Chapter Text
" Redemoinho constante.
Todos esperam algo de você em algum momento, seja um favor, uma expectativa inconsciente, ou até mesmo que você simplesmente só suma. Adivinhar o que querem e lidar com isso é certamente parte do processo de viver, assim como comer, estudar, trabalhar, dormir, entre outras atividades. Culturalmente, irão esperar que você faça isso, que você saia do Ensino Médio sabendo o que quer cursar na faculdade, para que área do ramo do trabalho você pretende seguir, e que você possua, logicamente, cabeça para lidar com tudo. Mas é claro que você não tem.
Você é só um jovem, medíocre e lascado, prisioneiro de um sistema desigual que congela sua realidade e adoece seu ser. Viver é, ao mesmo tempo que uma adrenalina constante pela sobrevivência, um tédio sem fundo pela inércia, uma contradição sem aviso prévio de término.
Sendo assim, voe. Mergulhe de cabeça no presente, rejeite a pressão e se permita vivenciar um dia de cada vez. Talvez assim, a vida valha a pena, especialmente quando você é cercado de pessoas que o amam. Jamais esqueça suas origens.
-- Pomba."
Todos no ambiente observavam o jovem garoto recitar as palavras do seu último texto intitulado " Desabafo ". Era clichê, mas Pomba realmente não estava com a cabeça para ser revolucionário e poético em um título melhor. Seu intuito era autoexplicativo, expressar-se por meio das palavras um desabafo de seus sentimentos mais profundos, ainda que sentia um gosto amargo na boca por achar insuficiente. Ele sentia mais que isso, mas seria exagero? Um drama de um garoto que acabou de começar na vida, na perspectiva de muitos? Talvez fosse exagero, sendo assim o desabafo não era tão genuíno. Pomba sempre guardou a cólera total a sete chaves.
O sol que aquecia as pessoas com seus raios violentos já se distanciava no horizonte, mas o ambiente era conhecido por todos presentes. A sala de estar da humilde residência Pássaro era adornada com enfeites natalinos fora de data festiva (uma lembrança que somente residiam preguiçosos no recinto), um mural de fotos nas paredes amarelas, móveis planejados simples que comportavam uma televisão "de bunda" retrô cuja qualidade era péssima (Papagaio a defendia com garras e bicos...) e uma mesa de centro que jamais parava arrumada (quando não eram os papéis de Pomba, eram as fotos de Corvo ou as partituras de Coruja.)
Em um breve contexto, todos presentes se consideravam família. O menino central, parado na frente de uma porta velha e descascada de madeira era Pomba, um jovem de recém 20 anos com as madeixas mais bonitas entre os presentes (mas também, se perguntassem diria firmemente que este era seu único orgulho quanto se trata de sua aparência). Ele vestia um amontoado exagerado de roupas longas e espessas, não parecendo se importar com a temperatura de plenos 28°C de São Paulo. Contornando a mesa de centro, da direita para a esquerda do menino, posavam Corvo, Coruja, Harpia e Papagaio, com expressões divergentes.
Corvo era um jovem alternativo cuja idade o fazia apenas três anos mais velho que Pomba (e definitivamente pareciam muito mais quando se tratava de experiência de vida). Ele possuía um estúdio compartilhado com seu irmão Coruja, um espaço inicialmente simples para a arte da fotografia e da música. Abriram juntos a "Galeria Sabiá" cinco anos atrás e atualmente estavam planejando o próximo passo: transformar o espaço artístico em parceria com uma produtora musical emergente, mesclando os dois projetos em um só, tornando-os sócios e ao mesmo tempo empregados.
Coruja, dois anos mais velho que Corvo e cinco que Pomba, era o jovem músico da casa, onde desde cedo enchia o ambiente de canções e alegria e gostava de se vestir como um idoso (na concepção de metade da casa.) Corvo e Coruja eram irmãos de sangue, pegos para serem criados por Harpia (em decorrência do falecimento de ambos os pais em um acidente de carro quando ambos eram já adolescentes, a justiça não encontrou parentes próximos de primeiro grau, restando ao primo que prontamente se disponibilizou.)
Harpia era tio do Pomba por parte de pai e certamente um dos mais misteriosos da casa, sendo sempre um parto para que ele abra o jogo sobre a relação familiar com o resto da família. Tudo que Pomba sabia era que a mãe morreu no parto devido a complicações e o pai o abandonou ao saber da gravidez. Harpia não possuía contato com o irmão desde este abandono, possuindo opiniões fortes em relação ao próprio irmão desde então. Pomba era imensamente grato ao tio pelos cuidados e garantia que nada nunca o faltou, principalmente quando em sua infância foi agraciado pela presença de seus primos, que o consideram como irmão em questão de meses, virando inseparáveis.
Papagaio era o único sem relação de sangue no laço, mas definitivamente era família também. Um homem esquisito que procurava um cômodo de aluguel anos atrás para se estabelecer. Corvo teorizou que ele fugiu da família e Coruja que era um criminoso, mas Harpia não encontrou nenhuma ficha criminal e, necessitando do dinheiro, alugou para Papagaio um quarto vazio da casa. Faziam alguns anos já e ele nunca mais retornou de onde veio (no início falava que era gringo mas depois descobriram que na realidade ele era de Goiás, fazendo mochilão pelo Brasil até acabar o dinheiro em São Paulo.) Papagaio virou o tio legal que mimava as " crianças " e de vez em quando arrumava problema pra cabeça do Harpia.
De volta a sessão dramática, Corvo deu uma salva de três palmas e abriu um sorriso orgulhoso do irmão mais novo.
- Caramba, Pombinha, esse texto está melhor que o do mês passado!
- Acho que devemos fundar um dia mensal dos " textos do Pomba " como feriado e comemorar, tá ligado? - Papagaio comentou com um sorriso no rosto, erguendo uma garrafa de whisky em mãos.
- Tudo é motivo para você comemorar, né? - Harpia cruzou os braços quebrando o clima festivo de Papagaio - Vou ter que voltar com a regra da ressaca.
- Qual foi, tô falando sério! O menino manda muito bem, todo mês ele vem como se fosse o novo Pitágoras e lança uma cartada! - Papagaio largou a garrafa em cima da mesa e caminhou em passos largos até Pomba. Nunca dava para saber se o homem estava bêbado ou sóbrio baseado em seu andar pois de qualquer forma parecia sempre que iria tombar a qualquer momento. - Você deveria considerar o jornalismo, ia lucrar pra caralho com seus textos. É dom, tô te falando!
- Obrigado, pessoal.. M-Mas não é para tanto... - Pomba deixou o pedaço de papel em cima da mesa e começou a coçar o braço um tanto ansioso, gesto inconsciente a essa altura. - E sobre faculdade, sério, podemos não ter essa conversa de novo?
- Pomba você já tem 20 anos. - O tom de Corvo soou um tanto ríspido, mas não era o intuito.
- Você com 20 anos estava enrolando para fazer o curso de fotografia, Corvo. - Coruja tomou o partido de Pomba. Ele sempre tomava. - Não se esqueça.
- É, mas eu estava fazendo cursinho de design gráfico!!! Não estava atoa como você faz parecer e-
Atoa. Era isso que Pomba era? Um fardo na própria residência por não contribuir financeiramente ou estar providenciando um futuro onde ele possa vir a contribuir? Ouvir isso doía, doía mesmo.
- Chega disso. O menino está tentando, você sabe. - Harpia lançou um olhar de desaprovação para Corvo que revirou os olhos e encarou Pomba com preocupação.
- Eu sei... Desculpa, Pombinha, eu realmente não queria... Eu não... É só que a grana tá apertada. A galera tá viajando ainda, mal tenho clientes e os alunos do Coruja não são o suficiente... Harpia fica falando que a grana tá curta no meu ouvido toda hora e eu só não sei o que fazer!
Como se Pomba não soubesse disso. Como se ele não fosse lembrado disso todo santo dia. Do fardo que era.
- Ei, eu já tô vendendo aqui umas paradas minhas para ajudar nas contas além do trabalho na Pizzaria, vai dar tudo certo! - Papagaio tentou levantar o astral mas não parecia estar dando certo.
O que é que sequer eles estavam falando? Pomba honestamente não estava escutando mais. Todos aqueles sentimentos reprimidos voltavam com a lembrança de sua inutilidade pressionada contra a face. O peso da realidade era cruel e seus ombros densos começaram a incomodar. Sentia seu próprio corpo como um inimigo opressivo e estranhamente sentir as próprias mãos era demais, agoniante. Tudo estava demais naquele ponto. Os batimentos cardíacos do menino aceleraram como uma bateria desenfreada e o externo derretia. Ele sabia que estava para ter mais uma crise mas não queria fazer isso ser sobre ele. Não queria ser a vítima da situação.
- E-Eu... vou para o meu quarto. - Antes que perdesse o controle e sentisse as lágrimas subirem aos olhos, Pomba resolveu se retirar do ambiente.
O ambiente familiar de repente pareceu enfadonho a si, como um desacorde, uma melodia trágica onde as vozes alheias competiam contra seus próprios sentimentos externos para ver quem faria mais barulho dentro de sua cabeça. Pomba odiava ser assim.
Pomba honestamente odiava muitas coisas para a altura que tinha.
O quarto do mais novo dos pássaros era o menor da casa, como se não precisasse de muito espaço para existir. Simbolicamente, extremamente oposto a imensidão do que Pomba carregava dentro de si. Com o espaço reduzido, aprendeu a não ser bagunceiro. Cama sempre arrumada, livros empilhados e papéis a mostra caso a criatividade o cativasse e resolvesse o pegar em algum momento inesperado. As paredes eram azuis, talvez o único cômodo diferente do resto da casa amarela viva. A cama encostada na parede oferecia um local de consolo singelo e nada melhor no momento da crise que o cobertor do Homem-Aranha. Era o "objeto" de conforto do menino, um segredo que somente sua família sabia afinal a sociedade não veria com bons olhos um jovem adulto dependente de mantinha.
A cabeça do moreno estava para explodir, começando a latejar em um lembrete que suas crises emocionais afetavam seu fisiológico. Seu estômago se revirava, o coração batia descompensado em uma ansiedade absurda e seu corpo tremia. Pomba odiava se sentir assim. Frágil. Ninguém era tão emotivo ou quebrado emocionalmente então porque ele era? Por que sempre tinha dificuldade em lidar com situações sociais e acabava fugindo? Por que não conseguia arrumar um emprego logo se suas notas e desempenho escolar haviam sido perfeitas? Era por não conseguir olhar nos olhos ao ser entrevistado? Ou se desesperar com situações hipotéticas?
O último emprego dele foi seu recorde de empregabilidade: ficou duas semanas.
Foi demitido de uma loja de conveniência no primeiro dia ao realizar o troco errado (estava extremamente nervoso, não é como se não soubesse matemática básica...), demitido de uma loja de roupas por não ser "bom o suficiente" com os clientes em sua primeira semana, demitido de uma floricultura pois no primeiro dia entrou em crise "misteriosamente" no meio do expediente e foi convidado a "se retirar" por estar assustando os clientes. O último? Trabalhou como faxineiro em uma casa de riquinhos do outro lado da cidade. Estava tudo bem, mal olhavam para sua cara e isso era o que Pomba mais queria. No fim, foi trocado por uma senhora de idade que limpava por um valor mais simbólico.
Todos o rejeitavam no fim e era tudo sua culpa.
As coisas na residência dos Pássaros estavam ficando mais frágeis. O custo das reformas da Galeria Sabiá estava pesando imensamente para Corvo e Coruja. Harpia estava ajudando e Papagaio também, afinal era um investimento que poderia dar retorno no futuro, mas isso significava também menos dinheiro restante para as contas de energia, água, comida... Uma mãozinha seria de baita ajuda mas Pomba não era como os demais. Ele não tinha o charme natural de Corvo, a alegria espontânea de Papagaio, a paciência de Coruja ou a integridade de Harpia. Ele nem sequer tinha uma qualidade descente além da escrita. Timidez e inteligência eram sempre os adjetivos que o rotulavam, mas Pomba não se sentia nem confortável com isso.
Deus como ele odiava rótulos...
Tímido era eufemismo para seus problemas sociais e inteligência nenhuma parecia ajudá-lo a lidar com os problemas da vida, os problemas pessoais ou.. qualquer que fosse a coisa. Nunca se sentiu tão burro para falar a verdade. Notas altas e um padrão de comportamento elogiado pelos demais não eram coisas que o faziam se orgulhar. Era mais uma casca vazia.
Deus, ele sempre foi uma casca vazia...
Pomba nem sequer era seu nome. Claro, nenhum dos pássaros possuía os nomes aos quais se referiam uns aos outros. A brincadeira começou quando Papagaio sentia tanta vergonha do nome próprio que foi apelidado de Papagaio por Harpia, afinal o homem não parava de falar (só contava histórias exageradas de suas experiências como um andarilho.) O sobrenome de Harpia e Pomba continha " Pássaro ", um sobrenome muito incomum mas quando Papagaio adotou o apelido, destilou a todos nomes de pássaros também, afinal mesmo Corvo e Coruja sendo primos que não possuíam " Pássaro ", eram família. Assim, viraram a residência pássaro e uma grande família de aves. Pomba se sentia mais como um rato para falar a verdade.
Era grato a família, amava todos igualmente, mas era perceptível como não encaixava. Todos, de certa forma, eram espontâneos, lidavam bem com situações sociais, se destacavam em algo. Pomba era retraído, tímido em excesso, esquisito e neurótico. Quanto mais crescia, menos amigos tinha, mais a escrita era a forma que encontrava de se melhor comunicar. Os pássaros o amavam do jeito que era mas Pomba não.
Deus como ele se odiava.
Uma batida ecoou na porta do quarto e Pomba não conseguiu abrir a boca para convidar a pessoa a entrar. Não queria, para dizer a verdade, mas não se sentia no direito de impedir. Sua garganta estava fechada e seus braços se enrolavam no cobertor quente do Homem-Aranha, buscando distraí-lo da sensação angustiante que era.. ter braços? Não fazia sentido, Pomba estava sobrecarregado demais para algo fazer sentido.
- Pomba? Posso entrar? Foi mal cara, eu... - Era Corvo.
Não, não pode. Me deixe sumir.
- Eu só quero conversar. Eu não devia ter sido insensível. Eu falo sem pensar, você sabe. Não que isso seja uma justificativa... - Corvo falava rapidamente, claramente não pensando no que formularia para se expressar e acabava tropeçando no próprio raciocínio. - Cara eu queria ser tão bom quanto você com palavras, que ódio.
Silêncio.
- Pomba? Ah cara, eu vou entrar, dá licença.
Ao abrir a porta Corvo encontrou Pomba inquieto na cama, um bolinho de Homem-Aranha com dois olhinhos amendoados brilhando encarando a parede. Ele não pareceu reagir a presença do irmão no ambiente. Corvo fechou a porta com cuidado atrás de si e caminhou até a cadeira da escrivaninha do menino. Era o único quarto com uma escrivaninha e Corvo sentia inveja, afinal precisava de uma escrivaninha daora para usar seu computador a trabalho e Pomba nem sequer usava internet. Era um menino esquisito mesmo.
- E aí, carinha? - Ele se sentou na cadeira de rodinhas e ficou de frente ao menino, em uma distância respeitosa. - Não vai olhar para mim?
Por que todos fazem tanta questão disso?
- Tudo bem, não precisa. Só... esquece o que eu falei mais cedo, tá legal? Eu tava de cabeça cheia... Essa galera da gravadora Opspor são um pé no saco! Sabiam que a gente não ia ter tanto dinheiro para contribuir com a reforma do estúdio e ainda assim tão fazendo questão de nos sugarem até os últimos centavos e-
Pomba odiava ser lembrado da situação financeira deles, especialmente quando se desesperava por não poder ajudar. Como um rato assustado, se encolheu no amontoado do cobertor e Corvo percebeu que tocou na ferida.
- Aah! Merda, foi mal. O que eu quero dizer é que a gente vai dar um jeito. A reforma já tá acabando de qualquer forma, deve ser a última parcela... Então as coisas vão ficar mais leves. Seu último trabalho ajudou bastante, Pomba, não se preocupa! A gente-
Não se preocupa?
- Não se preocupa? Eu não devo m-me preocupar? O papagaio tá comendo sobra de pizza do trabalho já tem uma semana! O Harpia tá usando as últimas economias dele que eram para emergências! Coruja sai de manhã e só volta a noite praticamente todo dia para dar aula particular por aí e você tá quase ganhando um problema de coluna vitalício para ajudar na reforma e nem sequer me deixa ir para tentar ajudar também e ver se saí mais barato!! COMO eu não vou me preocupar quando estão todos se matando e eu aqui?! Não conseguindo fazer NADA? E-E só de falar s-sobre já fico... assim.
Corvo era o pior para tirar Pomba de uma crise. Ele na realidade presenciou somente três durante sua vida toda já que eram os outros pássaros que lidavam com Pomba nesses momentos de maior fragilidade. Só de vê-lo assim, quebrado em sua frente como uma criança indefesa, seu coração pesava e a culpa rasgava seus ombros. Em desespero, Corvo pegou o celular do bolso da jaqueta, digitando rapidamente algo que Pomba não conseguia ver.
- O-O que você está fazendo?
- Jogando no ChatGPT como consolar o menino mais forte e incrível que eu conheço quando ele tem a cabeça mais dura que uma pedra. - Isso tirou uma risadinha de Pomba. - Aqui tá dizendo para eu te abraçar. Quer um abraço?
- Na verdade... não. - Pomba se esforçou para negar, desejando firmemente espaço. - Por favor não fica brav-
- Droga de inteligência artificial, não serve pra nada! - Corvo jogou o celular pra cima da escrivaninha de Pomba e colocou uma das mãos no rosto, suspirando sem saber o que fazer. - Quer que eu chame o Harpia?
- Não.
- Quer alguma coisa? Posso fazer alguma coisa? - Pomba não sabia. - E-Eu... e-eu vou chamar o Coruja ele vai saber o que fazer e-
Antes que o mais velho pudesse se levantar com o objetivo de se retirar do quarto, o corpo de Pomba se moveu antes que sua mente computasse. O braço do menino segurou no braço da cadeira de couro e seus olhos, pela primeira vez, miraram os de Corvo com um pedido simples. Fica.
Não me deixa sozinho.
Corvo voltou a relaxar na cadeira, ainda com a mente acelerada não sabendo o que fazer. O silêncio se instaurou mas não parecia ser algo ruim, ao menos não para Pomba. Os olhos amendoados encararam o chão e seu braço retornou a quentura do cobertor, encolhendo-se contra o corpo.
- Fica.
Corvo sorri, sentindo uma sensação de familiaridade quando Pomba requisitava sua companhia durante suas sessões de estudo no ensino médio. Corvo aproveitava e trazia um banquinho da varanda para sentar na extremidade da escrivaninha, apoiando seu notebook e estudando arte em silêncio ao lado do garoto. A companhia durava horas e o silêncio era confortável. Era o jeito de Pomba demonstrar seu afeto e passar tempo com a família.
- Eu não vou a lugar nenhum, Pombinha. Nunca.
O coração de Pomba aos poucos se acalmou e sua mente clareou automaticamente. Aqueles pensamentos depreciativos deram uma paz quando começou a focar nos próprios dedos da mão, brincando com os mesmos e pensando no próximo texto que poderia escrever. Ficou confortável novamente, mas o silêncio foi quebrado pelo celular de Corvo tocando com alguma notificação. O mais velho que estava rodando na cadeira parou imediatamente e estendeu a mão com calma, catando o aparelho e desbloqueando. Os olhos de Pomba tentavam espiar mas o ângulo não era revelador o suficiente. Após alguns instantes, Corvo se levantou.
- Foi mal Pombinha, vão precisar que eu dê uma força no estúdio com umas caixas. Eu... pera, isso não tá certo. - Corvo começou a digitar ferozmente numa velocidade desumana. As pessoas eram capazes de digitarem tão rápido assim? E quase na mesma velocidade, uma resposta veio com mais um som notificando. - Droga. As encomendas de semana que vem chegaram hoje.
- Por quê?
- Tão apressando a finalização porque o idiota do Remi já fechou com uma banda. - Pelo que Pomba sabia por cima, Remi era o produtor musical responsável pela produtora. O chefão de tudo, em poucas palavras.
- Deixa eu ir te ajudar. São só caixas, né? - Pomba tirou o cobertor dos ombros mas ainda era capaz de sentir o calor e o conforto da peça.
- Teoricamente sim mas a galera não gosta de muita gente e... isso.. vai te ajudar a se sentir melhor? - Corvo levantou a cabeça para encarar Pomba com uma ponta de esperança, afinal ainda se sentia culpado por mais cedo.
- Com certeza.
- Você vai acabar com a coluna pior que a minha, mas se isso alivia sua cabeça. Vamos, Pombinha.
E com uma força nova e revigorada, Pomba saltou da cama se sentindo mais calmo, orgulhoso de finalmente poder contribuir com algo para a família. Ao saírem do quarto azul, Papagaio já estava com a chave do carro em mãos, provavelmente indo para o expediente na pizzaria.
- Papas! Dá uma carona pra gente? Pro estúdio! Tão enchendo meu saco com a mobília e os equipamentos. - Corvo falava rápido, revirando os olhos e conseguindo fazer uma expressão para cada sentença.
- Claro, é caminho pra pizzaria. Coruja se livrou hoje então, ein! - Papagaio se referiu ao fato de Coruja na verdade sequer estar em casa no momento. Foi dar aula particular de violino para uma menina meiga chamada Manu. - Sobrou pro Pombinha?
- Eu quis ir por conta própria... - Pomba se manifestou, ajustando o casaco no corpo que de repente parecia grande demais para ele.
- Vamos indo antes que me mandem mais uma mensagem perguntando se eu vou demorar... - Corvo sinalizou, guardando o celular.
Pomba foi até a geladeira velha que rangia mais que um tarado bêbado e catou o marcador preso em um imã, anotando no quadro branco que voltavam em breve e onde estavam indo. Sendo assim, os três Pássaros se retiraram da casa e entraram no Opala vermelho de 74, que saiu peidando pelas ruas caóticas de São Paulo.
