Chapter Text
Já era tarde da noite e Seungmin sabia que deveria estar descansando, mas a aquele ponto, tudo o que queria era aproveitar a melancolia dos seus últimos dias na pequena cidade do interior onde vivera sua vida toda até então.
Ainda faltavam algumas coisas para terminar de empacotar e agora o Kim mexia com algumas fotos e álbuns antigos. Tinha sido apaixonado por fotografia desde que se lembrava, e sempre que podia tentava revelar algumas das fotos que tirava na câmera antiguinha que tinha ganhado da avó em um natal anos antes.
Agora, no meio da sala bagunçada e cheia de caixas e pacotes, Seungmin estava sentado, com as pernas cruzadas enquanto tomava o que era, provavelmente, sua quarta caneca de café naquela noite enquanto explorava os álbuns antigos. Os primeiros tinham muitas fotos da família, fotos de sua avó e sua mãe fazendo alguma coisa na cozinha, de seu pai trabalhando na oficina, de sua tia costurando ou simplesmente de paisagens que o Kim gostava.
O próximo tinha bastante fotos do grupo de amigos, em algumas Hyunjin estava fazendo pinturas ou todo sujo mexendo com argila e materiais de arte diversos, em outras já mostravam Felix e Minho tentando fazer doces - a maioria das tentativas completamente frustradas. Riu ao lembrar-se de quando tentaram fazer cookies, ficaram tão terríveis que ocasionaram em um Felix muito, muito irritado. Também tinham fotos de Chan, Jisung e Changbin tentando construir uma casinha na árvore para as crianças do bairro. No final das contas eram eles mesmos quem acabavam usando a casinha para pequenos encontros do grupo de amigos e noites de jogos - isso até que os mosquitos começassem a atacá-los e precisassem ir correndo para a casa de Jeongin que era a mais próxima dali.
Seungmin gostava muito daquele álbum.
Não eram fotos profissionais, nem de longe, a qualidade era um tanto duvidosa e várias delas saíam tremidas pela empolgação do momento ou porque um dos amigos estava tentando puxar a câmera de suas mãos para ver como estavam ficando. Mas era justamente isso que as deixava ainda mais bonitas, na sua humilde opinião.
O outro álbum era um pouco menor, tinha algumas fotos de animais, dos gatos do Minho, ou dos cachorros de Hyunjin e Chan. Também tinha de alguns insetos, borboletas, joaninhas e até de uma lagarta - essas últimas foram tiradas por Jeongin, o Kim tinha pavor daquelas coisinhas.
Foi guardando um a um dentro da caixa de papelão, o coração tomado por uma nostalgia e por uma saudade que já sentia sem sequer ter ido embora ainda.
E então, o último álbum. Seungmin podia passar anos sem abri-lo ou olhá-lo, podia deixá-lo guardado por décadas, e ainda sim, saberia exatamente o conteúdo por trás da capa azul com colagens de corações completamente tortos e mal feitos, um mérito do Seungmin mais jovem que achou uma excelente ideia fazer alguma decoração e acabou pegando alguns restos de materiais que Hyunjin não queria ou não precisava mais.
Instantaneamente sentiu um aperto no coração, soltando o ar de seus pulmões lentamente antes de abrir.
Aquele era o seu favorito, e era seu segredo.
Assim que dedilhou as páginas do álbum, o abrindo com cuidado, pôde visualizar aquelas que eram suas fotos favoritas no mundo. Podia-se dizer que aquela era uma extensão do álbum com os amigos, exceto pelo detalhe de que não era, não de todos eles pelo menos. Naquele pequeno álbum azul eram guardados os registros das fotos favoritas de sua pessoa favorita.
Seo Changbin tinha lhe chamado a atenção desde que os olhares se encontraram pela primeira vez. O Kim tinha acabado de entrar na mesma escola que o outro e era tímido demais para sequer cogitar interagir com outras crianças no primeiro dia. Eles estavam no quinto ano do fundamental e Changbin era o total oposto dele, estava completamente falante e animado, socializando com qualquer um que respirasse perto dele, e então viu Seungmin ali, afastado e completamente tímido e fez com que aquilo fosse sua meta pessoal, aquele ali seria seu melhor amigo naquele lugar quer ele quisesse ou não. Ele não precisou ser particularmente persuasivo, ele só sorriu, e a partir daquele momento o Kim sabia que ele seria a sua pessoa.
Não sabia exatamente em que momento tinha se dado conta que estava apaixonado pelo melhor amigo, mas tinha quase certeza de que fora no começo da adolescência quando os amigos começaram a fazer sucesso entre garotas e garotos. Changbin e Chan eram os piores, sempre com tantas pessoas à volta deles que chegava a ser irritante. Nessa época, Seungmin experienciou todo o tipo de ciúmes e se sentia totalmente ridículo sentindo aquilo. Os outros meninos pareciam saber de algo, não é como se Seungmin fosse ótimo em disfarçar, exceto de Changbin, claro.
A lembrança fez seus olhos se revirarem sem nem notar.
Era claro que Seungmin tentara ter algum relacionamento também, estava se entendendo e se descobrindo, mas por mais que soubesse reconhecer quando pessoas eram bonitas ou atraentes, nenhuma delas parecia especialmente interessante para si, não como o maldito melhor amigo. Depois de um tempo chegou a conclusão de que era gay e demissexual.
Cada foto em cada página do álbum lhe trazia memórias, lembranças vívidas do exato momento em que tirara cada uma delas como se tivessem acontecido minutos atrás.
Em uma foto, Changbin estava jogado, deitado no chão do quarto de Seungmin com uma expressão indecifrável no rosto. Aquela tinha sido depois de ter chegado à conclusão de que achava a palavra borboleta longa demais e feia para descrever um inseto tão bonitinho - palavras dele mesmo. Seungmin riu muito daquilo e discordou completamente, dizendo que a palavra parecia ter curvas, o que a deixava delicada e lembrava o formato das asas do inseto, isso enquanto o amigo parecia ter entrado em uma crise existencial depois de chegar àquela conclusão. Podiam falar sobre absolutamente qualquer assunto com o outro.
Em outra, ele estava em cima de uma boia gigante de unicórnio dentro da piscina, a cabeça tombada para trás enquanto gargalhava. Nessa, ele estava levando uma bronca da irmã gêmea de Hyunjin por ter pego a boia dela. Yeji era engraçada quando ficava brava, pelo menos Changbin achava. E ele ficava bonito rindo daquele jeito, pelo menos era o que Seungmin achava.
Na próxima o Seo estava completamente sujo de tinta após eles e o restante dos amigos terem passado o dia todo ajudando a pintar e montar cenários de uma peça na escola. Changbin era o protagonista. Romeu e Julieta. Seungmin passou semanas falando da atuação péssima do outro que apenas se gabava por ter conseguido nota extra por causa disso.
Eram várias dessas fotos, desses momentos aos quais Seungmin gostaria de poder voltar e congelá-los no tempo. Gostaria de poder voltar para eles sempre que quisesse e reviver cada uma centenas e milhares de vezes sem nunca se cansar, aproveitando cada segundo, cada detalhe.
Tinham fotos só dele, ou dos dois juntos. Essas eram poucas, Seungmin sempre preferiu estar por trás das lentes, mas o melhor amigo às vezes fazia questão, afinal, ele também merecia ter documentado momentos para os quais gostaria de voltar.
Conforme ia chegando nas últimas fotografias, um arfar pesado lhe escapou os lábios, melancólico e completamente tomado por saudades.
Aquela era uma foto até que bem simples, tirada por algum dos outros amigos que pegou o exato momento em que os dois estavam completamente imersos no mundinho deles. Era apenas uma imagem de ambos se olhando e sorrindo, completamente alheios ao exterior, quase como se, naquele momento, só os dois existissem e pelo que Seungmin se lembrava, realmente parecia que eram só eles e mais nada ou ninguém.
Mais tarde naquele dia tiveram seu primeiro beijo. No começo foi apenas um toque entre os lábios, um encostar demorado como se ambos avaliassem a reação um do outro a aquilo. Nessa época, já tinham seus dezessete anos. Foi algo inocente, mas amoroso. Seungmin se lembrava de se sentir transbordar, tomado por uma sensação esquisita de felicidade, euforia, alívio, amor e ansiedade tudo junto. Foi incrível.
Changbin era como o sol, brilhante demais e quase cegante, como se sua luz fosse muito forte para ousar encarar diretamente e ainda sim, Seungmin jamais ousaria desviar o olhar.
A última foto do álbum era diferente das demais e também era a mais recente. Mais ou menos de um ano atrás. Era apenas Seungmin, ele tinha um sorriso largo, o rosto e as orelhas estavam em um tom corado, ele conseguia sentir essas partes queimarem mesmo que só por imaginar de novo aquele instante. Os olhos estavam fechados em meias luas. Ele se lembrava perfeitamente daquele momento como se o tivesse vivido a apenas um segundo antes.
— Você, Kim Seungmin, vai acabar me enlouquecendo a qualquer momento - a voz de Changbin soava rouca, mas tão alegre que mesmo que estivesse de olhos fechados, o Kim saberia que ele estava sorrindo enquanto falava.
Seungmin sorriu também. Seus lábios estavam inchados e o rosto completamente vermelho.
Ele jogou uma almofada em Changbin, que soltou uma gargalhada gostosa, daquelas que faz o peito aquecer e você se dar conta que não gostaria de estar em nenhum outro lugar.
O Seo alcançou a pequena câmera que estava apoiada na mesa de cabeceira ao seu lado, a apontando para Seungmin que sorria bobo, relaxado, sequer notando a movimentação alheia.
— Ei! - soltou um resmungo assim que pôde ouvir o pequeno “click” da câmera.
— Eu também mereço ter algum tipo de recordação - deu de ombros, justificando a própria atitude — Você é muito bonito para estar sempre por trás das lentes, Minnie.
A lembrança o atingiu como a sensação de estar se afogando em um mar infinito de um azul profundo, melancólico. Uma saudade tão intensa que doía o peito e tornava difícil respirar.
Changbin era seu pequeno segredo, um universo particular que se esforçara arduamente para conhecer cada parte dele. As partes boas e ruins - embora não conseguisse julgá-las assim, não quando elas faziam parte do conjunto todo que era o Seo.
Sentia os olhos arderem, já não sabia se por estar com a vista cansada, se por ter passado o dia todo esquecendo de colocar o óculos que recém tinha descoberto que precisava usar ou se por estar segurando algumas lágrimas teimosas.
Era um pouco injusto consigo mesmo, sempre tinha sonhado com aquela faculdade e poder estudar aquela arte que tanto amava.
Kim Seungmin nunca foi um rapaz que achava se encaixar ali, naquela cidadezinha tão pequena e limitante. Muito pelo contrário, sempre tinha sonhado em ir embora dali, descobrir o mundo todo e o que ele teria pra lhe oferecer.
Era um sonho se realizando… mas não deixava de ser dolorido. Fazia pouco mais de um ano que ele e o melhor amigo tinham passado a se entender, entender os sentimentos um pelo outro e viver isso, lentamente, em passos minúsculos, a sensação de estarem se conhecendo como algo além de amigos, se habituando, desabrochando aquele sentimento intenso que em algum momento os preenchia tanto que parecia transbordar, muito embora tivessem medo de um rótulo ou das coisas ficarem sérias demais ao ponto que pudesse ruir e que fossem perder um ao outro. Tudo entre eles foi construído com cuidado, com amor.
Eles nunca tinham dito que se amavam, não nesse sentido ao menos.
Changbin disse naquele dia.
Já fazia quase uma semana desde a notícia de que o Kim tinha passado na universidade a qual tinha se dedicado tanto. Todos os amigos e a família estavam em estado de euforia, era um momento a ser celebrado, claro. Seungmin colocara todo o seu esforço naquilo, tinha se dedicado desde sempre para ser um aluno exemplar e isso finalmente estava trazendo os resultados mais do que justos. Ele merecia aquilo, merecia a nova vida a qual almejou por tanto tempo e agora era uma realidade, era palpável e incrível.
Mas tinha uma coisa, uma única coisa. Changbin estava inseguro, uma insegurança que lhe tremia os ossos, que quase fazia com que fumaça saísse de sua cabeça como com personagens de desenhos animados. Não queria ser mal interpretado, estava feliz, radiante, orgulhoso com a recém conquista daquele que tanto gostava… Porém o mundo parecia um pouco grande demais. Changbin nunca tivera exatamente um senso de grandeza, gostava de viver ali de forma pacata e gostava de construir casas na árvore com acabamento ruim e de noites de jogos com os amigos.
Ele não era particularmente nada interessante do próprio ponto de vista, era um amontoado de características medíocres e nada marcantes. Sua mente era um grande amontoado de insegurança, medo e confusão naqueles dias. O melhor amigo sairia daquele lugar. Conheceria gente interessante e inteligente como ele. E ele se apaixonaria. Changbin não podia prendê-lo ou impedí-lo de viver aquilo. Seria injusto deixá-lo preso a si, precisava conversar com ele. Precisava mostrar o quão eram diferentes e aquilo jamais iria funcionar, ao menos era o que sua mente conturbada e insegura insistia em lhe dizer.
[...]
— Hyung, por favor, não fala assim… - voz do Kim soava quebrada, assim como o seu coração desde que iniciaram aquela conversa.
Sentia como se seu pequeno universo particular estivesse ruindo e desmoronando sob seus pés. Era como se Changbin estivesse voluntariamente escolhendo que um abismo se abrisse entre eles, impedindo Seungmin de argumentar, de dizer o quão absurda aquela ideia parecia, de tentar se aproximar.
Um longo suspirar soltou os lábios trêmulos do Seo antes que ele se aproximasse minimamente. Uma das mãos subiu para tocar o rosto de Seungmin, mas recuou antes mesmo do meio do caminho. O Kim soltou um gemido de frustração.
— Meu… Seungmin - “meu amor”, ele ia dizer meu amor. — No fundo você sabe que ‘tô certo.
Mais um longo suspirar, ele parecia em conflito sobre o que deveria ou não dizer. Seu emocional e seu racional em uma briga interna e confusa sobre o que queria e o que deveria fazer. Ele sabia que uma era oposta a outra.
— Como isso pode estar certo?! - o tom do mais novo era indignado, carregado de uma irritabilidade que Changbin não conhecia, ao menos nunca tinha visto o outro se dirigindo a ele daquela maneira. — Está tentando me dizer que o limite do que sente por mim é a distância e quer que eu julgue que isso é o certo a se fazer?
Tudo ao redor do Kim era mágoa, tristeza e uma junção de sentimentos ruins e confusos e doloridos que tomavam sua mente e quase causavam dor física. Era pra ser um momento feliz, o seu momento, então porque tudo parecia tão ridiculamente errado? Fugia completamente da própria compreensão e por mais egoísta que pudesse ser, não conseguia acreditar que as inseguranças do outro iriam sobrepor o que tinham construído até ali. E sendo honesto, sequer sabia que Changbin estava inseguro, então nada do que saía de sua boca parecia fazer sentido nenhum.
— Seungie… você é o meu mundo. Você sabe disso, não sabe? - pela primeira vez o Seo parecia calmo, a voz tranquila embora ainda trêmula. Seungmin apenas assentiu, abrindo a boca para perguntar então o porque caralhos de tudo aquilo, mas foi interrompido. — E isso nunca vai mudar… mas o seu mundo, a partir de agora, é muito maior e vai muito além de mim. Como eu poderia dizer que amo você se nem sou capaz de te deixar livre? - riu fraco, sem humor algum. — Você precisa conhecer mais do que essa cidadezinha e essas pessoas, precisa estar cercado de algo que se equipare a sua grandeza, a alguém… Esse alguém com certeza não sou eu.
Seungmin quis socá-lo, nunca tinha escutado tantas besteiras antes na vida.
— Binnie…
— Por favor, meu amor…
— Eu não quero nenhum tipo de grandeza, eu não quero qualquer outra pessoa. Por favor, Changbin, não faz isso com a gente…
Um silêncio de alguns segundos que pareceram longas e torturantes horas se passou. Seungmin sempre soube, sempre disse que aquele lugar era pequeno demais para ele. Isso martelava os pensamentos de Changbin desde a notícia de que ele passara para a faculdade.
Ele finalmente tocou o rosto do Kim em uma carícia suave, mas ele estava tão distante e o sorriso que se formava em seus lábios era tão artificial que não chegava aos olhos. Seungmin mal conseguia reconhecê-lo.
— Nós dois sabemos que isso é mentira, meu amor.
O toque se desfez tão rápido quanto começou. Tudo ao redor deles parecia desmoronar de forma descontrolada.
— Eu amo você, Seungmin. Eu sei que um dia você vai me agradecer por terminar tudo agora, antes que fosse devastador demais.
E simples assim, o Seo se virou e foi embora. Ele estava errado sobre tantas coisas, mas mais ainda em pensar que aquilo não era devastador o suficiente. Seungmin sentia como se tivessem dilacerado seu coração e tudo era dor, dor e dor e uma tristeza que jamais seria capaz de descrever mesmo que tentasse.
Seungmin não teve a oportunidade de responder ao “eu te amo” e isso o corroía desde então.
Já fazia uma semana, ele iria embora em dois dias.
Lágrimas finas escorriam pelo rosto cansado sem que sequer notasse até que elas atingissem as páginas do álbum, molhando-as enquanto Seungmin se permitia chorar de verdade pela primeira vez desde aquele dia.
Tinha jurado a si mesmo que tentaria, se esforçaria ao máximo para aproveitar aquele momento, o momento pelo qual tinha esperado a vida inteira. Tentou se convencer que relacionamentos não são nada, que ele era alguém autossuficiente e que nada mais importava além dele e da nova vida a qual almejou por tanto tempo. Mentiras, mentiras e mais mentiras que contava para si mesmo em uma falha tentativa de provar que não precisava de ninguém além de si mesmo e dos sonhos que finalmente teria a chance de realizar. Era tudo uma completa farsa, o coração doendo dentro do peito só reforçava isso enquanto o choro se tornava mais intenso, um choro feio interrompido por soluços e fungares altos enquanto parecia procurar por oxigênio que simplesmente tinha sumido de seus pulmões. Um choro de perda, de dor, saudades e arrependimento por não ter conseguido fazer nada para que Changbin permanecesse.
Deveria ter feito mais. Queria ter impedido que as coisas tivessem terminado daquela forma. Mas não fez, não impediu.
Não é como se pudesse fazer algo a respeito agora, a visão que tinha era de que o tempo deles tinha acabado, quando não foi atrás dele naquela noite, quando não fez nada para convencê-lo de que aquilo tudo era um grande absurdo e que eles dois eram mais fortes do que tudo. Deveria tê-lo dito o que também o amava e o quanto o amava. Não o fez.
Um dos grandes defeitos de Seungmin é o quão orgulhoso sempre foi, e a forma como aquelas palavras feriram seu ego e o fizeram sentir como se tudo o que tinham não valesse de nada a ponto de Changbin abrir mão deles tão facilmente. No dia aquilo tinha sido demais para suportar, naquele momento deixar que o Seo se fosse pareceu o mais correto a se fazer, afinal, se ele julgava que eles não valiam a pena, por que é que o Kim deveria lutar? Esses foram os exatos tipos de pensamentos que rondavam sua mente enquanto estava de cabeça quente demais e o seu sangue fervia em um misto de revolta e dor tão intensos e confusos que, nem se quisesse, saberia dizer onde um terminava e o outro começava, como se fosse um único sentimento. Nunca mais queria sentir algo assim de novo.
Agora, se parasse para pensar racionalmente e com a raiva dando espaço apenas para a melancolia e a tristeza, tudo o que queria era voltar no tempo e fazer tudo diferente, se ajoelharia aos pés do mais velho de fosse necessário, faria tudo o que estivesse ao seu alcance para impedi-lo de o deixar daquela forma. Aquele não poderia ser o fim deles, era inaceitável e injusto que fosse assim, alguma coisa estava errada, tinha que estar, exatamente como peças de um quebra-cabeças que não se encaixam mesmo que você tenha a certeza que as está juntando corretamente.
Seungmin balançou a cabeça lentamente, aos poucos voltando a si mesmo, fechando o álbum em suas mãos sem muita delicadeza, imediatamente começando a limpar as lágrima insistentes que escorriam pela face aos montes, mesmo que mal tivesse se dado conta de verdade de que estava chorando a algum tempo, mesmo quando as lágrimas se derramaram pelas páginas plastificadas do álbum. Sentia-se péssimo, a sensação de que tinha sido pisoteado por milhares de hienas após ter sido jogado de um penhasco exatamente como em “O Rei Leão." Mas, para o seu azar, ele tinha sobrevivido, ou o mais próximo disso que a situação permitia.
(Changbin teria dito que essa comparação foi dramática demais até mesmo para Seungmin, que era a pessoa mais dramática que já tinha conhecido, dividindo esse posto apenas com Hyunjin.)
Começou a guardar os álbuns de fotos na caixa de forma apressada e desajeitada, sem muito cuidado, querendo apenas terminar de lacrar aquele pacote o mais rápido possível, como se isso fosse de alguma forma resolver tudo, ou pelo menos, fazer com que parasse de doer tanto quanto doía agora.
Tomou um gole grande do café, uma careta se formando no rosto ao notar que o líquido tinha esfriado, o que queria dizer que tinha passado mais tempo do que pensava - ou devia - mexendo naquelas coisas, afundando nas lembranças contidas ali. Talvez nunca tivesse visto a vida no interior de forma tão bonita quanto agora que se veria livre e distante dela.
Quando se deu conta, já era meio da madrugada e mesmo com a quantidade nada saudável de cafeína que tinha ingerido, sentia-se exausto, tinha a leve impressão de que, se fechasse os olhos, dormiria ali mesmo, sentado de pernas cruzadas em meio a imensidão de caixas e com as costas doloridas.
[...]
Já haviam se passado alguns dias desde que fez a mudança, o dia tinha passado extremamente rápido, lembrava-se da mãe e da avó lhe abraçando ao mesmo tempo enquanto se debulhavam em lágrimas, lhe acariciando os fios de cabelo bagunçados e repetindo pelo menos uma centena de vezes que ele deveria se cuidar direitinho e não tomar tanto café. Também se lembrava do pai segurando o choro, tentando não demonstrar que não era tão durão quanto tentava transparecer, mas no fim era possível ver os cantinhos dos olhos cansados e com marquinhas por conta da idade completamente úmidos enquanto abraçava o filho pelo ombro e dizia estar orgulhoso dele. Não podia se esquecer dos amigos, Felix chorava tanto que os olhos estavam vermelhos e inchados, precisando ser consolado por Chan e Hyunjin, esses que também não ficavam muito para trás no quesito choro. Minho e Jeongin não choraram, pelo menos não na frente do Kim, e Jisung repetia diversas vezes sobre como Seungmin deveria manter contato todos os dias e contar sobre cada passo que desse na cidade nova, seguido de frases sobre como todos estavam orgulhosos e ameaças extremamente explícitas de como o torturaria lentamente antes de matá-lo se soubesse que ele arrumou novos melhores amigos. Ele poderia ter amigos, é claro, mas não melhores que eles, isso era completamente fora de cogitação. Seungmin levou todas as ameaças a sério, jamais ousaria duvidar de nenhuma das palavras do Han.
Lembrava-se de muitas coisas sobre aquele dia em detalhes, a sensação agridoce no peito de estar deixando para trás onde foi seu lar a vida inteira para ir até algo completamente novo e desconhecido. A única coisa da qual Seungmin não se lembrava era de Changbin, e não lembraria nem se quisesse, afinal, ele não estava lá. Assim que os amigos chegaram para se despedir antes de Seungmin entrar na caminhonete do pai que o levaria até o ponto de ônibus, Chan logo viu os olhos ansiosos e inquietos do Kim e ele sabia exatamente quem o amigo estava procurando, mas o sorriso triste que lançou na direção dele foi o que fez a ficha de Seungmin cair e seu humor murchar completamente. Mesmo com tudo, jamais imaginaria que o Seo sequer iria se despedir dele. Pareceu um ponto final muito mais definitivo, sentiu o coração murchar como se fosse uma florzinha a muitos dias sem água. Bom, a culpa era toda dele por ter criado alguma expectativa em cima disso, o pensamento de que Changbin não tinha obrigação nenhuma de ir chegou a língua como um gosto amargo, ressentido. Eles não tinham mais nada, afinal.
Antes que finalmente partisse, Chan o puxou de canto e explicou que Changbin o tinha avisado que não estava se sentindo bem e que não queria correr o risco de deixá-lo doente logo nos seus primeiros dias na cidade grande, mas que desejou sorte em sua nova jornada e pediu para que ele mandasse notícias aos amigos assim que possível. Seungmin não acreditou naquelas palavras nem por um segundo e o amigo mais velho sabia disso, embora nenhum dos dois tenha dito mais nada.
Mais tarde naquele mesmo dia recebeu uma mensagem de Changbin, seu coração estremeceu dentro do peito ao ver o nome dele brilhando na notificação na tela do celular. Um fio fino e frágil de esperança se espalhou por ele, a mente e o coração em um árduo conflito entre o que ele queria ler e o que provavelmente sabia que estaria no conteúdo da mensagem.
Binnie 💙: “Desculpa por não ter conseguido ir, fiquei doente”
E depois:
Binnie 💙: “Boa sorte com tudo aí, sei que vai se sair bem. Estou orgulhoso de você e torcendo para que os seus sonhos se tornem realidade.”
Aquele fiozinho se rompeu assim que terminou de ler, deixando espaço apenas para um longo suspirar pesado e carregado de frustração escapar os lábios.
Começou a digitar logo em seguida “Sabe que isso é impossível, um desses sonhos é você”, mas logo caiu em si, apagando de forma apressada e enviando apenas um “Valeu (:” como resposta. Depois disso, nenhum dos dois mandou mais nada.
[...]
Conforme os dias foram passando, Seungmin foi descobrindo suas coisas favoritas e aquelas que absolutamente odiava sobre a nova rotina na cidade grande.
Definitivamente amava as aulas da faculdade, todas elas. Amava passar horas aprendendo sobre diferentes tipos de técnicas de fotografia, sobre história e amava procurar livros sobre o assunto na biblioteca da faculdade. Amava tirar fotos de toda a cidade, de paisagens, prédios bonitos e de uma pracinha que ficava de frente para o dormitório onde estava instalado, tinham alguns banquinhos e um chafariz que nunca tinha visto funcionando, mas era bem bonito. Gostava muito dos dois novos colegas de quarto, Sunoo e Ni-ki, eles eram engraçados e cursavam dança, e logo introduziram Seungmin a tradição de noites de jogos, onde apostavam sacos de bala e Sunoo definitivamente fazia qualquer coisa para conseguir ganhar, Ni-ki parecia saber disso e deixar que ele ganhasse, mesmo que isso fosse perceptível para qualquer um, o mais velho dos dois não parecia notar.
Seungmin também gostava dos museus, das exposições de arte, das barraquinhas com venda de artesanato e de como sempre tinha algo para fazer, mesmo que fosse madrugada, a cidade ao redor dele não parava nunca, como um organismo vivo, algo incansável, grandioso demais se comparado de onde tinha vindo.
Mas como nada podia ser perfeito, logo notou o quanto odiava cafés superfaturados que mais se pareciam com milkshakes, aquilo nem deveria ser considerado café! Odiava como a maioria das pessoas ignoravam umas às outras e odiava o sabor de bolo artificial e café ralo que serviam na faculdade. Odiava como o clima parecia constantemente nublado e cinza e feio, e principalmente odiava não poder compartilhar isso tudo com Seo Changbin.
Já se faziam quase duas semanas desde que tinha partido e que tinham trocado as últimas mensagens, na maior parte do tempo estava atarefado, estudando ou fazendo trabalhos ou tentando se distrair com os colegas de quarto, contudo, no segundo em que parava, Changbin era o seu primeiro pensamento.
No primeiro final de semana todos os amigos se juntaram e fizeram uma ligação de vídeo de quase três horas de duração, pedindo detalhes meticulosos sobre como tinha sido a primeira semana do Kim longe da cidadezinha deles. Felix disse que esperava que ele tivesse chorado muito de saudades deles e todos riram, no final, ele confirmou que tinha sim acontecido e que sentia falta deles, o amigo loirinho pareceu satisfeito com a resposta. Dessa vez não ficou esperando que Changbin estivesse lá, contudo depois de horas ele chegou na casa de Jisung para se juntar aos outros. Seungmin disse que estava ficando sem bateria e precisava desligar. Não se sentia pronto para falar com ele, ou vê-lo, ou qualquer coisa do tipo. Não naquele momento e, se fosse ser honesto consigo mesmo, não sabia quando ou se conseguiria.
Se completavam pelo menos cinco dias que chovia de forma ininterrupta por ali, de forma que tornava impossível que pudesse fazer qualquer coisa fora do dormitório além de - com muita luta - frequentar as aulas. Parecia uma piada de mau gosto do universo consigo, o dando tempo demais para ficar pensando, especialmente no final de semana que nem mesmo as aulas ele tinha para tomar sua mente por um tempo. Naquele dia, como se já não fosse ruim o suficiente, Sunoo e Ni-ki tinham o aniversário de uma amiga para ir, eles inclusive o chamaram, mas se tinham duas coisas que Seungmin detestava eram pessoas desconhecidas e festas de pessoas desconhecidas, então apenas recusou dizendo que não estava se sentindo muito bem, logo os amigos desejaram melhoras e disseram que passariam o dia todo e dormiriam por lá mesmo durante o fim de semana.
Como mais um dos acontecimentos de sua maré de azar, um pouco mais tarde, realmente acabou notando que, provavelmente, tinha pego um resfriado. Começou com uma dor de cabeça irritante e quando se deu conta todo o seu corpo doía e ele sentia um frio desproporcional a temperatura que estava fazendo, o queixo tremia um pouco e ele tinha absoluta certeza de que estava com febre. Sua garganta também doía.
Em resumo, estava fodido.
Como todo bom homem, Seungmin simplesmente não funcionava quando estava doente, suas febres eram sempre altas e algumas vezes chegava a fazer parecer que estava embriagado, sua mente não funcionava direito e ele falava coisas desconexas, chorava e implorava para que a mãe, a avó ou até Changbin ficassem cuidando de si até que se sentisse melhor. Era um total dramático manhoso. Mas agora ele estava sozinho, não tinha a avó para preparar chás horríveis - mas eficientes - que o ajudariam a melhorar mesmo que Seungmin reclamasse muito antes de, de fato tomar, também não tinha a mãe para verificar sua temperatura, cozinhar uma sopinha com batatas e tempero caseiro e, é claro, chamá-lo de dramático e enfatizar como ele é igualzinho ao pai quando adoece. Tampouco tinha Changbin para se deitar ao lado dele, beijar-lhe a testa e dizer que logo ele ficaria bem enquanto fazia um cafuné que só ele sabe até que o Kim finalmente pegasse no sono para acordar bem melhor no dia seguinte.
Seungmin também ficava sensível e manhoso demais quando estava doente, quando se deu conta, lágrimas finas escorriam pelo rosto quente por conta da temperatura elevada, ele não tinha forças sequer para se levantar e pegar o número da farmácia que ficava guardado em uma gaveta na cozinha para que pudesse pedir um maldito remédio. Àquele ponto, não sabia mais quanto tempo tinha se passado, mas sua mente já estava longe, divagavaperdida naquele amontoado de dor e manha que tinha se tornado. Os olhos estavam pesados ao ponto de mal conseguir mantê-los abertos, mas ele alcançou o celular que estava jogado ao seu lado com certa dificuldade, abrindo os contatos favoritos e clicando no primeiro deles, situações desesperadas exigem medidas desesperadas e tudo o que o Kim queria era a sua mãe.
Demorou pelo menos uns cinco toques antes que atendessem e Seungmin não esperou por qualquer comprimento antes de começar com seus resmungos e reclamações típicos de quando adoecia.
— Eu estou doente, mamãe! Muito doente, não consigo nem abrir meus olhos e o meu corpo inteirinho dói! - ele choramingava dramaticamente, mais lágrimas escorrendo pelas bochechas sem que conseguisse ter qualquer tipo de controle sobre elas.
— Eu preciso tanto de você, eu não consigo nem mesmo pedir um remédio. A vovó não está aqui pra me fazer um daqueles chás horríveis que ela faz mas que realmente me ajudam a melhorar, e tá tão mas tão frio, o Changbin não está aqui, ele era quem me tranquilizava e me mantinha aquecido, a senhora sabe… e eu sinto tanta falta dele, mamãe! Eu não sei mais o que fazer, eu ‘tô completamente sozinho e eu sei que você vai dizer que eu estou sendo dramático igual ao papai… - uma breve pausa, marcada por um fungar — E talvez eu esteja mesmo! Mas eu simplesmente não sei como eu vou conseguir melhorar sem vocês! - a voz saía embolada, rápida e atropelada demais como se o raciocínio não acompanhasse a rapidez da fala, não dando espaço para qualquer tipo de resposta da mãe.
Exceto pelo fato de que não era a senhora Kim do outro lado da linha.
Seungmin tinha dois contatos de emergência, sua mãe e Changbin.
Isso tinha sido um acordo entre eles desde o dia em que o Seo decidira que eles seriam melhores amigos. Ele havia dito que colocaria seu número como contato de emergência porque Seungmin sempre poderia contar com o hyung dele, e não importa o que acontecesse, Changbin sempre estaria disponível quando ele precisasse mesmo que minimamente de si. Seungmin nunca tirou o número dele dali, embora nunca tivesse efetivamente precisado ligar para ele, sempre trocavam mensagens porque ele preferia assim. E agora, lá estava ele, vulnerável, exposto, jogando seus sentimentos e inseguranças em cima daquele que tanto gosta sem sequer ter se dado conta disso.
— Eu sinto tantas saudades de vocês… e do Changbin hyung, você sabe que sim, eu sinto tanta falta dele que parece que arrancaram um pedaço do meu coração, mãe. Queria que ele estivesse aqui, se estivesse eu ia saber que ia ficar tudo bem, mas ele nem quis se despedir! Ele me odeia e eu nem sei o que eu fiz de errado. - os lábios do mais alto tremiam, e o amigo estava em completo silêncio do outro lado.
Um turbilhão de coisas passava pela mente de Seo Changbin agora. Era óbvio que sentia falta do outro, também sentia como se parte do seu coração tivesse sido arrancado e levado junto com ele. Sentia uma saudade tão profunda e triste como o oceano, era imensurável e indescritível e dilacerante, mas até aquele momento tinha certeza de que tinha tomado a escolha certa, tinha certeza que sim, que Seungmin merecia o mundo inteiro e não alguém que fosse tão pouco como Changbin tinha certeza que era. Seungmin merecia grandeza e coisas incríveis, então porque estava ligando e dizendo que sentia saudades de uma forma tão frágil, vulnerável e sincera? Isso não fazia o menor sentido. Ele tinha a absoluta certeza de que Seungmin estava feliz lá. Ele deveria estar, então… por que não parecia o caso? Por que ele falava de forma tão sofrida e decepcionada? Não fazia o menor sentido.
Naquele instante, Changbin também chorava do outro lado. As saudades lhe tomando completamente, chegando como um soco forte no estômago, como uma chuva repentina, quando você está caminhando e parece tudo bem mas do nada se inicia um temporal sem que você estivesse minimamente preparado para aquilo. Toda a dor e angústia das últimas semanas transbordavam dele em um choro silencioso, escorrendo pelas bochechas sem que pudesse controlá-las. Ele amava tanto Seungmin.
Não sabia quanto tempo tinham ficado ali daquela forma, com o Kim resmungando e chorando, mas não demorou muito a notar quando a respiração pesada dele se fez presente do outro lado. Mais um fato sobre Seungmin quando estava doente era que ele não conseguia se manter muito tempo acordado.
— Eu também sinto saudades, meu amor. Você não faz ideia do quanto. - disse baixinho, temendo que o outro acordasse mesmo que soubesse que a possibilidade era praticamente nula. E só então, ele finalmente encerrou a chamada.
[...]
Um resmungar manhoso e dolorido escapou-lhe os lábios assim que começou a despertar, qualquer mínimo movimento parecia exigir o dobro do esforço para ser realizado, sua mente continuava distante e exausta como se demorasse a assimilar onde estava, os olhos se abriram com dificuldade como se fossem pesados demais para mantê-los abertos, sua garganta estava seca como se tivesse acabado de engolir um punhado de areia e o ambiente ao seu redor parecia definitivamente mais escuro do que quando adormeceu no início da tarde, alcançou o celular que estava caído ao lado do corpo de forma desajeitada, resmungando ao ver que já se passava um pouco da meia noite o que fez cair a sua ficha de que tinha apagado durante o dia todo, quando falasse com a mãe de novo ela certamente lhe daria uma bela bronca por preocupá-la daquela forma e sumir, e principalmente sabia que seria xingado por não ter se alimentado ou se hidratado direito, mesmo que cogitasse mentir, já conseguia ouvir perfeitamente a voz dela em sua mente dizendo “Eu sabia que você não ia se cuidar direito, Seungmin! Você não tem jeito mesmo.” o que o fez formar uma careta inconscientemente, sentindo a cabeça latejar um pouco.
Além do breu que tomava todo o cômodo, também podia escutar a chuva intensa do lado de fora, quase como se o mundo estivesse acabando, era o que Changbin diria. Ele nunca tinha gostado da chuva, se assustava com ela por mais cômico que pudesse parecer um homem daqueles ter medo de chuva. Seungmin gostava, era agradável para poder dormir em tardes tranquilas e preguiçosas e acordar com cheiro de bolinhos de chuva recém feitos espalhado pela casa. Mas não parecia nada agradável agora, quando ela levava seus pensamentos novamente para a mesma pessoa. Tudo sempre terminava em Changbin, era um ciclo, não importa de onde partisse, sempre sabia onde iria chegar, era quase inacreditável como todos os caminhos sempre levavam até ele.
Seungmin já estava fungando de novo, imerso demais nos próprios pensamentos, se afogando neles como não fazia desde que chegara ali, na cidade grande, mais ou menos umas sete horas e meia de distância de tudo o que conhecia, de novo caindo na espiral de pensamentos sobre como sentia falta de casa, de sua mãe para cuidá-lo naquele momento frágil e vulnerável, dos amigos para rirem dele e da forma como exagerava demais estando doente e, é claro, Changbin, Changbin e Changbin.
Houve um som abafado pela chuva do lado de fora, deixando o Kim confuso por um instante, tentando assimilar o que era. Se repetiu um segundo depois, batidas na porta, deixando o coreano completamente confuso. Talvez Sunoo e Ni-ki tivessem decidido voltar ao invés de passarem a noite fora, mas recusava-se a acreditar que tinham esquecido suas chaves de novo - daria uma bronca neles por o obrigar a sair da cama quentinha estando doente e com dor. Talvez fosse o vizinho do dormitório ao lado, já tinha acontecido dele chegar caindo de bêbado em um final de semana e confundir os quartos, batendo na porta deles por achar que não estava conseguindo destrancar a própria porta. Qualquer uma das possibilidades deixava o Kim irritado, não se responsabilizaria por possíveis xingamentos que diria assim que conseguisse chegar àquela maldita porta.
Se levantou com dificuldade, todos os membros de seu corpo implorando por piedade, quase como se pudessem ceder a qualquer momento com o mínimo esforço que ele fizesse. Enrolou-se na coberta preguiçosamente, ainda sentia o frio tomando conta de si e os lábios trêmulos, provavelmente estava ficando com febre de novo, mas se forçou a sair da cama e atravessar todo o pequeno dormitório com auxílio da lanterna do celular, já que estava tudo coberto pela penumbra.
No caminho até a sala foi praticamente tropeçando, a escuridão não o ajudava nem um pouco e, com tudo apagado, mal conseguia distinguir onde deveria estar o interruptor mesmo com a pouca luz do celular. Praticamente se arrastou até conseguir chegar a entrada do dormitório, destrancando a porta sem muita paciência enquanto resmungava em reclamações aleatórias para quem quer que estivesse do outro lado, assim que abriu, acendeu a luz pelo interruptor que ficava logo ao lado, iluminando o ambiente e causando um desconforto imediato na visão desacostumada com a luz, logo levantando o olhar para a figura encharcada a sua frente.
Por um segundo, tudo o que escutou foi o barulho suave das chaves tilintando e caindo sobre o tapete de entrada, seus olhos estavam arregalados como se estivesse vendo um fantasma, ou alucinando. Tinha certeza que estava alucinando assim que seus olhos pousaram em Seo Changbin, encharcado de chuva dos pés à cabeça. Ele usava as mesmas roupas de sempre, nada adequadas para o clima frio e chuvoso que fazia ali. A camiseta escura em um tecido fino e fresco, apenas com uma flanela azul marinho por cima. Os cabelos tinham crescido um pouco, a franja tão molhada que mal conseguia ver as ondas que os fios tinham naturalmente, quase tapando os olhos enquanto ele carregava uma mochila não muito grande em um dos ombros. Ele parecia tão surpreso quanto o próprio Seungmin em estar ali.
O tempo ao redor deles pareceu parar por um segundo, não sabia como agir ou o que deveria dizer, tinha certeza que estava sonhando, aquilo não passava de mais um delírio de sua mente adoecida, confusa e com saudades do melhor amigo, era a única explicação plausível.
— Changbin?... - resmungou de forma quase inaudível, vendo o outro sorrir fraco, assentindo levemente. A cabeça do mais novo parecia girar.
— Oi Minnie… eu posso entrar? - ele perguntou, a voz soando um pouco rouca como se tivesse passado tempo demais sem falar, os lábios trêmulos pelo frio que muito provavelmente sentia, fazendo as pernas do outro quase vacilarem.
— Meu deus, é claro que sim, Changbin, você tá encharcado! - a voz soou como se finalmente sua ficha tivesse caído, ele realmente estava ali, tinha vindo até ele. No meio de uma tempestade.
Seungmin o puxou para dentro, mesmo que estivesse com dores e sentindo-se fraco, imediatamente correu até o quarto, quase tropeçando nos próprios pés no caminho, pegando a toalha mais grossa e pesada que conseguiu encontrar, voltando até o mais velho e o envolvendo nela. As mãos quentes alcançaram o rosto dele, verificando se estava tudo bem, procurando por algum sinal de qualquer coisa. Changbin estava quieto demais, logo ele que geralmente era tão falante e elétrico… no momento, tudo o que fazia era encarar Seungmin, o olhar que ele tanto conhecia e tinha sentido falta ao ponto de quase enlouquecer.
— O que você ‘tá fazendo aqui? Essa chuva toda… pode acabar adoecendo, podia ter se machucado! - fala rápido, encarando-o completamente tomado pela preocupação, escutando apenas um suspirar como resposta.
— Eu ‘tô bem, juro. Você precisava de mim, então eu vim.
A sensação era como se o ar tivesse sumido dos seus pulmões e não se lembrasse como deveria respirar, como se não fosse mais uma ação automática de seu corpo. Sentiu as mãos do Seo em seu rosto, um toque suave, cuidadoso, que fez Seungmin derreter completamente, o fez pensar que odiaria ter que acordar mais tarde e perceber que tudo foi apenas um sonho, um fruto da imaginação fértil e fragilizada por estar adoecido, o fez pensar como imensamente sentia falta do outro, como seu coração clamava por aquilo, por aquela proximidade, por ele.
Changbin depositou um selar casto na testa dele. Seungmin estremeceu, sentindo um nó na garganta, lutando contra as lágrimas acumuladas nos cantos dos olhos.
Em um ato involuntário, sem que pudesse pensar antes de agir, se jogou nos braços do mais baixo em um abraço apertado, soltando um soluço alto e patético, dando um susto no outro que demorou um pouco a assimilar o que estava acontecendo.
— A sua febre vai piorar, Min. Eu tô todo molhado. - o tom era de preocupação, mas o Seo retribuiu o contato, o apertando ali.
Nunca mais queria soltá-lo de novo, deixá-lo escapar.
— Não tem importância… - mais um soluço — O que veio fazer aqui? Depois de tudo o que me disse naquele dia…
O tom de voz do Kim saiu chateado, como se implorasse por alguma explicação, qualquer coisa, embora entendesse que talvez, aquele não fosse o momento ideal para aquela conversa. Não quando Changbin estava na porta da sua casa, encharcado pela chuva e correndo risco de ficar doente. Essa conversa teria de esperar ao menos mais um pouco.
Não deu tempo suficiente para que o mais velho respondesse qualquer coisa, apenas balançou a cabeça como se tentasse afastar a urgência e a necessidade de uma explicação imediata, se afastando um pouco e o segurando pelas laterais do rosto, quase como uma atitude involuntária para se certificar de que não estava delirando antes de continuar.
— Temos sim muito o que conversar, mas primeiro você vai tomar um banho e vestir roupas quentes. Não quero que fique doente também - falou o mais firmemente que conseguiu, só então se afastando completamente. — Me espera um segundo.
Mais uma vez Seungmin cambaleou até o quarto, parecia que suas pernas simplesmente se recusavam a serem perfeitamente funcionais, ele tropeçava um pouco e perdia o próprio equilíbrio no caminho, sentindo-se fraco, mas conseguiu ir até o cômodo e pegar roupas limpas e quentes para o mais baixo, roupas que eram dele mesmo, um conjunto de moletom cinza claro com algumas estrelas estampadas que o Seo geralmente usava para dormir quando ia para a casa do outro e que Seungmin acabou levando consigo, uma pequena partezinha da pessoa que amava para que pudesse sempre se lembrar - por mais doloroso que isso pudesse soar.
Não demorou a voltar para a sala, entregando as peças de roupa para o outro, indicando o corredor para ele.
— É a primeira porta do lado esquerdo. Tem sabonetes no armário atrás do espelho e shampoo também. O secador que tá lá é do Sunoo mas ele não vai se importar se você usar - diz rapidamente, se sentindo um pouco tonto, quase tombando um pouco para frente mas sendo segurado pelo moreno que o encarou com os olhos tomados de preocupação, como se procurassem por qualquer sinal de que Seungmin estava pior do que dizia estar, o auxiliando com cuidado para se sentar no sofá.
— Tá tudo bem? Tem algo que eu possa fazer pra ajudar? O que você ‘tá sentindo? ‐ perguntou um pouco afobado, tirando um riso fraco, sem muito humor do Kim, que balançou de leve com a cabeça.
— Eu estou bem, pode ir lá… Não tem com o que se preocupar.
A voz de Seungmin não era nem um pouco firme, ambos sabiam bem disso. Changbin mordeu de leve o lábio inferior, buscando alguma pelinha solta ali que pudesse puxar. Uma mania que tinha quando sentia-se ansioso ou nervoso, Seungmin percebeu imediatamente.
— Eu juro que ‘tô bem, não vou sair do sofá até você voltar, eu prometo. - tentou soar o mais firme que podia, vendo o mais baixo confirmar de leve com a cabeça, soltando um suspirar pesado como se desse por vencido.
Changbin estava agachado em frente ao sofá, depositou um beijo demorado na testa alheia antes de realmente se levantar dali e começar a ir em direção ao banheiro.
— Eu já volto.
E dessa vez, Seungmin sabia que ele voltaria.
Não passou muito tempo até que Changbin saísse do banho, seus músculos finalmente relaxando após terem contato com a água quentinha, o chuveiro ali era definitivamente muito melhor do que o das casinhas no interior e isso o fez pensar como teria sido a primeira impressão de Seungmin sobre esse fato, já que ele sempre fora apaixonado por banhos longos e água quente até demais. Provavelmente tinha se sentido no paraíso, o pensamento o fez sorrir largo.
Pensar em Seungmin vivendo a vida a qual sempre sonhou enchia seu peito de um tipo de alívio e orgulho que não conseguiria descrever nem se quisesse. Seungmin se encaixava perfeitamente àquele lugar, ao dormitório pequeno, mas bem arrumado. Ao ambiente universitário e ao chuveiro com água quente demais. Aquele era o lugar dele, Changbin sabia disso com cada célula de seu corpo, mas não conseguia compreender porque o outro parecia o querer por perto mesmo que estivesse rodeado por tudo aquilo que sempre almejou.
Ao chegar novamente na sala, tentando ajeitar os próprios fios que estavam um pouco cheios e desajeitados por não saber exatamente como usar o secador, seus olhos miraram diretamente na imagem de Seungmin no sofá. Estava debaixo das cobertas, ou o mais próximo disso que conseguiu, já que tinha boa parte do corpo exposta. A bochecha estava amassada contra uma almofada grande do Pochacco enquanto ele parecia dormir profundamente.
Changbin não foi capaz de conter um sorriso com a cena tão familiar, sempre que Seungmin adoecia, a febre parecia o fazer dormir rapidamente e em qualquer que fosse o momento. O Seo geralmente ficava ao lado dele até se certificar de que ele tivesse melhorado o suficiente.
Se aproximou do sofá não muito grande, o estofado era de um azul marinho bonito e quase não entendia como o mais novo tinha conseguido espaço entre a infinidade de almofadas ali, algumas que conseguia reconhecer e outras que assumiu que eram dos colegas de quarto do outro. Afastou algumas dessas almofadas como conseguiu, se sentando na beiradinha do sofá com cuidado para não despertar o outro, ajeitando melhor a coberta por cima dele e logo vendo a expressão no rosto adormecido suavizar, satisfeito por estar devidamente aquecido.
Ponderou se deveria ou não acordá-lo, mas ao vê-lo dormindo tão tranquilamente, não teve dúvidas de que qualquer outra coisa poderia esperar. Não sabia qual era o quarto dele e não quis ser invasivo ao ponto de levá-lo para qualquer lugar, então apenas se certificou de que ele estivesse aquecido e confortável no sofá e se levantou, indo até a cozinha que ficava basicamente junto no mesmo cômodo, separada apenas por uma bancada de pedra e três banquinhos de cores diferentes. Buscou na própria mochila o sachê de chá que a própria avó do outro tinha separado, demorando algum tempo para entender como usar a chaleira elétrica que tinha no armário já que não fazia a menor ideia de como usar o fogão por indução. Depois de algumas tentativas e um tutorial de uns três ou quatro anos atrás que achou no youtube, conseguiu aquecer a água e preparar a bebida para o outro. Não se atreveu a tentar fazer uma sopa, não tinha trago ingredientes e se conhecia bem Seungmin, sabia que abrir os armários apenas o causaria estresse e que o máximo que encontraria seriam alguns pacotes de macarrão instantâneo, nuggets e, com muita sorte teria alguma alface murcha na geladeira que ele teria comprado jurando que isso é o mesmo que ter algum hábito saudável - mesmo que, no final, acabasse intocado até estragar e ir parar no lixo.
Changbin respirou aliviado quando notou o mais novo despertando lentamente no sofá, soltando um barulhinho típico, algo entre um resmungo e gemido de descontentamento por estar saindo do sono gostoso. Algo com o qual o moreno já estava mais que familiarizado. Se pudesse apostar, tinha certeza que Seungmin estava com fome por não ter comido nada o dia inteiro. Até cogitou tentar fazer uma daquelas porcarias semi prontas, mas optou por esperá-lo acordar e quem sabe pedir alguma coisa para eles - em uma cidade tão grande, esperava que houvesse ao menos algum estabelecimento vinte e quatro horas.
Seungmin sentia como se tivessem passado com um trator por cima dele algumas vezes seguidas e depois tivesse sido pisoteado por elefantes, estava cansado e coberto por uma névoa de exaustão e febre, demorando alguns segundos longos para se situar de onde estava e como tinha ido parar no sofá, levantando-se num pulo ao lembrar-se de Changbin. O coração acelerando como se martelasse o peito de dentro para fora, um tipo de desespero novo, os olhos rápidos procurando por ele enquanto implorava a qualquer um que pudesse ouvi-lo que não tivesse sido tudo um sonho.
Assim que se sentou no sofá, pronto para levantar, sentiu uma mão em seu ombro, erguendo os olhos na direção dele, sentindo como se um peso estivesse sendo tirado de seu peito ao vê-lo vestido no moletom de estrelinhas e oferecendo para si a sua caneca favorita, uma verde escura, que quando em contato com o calor revelava diversos desenhos de adornos que imitavam o quarto do seu personagem favorito de seu filme favorito, Howl de O Castelo Animado. A parte da alça estava levemente lascada, não sabia e provavelmente nunca descobriria quem é o culpado, ainda sim, sempre seria a sua favorita e fez questão de trazer consigo com todo o cuidado quando fez a mudança.
Os olhos escuros brilhavam com a cena diante de si, esticando o braço com cuidado para pegar a caneca das mãos alheias.
— Cuidado, ainda está quente - Changbin advertiu, entregando para ele.
Assim que sentiu o cheiro forte do chá, uma careta se formou em seu rosto, olhando feio para o líquido fumegante em suas mãos.
— Não acredito que isso me perseguiu até aqui! Eu não vou tomar isso! - diz num resmungo teimoso, fazendo o mais velho deles revirar os olhos.
Definitivamente era o mesmo Seungmin.
— Você ligou chorando dizendo que se não tomasse o chá da avó Kim ia morrer, então acho melhor você beber se não quiser que eu ligue para ela agora mesmo.
O Kim o encarou quase como se sentisse ofendido com a possibilidade de chatear sua avózinha com uma coisa dessas, o quão petulante e irritante e persuasivo Changbin poderia ser para sequer cogitar fazer isso. Tinha certeza que ele sabia que estava sendo xingado em pensamento, mas não parecia se importar nem um pouco com isso, fazendo o mais novo bufar tão forte que o cabelo castanho claro que caía por cima dos olhos se moveu antes de finalmente tomar um gole da bebida quente e amarga contragosto, o rosto se contorcendo em insatisfação, arriscando bebericar mais um pouco na esperança de que terminasse rápido com aquilo, tirando uma risada do Seo que apenas o deixou mais irritado. Changbin achou fofo.
E então um silêncio atingiu o ambiente, denso o suficiente para poder ser cortado se quisesse, geralmente até mesmo o silêncio era confortável entre eles, mas naquele momento ele carregava um peso invisível, uma infinidade de palavras não ditas e de um desentendimento que pensavam ter lhes custado tudo. Era intenso e impossível de se ignorar por mais que ambos tentassem, cada um com os seus motivos, mas sabiam que seria inevitável que o assunto chegasse exatamente onde estava sendo evitado, onde machucava.
— O que veio fazer aqui? Eu achei que me odiava, que não queria me ver, que queria seguir o seu próprio caminho sem mim.
Foi Seungmin quem quebrou o silêncio, não tinha coragem de olhar diretamente para o outro, estava focado na caneca com o líquido já pela metade, o indicador passando pela borda como se fosse a coisa mais interessante do mundo naquele instante, não querendo ter que de fato encarar o que estava prestes a ouvir. Sua voz era carregada de mágoa e de uma dor intensa, não era a intenção mas não tinha como soar de outro jeito, não quando passou as últimas semanas pensando que o mais velho não se importava mais consigo. Tinham muito o que conversar, entender o lado um do outro, e além da mágoa, sentia um pontinho de gratidão por estar tendo a oportunidade de expor aquilo, por mais doloroso que fosse, guardar para si era o mesmo que se afogar lentamente, a água invadindo e queimando os pulmões até que não restasse mais nada.
— Eu sinto muito - Changbin estava carregado de arrependimento. Sentia-se egoísta por pensar que estava atrapalhando a nova vida promissora de Seungmin, sua mente era uma máquina de auto sabotagem, mas nada mais era importante agora do que cuidar do seu garoto. Respirou fundo algumas vezes antes de continuar:
— Temos muito o que conversar, eu sei disso. Mas primeiro vamos cuidar de você, tá bom?... Você está doente. - tocou a testa alheia, como para comprovar o que dizia, o semblante mudando para preocupação mais uma vez. — E ‘tá queimando em febre, meu deus Seungmin!
O mais alto gemeu de frustração, sentindo lágrimas se acumulando no canto dos olhos escuros e brilhantes, Changbin tinha certeza que tinha dado para escutar seu coração se partindo com a cena, levando as mãos para o rosto alheio rapidamente, acariciando a pele macia e quente, avermelhada por conta da temperatura, limpando as lágrimas que começaram a escorrer.
— Eu não vou sair daqui, eu prometo… Só realmente precisamos cuidar de ti. Podemos falar sobre o que quiser depois, mas eu já vou adiantar, como eu poderia seguir em frente se todos os caminhos levam a você, Seungmin?
Se prestasse bem atenção naquele momento seria possível escutar ambos os corações batendo furiosamente dentro do peito deles em sintonia, uma canção ritmada, forte e intensa que só poderia ser compreendida por Seungmin e Changbin, algo que fazia sentido e que era deles. Uma compreensão mútua de tudo aquilo que foi e que não foi dito.
Diferentemente das palavras duras que o Seo tinha dito da última vez em que se viram, nessas agora Seungmin conseguia finalmente sentir sinceridade, acreditava em cada uma daquelas palavras com todo o coração e tinha a mais absoluta certeza de duas coisas:
A primeira era que Changbin jamais mentiria sobre aquilo e que o coração de Seungmin poderia finalmente se acalmar um pouco após aquelas semanas vivendo de forma angustiada e com saudades.
A segunda era que tudo ficaria bem.
