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Catexia

Summary:

Aguiar é um animal, como ele próprio disse. Um predador em estado bruto, movido por força e instinto, músculos e fúria, sem espaço para cálculo ou sutileza.

Gal era outra coisa. Uma graça incontrolável. Preciso, forte, inteligente. Afiado como as Ereshkigal que empunhava. Uma visão magnífica – perigosa não pela impetuosidade, mas pelo controle absoluto.

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Aguiar não tem nada a ver com Gal. Não nos traços, não na voz, não no jeito de ocupar o espaço. Nem sequer fisicamente. Ainda assim, há algo nele que prende o olhar de Henri de forma quase involuntária. Seu único olho se arregala, como se tentasse focar, como se precisasse desesperadamente enxergar algo que insiste em se mover, em fugir de contornos claros.

Notes:

Inspiração: de um anon do strawpage do @Miistashi (Twitter)

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Henri pressentiu que tudo dera errado no exato momento em que Aguiar gritou à beira do lago, a voz ecoando demais naquele silêncio que deveria ter sido cauteloso. Era o tipo de sensação incômoda que se instala no estômago, um aviso antigo, aprendido à força. 

O destino, é claro, não fez questão alguma de contrariá-lo.

“Quem é Elisa?”, pergunta a mulher de óculos vermelhos, a voz carregada de deboche. Uma bandana cobre metade de seu rosto, mas não esconde o sorriso torto. Ela ri, curto e alto o suficiente para provocar. Em seguida, comenta o quão estúpido Aguiar havia sido ao fazer o que fez, sem o menor cuidado para não atrair atenção indesejada.

E então fica claro: ela está assaltando eles.

Henri não está acostumado a obedecer ordens – não desse tipo. E ele também não está acostumado a se sentir tão impotente – não mais.

Não se sentira assim nem quando era apenas um "pobre" e "indefeso" garotinho órfão, aprendendo cedo demais que o mundo não tinha piedade. Nem quando ainda era humano e sua luta era contra um monstro que sangrava como ele. Nem quando tudo se tornou confuso e, de repente, ele percebeu que podia revidar – sim, podia. Revidar mais forte. Revidar de forma definitiva.

E muito menos agora.

Muito menos depois de ter se tornado o monstro.

Henri sempre faz o que o favorece, mesmo quando o contrato se mostra debilitante, cobrando mais do que deveria. Ele aceita as regras enquanto ainda há vantagem – enquanto ainda há… escolha.

Por isso, ele não gosta quando Aguiar diz para ele entregar tudo à Sabara – como ela se apresenta. O pedido vem rápido demais, fácil demais. Não soa como estratégia, soa como rendição. E isso é, de certa forma, decepcionante.

A reação automática de obedecer quase surge. Quase. O hábito tenta se impor, a disciplina antiga ameaça vencer. Mas então algo se rompe.

Ter sua palavra não valendo nada.

Ser tratado como descartável.

Ser chamado de covarde.

Esse é o estopim.

Aguiar não vai fazer nada. Henri vê isso com clareza agora – no jeito como ele evita encarar a mulher, na rigidez forçada do corpo, na aceitação silenciosa da derrota.

Mas Henri vai.

E, desta vez, não é para negociar.

Henri gosta da enrolação do parceiro de equipe. Gosta porque é útil, porque compra tempo – tempo suficiente para que ele inicie o ritual de perturbação sem chamar atenção. Mas não é só isso. Há algo naquele monólogo interminável, naquele jeito quase… carismático de falar demais, que o puxa para trás.

Memórias.

Memórias de alguém que já teria acabado com aquele assalto em segundos – ou que continuaria falando e falando, apenas porque podia. Porque era assim: um tagarela incurável, perigoso justamente por isso.

A revelação do rosto de Sabara não o assusta. Cavidades vazias onde deveriam existir olhos. Uma boca larga demais, cheia de dentes afiados. Ele já viu coisas piores. Já fez coisas piores.

Ainda assim…

Ver Aguiar ajoelhado daquela forma o atinge mais do que deveria. Submisso, entregando a bolsa de mão beijada, mesmo tendo sido ele quem ordenou aquilo agora. A cena o afunda ainda mais nas lembranças, aperta algo em seu peito que ele prefere ignorar.

E então a vampira saca a espada.

O metal desliza para fora com um som limpo, quase respeitoso, antes de a lâmina ser apontada diretamente para o pescoço de Aguiar.

“Larga”, comanda Henri. A palavra carrega o peso do ritual. Não é um pedido. Não é um grito. É uma ordem.

Ele não pode se perder no passado.

Não agora.

O presente é mais importante.

E Henri precisa de Aguiar vivo.

Dizer que as coisas não vão bem a partir dali é um eufemismo.

Começa com o fato de que a vampira resiste. O ritual não se impõe como deveria. Em vez de largar a espada, ela solta a bolsa e desce a lâmina em direção à garganta de Aguiar, rápida e decidida.

É meio decepcionante.

É meio desesperador.

Henri se sente fraco. Incapaz. Como se algo essencial tivesse falhado no pior momento possível.

É meio decepcionante.

É meio desesperador.

Henri vai morrer.

Aguiar vai morrer.

Se ele estivesse aqui, as coisas seriam diferentes. Henri tem certeza disso. A lembrança pesa, lateja, ameaça engoli-lo.

É meio decepcionante.

É meio desesperador.

“Vamos ver quem é mais animal! Agora você vai morrer!”, Aguiar rosna (de verdade).

O corpo do homem treme, se contorce, Aguiar bufa como um animal acuado e raivoso. As veias saltam sob a pele. O cheiro de sangue se espalha no ar – salgado, quente – e Henri percebe, com um misto familiar de horror e desejo, o quanto aquilo é delicioso.

É então que o passado começa a se confundir perigosamente com o presente.

A adrenalina sobe.

O sangue corre depressa.

O coração pulsa forte demais para ser ignorado.

E Henri entende que algo dentro dele está despertando outra vez.

Ele não consegue conter a risada maníaca que o invade. Não consegue conter a euforia que sobe rápido demais. Mas quem ele está tentando enganar? A pior situação possível para qualquer outra pessoa costuma ser, para ele, a melhor. E, neste caso específico, simplesmente excitante.

Gal não usava uma máscara (não como a dos "Mascarados" ou "Assassinos"). Ainda assim, o sentimento é o mesmo: a ardência no peito, a vontade súbita de rir mais alto, mais forte. A mesma sensação que agora o atravessa enquanto observa a transformação de Aguiar acontecer diante de seus sentidos.

Aguiar é um animal, como ele próprio disse. Um predador em estado bruto, movido por força e instinto, músculos e fúria, sem espaço para cálculo ou sutileza.

Gal era outra coisa. Uma graça incontrolável. Preciso, forte, inteligente. Afiado como as Ereshkigal que empunhava. Uma visão magnífica – perigosa não pela impetuosidade, mas pelo controle absoluto.

A semelhança entre os dois é mínima. Ainda assim, há algo ali. Toda aquela falação. Todo aquele teatro. A encenação antes do golpe final. Henri gosta de um bom espetáculo, sobretudo os sangrentos – não importa se apresentam-se como show ou como história. Gosta de ver, de ouvir, de acompanhar o crime cometido mesmo quando não é ele quem o pratica. Ainda assim, admite que nada se compara ao prazer de assistir de perto: observar cada gesto, cada reação, cada consequência, atento a tudo, como o mais dedicado dos espectadores… especialmente quando a situação não exige sua intervenção imediata.

Ou quando, simplesmente, ainda não o favorece.

Assim como foi naquele dia.

Ver Gal brincando com Gaspar e Lilian, conduzindo tudo como quem ensaia uma peça já decorada. Ver, depois que Rana paralisa todos aqueles idiotas de uma vez, Gal se aproximar com calma quase gentil; sem proferir o ritual, ele faz o espadachim se ajoelhar. Faz o bonitinho baixar a cabeça e entregar a própria katana, obediente, como se aquilo sempre tivesse sido o desfecho inevitável – então ver aquela katana atravessar o coração de Elizabeth, fundo, preciso, pelas mãos de Gal.

Henri riu naquele dia.

Ele ri agora.

Ele gosta dos seus garotos dramáticos. Da encenação. Do exagero. Do jeito como transformam violência em espetáculo.

Do sangue. 

Do sangue que Aguiar é excepcional em trazer para fora.

Há uma harmonia ali; eles combinam nesse aspecto – na sede, na loucura, na bestialidade que não pede permissão.

Gal sempre preferiu um trabalho limpo. Sempre. É por isso que Henri fazia o serviço sujo. É por isso que o sangue nunca foi dele. Gal nem sequer permitia que Henri (ou qualquer outro) chegasse perto quando estava manchado, respingado, contaminado pela bagunça que desprezava.

Henri nunca se importou.

Alguém precisava gostar da sujeira.

Mas basta ver Aguiar estourando a cabeça de Sabara com o machado para Henri saber: o homem definitivamente não se importa com um pouquinho de sangue.

Eles são parecidos demais.

Henri diz isso em voz alta, para Aguiar, o tom carregado de algo muito próximo do deslumbramento – quase admiração pura.

“Gostou da resenha que eu fiz?”

É ali que o feitiço se desfaz. Um pouco da tensão se dissipa como fumaça. Henri respira fundo e apenas concorda, sorrindo. Tantas palavras melhores poderiam ter sido usadas. Tantas mais eloquentes.

Mesmo assim, ele não se contém.

Henri passa um braço em volta de Aguiar e continua rindo, leve, saltando de alegria. Por um momento, parecem esquecer completamente onde estão. Eles precisam se separar para recolher as coisas, organizar o que restou – e, depois que Henri finca a cabeça de Sabara numa estaca à beira do caminho, voltam naturalmente à mesma posição, como se nunca tivessem se afastado.

Henri observa Aguiar de soslaio enquanto ele limpa o machado de forma displicente, espalhando ainda mais sangue em vez de removê-lo por completo.

Henri reconhece aquilo.

Seus dedos coçam, a língua pressiona o céu da boca, e por um instante ele considera dizer algo imprudente. Algo honesto demais. Mas se contém. Ainda há tempo. Sempre há tempo para excessos quando se está vivo – e eles estão muito, muito vivos.

Aguiar ri de novo, um riso solto e satisfeito, puxando-o um pouco mais para perto, como se o gesto fosse natural, inevitável, descartando as desculpas de Henri, quando ele diz que está enferrujado. 

“Você manda bem, irmão.”

A palavra não apenas soa – ela se aloja.

Irmão.

Henri sente algo antigo se agitar dentro dele, um desconforto familiar, quase doloroso de tão conhecido. Ele se lembra de ter sentido exatamente isso por Gal, ainda no orfanato, quando os dias eram longos demais e as noites exigiam aproximação silenciosa para serem suportadas. E depois também. Muito depois. Aquela sensação nunca o abandonou de verdade.

Eles deveriam ter sido irmãos.

Por um tempo, talvez tenham sido.

Melhores amigos – era assim que chamavam. Mas nunca foi só isso. Gal era um irmão mais velho sem laços de sangue, um guia improvisado, alguém digno de admiração. Era uma presença que organizava o caos ao redor. Uma pessoa que se tornava interesse com facilidade demais. E, antes que Henri tivesse maturidade (ou vocabulário) para nomear aquilo, já era uma paixão.

Romântico? Talvez.

Mas não no sentido dócil da palavra.

Era paixão no significado mais cru e essencial: um estado de atração absoluta, de foco obsessivo, de gravidade. Algo que não pedia ternura, mas presença. Não exigia reciprocidade, apenas existência. Uma força que reorganizava prioridades, afetos e perigos ao redor de um único centro.

Apenas paixão – seja lá sob qual aspecto ela escolhesse se manifestar.

Aguiar não tem nada a ver com Gal. Não nos traços, não na voz, não no jeito de ocupar o espaço. Nem sequer fisicamente. Ainda assim, há algo nele que prende o olhar de Henri de forma quase involuntária. Seu único olho se arregala, como se tentasse focar, como se precisasse desesperadamente enxergar algo que insiste em se mover, em fugir de contornos claros.

Porque Henri aprendeu, da pior forma possível, o que acontece quando se desvia o olhar. No segundo em que ele tirou os olhos de Gal, o homem se foi.

Henri é completamente louco. Ele sabe disso. Sempre soube. Sua mente funciona por excessos, por fixações, por afetos que não conhecem medida. E, como tudo parece indicar, ele acaba de arrumar uma nova obsessão.

Uma mais compatível. Uma que não se parece com o passado, mas o ecoa. Uma que sangra, ri, luta – e o chama de irmão sem saber e perceber, o peso real dessa palavra.

E talvez seja justamente isso que a torne impossível de ignorar.

O caminho inteiro de volta à mansão se desenrola assim: os dois enlaçados, ombro contra ombro, como se a proximidade fosse um pacto silencioso. O cheiro de sangue exala denso demais para ser ignorado – um aroma carregado de pecado, ferro e promessa, quente como uma confissão sussurrada tarde demais. Há algo nele que denuncia o que Aguiar é: não o sangue de um homem comum, mas o de um assassino, saturado de culpa e deleite. Tão intenso – e tão obscenamente saboroso – que Henri sente a vontade de lamber tudo da pele de Aguiar, de provar cada vestígio daquela violência partilhada, como quem comunga de um sacramento profano.

Se Gal permitiu algo semelhante mais de três vezes, já foi muito. Ainda assim, a memória do gosto permanece cristalina, quase ofensiva de tão vívida: divino, adequado demais a alguém que carregava um título tão solene e absoluto quanto O Realizador do Destino. Sempre a mão. Ou o pulso. Nunca mais do que isso. Na verdade, Henri não se recorda de Gal se ferir desde os tempos do orfanato – não de maneira legítima, não por descuido ou fraqueza. Gal se machucava apenas por ele. Para ele. Um gesto calculado, íntimo, quase litúrgico. Um oferecimento silencioso que não admitia testemunhas.

Sua maior demonstração de afeto – para ele.

Aguiar continua sorrindo – para ele.

É cru, aberto, animalesco. Um sorriso de cão, exibido sem vergonha, sem cálculo, sem qualquer tentativa de suavizar o que é.

Gal sorria diferente.

Como… como… Henri sequer sabe nomear. Era outra coisa. Aqueles lábios pintados de preto, a curva lasciva desenhada com propósito, um sorriso que não prometia nada além de ruína. Um sorriso que sabia exatamente o que estava fazendo com quem o observava.

Aguiar é instintivamente brutal.

Gal era intencionalmente cruel.

Henri sente o contraste com clareza e ainda assim não há decepção – não mais. Apenas constatação.

Lindos.

De formas diferentes.

De formas igualmente perigosas.

É excepcional.

É esperançoso.

Notes:

HENRIGAL HENRIGAL HENRIGAL HENRIAR HENRIAR HENRIAR!

Eu não lembro/não achei a parte exata em que o Aguiar chama o Henri de irmão, então aquela parte vai ficar assim.

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