Actions

Work Header

Rating:
Archive Warning:
Category:
Fandom:
Relationship:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-02-20
Updated:
2026-02-20
Words:
5,154
Chapters:
1/?
Comments:
8
Kudos:
21
Bookmarks:
2
Hits:
159

o peso do meu coração

Summary:

Seis anos depois do incidente na Escola Nostradamus, Agatha Volkomenn se reergueu como uma das agentes mais importantes da Ordo Realitas, finalmente deixando de olhar para trás e voltando-se para seu novo começo.

Mas o passado não está morto. Ele nem sequer é passado.

Tudo muda quando Lina Kunsti, a mais dolorosa ferida aberta em seu coração, ressurge como um fantasma trazido de volta à vida.

Notes:

oiee primeira vez que posto aqui no ao3, tô obcecada pelas agalina e é meu dever como uma lesbiquinha fã de ordem desde 2020 contribuir pro acervo de fics sáficas nessa porra!!!!!

essa AU se passa nos tempos atuais, bem depois dos eventos de Hexatombe (não teve apocalipse ebaaaa), e alguns personagens que já morreram foram trazidos de volta à vida puramente porque eu gosto deles e quero incluí-los na história. bom, a maioria é por isso. rs

agradecimento especial ao meu amigão emice - que me apresentou a Ordem Paranormal, me encorajou a levar essa ideia aqui pra frente (e betou!) e há 15 anos é meu irmãozinho do coração. te amo!

boa leitura ♡
(título da fic retirado de caju - liniker)

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: fantasma

Chapter Text

Agatha nunca se sentiu pertencente a lugar nenhum.

Ela sabe que as pessoas muito comumente associam esse sentimento a paz e felicidade, e isso torna o conceito ainda mais confuso porque Agatha não conhece a paz e, principalmente, não acredita em felicidade. E não é difícil entender o porquê; conviver com o cheiro pútrido dos cadáveres assassinados por sua própria mãe faria qualquer um se questionar se a tal "felicidade" não passa de uma historinha de ninar.

Mas isso mudou quando ela conheceu Lina Kunsti, uma garota simpática e inteligente cujo sorriso gravou-se em sua mente tal como uma queimadura de terceiro grau. Ela foi a única pessoa a olhá-la nos olhos sem desprezo, disposta a ver quem estava por trás da filha maluca da Assassina de Arvorezinha. A única pessoa que Agatha tinha coragem de olhar de volta. Se a felicidade era de fato uma fantasia, foi por causa de Lina que ela voltou a sonhar.

Não demorou para que aquela fagulha de esperança fosse arrancada de seu peito. Quando encontrou o corpo mutilado e sem vida de sua melhor amiga abandonado em um bunker, uma parte de Agatha também morreu — uma parte para além de seu corpo, que fez questão de matar junto com a mente de Gabriel Opspor.

As tantas feridas do passado nunca se tornaram mais leves, mas Agatha ficou mais forte. De uma pirralha sobrevivente de uma série de tragédias à ocultista mais poderosa da Ordo Realitas, ela encontrou um caminho para transformar sua dor em algo bom, algo útil. Ela ainda não tem certeza se realmente acredita em felicidade, ou se existe de fato um bem e um mal, e ainda não compreende com clareza o que significa pertencer; mas algo em seu âmago diz a ela que está no caminho certo — na direção de um novo começo.

Pensar desse jeito é, por vezes, o que ela faz para se sentir melhor sobre sua vida e seu trabalho. O que não é o caso do dia de hoje.

"Jennifer, porra! Sai de cima das minhas coisas!" Pela sétima vez em menos de duas horas, Agatha para o que está fazendo para tirar a gatinha de cima de uma pilha de papéis que, ela percebe tarde demais, não estão mais secos. "Ah, nem fodendo. Eu tô o dia inteiro trabalhando nisso!"

Segurando a gata nos braços, ela encara furiosa os olhinhos amarelos. Jeniffer começa a ronronar.

"Um dia eu ainda vou te transformar em componente de ritual, sabia?" ela suspira, derrotada pela fofura do animalzinho.

"Nem pense nisso, guria." Ivete aparece em sua porta, um sorriso travesso enrugando seu rosto. "A pituca te deu muito trabalho hoje?"

Ela revira os olhos e devolve a gata à sua dona. "Pelo menos ela não me atrapalhou tanto em progredir naquele artefato que tava analisando esses dias. Que horas são?"

"Hora de bater ponto, graças a Deus." Ivete dá uma pequena risada enquanto faz carinho atrás das orelhas de Jennifer. "Quer carona pra casa?"

"Não precisa, tô de bike hoje. Vou ter que resolver umas coisas na rua antes de ir embora."

"Ah, é? Por isso que tu não vai sair com os guris mais tarde?"

"Na real eu só não tô com muito pique, mesmo. Preguiça."

"Bah, tá parecendo uma senhorinha falando desse jeito! Tu tem vinte e poucos anos, Agatha, vai aproveitar tua juventude."

"Eu não posso, Ivete…" ela dá um bocejo exageradamente alto. "Minha cama tá me chamando…"

Ivete revira os olhos e sai da sala de ocultismo com um sorriso no rosto. Não demora para que a garota saia, também, mas não antes de colocar alguns livros e componentes de volta nas prateleiras, organizar uma pilha de anotações — incluindo o que vai ter que ser reescrito do zero, ela suspira mais uma vez — e guardar com cautela o artefato amaldiçoado que foi objeto de seus estudos naquele dia.

Até não muito tempo atrás, Agatha se esforçava ao máximo para se manter invisível dentro da Ordo Realitas. Ela conhecia bem demais a angústia de ter todos os olhos mirados em si e pretendia não passar por isso de novo, apesar de que já sentisse, desde o seu primeiro dia como recruta, os olhares de julgamento e, pior ainda, de pena.

É difícil dizer como exatamente aconteceu, mas aos poucos o medo de ser percebida foi dando lugar a algo diferente, um sentimento confortável, cotidiano. Hoje, ela é cumprimentada por quase todos os agentes pelos quais passa quando está indo embora e, apesar da timidez (e a pedido dos olhos desnecessariamente grandes e pidões de Mia), ela agora se esforça para acenar de volta.

Agatha troca algumas palavras com alguns de seus colegas, despede-se de Veríssimo, seu chefe (e o mais próximo de uma figura paterna que já chegou a ter, apesar de sua recusa em admitir), e deixa a base da Ordem. Ela não presta muita atenção em seus próximos passos, automáticos depois de tanto tempo na mesma rotina; sobe em sua bicicleta e pedala até um supermercado ali perto. São poucas as compras que ela tem que fazer, então não leva mais que 20 minutos para que já esteja de volta ao estacionamento.

Talvez seja o cansaço, ou talvez alguma das luzes que iluminam o espaço esteja queimada, mas ela não encontra sua bicicleta à primeira vista. E nem à segunda. Estranho. Ela caminha de uma parede a outra do estacionamento, esfregando seus olhos caso esse seja o problema. Nada. É possível que tenha sido roubada? É bom que não, porque se ela encontrar o filho da puta—

Um súbito estalo interrompe seus pensamentos, seguido por uma pontada de dor.

Sua cabeça começa a latejar e um zumbido agudo preenche seus ouvidos, mas não o suficiente para abafar o barulho de vidro quebrando no chão. Seu corpo fraqueja e tibeteia para frente, mas é logo agarrado pelas costas. Ela tenta se mexer, mas a vertigem é forte demais. O mundo gira ao seu redor, seus músculos formigam. Seus sentidos trabalham em dobro para mantê-la consciente. Ainda assim, não é o suficiente para registrar o cheiro absurdamente forte chegando mais perto, até que o pano úmido seja forçado contra sua boca e nariz.

Ela tenta lutar — ou pelo menos acha que tenta — uma última vez, e sua visão escurece.

 


 

Por um momento, tudo o que Agatha enxerga é vermelho.

Mas não da forma com que está acostumada: seus sentidos estão fracos, sua cabeça lateja e, acima de tudo, ela não sente a imensidão do Outro Lado se desdobrando diante de si. Não. Ela se sente contida, aprisionada. Antes que consiga realmente perceber os próprios movimentos, ela tenta levar as mãos à cabeça. O vermelho que toma sua visão não é o fluxo do Outro Lado; é o tom rubro de seu próprio sangue.

"Que…" Suas mãos não saem do lugar, amarradas atrás de si por alguma espécie de corda. "Que porra… é essa…"

Ainda retomando seus sentidos, Agatha demora a perceber que não está sozinha. Uma silhueta observa de um canto do quarto — que agora, recobrando a consciência, ela percebe que não reconhece. Parece um quarto de menina, com papel de parede rosa e uma cama cheia de bichinhos de pelúcia. É muito difícil enxergar, com o ambiente escuro sendo iluminado apenas pela luz opaca da Lua que se esgueira pelas frestas da cortina. Mas é o suficiente para ter certeza que o vulto sentado à ponta da cama não é uma criança.

"Me solta." A voz de Agatha quebra o silêncio. O vulto se levanta. "O que você quer?"

Suas mãos tremem atrás da cadeira; se por raiva, ansiedade ou medo, ela não sabe ao certo. Ela sente uma grossa gota de sangue escorrendo de sua cabeça por seu rosto, seu coração martelando cada vez mais forte em seus ouvidos.

"Vai ficar me encarando? Mostra a cara, seu arrombado. Me solta!"

Enquanto a silhueta caminha em sua direção, fica mais fácil distinguir seus próprios sentimentos à medida que tomam controle de si. Raiva. Ódio. Dor. Suas veias pulam em suas têmporas, seu pescoço, seus braços; ela sente alguns vasos sanguíneos estourando dentro de seus olhos e suas íris se aquecendo no mais puro vermelho. A figura continua caminhando, a um passo de sair das sombras. Só mais um pouquinho, ela pensa em meio ao fluxo de Sangue que invade sua mente.

"Eu não vou pedir de novo." Sua voz agora é arrastada, áspera, quase como um grunhido bestial.

Agatha está prestes a descarnar o estranho à sua frente quando ele finalmente se aproxima o suficiente para ser banhado pela luz da Lua.

E o que ela vê lhe arranca qualquer chance de reação.

Alguém dolorosamente familiar. Pele branca, olhos pretos parcialmente cobertos por cabelos castanhos, que vão de uma franja emoldurando o rosto delicado até um longo rabo de cavalo no topo da cabeça.

Ela.

"L… Lina… N-Não…" Seu corpo inteiro paralisa. "De novo não…"

Fazem meses desde a última visita de Lina. Agatha estava certa de que isso não aconteceria mais. As coisas estavam indo tão bem, ela estava tão perto de encontrar um pouco de paz… Depois de tanto tempo, sua vida estava indo para frente, ela finalmente conseguia viver sem que a culpa e a angústia forçassem seus olhos para trás, fazendo-a encarar toda a dor que já sentiu. Por que ela está aqui de novo? Por que agora?

"Por… quê…?" Seus olhos começam a marejar enquanto seu rosto, pálido e congelado, encara o rosto de Lina.

"Eu achei que nunca mais te veria de novo", Lina enfim fala, e seu tom é tão cético quanto seu semblante.

"Lina…"

"Cala a boca." A garota pega um canivete atrás de Agatha e aponta para seu pescoço.

O peito de Agatha sobe e desce rapidamente ao ouvir a voz de sua melhor amiga, do fantasma que mais uma vez a assombra.

"O que você quer de mim?" Ela diz com dificuldade, sua voz corroída pela ansiedade que cresce em seu interior.

"O que eu quero é bem simples, na verdade." Lina aproxima o rosto, a ponta do canivete encostando de leve na garganta de Agatha. O sentimento é assustadoramente real. "Eu quero fazer você pagar."

"Eu já não paguei o suficiente, porra?" Uma única lágrima escorre, quase em sincronia com mais uma gota de sangue. "Eu já não sofri o suficiente? O que mais eu preciso fazer, Lina? O que eu faço pra você me deixar em paz?"

Lina dá um tapa em seu rosto. A mão dela agora está manchada com o vermelho do seu sangue.

"Eu mandei você calar a boca."

O mundo ao redor de Agatha começa a girar. Isso não faz sentido. Não era para isso estar acontecendo. Ela não deveria estar aqui de novo. Onde… é aqui, exatamente?

"A sua voz ainda me irrita. E acredite, você não quer me deixar ainda mais irritada."

A voz de Lina começa a se desfazer em sua cabeça. As palavras de Lina começam a se embaralhar em seus ouvidos. O rosto de Lina começa a perder o sentido. Ela… não é assim…

"Já foi difícil o suficiente te encontrar, pior ainda te trazer pra cá. Desde quando você é tão forte, hein?"

Isso… não acontece… Sua visão foca novamente no rosto diante do seu, e ela percebe. Duas grandes cicatrizes que não deveriam estar ali, uma atravessando seu olho e outra se estendendo do canto de sua boca até quase chegar em sua orelha. Um pequeno piercing em um dos lados de seu nariz. Densas olheiras abaixo dos seus olhos. Ela não é assim.

"Mas você ainda é gente, né? No fundo, por trás do monstro que você é, eu sei que ainda tem uma pessoa."

Quem…

"Hoje eu pretendo mudar isso."

É quase impossível escutar o que a figura diz com seu próprio coração batendo tão forte, tão alto.

"Você… Não…" Agatha grunhe quando a lâmina aperta seu pescoço.

"Será que eu vou ter que cortar sua garganta pra fazer você parar de falar?"

"Você não é a Lina."

"Você não me conhece."

O ódio volta a tomar conta de sua mente.

"Quem é você?"

"Você acha que eu sou idiota?" A figura coloca um dos pés em cima do joelho de Agatha, que até então não tinha percebido a dor que se alastra por todo o seu corpo. "Você acha que só porque alguns anos se passaram eu vou acreditar que você não lembra?"

"Para de se passar por ela e me fala logo o que caralho você quer!" O sangue de Agatha ferve por baixo de sua pele. Ela olha para baixo e procura, por entre os rasgos de sua calça jeans, um símbolo.

Quando o encontra, ela faz o melhor que pode para ignorar o ódio que a consome e se concentrar. É difícil, principalmente com a lâmina fria ameaçando cortar sua garganta e a bota pesada quase deslocando seu joelho, mas eventualmente a voz que a atormenta começa a se desfazer no fundo de sua mente.

Suas veias saltadas começam a brilhar em dourado, assim como seus olhos e o símbolo que continua encarando, e seus pensamentos começam a ser preenchidos por sussurros. Sigilos brilhantes cobrem sua visão periférica quando ela volta seu olhar para frente.

"O que você tá fazendo…?" A figura diz, mas isso não importa. Agatha consegue ver agora. O Outro Lado se conecta com ela e lhe mostra a verdade.

E a verdade é que essa figura é, de fato, uma pessoa. O que é um bom sinal. Mas, como ela suspeitava, existe uma aura paranormal no âmago daquele ser. É confusa, errática, mas não do jeito que ela reconheceria como o elemento de Energia. Não, é como se aquilo não devesse estar ali. Vislumbres de vermelho e dourado são ofuscados por um grande clarão — vivo, potente e indubitavelmente real. Isso não faz o mínimo sentido. Ela imaginou que poderia ser um ocultista disfarçado, mas–

"ARGH!" Agatha leva um soco. Seu nariz começa a sangrar. E seu sangue volta a ferver.

"Para com essa merda!" Lina grita. Seu olhar estático começa a dar lugar a algum tipo de emoção. Medo. — Você não me assusta com essa bruxaria–

"Cala a boca", Agatha berra, "e me mostra logo quem você é, ou eu vou arrancar fora a porra da sua pele!"

"Para de fingir que não sabe o que você fez!"

"Você não é ela."

"Seu filho da puta–"

"Ela tá morta!"

"Eu sei que ela tá morta, Gabriel, você matou ela na minha frente!"

As duas garotas ficam em silêncio.

O semblante sério de Lina se quebra em pranto. Agatha não consegue se mexer.

"Você matou ela, porra…" ela diz entre soluços, batendo nos ombros de Agatha sem muita força. "A Agatha… Você matou ela…"

"O quê…"

"Tanto tempo fazendo um inferno na vida dela… Falando que ela era maluca, assassina… Mas no final o assasino é você, seu desgraçado."

Agatha não consegue respirar.

"Você sabia, né? Sabia que eu tava assistindo. Que acorrentada e quase morta eu não ia fazer nada pra te impedir." Ela tenta se recompor, sem muito sucesso, e leva o canivete de volta ao pescoço de Agatha. "Mas adivinha só. Pode ser que todo mundo tenha morrido aquele dia, o Gustavo, o Matheus, as meninas, os professores, pode ser que a porra da escola inteira tenha queimado… mas eu sobrevivi. Eu tô viva e eu sei do seu segredo, Gabriel. E agora", ela aperta a lâmina e começa a cortar, "tá na hora de você pagar."

"Caralho– Lina, para!" Agatha chora, em pânico, sangrando e tão confusa. "E-Eu não sou–"

"Cala a porra da sua boca! Que inferno!"

"Eu não sou o Gabriel!" Ela finalmente consegue falar.

"Ah, não? É o irmão gêmeo que ele nunca me apresentou?" Lina zomba, seu semblante agora ainda mais contorcido pela raiva. Ela soca a barriga de Agatha, que arfa em desespero. "Você acha mesmo que eu sou otária, caralho?"

"Eu sou…" Ela respira fundo. "Eu sou a Agatha…"

Lina para. Sua feição muda.

Incrédula.

"Como você tem coragem de falar o nome dela? Você quer que eu te mate mais rápido?"

"Lina, me escuta, sou eu, Agatha–"

"Tira o nome dela dessa sua boca imunda, seu merda–"

"Eu sei o que o Tirigan fez com você." Pela primeira vez, a voz de Agatha é firme, apesar de seus olhos ainda carregarem o mais puro terror. Assim como os de Lina.

"Como…" Ela dá um passo para trás. "C-Como você… Esse nome… V-Você sabia…?"

"Eu não sabia e o Gabriel não sabia, mas o pai dele sabia e agora eu sei." Isso é loucura. Isso não pode ser real. A mente de Agatha tenta assimilar o que está acontecendo e quem é a pessoa à sua frente. Ela tenta fugir, tenta encontrar uma explicação, mas tudo leva a uma única resposta, uma que é simplesmente absurda demais para ser verdade. E ainda assim… "Me dá uma chance de provar que eu não sou o Gabriel. Só uma."

Lina está completamente paralisada.

"Se eu não te convencer…" Ela levanta a cabeça, deixando à mostra o pequeno corte na garganta. "…você termina o que começou. Eu não vou tentar te impedir."

Os próximos segundos parecem durar anos. E ainda não é o suficiente para se convencer de que Lina, sua melhor amiga, a pessoa que mais amou em toda a sua vida — e cujo cadáver ela encontrou há seis anos, completamente mutilado e quase transformado em uma aberração de Sangue —, está viva. Mas ela decide se apoiar no benefício da dúvida.

Ao passo que a garota abaixa ligeiramente a mão trêmula que segura o canivete, Agatha respira fundo.

"Quando você foi sequestrada pelo diretor, tudo perdeu o sentido pra mim. Eu não fazia ideia do que tinha acontecido com você, e se antes estar na Nostradamus já era um inferno, as coisas ficaram ainda piores. O Gabriel ficou maluco, começou a querer investigar pra te encontrar e saiu por aí falando que a culpa era minha, que eu tinha feito alguma coisa com você e com as outras meninas."

Ela abaixa a cabeça, incapaz de olhar nos olhos da garota à sua frente.

"Eu cheguei a ficar na escola por dias, sem coragem de voltar pra casa. Em um desses dias, eu acabei descobrindo que tinha um bunker escondido na escola e…" Sua voz treme. "Eu achei a Fernanda, a Evelyn e a Julia, e quando eu continuei andando… Eu…"

Ainda sem olhar pra cima, ela consegue sentir o olhar de Lina penetrando seu rosto como um tiro de fuzil.

"E-Eu achei você… Presa nas correntes, toda machucada… Tinha t-tanto sangue… E-Eu achei que… que você tava m-morta…" É quase impossível falar com o nó que se forma em sua garganta, mas Agatha se esforça. Ela para por alguns segundos, tentando ao máximo não perder seu último resquício de autocontrole. "E eu vi o Álvaro, também morto, e peguei o livro dele. Era um livro de rituais. A essa altura você já deve saber que ele mexia com o paranormal."

"P… Paranormal…? Eu achei que…"

"Eu sei que parece loucura, mas o que quer que você tenha presenciado, era de fato paranormal. Eu li o livro inteiro, fiquei obcecada por entender o que caralhos tinha acontecido naquele bunker. E foi aí que o Gabriel entrou na história e acabou com a minha vida."

"Gabriel…" Agatha quase consegue ouvir o cérebro de Lina absorvendo suas palavras.

"É, ele me chamou pra 'investigar' a escola durante a noite e me encurralou com os meninos. Ele tava me filmando e me ameaçou com uma faca, querendo que eu confessasse o que eu fiz."

Lina larga o canivete no chão.

"Daí eu mostrei pra ele. Eu levei ele no bunker e ele te viu. E isso piorou tudo, porque ele enlouqueceu."

"Ele…"

"Ele me amarrou e me jogou no chão, chamou os meninos pra assistirem. Ele ia me matar."

Agatha fica ofegante. Seus olhos ardem. Sua cabeça está a ponto de explodir.

"Ele não me escutava, então eu… E-Eu fiz ele parar. Eu fiz ele ver as coisas pelos meus olhos, enxergar o que eu enxergava." Sua voz é grave, carregada de uma angústia indescritível. "Eu tava com tanta raiva, Lina. Tanto ódio… e tanto medo."

Ela escuta a respiração de Lina ficando cada vez mais descompassada, mas ainda se recusa a levantar o olhar.

"Eu não tinha mais nada. Eu não tinha a minha mãe, eu não tinha uma casa, eu não tinha mais a porra do meu corpo. E eu não tinha você." O rosto de Agatha se contorce em dor, molhado por sangue e lágrimas. Sua voz agora não passa de um sussurro. "Eu só queria que tudo aquilo acabasse…"

"Como você sabe sobre o Tirigan?" Lina finalmente fala, a voz tão fraca quanto a sua própria.

"Aconteceu muita coisa durante esses anos. Eu fui parar em uma organização que luta contra o paranormal, conheci uns caras que investigaram a Nostradamus e acabei entrando na investigação, também. Hoje eu sei muito mais do que eu sabia antes." Agatha traz ao colo suas mãos, já soltas há alguns minutos. Lina não se mexe. "Ele torturou vocês pra afinar a Membrana e fazer um ritual… de troca de corpo."

"Como eu posso ter certeza que não é o Gabriel que sabe de tudo isso?"

"Você não pode." Ela finalmente levanta os olhos. Lina está chorando. "Eu não tenho como verdadeiramente mostrar pra você que é a minha consciência dentro do corpo dele, mas eu acho que no fundo você já sabe disso. Não sabe?"

A garota não responde. Em vez disso, ela dá mais um passo para trás. Agatha não ousa mover um músculo.

"Onde a gente tá?" Ela indaga, quase em tom de desafio, mas sua postura não intimida como antes.

Agatha olha ao redor, confusa, e tenta assimilar o que vê. Uma prateleira cheia de livros (a maioria infantojuvenis), um armário enfeitado com figurinhas de desenhos dos anos 2000, alguns pôsteres de filmes e artistas nas paredes… As memórias inundam sua mente — é claro. Como ela pôde se esquecer?

"Esse é seu quarto."

"Qual foi a última vez que você esteve aqui?" Ela continua, mas Agatha mal escuta; ainda observando os livros, uma lombada em específico chama a sua atenção. "Me responde."

"Você… guardou o livro que eu te dei?" Agatha faz menção de se levantar, mas muda de ideia ao perceber a inquietação de sua amiga. Então ela aponta.

Lina acompanha o movimento com o olhar e imediatamente identifica o tal livro. Lentamente, ela vai até a prateleira e o pega em mãos, e a capa roxa está tão empoeirada que quase tampa o título em letra cursiva: Memórias de Agatha e Lina.

"Eu lembro que fiquei um tempão fazendo as colagens… Cortei um monte das suas revistas. Você ficou muito puta comigo quando percebeu." Agatha solta um riso fraco, dolorosamente nostálgico. "Quantos anos a gente tinha, mesmo?"

As mãos trêmulas de Lina começam a passar pelas páginas, e seus olhos marejados revisitam anos de história. A maior parte das fotos são das duas garotas, juntas, em vários contextos: noite do pijama, ambas com as unhas coloridas enquanto fazem a maquiagem uma da outra; a festa de 15 anos de Lina, em que se acabaram de cantar no karaokê — uma das únicas vezes em que a timidez de Agatha foi contrariada —; o primeiro dia de aula no ensino médio, o começo do fim. Algumas páginas se molham quando Lina as folheia.

"Era pra ter uma carta junto com o livro, sabia? É por isso que não tem nada na página 28. Mas eu acabei mudando de ideia, fiquei com medo de ser… cafona, sei lá." Agatha suspira conforme a tensão começa a deixar os ombros de Lina, dissipando-se ainda mais quando ela chega naquela página. "Se eu te conheço bem, você provavelmente rabiscou alguma coisa aí, né?"

Os olhos negros de Lina mal conseguem enxergar por entre as lágrimas o desenho das duas meninas que preenche a página vinte e oito.

"Agatha…" Ela finalmente olha em seus olhos. "V-Você..."

Agatha se levanta. Toda a dúvida que restava em seu coração se esvai ao ouvir a voz de Lina chamando seu nome.

Ela sorri.

"Eu senti tanta saudade…"

Lina se joga nos braços de Agatha. Ela também não consegue conter o próprio choro e abraça sua melhor amiga, uma parte de si ainda temendo que ela desapareça de novo caso seus braços não a segurem forte o suficiente. Seu ombro é encharcado de lágrimas, mas isso não importa; tudo o que importa é ela, Lina, viva e respirando, ela tá viva, o cheiro dela, o peso do corpo dela contra o seu. Seu peito arde como não ardia há muito tempo — há seis anos —, e o sentimento é quase intenso demais. A luz da Lua ilumina o rosto de Lina, sua Lina, a Lina de verdade, e aqueles olhos de jabuticaba finalmente a encaram com a ternura da qual Agatha se lembra tão bem. Ela se sente prestes a desmaiar.

O quarto começa a girar.

"Ai, meu Deus." A feição de Lina se fecha novamente, mas dessa vez em uma delicada preocupação. "Você tá perdendo muito sangue! Senta aqui."

Ela guia Agatha para trás, sentando-a na cama enquanto olha apavorada para sua testa.

"Ah, verdade. Eu tinha esquecido disso." Agatha solta uma risada fraca seguida de um suspiro chiado, mas Lina não parece estar achando graça. "Ei, tá tudo bem. Eu já levei pancada bem pior."

"D-Desculpa…"

"Lina, relaxa." Com um pouco mais de esforço, ela sorri. "Faz o seguinte. Você tem gaze aqui?"

"Talvez? Vou procurar. Fica aí, não se mexe."

"Nem se eu quisesse." Ela mexe um pouco a perna em que Lina se apoiou e seu joelho estala.

"Não tem graça, Agatha!"

"Tá, foi mal." Ela dá uma risadinha, mas para quando percebe que rir faz a dor piorar. Quem diria. "Pega um pouco de água e sabão também."

Lina sai do quarto e deixa Agatha sozinha com seus pensamentos a mil. Ela não consegue evitar uma vozinha insistente em sua cabeça que a faz questionar se ela não está apenas alucinando mais uma vez. Por um lado, ela sabe que é real; a dor de seus machucados é um bom indicador, mas o que realmente entrega é o formigar em seus braços depois de neles envolver Lina. É leve, suave como o pousar de uma borboleta, mas é a sensação mais intensa que Agatha sente em muito tempo.

Mas… e se não for real?

E se Lina nunca mais voltar por aquela porta? E se ela ainda estiver morta? Seu corpo já teria se transformado em um zumbi de Sangue (no mínimo) e aniquilado pela equipe de varredura da Ordem. E se ela realmente estivesse viva no dia em que Agatha matou Gabriel? E se ela tiver assistido tudo e sido deixada para trás? Ela poderia ter sido salva? Agatha não verificou seu pulso. Ela nem tentou. Apenas assumiu que Lina estava morta. E se ela tiver morrido no bunker porque Agatha não a salvou? E se Lina tiver morrido por sua culpa?

"…Agatha!"

Por um momento, apenas um segundo, ela enxerga o rosto esquartejado de Lina em frente ao seu, implorando por ajuda. Sua visão perde o foco — e, quando retorna, sua amiga está ali, viva, encarando-a com preocupação.

"Agatha, o que foi?" Lina enxuga as lágrimas que a garota não notou ter derramado. "Olha, tem sabão, mas eu não achei gaze. Eu lembrei de quando a gente jogava The Last of Us junto e improvisava kit médico com trapos, então peguei uma camiseta velha — limpa, óbvio. Será que serve?"

A respiração trêmula de Agatha volta a se estabilizar.

"Pensou bem. Dá aqui, deixa eu–"

"Não, tá doida? Eu faço."

"Você sabe o que tem que fazer?"

"Não, mas você vai me falar, daí eu faço. Simples assim." Lina sorri. E quando foi que Agatha já conseguiu resistir a esse sorriso?

"Tá, escuta. Primeiro o da testa. Dá uma olhada e vê se encontra o corte." Ela diz calmamente, tentando ao máximo não deixar transparecer a dor. Lina analisa sua testa, ainda um pouco assustada, e assente. "Boa, agora precisa estancar o sangramento. Pega um pedaço da camiseta, dobra e pressiona bem."

"Não vai doer?"

"Vai. Mas eu aguento." Ela dá uma piscadinha.

A garota respira fundo, tira uma mecha de sua franja de cima dos olhos, e com muito cuidado pressiona a gaze improvisada no ferimento. Agatha grunhe baixinho.

"Aperta mais, Lina."

"Tem certeza? Que agonia…"

"Eu falei pra você deixar eu fazer."

"Não, deixa comigo. Eu consigo." Lina segura a nuca de Agatha com a outra mão e aperta. Ela suspira, trêmula, em resposta. "Assim, né?"

"Isso. Não é tão difícil, né?"

"Onde você aprendeu isso?" Ela olha para as mãos de Agatha, seus pulsos ainda com uma leve marca da corda que os prendia. "Tudo isso?"

"Longa história." Com o corte da testa suficientemente estancado, Lina prepara mais uma trouxinha de pano para o corte na gargante que, apesar de pequeno, ainda sangra. "Como você me encontrou? E como me trouxe até aqui?"

"Longa história… mas eu meio que te segui por um tempo, te encurralei, quebrei uma garrafa na sua cabeça e depois te apaguei com formol." Ela dá um sorriso sem graça.

"Caralho. Foda."

As mãos de Lina, agora mais estáveis, levantam o queixo de Agatha e abaixam um pouco a gola de sua blusa. Ela segura a respiração, tentando não atrapalhar o olhar tão atento sobre si.

"Você tá cheia de tatuagens agora. E essas… cicatrizes…" Seus dedos percorrem algumas das marcas na pele de Agatha, que sente os cabelos de sua nuca se arrepiando.

"A gente realmente tem muito a conversar", ela diz, seu olhar se abaixando novamente para o símbolo do ritual que usou há alguns minutos. "Mas vamos lidar com uma coisa de cada vez."

"Isso. Uma coisa de cada vez." As duas param por um breve momento. "Podemos começar com você parando quieta pra eu limpar sua ferida, o que você acha?"

"Tá bom, tá bom, desculpa."

 


 

Agatha já perdeu a conta de quantas noites, frias e sem estrelas como essa, ela passou escondida em seu quarto, chorando, sozinha. Sempre sozinha. Era uma escolha que ela fazia todos dias. A solitude sempre foi sua maior companheira, mostrou-se sua única e verdadeira família tantas e tantas vezes. A vida lhe ensinou que ela não pertence a lugar nenhum.

Mas naquele momento, sentada no banco de passageiro do carro de Lina a caminho de sua própria casa, preenchida por uma estranha nostalgia e pela música pop tocando baixinho no rádio, ela se pergunta se realmente tem que ser assim.

"Bonito o brinco."

Agatha arregala os olhos. "Ah! Na real, ele… quer dizer, você sabe que ele é seu. Aqui, toma de volta–"

"Não precisa, boba. Pode ficar."

Lina está sorrindo.

"Ele fica mais bonito em você."

Talvez o seu novo começo não precise ser tão solitário.

Notes:

eu ainda tenho muuuita coisa planejada pra essa fic, espero que cês entrem na brisa comigo!