou arrepios.
— Se ela não acredita que você seja capaz de me dar um maldito roupão de veludo por conta própria, não preciso de nenhum presente além que ela mantenha distância de mim e da nossa família.
Na época, o Stigma ainda não tinha o renome que carrega na cidade, muito menos em nossas vidas. Sua família ainda insistia que morássemos em uma de suas casas, descrentes de que eu pudesse cuidar de Elisa como eles haviam feito por dezenove anos. Eu, com vinte, tendo recém adquirido um imóvel caindo aos pedaços para transformar em um bar de Jazz, pensava o mesmo, mas ela jamais permitiria que qualquer pessoa insinuasse sobre nossa vida. Não me safava da equação.
Comprei seu primeiro roupão de veludo um ano depois da inauguração do Stigma, motivado como o diabo para provar que ela podia contar comigo para manter suas regalias e desejos, além do nosso casamento, amor e companheirismo, intactos.
Vendo-a jogar o provável vigésimo roupão de sua coleção sobre nossa cama, estabeleço como objetivo não permitir que ela se decepcione pela decisão que fez.
🥃
— Henry, se você não devolver a porcaria do meu celular eu não vou responder por mim.
Quando desço as escadas, a voz de Hana ecoa pela sala de jantar como se houvessem três delas circulando a mesa. Como esperado, seu irmão está do lado oposto do cômodo, sorrindo debochado enquanto olha alguma coisa no aparelho em suas mãos. Leio a situação com rapidez, acostumado com o barulho e discussões dos meus filhos pela manhã.
Apesar de gêmeos, Hana e Henry não compartilham muitas similaridades em suas personalidades além do infinito desejo em tirar o outro do sério. Hoje, meu filho parece estar ganhando.
— Eu não sei o motivo de todo esse drama, maninha. Não é como se o papai não tivesse tido aquela conversa com a gente desde os quinze.
O desconforto em minha feição é refletido no rosto delicado de Hana quando ela solta um gritinho frustrado, batendo os punhos contra a cadeira estofada à sua frente.
— Meu Deus! Eu te odeio.
— Bom dia, crianças — Elisa diz quando atravessa a sala para se sentar ao meu lado. Hana está apoiada na cadeira em que ela se acomoda, e isso é o suficiente para que Henry revire os olhos e devolva o celular da irmã — Obrigada, querido. Essa jaqueta é nova?
Finalmente me sento à mesa, eternamente grato pela mulher com quem me casei ser também a melhor mãe que conheço. Pelo sorriso que tem no rosto, Henry pensa o mesmo.
— Presente de aniversário adiantado do vovô.
— E depois diz que não é mimado — Hana retruca, se sentando à minha frente depois de me oferecer um beijo na bochecha.
— Você ganhou um celular do papai faz duas semanas.
— Não foi de aniversário — Ela se defende enquanto me sirvo com torradas.
— Eu não ganhei!
— Não parece ser algo nem próximo de um problema meu, maninho.
Henry abre a boca, ofendido, e se vira para Elisa enquanto ela toma uma taça de Mimosa.
— Você pediu uma viagem e o iate já está alugado. Sinto muito, filhote.
— Que droga… — Hana sorri com a reação do irmão, mas ele é rápido em pensar em algo para impedi-la de continuar — Eu posso, pelo menos, chamar meus amigos pra festa aqui em casa já que vou ter que dividir meu iate com as amigas da princesinha aqui?
Quando ela percebe a situação que se encontra, toda a cena fica ainda mais interessante de se observar. Eu e Elisa admiramos em silêncio a programação matinal ser a coisa mais interessante do nosso dia.
— O quê? Não! Isso não é justo! — E antes que eu possa pensar em uma resposta, sou arrebatado pelos olhos castanhos da garota em minha direção — Papai…
— É aniversário dele também, princesa. Tem mais alguma coisa que eu possa fazer?
— Bom… — Seus olhos brilham, animados, e estou pronto para dizer sim para qualquer coisa que ela me peça — Já que perguntou, acho que eu ficaria mais feliz se você cantasse pra gente.
A sensação se esvai como um dente de leão, e preciso de alguns segundos para não me fechar completamente em frente ao seu pedido.
— Cantar? — Solto uma risada, ao meu lado, Elisa sorri com o que deve ser a lembrança da última vez que cantei em público — Vou ter que pensar a respeito.
Satisfeita com o pouco que ofereço, Hana sorri em minha direção e Henry comemora com uma dancinha enquanto mastiga seu café da manhã. Elisa ainda lê o jornal e termina sua Mimosa, e a segunda discussão do dia é deixada em um passado que não atinge suas preocupações.
— Ah, maninha, vai ser legal. — Ela revira os olhos, nem um pouco convencida e é abraçada pelos ombros — Olha, posso até chamar o irmão do Jaehyun pra vir também. De presente de aniversário! Como é mesmo o nome dele?
Diferente de muitas provocações que passam ilesas pelas defesas de Hana, essa parece acertá-la em cheio, é perceptível quando seu rosto fica pálido e notoriamente enrubescido com segundos de diferença. Curioso, não perco a oportunidade de perguntar sobre.
— Quem?
— Ninguém.
— Ninguém? — Pressiono.
— É só uma pessoa qualquer, papai.
— Então é alguém! — Henry aponta em sua direção.
Hana segura seu dedo com uma mão só e torce para o lado.
— Você é um porre, sabia disso?
— É difícil esquecer quando ouço você falar desde que a gente dividia a barriga da mamãe.
— E mesmo depois de ter saído de lá com vida você continua me testando, seu idiota.
— Vocabulário. — Elisa repreende.
Meu celular apita no bolso da calça e guardo um suspiro por saber que minha manhã se esvai pelos dedos e em breve precisarei encarar a vida real.
— Ok, se forem pegar carona comigo é melhor estarem prontos em três minutos.
Eles continuam brigando até que os segundos escorram pelo tempo e os leve até o carro na garagem. Na porta de entrada, Elisa tenta arrumar o tecido da minha camisa, mas seguro suas mãos entre as minhas antes disso.
— Eu te amo. Sabe disso, não sabe?
Ela sabe, e por isso me beija antes de deixar que eu retorne ao Stigma e aos problemas que impedem que eu demonstre o mesmo. No carro, conversas triviais vem e vão durante o percurso até o colégio e quase vou embora ileso de mais um pedido de aniversário quando Henry se encosta na janela com os olhos castanhos que apenas Hana e Elisa compartilham em nossa família.
— Não vou cair no seu papinho de dinheiro para o lanche. Da última vez perdi cinquenta dólares com você, mocinho.
— O que? Ah, não. Não é isso… — Ele parece incerto de como entrar no assunto, e isso é o suficiente para que eu preste atenção em qualquer palavra que saia da sua boca — Pai, na verdade, eu queria saber se posso ir no Stigma mais tarde. Eu e alguns amigos.
Minha confusão aumenta.
— O que você quer fazer no Stigma?
Ele crispa os lábios, e observa o grupo de adolescentes que conversa com Hana a alguns metros de distância. De longe, só reconheço Maya e Leon, por serem os melhores amigos dos meus filhos, mas o garoto asiático de óculos retangulares e a garota de dreads cor de rosa também não me parecem desconhecidos. Quando percebem estar sendo observados, alguns deles acenam e devolvo o ato com um sorriso.
— Tem uma festa chegando e, hum, a menina que eu estou afim vai estar lá. Não quero passar vergonha e vomitar quando for falar com ela por não saber tomar uma bebida mais forte.
Um sorriso involuntário cresce em meus lábios e Henry já está vermelho de vergonha quando suspiro, orgulhoso, e me encosto no banco do carro.
— Caramba, eu tô ficando velho mesmo, não é? Meu filho tem uma namorada e quer encher a cara na casa de um completo estranho…
— Pai…
— Nem parece que foi ontem que eu estava trocando sua fralda e tendo que esconder sua chupeta.
— Pai, por favor.
— Como era o nome dela? Josefa? Griselda?
— Julieta, a pepeta. Será que dá pra parar com o terror psicológico e me dizer se posso ou não ir com o pessoal?
— Só se chamar sua irmã. E não, isso não é negociável.
Henry revira os olhos mas concorda, resignado.
— Tá, tá bom. É… Pai? — Ele me encara, parecendo ainda mais desconfortável com o que está por vir. Seguro uma risada de antemão — Pode me dar uma das camisinhas da sua gaveta, por favor?
É preciso muito mais do que força de vontade para segurar a gargalhada que escala minha garganta, mas aceno que sim com a cabeça.
— Você sabe que pode comprar as suas, não sabe?
— As suas são mais caras.
— Tem razão — Meu cenho se franze em questionamento, e meu humor se esvai no ar num instante — Sabe se… Se sua irmã também precisa?
Diferente de mim, Henry gargalha alto, jogando cabeça para trás tão teatralmente que seu grupo de amigos para a conversa no meio para observar. Ele tem a decência de não encarar Hana do outro lado do estacionamento, mas aponta para trás com uma das mãos.
— Aquela ali cai dura antes de deixar alguém tirar o B.V. dela, pai. Não esquenta. Eu só falo essas coisas pra encher o saco, mas não deixo nenhum bobão dar mole por perto. Eu prometi, lembra?
— Bom saber que manteve a palavra da promessa que fez com cinco anos, meu filho.
— Ainda faltam cinco pra ela se livrar de mim.
Meu celular apita novamente, dessa vez no banco do motorista, e me despeço de Henry com pressa para chegar no Stigma.
— Me avisem quando estiverem indo. Vou preparar a adega para vocês.
— Valeu pai, você é o melhor.
Com o mesmo sorriso de Elisa, ele se afasta do carro em passadas largas, e não posso deixar meu instinto paterno de lado antes de me inclinar na janela do automóvel e gritar:
— Tudo pra te juntar com a sua Julieta, Romeu!
🥃
As paredes revestidas de pedra parecem cintilar quando desço pelos últimos degraus da escada-caracol que levam até a pista principal do Stigma.
Do outro lado do balcão de bebidas, os funcionários parecem surpresos com a minha aparição tão cedo, acostumados com a minha frequente permanência no clube durante as madrugadas, mas quase nunca antes que o salão estivesse lotado. Compartilho com eles a estranheza de estar ali, sentindo a sensação de vazio me consumir a pele a cada passada que, vacilante, dou até a porta do escritório de James.
Bato uma, duas vezes, mas não tenho resposta. Cogito chamar por seu nome, mas a ideia se esvai da mente quando recordo o motivo de estar no trabalho àquele horário. Ele havia me chamado, exigido minha presença.
Então por que caralhos não estava em seu escritório?
Bufando, sequer encosto os nós dos dedos na madeira maciça, tomando o caminho que sabia de olhos fechados. Ignoro os olhares assustados que passam por mim pelo caminho, e em menos de dez passos, abro a porta, tendo a visão de meu sócio sentado na grande cadeira de couro posta no canto da sala, em frente à lareira e a estante de livros que Elisa havia insistido que eu comprasse quando a trouxe aqui pela primeira vez.
James fuma um dos meus charutos, recostado confortavelmente em minha cadeira, na minha sala.
No meu clube.
Quando adentro o cômodo, o cheiro da fumaça e sexo inunda meus pensamentos e consigo me irritar ainda mais com sua petulância, finalmente compreendendo a reação dos funcionários à minha presença. Tolo, me faço notado sem a mesma discrição que ele faz questão em ter ao tentar roubar o que é meu, bem debaixo do meu nariz.
— Espero que tenha, ao menos, deixado algumas das minhas camisinhas no lugar, James.
Seus olhos verdes se chocam contra minha figura com uma calma estupidamente irritante, lábios exibindo um sorriso que beira o escárnio.
— Tae! Pensei que chegaria mais tarde, como sempre. Espero que não se importe.
— Com sua bunda sentada na minha cadeira ou por ter comido alguém no meu escritório com nossos funcionários de testemunha?
Ele fuma mais uma vez, batendo as chamas em queda no cinzeiro em seu colo quando se vira para mim e sorri ainda mais.
— Imagino que pelas duas coisas. Venha, sente-se.
Mesmo com o corpo em chamas, me aproximo, tomando o sofá verde escuro como apoio. Ele apaga o charuto e deposita o cinzeiro cheio na mesa de centro entre nós dois.
— Sabe, essa sala é muito mais confortável do que a minha. — Permaneço em silêncio, e ele segue seu pensamento sem gaguejar uma vez sequer. — O que acha de trocar?
— Trocar?
Ele sorri. Minha garganta se contrai, incomodada com as milhões de palavras que gostaria de cuspir em sua cara.
— Exato! — Ele confirma, convicto de que sua petulância não me afeta. Não é uma verdade completa. — Acho que seria o ideal, principalmente depois que eu comprar o clube.
Não posso conter um riso.
— James…
— Você já deveria imaginar, não é? Quero dizer, com os gastos que andam tendo para manter os artistas desconhecidos que insistem em apresentar aqui, e sua ausência no clube… — Sua voz não carrega mais o tom receptivo de segundos atrás, e o verde de seus olhos me parecem venenosos. — Chegaria o momento em que você teria que acordar desse sonho, Taehyung.
— Não sei se entendo o que você está dizendo neste momento. Nossa conversa não era para resolvermos essa situação? Acharmos uma solução?
— Essa é a solução. — Ele diz, simplório. — Eu vou comprar sua parte do Stigma.
Me levanto do sofá em súbito, desacreditado e incomodado por sua coragem em dizer tamanho absurdo.
— Sinto muito por ser a pessoa a te informar isso, James, mas minha parte não está à venda. — Respondo com um sorriso.
James parece esperar que eu diga algo do tipo, pois devolve o gesto com elegância, se levantando de minha cadeira e tirando um punhado de papéis da maleta de couro que está ao lado de seus pés, no chão.
— Não é o que o banco acha. — Ele diz, quando me entrega notas e mais notas fiscais, além de prints de câmeras de segurança externas e internas. Datas, horários e valores riscados em um vermelho escarlate.
— O que isso deveria significar?
— Significa que, para o banco, sua ausência e falta de investimento financeiro neste clube são uma ameaça para a vida de cada um dos nossos funcionários. — Explica, como se eu fosse um adolescente que não entende o motivo de ter reprovado na prova. Fervo sob a pele. — Significa que, se eu quiser, posso comprar sua parte do Stigma, e salvar a minha pele desse navio prestes a naufragar, por sua culpa.
Meu peito arde, ferve e borbulha de uma só vez.
Folheio os papéis como se eles tivessem uma resposta alternativa, um salva-vidas em que eu possa me apoiar.
— Você me ensinou muito, Taehyung. — James fala, mas sua voz está abafada por meus pensamentos em frenesi — Não sou ingrato a ponto de ignorar isso, pelo menos, não vou ser.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que vou te dar uma chance. Para salvar a sua pele, a minha, e do Stigma. — Ele passa por mim, e se apoia em minha mesa. — Três meses. É o que você tem para resolver essa situação, ou eu vou, e não estou te ameaçando quando digo isso, tirar o Stigma das suas mãos.
Suas palavras passeiam pela minha cabeça pelas horas seguintes, me fazendo prisioneiro de todas as possibilidades perdidas que tive antes de ver tudo escalonar até meu infindável presente.
O clube estava longe de uma falência iminente, pelo contrário, brilhava, glorioso entre os demais bares da cidade, carregado pelo glamour que dediquei boa parte da vida em esculpir por cada canto, das paredes de pedra até o piso envernizado.
Ainda assim, seria impossível que eu administrasse tamanho investimento sem ajuda, e James sempre foi competente em me deixar confortável para viver longe das noites caóticas que, às vezes, assombravam o palco do Stigma como um fantasma inconformado com a solidão do pós-morte, sempre em busca de melodia para as noites vazias.
Encontrando morada em minha mente, o fantasma se acomoda, satisfeito, e o conforto que senti por meses, anos, pesa meu corpo até que eu tome o lugar em que James se encontrava quando entrei no escritório. Fumo um cigarro, seco uma garrafa de vinho branco, mas a sensação persiste no peito.
Deitado e perdido em pensamentos, sequer noto quando minha solidão é interrompida pela presença de outro corpo no ambiente.
— Se importa se eu roubar um cigarro?
Estou exausto, e lidar com um adolescente querendo provar do gosto da rebeldia juvenil não vai resolver meus problemas neste momento. Me permito sair da carcaça receptiva que sempre tenho com os amigos dos meus filhos.
— Se você não tem idade para comprar os próprios cigarros, deveria, ao menos, ter um pouco de vergonha em pedir os de um adulto, garoto.
A lareira quebra a madeira em chamas à minha frente, laranja, vermelho e amarelo trepidando em ondas quentes que me atingem tão superficialmente quanto um sopro de verão.
Ouço um riso fraco, abafado.
— Uau. — O garoto diz, mais sarcástico do que verdadeiramente surpreso. — Bem certinho para alguém que permite um grupo de adolescentes secar a adega do próprio bar, não acha?
Um sorriso me escapa dos lábios, tão incoerente à situação quanto minhas falas. Quando me viro para a porta, não reconheço a figura encostada nela e minha curiosidade se eleva.
Debaixo de uma jaqueta pesada e calças largas, ele parece tão novo quanto deve ser, mas os cabelos pintados em cinza, os piercings que decoram suas orelhas, lábios e uma das sobrancelhas me deixam dúvidas se já nos conhecemos antes.
Seu rosto é familiar e estranho ao mesmo tempo. Não consigo parar de encará-lo. Ele não se afeta, e quando seus olhos encontram os meus, sorri sem mostrar os dentes. Pisco lentamente, cansado de todas as discussões vividas naquele dia. Quando ele levanta uma das sobrancelhas, permito que ele entre.
Pelo menos por aquelas poucas horas que separam a noite do dia seguinte, me permito acreditar que os únicos adolescentes com quem devo me preocupar são os meus.
Egoísta, ignoro a lista de problemas que tenho para solucionar. Foco apenas no garoto de roupas escuras que ainda está na minha sala.
Seus pés se arrastam até o tapete que segura o peso da mesa de madeira. Com uma obediência velada, espera minhas palavras antes de procurar pelo maço de cigarros.
— Primeira gaveta… — Não sou tão rápido quanto suas mãos, e percebo que ele não encontrou o que procurava quando suas sobrancelhas se erguem, interessadas. — Da direita.
Ele sopra um riso nasalado, balançando a cabeça quando se move até o outro lado do móvel para sacar de lá o maço.
O observo de longe, me esticando para alcançar a garrafa de saquê frutado no carrinho de bebidas perto da lareira. Encho o copo, tomo um gole, mas ainda não é o gosto que procuro pra saciar meus pensamentos.
— Aceita?
Sua voz reverbera atrás de meu corpo, me arrepiando dos pés à cabeça. Quando procuro por seu rosto, está tão perto que consigo descobrir pintas em seu nariz, além de uma cicatriz que lhe decora a bochecha. Seus lábios são desenhados e macios quando tocam a ponta do cigarro, tragando mais da névoa.
Com um sopro, a fumaça sai de sua boca e toca minhas bochechas, nublando os sentidos que me esforço a manter resistentes mesmo entre a nuvem de nicotina. Pisco os olhos, perdendo seu rosto entre meus cílios antes de ver seu sorriso aparecer por completo por trás da cortina esbranquiçada. O calor que sucede o arrepio lambe minha pele.
Apenas estendo uma das mãos, expectante da oferta.
Sou surpreendido quando ele não puxa mais um cigarro da cartela, e apenas deposita o que estava fumando entre meus dedos. A intimidade de seu ato não passa despercebido pela minha mente inquieta.
Não agradeço.
Trago uma, duas vezes, e me vejo refém do sabor doce grudado na extremidade onde seus lábios encostaram segundos antes. Quando os dedos tatuados pedem o cigarro de volta, devolvo a contragosto.
— São camisinhas caras, as suas.
Qual é o problema das pessoas com a marca das minhas camisinhas?
Reviro os olhos, pela terceira vez no dia. Quando volto minha atenção à sua figura, ele está observando os porta-retratos que decoram o móvel da lareira.
— Obrigado. Pode levar algumas com você, já que gostou tanto.
O canto de seus lábios sobe levemente quando ele puxa mais da fumaça, e seus cílios lhe cobrem os olhos de forma preguiçosa quando me encara e responde:
— Não acho que vou precisar.
Ignoro seu tom de voz e a forma como seu olhar se demora sobre mim, lambendo cada partícula do que absorve com as íris escuras.
Me pergunto, todavia, o que ele vê.
O garoto se senta no tapete à minha frente, com ombros tão largos que quase perco o vislumbre das chamas lambendo a lareira de dentro para fora. Permanece em silêncio pelos minutos seguintes, o olhar fascinado pela dança que as chamas performam enquanto elevam a temperatura da sala.
Não me encara, não vira seu corpo, não começa uma conversa. Apenas toma o cigarro com a boca, puxando a nicotina para os pulmões numa sequência ritmada. Quando seu perfil é tocado pela luz do fogo, os lábios têm um brilho convidativo. Como um reflexo, molho os meus com a ponta da língua.
Tudo à minha volta é pintado em tons de verde, laranja e marrom, desde o estofado de veludo verde escuro até os móveis de madeira maciça e os desenhos criados pela silhueta das chamas na lareira, que continuam pintando a face do desconhecido sob meus olhos.
Minha pele se arrepia sob o calor, mas a garganta é ambiciosa, cobrando por mais gelo, álcool, qualquer coisa que possa molhar meus lábios com frescor. Noto os piercings do garoto brilharem sob a luz das chamas e preciso desviar o olhar para reprimir o pensamento de sua temperatura contra minha língua, o gosto adocicado ainda está aqui quando engulo em seco.
Busco por um antídoto. Entre um gole de saquê e outro, assumo os resquícios do que deve ser seu protetor labial sob minha língua. Não é suficiente. Bebo dos seus rastros pacientemente, mantendo o silêncio que paira entre nós dois, intacto.
Sequer noto a ausência do fantasma que me acompanhava, uma falta nem um pouco ressentida.
Depois de alguns segundos, me perco no sincronismo do tempo, navegando entre a finitude do hoje e do amanhã. Não sei quantas horas se passaram desde o segundo em que o vi atravessar a porta e o agora, mas me vejo esperando o momento em que ele se levantará e irá embora. Não parece perto de chegar.
Sem adicionar mais nada, peço pelo cigarro novamente, mesmo que tenha meu próprio maço a um palmo de distância. Quando sinto o gosto doce me tocar os lábios mais uma vez, suspiro, encontrando o sabor que procurava pelo transcorrer daquela noite. Daquela semana infernal e das que vieram antes dela.
Minha visão está turva, corpo pesado e jogado contra o estofado macio de minha cadeira. Estranho a sensação de paz que se apossa de mim enquanto minha mente borbulha atrás de explicações, respostas para o que meu corpo parece gritar. Não consigo ouvir direito, pois toda minha atenção está vidrada na figura a poucos metros do meu alcance.
Tocado pelo abraço quente da lareira, as costas dele se movem sem rapidez, expulsando a jaqueta de perto de sua pele como uma cobra faz com suas escamas com a chegada do verão. Meus olhos o queimam também, acompanhando seus movimentos sem a intenção de perder um segundo.
Expiro, soprando mais da fumaça fantasma de meus pulmões, inebriado pela sensação do novo vício eminente.
Existe uma pinta no final de sua nuca, e tenho certeza que a pele que encontra seus ombros é suave sob o toque, apesar dos músculos desenhados que carrega por todo seu corpo.
Me incomodo ainda mais com a distância que nos separa.
Ele toca os dedos pela região que observo, estendendo-os até mim quando pede o retorno do vício. Levo minha mão até a dele, chego a ofegar sob a respiração quando sinto o suor de seu corpo na ponta dos dedos. Meu coração acelera, mas ignoro assim como faço com a sensação de ânsia que me acomete. Ainda assim, continuo querendo mais.
O cigarro acaba, e ele pondera antes de jogar a bituca contra as labaredas da lareira. Quando se levanta, me encara de uma forma inquisitória, preciso levantar uma das sobrancelhas para pedir que explique o que espera de mim.
— Pode me levar até a adega?
Meus pensamentos são roubados pela realidade para qual sua pergunta me puxa, onde ele é um garoto, novo o suficiente para ser amigo de meus filhos, que não deve saber o que acabou de me causar. Pisco mais algumas vezes, assentindo com a cabeça antes de me levantar, ansioso para quebrar a atmosfera que me faz refém de sua força gravitacional.
Minha nuca está úmida, olhos pesados, mas culpo a bebida, não ele. Como posso, quando não sou capaz de verbalizar o que se passou pela minha cabeça, o que acabo de viver nesse curto espaço de tempo? Aceito que ele sequer esteja ciente de meus pensamentos quando, olhando para mim, sorri ao se aproximar da porta de saída.
Mal damos dois passos para fora do escritório quando Namjoon me alcança. Yoongi está atrás dele, o avental bem amarrado no corpo deixa explícito que está prestes a terminar seu turno na cozinha. Não faço ideia de que horas são, mas é tarde.
Meu colega parece intrigado, e seu filtro não consegue segurar que ele solte: — Quem é esse?
O garoto entre nós parece curioso com minha resposta, com olhos escuros brilhando em nossa direção. Me recuso a encará-lo por muito mais do que o necessário, limpando a garganta para responder a Joon.
— Amigo das crianças. Eles ainda estão lá embaixo? — Namjoon não parece convencido. Seus braços se cruzam sobre o peitoral marcado, mas ele assente, jogando o pano de prato por cima de um dos ombros como um hábito — Certo, eu já volto. Vem, garoto.
O calor de seus músculos queima a palma da mão quando o direciono à frente, desviando do corpo esguio de Yoongi, que me encara, impassível, no caminho.
A adega não fica muito longe das salas de reunião, escondida atrás de uma grande cristaleira ao lado da porta de entrada que os funcionários utilizam para chegar até a cozinha. À nossa direita, um portal de madeira escura e tecido de veludo vermelho acoberta a passagem até o salão principal, onde a música continua tocando desde o momento em que abrimos o bar.
Suspiro aliviado, satisfeito por pelo menos alguma coisa não ter mudado completamente nas últimas horas pois, quando passamos pelas taças de cristal e me vejo em seus reflexos, não reconheço quem é ali. Não sou o mesmo.
Busco a chave de acesso presa ao lenço de seda que carrego em minha calça para destrancar a porta, mas um sopro de ar vindo da direção das escadas denuncia sua abertura. Estalo a língua no céu da boca e minhas sobrancelhas se franzem.
Me lembro de corrigir o comportamento de Henry por desobedecer minhas ordens e deixar a porta para a adega destrancada.
— Por aqui — E por mais que saiba que não existe outro caminho que o leve até onde os amigos estão, acompanho seus passos em direção à escada em seguida.
— Valeu.
Ele segue em silêncio, como sempre e, mesmo que tente refrear, estar cercado por luzes amarelas grudadas às paredes fazem minha pele esquentar com a memória recente das sensações vividas no escritório. Engulo em seco, pigarreio para tirar a sensação agarrada à minha garganta, mas nada adianta.
Seu gosto continua aqui, sob as doses de saquê e a fumaça de um cigarro inteiro. Não deixo que isso me impeça de querer mais até que minha consciência cobre pelo resto de razão que torço para existir em mim.
Fecho os olhos, tentando afastar os pensamentos, mas quando desço mais um degrau, meu caminho é ultrapassado por seu corpo, que para entre o final da escada e a porta de madeira sem aviso prévio.
Minha boca toca sua nuca, onde a marca da pinta se destaca entre o restante de pele exposta. Mesmo quando me afasto e passo a língua sobre os lábios, buscando expulsar a sensação da minha mente, o toque ainda queima. Parece pior quando sinto na boca o gosto que escorre dele.
Ele é feito de mel e brasa.
Seus olhos se encontram com os meus, e me perco em um infinito de dúvidas e certezas sobre ele e, principalmente, sobre mim.
Meu corpo não parece responder às ordens que envio para a mente — ou obedecem à risca —, pois dou um passo em sua direção. Vejo os olhos escuros aumentarem de tamanho, tomados por uma surpresa que, por algum motivo, não me parece mal recebida.
Ele morde os lábios com os dentes protuberantes, passando a língua sobre o local com o que parece ser uma eternidade. Tem toda minha atenção, e parece notar, pela primeira vez, o poder que tem sobre mim quando abre a boca e diz, sorrindo fraco:
— Você primeiro.
Praticamente me jogo contra a parede atrás de mim, recobrando os sentidos e notando nossa proximidade. Preciso de um segundo antes de poder olhar em sua direção novamente e, quando o faço, é apenas para que possa abrir a porta que nos separa da adega, onde o resto dos adolescentes gargalha sobre alguma coisa.
Solto o lenço de seda da chave, e o uso para secar as gotas de suor que escorrem da minha nuca, o guardando de qualquer jeito em um dos bolsos da minha calça. Dentro da adega, o clima é agradável, e a voz de Hana é a primeira que ouço quando dou alguns passos até onde eles estão.
— Papai! — ela diz, mais animada que o normal, e é apenas por isso que sei que já beberam o suficiente.
— Oi, princesa — Não sou capaz de segurar, sorrindo ao vê-la tentar se soltar do abraço da melhor amiga para chegar até mim.
Henry e o garoto asiático que não conheço, estão se servindo com um vinho branco, caríssimo, que já está pela metade, enquanto Maya e Leon conversam no canto da sala, olhando algo no celular.
Abro os braços quando Hana se joga para longe do sofá, esperando que seu corpo se junte ao meu, mas antes que isso aconteça, seus olhos encontram algo atrás de mim, e seus passos cessam.
Assim como no começo da manhã, seu rosto se mancha em tons de vermelho e, dessa vez, ouço perfeitamente quando sua voz vacila.
— Jeongguk? O que você tá fazendo aqui?
Me lembro da outra presença no local, virando o corpo minimamente, absorvendo mais de sua interação.
— Gguk! — Henry grita, entusiasmado, levantando a taça em sua direção.
— Oi, galera — Com um aceno, ele comprimenta, e não reconheço o tom de voz. Me convenço que esse seja o único motivo que me faz encará-lo. Seu olhar se esbarra com o meu, e então, some do meu domínio — Foi mal atrapalhar o rolê de vocês, mas preciso levar o Jae para casa.
Um uníssono de murmúrios insatisfeitos acompanham sua fala, mas o garoto de cabelos escuros que bebia com Henry se apressa, se despedindo dos amigos e buscando a mochila com a taça de vinho ainda em mãos.
— É muito cedo… Da última vez você buscou a gente quando já estava amanhecendo — Henry murmura, andando em nossa direção enquanto puxa o amigo, contrariado.
Algo que julgo ser vergonha toma a feição do rapaz de cabelos cinzas. Ele olha brevemente para todos enquanto coça a nuca, e então sorri.
— Isso aconteceu só… Algumas vezes. Não seja mimado, pirralho.
Meu cenho se contorce, intrigado por tantos motivos que minha cabeça também não é capaz de listar, intoxicada. Hana já voltou para o sofá quando Henry passa por mim, levando Jaehyun junto.
Sua voz tem um tom tão carregado de doçura que seria capaz de fazê-lo escapar das aulas por dias se estivesse sóbrio. Mas não está, então continua:
— Pelo menos promete que vai trazer o Jae pro aniversário do meu pai? Todo mundo vem.
— Filho, não seja assim. Tenho certeza de que ele deve ter mais o que fazer.
— Claro, nós viremos.
Ele corta meu pensamento, sorrindo para Henry ao puxar Jaehyun para perto.
— Yesssss — Meu filho se arrasta, com o sotaque estrangeiro que só usa quando está muito animado com algo, e comemora de olhos fechados e punhos cerrados antes de se jogar contra o corpo de Jeongguk.
Parece ser em câmera lenta, quando o vinho foge dos limites da taça que Henry carrega nas mãos, caindo como um véu sobre a pele do pescoço do garoto de roupas escuras.
— Jeongguk!
Engulo em seco, meu olhos estão focados em sua imagem novamente, e sinto sede como nunca. As gotas continuam a escorrer como mel sobre a tez bronzeada, e preciso lamber os lábios para tirar de mim a vontade de provar do gosto com a boca. Não funciona.
— Gukk, foi mal, cara. Aqui! — Henry é rápido em reagir, puxando do meu bolso o tecido de seda, o entregando nas mãos do amigo.
Todos parecem um pouco mais alertas agora, mas me sinto tonto, embriagado pela miragem que tenho quando Jeongguk usa o tecido para secar o vinho que molha seu pescoço. Quando termina, ele me encara com olhos de ressaca por um milésimo de segundos, mas afundo mesmo assim, refém de sua maré.
— Ta de boa, pirralho. Não esquenta. — Jeongguk sorri, balançando os cabelos do meu filho com uma das mãos, e então olha para Jaehyun, arqueando a sobrancelha que carrega o piercing prateado, defendendo um ponto que não precisou sequer levantar — Hora de ir pra casa, maninho.
— J-Jeongguk… — Hana diz, sentada no sofá, agora acompanhada de Maya — Venham, por favor. Para o aniversário do meu pai. — Explica, com a feição que usa contra mim para conseguir o que quer e… algo a mais — Pode chamar Yoonchae, também.
Ele sorri, achando graça de algo que eu não sei. Me sinto perdido na interação dos dois.
— Ela não tem idade para isso, princesinha.
Suas bochechas se inflam e tem um vermelho vibrante, mas ela não se dá por vencida.
— Papai não se importa com isso, não é? — Ela joga a responsabilidade do convite para mim e, rendido, apenas assinto com a cabeça. Jeongguk me observa, com um sorriso nos lábios.
— É claro que não se importa.
Não tenho tempo para raciocinar o que sua frase quer dizer pois, antes que eu possa procurar pelos olhos de meus filhos ou dos outros jovens na adega, minha mão é tomada pelos dedos de Jeongguk, e é inevitável que minha atenção seja sua.
Ele desliza o lenço úmido para a palma da mão mas não me devolve minha paz quando se despede, sorrindo.
— Obrigado por cuidar do meu irmãozinho. Vou me certificar de te agradecer direito pelo cigarro quando nos encontrarmos novamente.
Promete, empurrando o irmão pelos ombros em direção à saída, levando com ele os últimos traços da doçura em seus lábios e da razão que tentei, a tanto custo, manter ao meu lado durante toda a noite.
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Os sintomas de Jeongguk não deixam meu corpo mesmo depois de horas e, egoísta e ambicioso, não consigo negar o corpo de Elisa quando chego em casa, ainda inebriado pelo sabor que se recusa a sair da boca, frenesi que me faz tomá-la com uma sede de algo que ela não seria capaz de me oferecer.
Seu corpo continua tão bonito quanto quando a admirei pela manhã, mas existe em mim a fome por outras curvas, tons, texturas e ela fala mais alto do que minha consciência.
O cheiro de cigarro, o sabor de baunilha, o fervor que carrega sob a pele de mel.
Elisa parece ser o oposto de tudo isso. Limpa e perfumada sob suas rendas, ainda parece refinada, contida, perfeita. Ainda tem os olhos pelos quais sou apaixonado, mesmo que meu corpo responda ao seu por puro reflexo às lembranças de uma pessoa que sequer conheço.
Embaixo de mim, ela respira e ofega como se estivesse lhe dando um presente, sem perceber que é a única nesse quarto vivendo o agora. Minhas mãos tocam suas curvas com ganância, mas procuro por traços rebeldes, pelo calor que me queimou a ponta dos dedos horas atrás. Não encontro, e por um minuto, vacilo. Elisa nota e, desesperada, se agarra ao meu corpo, tão egoísta quanto eu para alcançar seu ápice.
— Ta-Taehyung… — Ela chama, quando suas unhas seguram meu rosto em sua direção. Seus olhos brilham sob uma camada de lágrimas. Não sei dizer se me ama ou me odeia — Você prometeu que ia resolver essa merda.
Minhas sobrancelhas se contorcem e ranjo os dentes, exausto de suas cobranças. Ela não entende quando paro de me mover contra ela, muito menos quando alcanço o que busco no bolso da minha calça, jogada ao lado da cama.
Quando ela abre a boca, pronta para descontar sua frustração sobre mim, enfio o lenço de Jeongguk entre seus lábios, impedindo que ela cuspa quando os cubro com uma das mãos.
— Cala. A. Porra. Da. Boca. — Rosno, entre uma estocada e outra.
Surpresa, Elisa quase retruca, mas meu corpo alcança um ritmo que agrada sua ganância, e seus olhos reviram quando as unhas rasgam minha pele, sobrevivendo com tanta fome quanto eu.
Beijo seu pescoço, deixo marcas onde meus lábios conseguem tocar e a reverencio como não faço a muito tempo, tomado pela promessa de um êxtase que sinto me intoxicar como uma cortina de fumaça.
O pensamento me leva para longe do quarto, sob as luzes alaranjadas da lareira e o veludo escuro do estofado onde estava sentado quando ele me encontrou. Quando meu nariz se encontra com o de Elisa, posso jurar senti-lo sob mim.
Cigarro. Baunilha. Mel. Álcool.
Jeongguk.
Insaciável, me permito provar seus sabores quando tiro minha mão dos lábios de Elisa e beijo o lenço, encontrando com a língua os resquícios dele no tecido.
Busco nas memórias a sensação de seus dedos contra os meus, o formigamento de seu toque veranil. Do subir e descer de seu peitoral quando puxa a nicotina para os pulmões; quero tragá-lo de dentro para fora.
Os olhos de Elisa estão abertos, curiosos, focados quando a encaro, ofego e chego mais perto do meu ápice. O que meu corpo lhe oferece parece ser o suficiente, pois ela se aperta ao redor de mim, gemendo contra o tecido suave ao revirar os olhos de prazer. Preciso tocar a seda com a língua mais uma, duas vezes, e então encontro as mesmas sensações tremerem e borbulharem como lava sob a pele.
Mais uma vez, agradeço por ela não cobrar por minhas palavras, pois quando gozo, fazendo uma bagunça em nossa cama e dentro dela, não é seu nome que me inunda e escorre sobre a pele.
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