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Império de Mentiras

Summary:

Quando a venda cai, as máscaras caem também.

O que aconteceria se Yuri Briar descobrisse a verdadeira identidade de Loid e Yor? Durante um dia de trabalho comum, ele descobre de repente que sempre viveu dentro de uma mentira. Agora, ele enfrenta o terrível dilema de expor uma verdade dolorosa enquanto tenta lidar com a dor de ter sua própria identidade e propósito de vida despedaçados. Enquanto isso, Chloe redescobre a versão do Yuri que despertou para a verdade, e que não apenas perdeu a venda nos olhos, mas também a inocência e a crença no mundo.

Notes:

Bem-vindos a mais uma história de Yuri x Chloe, um casal que eu adoro. Bom, a sinopse já deixa bem claro do que se trata. Nesta história, quero dar ao Yuri o desenvolvimento emocional que ele merece de uma forma que a obra original provavelmente nunca conseguirá. É para isso que servem as fanfics 🤭 Espero sinceramente que vocês gostem tanto quanto eu amo esse casal. Boa leitura 💕

Chapter 1: Olhos vendados

Summary:

O segredo quebra o irmão.
A corrupção quebra o agente.
A soma dos dois cria um novo Yuri Briar.

Notes:

- Não autorizo a republicação desta história escrita exclusivamente por mim em outras plataformas -

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

- Eu considero isso uma vitória histórica.

Chloe apoiou o queixo na mão, observando Yuri como quem contempla um fenômeno raro da natureza. O tipo de criatura que normalmente vive escondida em arquivos empoeirados e corredores sem janelas - e que, por algum milagre estatístico, havia sido capturada e trazida para um café de verdade.

- Vitória? - ele repetiu, desconfiado, encarando a xícara como se o líquido escuro pudesse conter informações confidenciais.

- Sim. Consegui três feitos impossíveis numa única tarde: te arrastar para fora da sede, te fazer sentar numa cadeira que não pertence ao governo e impedir que você levasse trabalho escondido no bolso. Isso devia render medalha.

Yuri franziu o cenho.

- Eu não fui “arrastado”. Eu vim por livre e espontânea… - hesitou com uma pausa breve - Insistência.

- Pressão psicológica. - ela corrigiu, satisfeita levantando um dedo - Técnica milenar.

A verdade era que Chloe passara quase vinte minutos encurralando Yuri no corredor, bloqueando rotas de fuga com uma habilidade digna de um agente de elite. Usara todos os argumentos: que ele estava com olheiras, que o relatório podia esperar, que ninguém morria por causa de um café. No fim, apelara para o golpe baixo:

“- Se você desmaiar de exaustão, quem vai me salvar das reuniões chatas?”

Contra lógica duvidosa e olhar pidão, Yuri nunca tivera defesa.

O café era pequeno, meio escondido entre duas lojas antigas, com cheiro de pão doce e madeira encerada. Havia um rádio baixo tocando uma música velha, e a luz do fim de tarde entrava preguiçosa pela vitrine. Nada ali lembrava a frieza metálica dos corredores da SSS.

Justamente por isso, Yuri parecia deslocado - as costas retas demais, e uma expressão muito séria para um lugar que aceitava migalhas no chão e xícaras lascadas.

O jovem pegou o açucareiro e jogou quatro colheres no líquido escuro, mexendo o açúcar com atenção quase militar.

- Quatro colheres? - Chloe arregalou os olhos - Você quer café ou xarope industrial?

- Açúcar dá energia. - o moreno rebate imediatamente.

- Energia ou atalho pra diabetes? Isso é argumento de criança de sete anos. - diz, quase descrente.

- É argumento cientificamente plausível.

- Você inventou essa ciência agora?

- Você é insuportável... - diz calmo, quase divertido até, sem perceber.

- Eu sei disso. Mas... Você está cansado. - Chloe comentou, como quem fala do tempo.

- Não estou.

Resposta automática. Reflexo profissional. Ela ergueu uma sobrancelha.

- Negou rápido demais. Sinal clássico.

- Não existe “sinal clássico”.

- Existe sim. Está no “Manual da Chloe de convivência com Yuri Briar: Capítulo 3”.

- Esse manual não existe. - O Tenente revira os olhos.

- Ainda. - ela responde entre risadinhas.

Yuri bufou, mas não respondeu. Chloe aproveitou o silêncio para estender a mão e ajeitar a gravata dele, que pendia um pouco torta. Fez isso com naturalidade, como quem arruma a orelha amassada de um bichinho teimoso encontrado na chuva.

Yuri travou inteiro.

- Não precisava fazer isso.

- Precisava sim. Estava me incomodando.

- Não estava nada.

- Estava muito.

Os dedos dela demoraram um segundo a mais do que o necessário intencionalmente. Yuri desviou o olhar, derrotado, enquanto sentia o cheiro leve do perfume dela - algo discreto, nada como as fragrâncias sufocantes das outras colegas da sede.

- Sabe... - Chloe disse, voltando à própria xícara - Só de ter você aqui já é uma grande conquista.

- Que exagero. É só um café.

- Pra você, isso é praticamente férias no litoral com direito a rede e água de coco.

O rapaz quase riu... quase.

Ficaram em silêncio por alguns segundos, ouvindo o tilintar de louças e o murmúrio distante da rua. Era estranho como aquele lugar parecia suspender o tempo. Sem ordens, sem relatórios, sem o peso constante entre as omoplatas.

Chloe o observou por cima da borda da xícara. Observou de verdade: as olheiras que ele fingia não ter, os ombros tensos, mesmo quando tentava relaxar, e aquele maldito fio de cabelo rebelde no topo da cabeça.

- Coelho.

- É o quê? - Yuri piscou sem entender nada.

- Você. - Ela apontou para ele com a colher - Parece um coelho.

- Hã?! Isso não faz o menor sentido.

- Faz sim. Olha esses olhos vermelhos. E esse cabelo…

- Meu cabelo é normal. Meus olhos também. - toma um gole de café, tentando escapar daquela conversa maluca.

- Normal nada. - Chloe inclinou a cabeça - Esse ahoge seu parece uma orelhinha. Igual aqueles heróis de seriado que você finge que não assiste.

- Eu não assisto essas infantilidades. - cruza os braços como se estivesse recebendo sobre si a pior calúnia do universo.

- Assiste sim. Aquele do cientista maluco… como é? Build?

O rosto de Yuri ficou perigosamente quente.

- É Kamen Rider Build! - reclama como um fã ofendido, quase levantando a voz - E isso não tem relação científica nenhuma.

- Tá vendo como assiste? - Chloe zoa ele, vitoriosa - É a segunda vez que você fala igualzinho ao protagonista, o Sento. - Ela sorriu, cruel e carinhosa ao mesmo tempo - Olhos de coelho, orelhinha de coelho, teimosia de coelho...

- Coelhos não são teimosos.

- Você é a prova viva de que são.

Yuri tentou manter a expressão séria, mas o rubor subiu sem permissão.

- Você ficou vermelho. - Chloe observou, encantada - Viu? Agora parece mais ainda um coelhinho.

- Para com isso! - resmungou, sem saber onde enfiar a cara.

- Provocar você é meu passatempo favorito.

Ela disse aquilo rindo, mas havia algo macio por baixo da brincadeira. Um cuidado silencioso que Yuri nunca percebia - ou fingia não perceber.

Ele não admitiria, mas ali era o único lugar onde o peito não doía tanto.

Do lado de fora, o mundo seguia calmo. Pessoas atravessavam a rua, uma bicicleta passou tilintando, e o sol pintava a calçada de dourado. Tudo absurdamente comum.

Yuri não fazia ideia de que aquela seria uma das últimas tardes simples da sua vida. Que, por trás do cheiro de café e do riso de Chloe, existia um império inteiro construído sobre mentiras, e que a venda em seus olhos, tão confortável, começaria a apertar...


Chloe foi a primeira a se levantar, esticando os braços como se tivesse acabado de vencer uma batalha épica.

- Missão cumprida. Consegui alimentar o coelho com café industrialmente açucarado.

- Eu não sou um coelho. - Yuri resmungou, levantando logo depois e pegando o casaco.

- É sim. Só falta aprender a roer cenoura.

O moreno revirou os olhos, mas havia um quase sorriso ameaçando aparecer. Caminharam até o caixa ao mesmo tempo e, como se fosse coreografado, os dois abriram a carteira juntos.

- Eu pago. - Yuri disse de imediato.

- Nem pensar. Eu que te arrastei, a conta é minha. - Chloe retrucou, já estendendo o dinheiro.

- Não faz sentido. Eu usei mais açúcar aqui.

- Justamente por isso eu devia receber indenização por danos psicológicos.

A atendente observou a cena com um sorrisinho contido, alternando o olhar entre os dois.

- Vocês são namorados?

O silêncio que se seguiu foi quase físico.

- Não! - Yuri respondeu rápido demais.

- Ainda não. - a mulher de cabelos castanhos completou no mesmo segundo, tranquila.

Ele virou para ela com o rosto em chamas.

- Chloe!

- O que foi? A moça perguntou, eu respondi com sinceridade filosófica.

A atendente riu baixinho, aceitando o pagamento das mãos de Yuri antes que a discussão virasse um caso diplomático.

Ele saiu do café resmungando algo sobre “conspiração coletiva”, enquanto Chloe caminhava ao lado dele com ar vitorioso.

Assim que a porta se fechou atrás dos dois, uma gota caiu bem na ponta do nariz de Yuri. Depois outra. E mais uma. Em poucos segundos o céu inteiro pareceu se lembrar de que era fim de tarde e decidiu desabar de uma vez.

- Ah não… - Chloe olhou para cima, derrotada - Eu não trouxe guarda-chuva.

- Claro que não trouxe. - o moreno respondeu imediatamente - Estava ocupada demais me sequestrando para prestar atenção na previsão do tempo.

- Você vai repetir isso quantas vezes?

- No mínimo duas. Essa foi a segunda.

Ela fez uma careta, protegendo a cabeça com as mãos enquanto a chuva aumentava. Pessoas começaram a correr pela calçada, abrindo guarda-chuvas coloridos como se a rua virasse de repente um jardim torto.

- E agora, “senhor agente responsável”? Vamos derreter aqui?

Yuri suspirou, derrotado, e abriu a própria maleta.

- Por sorte, alguém neste relacionamento profissional pensa no básico.

- “Relacionamento profissional”? Gostei do termo.

Ele ignorou e puxou um guarda-chuva dobrável, mas relativamente grande, preto e simples. Abriu com um estalo seco do botão, criando um pequeno mundo particular sobre suas cabeças.

- Acho que cabe nós dois. - ele murmurou, como se fosse apenas uma informação técnica.

- Que romântico. - Chloe comentou, entrando debaixo da proteção sem cerimônia.

Começaram a caminhar pela calçada molhada. A chuva fazia aquele barulho confortável, misturado ao som distante dos carros e ao cheiro de asfalto recém lavado. Yuri segurava o cabo do guarda-chuva com a mesma postura séria de sempre, tentando manter uma distância educada... só tentando.

Chloe, obviamente, não colaborou.

- Está frio. - ela disse, e antes que ele pudesse reagir, passou o braço pela cintura dele, encostando o corpo com naturalidade.

- Ei! - Yuri quase tropeçou - Não precisa disso.

- Precisa sim. Medida de sobrevivência climática. - provoca de novo, mas a verdade era que estava adorando aquela situação, e até agradecendo pelos céus terem enviado aquela chuva em momento tão apropriado.

- Isso não tem lógica científica nenhuma. - rebate, tentando fingir incômodo.

- Tá falando igualzinho àquele seu herói de seriado de novo.

- Eu não… - ele começou, mas a frase morreu no meio quando percebeu o quão perto ela estava.

O rosto de Yuri ficou perigosamente vermelho outra vez. Chloe fingiu não notar, apoiando a cabeça de leve no ombro dele enquanto caminhavam. Ela sorria satisfeita como uma adolescente abobalhada derretida pelo crush. Então resolveu provocar mais uma vez.

- Seu coração está batendo rápido, coelho.

- É efeito do açúcar.

- Claro, claro. Quatro colheres explicam qualquer emoção humana.

O Tenente quis responder, mas a chuva pareceu engolir as palavras. A cidade ao redor deles continuava comum demais: vitrines acesas, gente correndo para não se molhar, um cachorro sacudindo a água perto da esquina. Tudo absurdamente normal.

Chloe apertou um pouco mais o abraço, só o suficiente para sentir que ele não se afastaria.

- Obrigada por ter vindo hoje. - ela disse num tom mais baixo, sem a provocação habitual.

Yuri demorou alguns segundos para responder.

- Foi… aceitável.

- Traduzindo: você gostou.

- Não distorce as minhas palavras.

Ela riu, e o som se misturou à chuva de um jeito quase bonito demais.

Para Yuri, aquele momento ainda era só mais uma tarde levemente caótica ao lado de Chloe, nada além de um intervalo doce entre missões e relatórios.

Ele não fazia ideia de que, enquanto dividia um guarda-chuva e fingia que o coração acelerado era culpa do açúcar, a primeira rachadura no seu mundo já tinha começado a se abrir.


A chuva diminuiu aos poucos, virando um chuvisco preguiçoso enquanto os dois caminhavam até o prédio de Chloe. O guarda-chuva ainda pingava, e Yuri insistia em manter a postura reta, mesmo com o braço dela ainda envolvendo sua cintura.

- Você não precisa me escoltar até a porta. - ela comentou, olhando o prédio se aproximar.

- Preciso sim. Procedimento básico de segurança. - ele disse, simples assim.

- Procedimento ou desculpa para passar mais tempo comigo? - aproveita mais uma oportunidade de provocá-lo.

- Procedimento. - respondeu rápido demais.

Chloe riu, apertando levemente o tecido do casaco dele entre os dedos.

- Você é previsível, coelho.

- Para de me chamar assim.

- Nunca.

Pararam em frente ao edifício simples onde ela morava. A fachada antiga refletia a luz amarelada dos postes, e algumas janelas já estavam acesas, com cheiro de comida escapando para a rua. Yuri fechou o guarda-chuva e sacudiu a água com cuidado, como se estivesse desarmando um objeto perigoso.

- Está entregue. - ele anunciou, num tom quase oficial.

- Missão concluída com sucesso?

- Aceitável.

Ela sorriu daquele jeito que sempre desmontava metade da seriedade dele.

- Obrigada por hoje, Yuri. De verdade.

Ele desviou o olhar para a calçada molhada.

- Não foi nada demais.

- Foi sim.

O silêncio durou alguns segundos, preenchido só pelo barulho distante da cidade. Chloe inclinou-se, e antes que ele pudesse prever, deixou um beijo rápido na bochecha dele.

- Boa noite, coelho trabalhador.

- Ei…!

- Até amanhã. Não chegue na sede antes do sol nascer, ouviu?

Yuri ficou parado enquanto ela subia os degraus e desaparecia pela porta, ainda sentindo o calor do beijo como se tivesse sido marcado com tinta fresca.

- Inacreditável… - murmurou para si mesmo, abrindo o guarda-chuva outra vez e começando o caminho de volta.

A caminhada até seu apartamento foi silenciosa. A chuva já não incomodava, mas suas roupas continuavam úmidas, principalmente os ombros, e o cheiro do perfume de Chloe parecia ter grudado no tecido. Ele tentou se convencer de que aquilo era apenas resultado da proximidade física, nada além de um detalhe sem importância.

- Efeito do açúcar. É só isso. - resmungou, como se a própria frase pudesse explicar tudo.

Quando finalmente chegou ao prédio onde morava, subiu as escadas no automático, tirando o casaco ainda no corredor. Estava pensando em tomar um banho quente e revisar alguns relatórios antes de dormir, como sempre fazia, quando...

- Yuri, você demorou.

A voz de Yor o atingiu antes mesmo que ele acendesse a luz.

Ela estava na cozinha, com um avental claro e duas sacolas sobre a mesa. O cheiro de comida caseira preencheu o apartamento inteiro, quente e familiar.

- Nee-san? - piscou, surpreso - O que faz aqui?

Comprei o jantar para nós dois. Faz tempo que não comemos juntos, não é?

Yuri sentiu o coração amolecer imediatamente, como sempre acontecia quando via aquele sorriso.

- Você não precisava se dar a esse trabalho.

- Claro que precisava. Irmãos precisam se alimentar direito.

Ela se aproximou e, então, franziu a testa.

- Mas… por que você está tão molhado?

- Ah, isso? - ele respondeu tirando os sapatos - Peguei chuva no caminho.

- Você não levou o guarda-chuva?

- Levei sim. Só que… dividi com uma colega de trabalho.

A frase escapou com naturalidade demais. Yor parou no meio do movimento, segurando uma panela como se tivesse ouvido algo extraordinário.

- Colega de trabalho?

- É.

- Uma moça?

- Sim, ué.

O rosto dela iluminou-se num segundo.

- Yuri! Você está saindo com alguém?

- O quê? Eu não!

- Então é uma namorada?

- Não é namorada nenhuma! - é enfático demais na negação, como se ele próprio precisasse se convencer de sua própria verdade.

Yor juntou as mãos, claramente emocionada.

- Que lindo! Meu irmãozinho cresceu tanto…

- Nee-san, está tirando conclusões absurdas.

- Ela é bonita? Gentil? Trata você bem?

- Chloe é só minha parceira de setor.

- Chloe… até o nome é fofo!

Yuri sentiu o rosto esquentar de novo, exatamente como no café.

- Não tem nada de fofo. Nós só… dividimos um guarda-chuva porque estava chovendo. Só isso. - rebate com a resposta mais óbvia possível.

- Isso é tão romântico!

- Não é romântico! É logística climática.

A morena riu, começando a organizar os pratos na mesa.

- Fico tão feliz em imaginar você com alguém especial.

Ele quis corrigir, explicar, negar outra vez, mas as palavras não saíram. Observou a irmã andando pela cozinha, tão doce, tão dedicada, tão perfeitamente parte do mundo que ele acreditava conhecer.

- Vamos comer antes que esfrie. - ela disse, sem imaginar o peso que cada gesto simples tinha para ele.

Yuri sentou-se à mesa, ainda com a sensação da chuva e do abraço de Chloe misturados na memória. Olhou para Yor servindo o jantar com carinho e pensou, pela milésima vez, que sua vida era simples e segura.

Ele não tinha como saber que, em algum lugar dentro da SSS, o nome da irmã que ele sempre acreditou ser perfeita, estava estampado em uma pasta silenciosa, e que a venda em seus olhos continuava firme, confortável e perigosamente apertada.


Yuri saiu do banho ainda com o calor grudado na pele, o vapor escapando pela porta entreaberta como um fantasma preguiçoso. O apartamento estava silencioso outra vez, aquele silêncio doméstico que sempre vinha depois das visitas da Yor, quando o cheiro do jantar ainda pairava no ar e a pia já tinha sido lavada com cuidado quase infantil.

Ele vestiu uma pijama confortável de mangas longas, passou a toalha nos cabelos escuros e caminhou até o quarto com passos lentos, como se o próprio corpo estivesse pedindo trégua.

Sobre a mesa de cabeceira, a xícara de chá soltava uma fumacinha tímida. Yuri a segurou com as duas mãos antes de se sentar na beirada da cama, sentindo o tecido do lençol limpo sob os dedos. Era estranho como dias comuns podiam pesar mais do que missões perigosas.

Ele tomou um gole devagar, o gosto suave espalhando um conforto discreto pelo peito. A mente, porém, não obedecia ao mesmo ritmo calmo. Voltava e voltava para as mesmas cenas, como um filme teimoso que insistia em repetir os melhores e piores trechos.

O relatório interminável da manhã, o superior cobrando resultados, o barulho metálico dos corredores da SSS. Depois, o contraste absurdo do café pequeno, da luz dourada na vitrine, do sorriso da Chloe empurrando uma xícara na direção dele como quem oferece um acordo de paz.

Yuri encostou as costas na cabeceira e suspirou com os olhos vermelhos fixos no nada. Ainda conseguia ouvir a voz dela com nitidez irritante.

- Quatro colheres de açúcar?

Ele quase riu sozinho. Quase. Levou a xícara aos lábios de novo, lembrando do jeito como ela tinha ajeitado sua gravata sem pedir permissão, como se aquele gesto fosse a coisa mais natural do mundo. Sem perceber, levou a mão direita até o pescoço, mesmo não estando mais de gravata, como se ainda pudesse sentir a mão dela ali.

Ninguém fazia aquilo com ele. Ninguém tinha coragem, na verdade. Chloe tinha. Chloe sempre tinha.

A chuva também voltou à memória, o som grosso batendo no guarda-chuva grande demais para ser elegante, e perfeito demais para caber desculpas. O braço dela envolvendo a cintura dele, o perfume leve misturado com o cheiro de rua molhada, e aquele calor estranho que não vinha do corpo, mas de algum lugar mais embaraçoso.

- Coelho...

A palavra escapou da lembrança, e o Tenente sentiu o rosto esquentar de novo, sozinho no quarto escuro. Que apelido absurdo, ridículo, sem lógica nenhuma. Ainda assim, o canto da boca dele se curvou num sorriso mínimo, traidor.

Depois veio a Yor, o jantar, a conversa atrapalhada na cozinha. A irmã perguntando por que ele estava tão molhado, os olhos brilhando com aquela inocência quase perigosa.

- Então é uma namorada, Yuri?

Ele tinha engasgado com o arroz. Negado rápido demais. A Yor rindo, dizendo que ficaria feliz se ele encontrasse alguém, que ele merecia coisas boas, que não precisava viver só para o trabalho e para ela. Yuri lembrava de ter desviado o olhar, mexendo no prato como um adolescente pego em flagrante. Se ele soubesse... se ao menos desconfiasse de metade do mundo que girava por baixo daquela mesa simples...

O chá terminou sem que ele percebesse. Yuri deixou a xícara na cabeceira, apagou a luz do abajur e deslizou para debaixo dos lençóis, sentindo o corpo finalmente ceder ao cansaço. O travesseiro tinha cheiro neutro de sabão, e isso, de algum jeito, parecia uma âncora.

Os pensamentos foram ficando mais lentos, mais confusos, misturando a risada da Chloe com a voz doce da Yor, o barulho da chuva com o tic-tac distante do relógio da sala. Ele virou de lado, os fios escuros caindo sobre a testa, o ahoge torto apontando para lugar nenhum como uma pequena orelha teimosa.

Yuri fechou os olhos vermelhos ainda com o fantasma de um sorriso no rosto, acreditando que aquele tinha sido apenas mais um dia comum, um intervalo tranquilo entre deveres maiores. Não fazia ideia de que, enquanto adormecia, a tempestade verdadeira já caminhava na direção dele, silenciosa e paciente, pronta para arrancar cada venda confortável que ele insistia em chamar de vida.

Continua...

Notes:

Espero que tenham gostado desse início super fofo. Comentários são sempre bem-vindos e me deixariam muito feliz. Até o próximo capítulo 🥰