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Não-binário maldite, fica me atentando!

Summary:

Pomba estava chateado com o fato de ser a única pessoa que nunca sequer escutou uma palavra de Alê.

Franco está mais que determinado em seguir os exemplos de Cindy e juntar os dois amores de sua vida.

Ou:

Onde Alê finalmente entende seus próprios desejos, e após um certo acontecimento, vai passar a ser extremamente direto com o que quer.

Notes:

Vim fazer a minha parte e alimentar a nação frambole que vive de reboco de parede

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Me sinto a figurinha do Jasper...

Chapter Text

Derrotado, era assim que Pomba se sentia. 

 

Perdendo uma guerra que começou sozinho, uma briga que o outro lado sequer sabia que estava participando. 

 

Por que tudo isso? 

 

Porque seu irmão, corvo, tinha feito em semanas o que ele não tinha feito em meses. 

 

Que era ouvir a voz de Alê. 

 

Franco encontrou no mínimo engraçado, o cenho franzindo e o beicinho se formando nos lábios do moreno ao ver qualquer interação de corvo com elu.  

 

Como membro da mesma banda que o não-binário, já tinha ouvido a voz dele diversas vezes. Não era comum, mas não era raro, ao menos não para quem estava naquela bagunça que chamava de família. 

 

Quando o noivo admitiu para si, praticamente na beira das lágrimas que estava começando a criar sentimentos pelo seu colega de banda, sequer se surpreendeu. Poderia parecer, mas não era idiota, já tinha se dado conta antes, Pomba nunca foi bom em esconder as coisas de si. 

 

Tiveram uma longa conversa naquela noite, onde Franco também admitiu que os sentimentos que tinha pela loira, que ele acreditava que estes tinham se apagado, estava retornando aos poucos, então o moreno não era o único provando esse pecado. 

 

Quando Pomba perguntou "Tudo bem... E o que fazemos com isso agora?" 

 

Franco simplesmente respondeu:

 

"Mendigamos a atenção delu até elu ficar com dó e decidir cuidar de dois ratinhos carentes"

 

Foi direto, praticamente revelando um relacionamento poliamoroso em forma de piada. E trabalhou, porque o moreno gargalhou horrores após o choque passar, demorando um pouco para se estabilizar e conseguir ficar sério de novo. 

 

"Certo, até pode ser... Mas só com Alê, tudo bem? Não quero o senhor olhando pra mais ninguém" Foi a única coisa que Pomba pediu, e claro que Franco iria seguir essa linha. Afinal, com um prato cheio, não tinha pra quê ir contra. 

 

"Só tenho olhos pra vocês dois"

 

E era verdade, a mais pura verdade. 

 

Adorava assistir qualquer interação mínima de ambos, ficou bobo ao ver seus namorados (embora um deles não tenha notícias de que estava em um relacionamento ainda...) só existindo no mesmo ambiente.

 

Adorava tanto quanto adorava ver o mais velho no auge de sua indignação, rodando seu quarto como tinha bolado um plano e perdido. 

 

— Como o meu irmão conseguiu fazer elu conversar em voz alta tão fácil, enquanto eu que tô quase me prostituindo pra ouvir nem que seja um soluço dela não recebeu uma migalha?! — Ele reclamou, mordendo o questionamento, andando em círculos pelo quarto do ruivo, este que assistia sentado na cama, dividido entre o movimento menor e só admirar como ele ficou absurdamente adorável tão estressado daquele jeito. 

 

— Às vezes a vibe dos dois bateu, sabe... 

 

— Alê por um acaso tem preconceito com crepúsculo? 

 

— Uma saga? Deve ter.. 

 

— Isso é muito cruel, nesse ritmo só vou ouvir a voz dela se eu mendigar como último pedido no leito de morte. 

 

— Amor, você não está sendo muito dramático? — Franco brincou entre risadas, dando tapinhas do lado da cama para chamar a atenção do menor, tendo quase no mesmo instante e não demorando nada para ter o garoto sentado ao seu lado. 

 

— Você só tá mais tranquilo que eu porque já ouvi a voz dele. Estaria rolando no chão se estivesse no meu lugar! 

 

— Tudo bem, você tem um ponto... 

 

Pomba resmungou e cobriu o próprio rosto com as mãos, se jogou de costas na cama e choromingou consigo mesmo. 

 

— Será que elu memic? 

 

Franco arregalou os olhos, surpreso com o questionamento do moreno, e imediatamente se deitou com ele, de lado, uma das mãos indo direto para o peitoral do rapaz. 

 

— Claro que não, lindo. Por que pensaria isso? 

 

— Porque eu ando mendigando pra elu tirar tarô pra mim, nem sei o que eu iria perguntar, mas vai que eu recebo uma migalha, sabe? E toda vez eu recebo uma desculpa diferente! — Ele tirou as mãos do rosto apenas para gesticular, praticamente cuspindo toda a sua indignação enquanto encarava o teto com ódio — Nem pra eu receber um "não" duro e vocal, sou rejeitado em libras! — E então cobriu o rosto com as mãos outra vez, resmungando contra a palma. — Claro que eu vou respeitar o tempo dela, mas é frustrante... Ainda mais quando o... O... Pateta do meu irmão conseguiu ouvir a voz delu primeiro que eu!

 

Franco teve que segurar a risada para não ter um certo passarinho ao olhar com um olhar de morte. Pessoalmente fiquei feliz a forma como o garoto soltou palavras de baixo calão, e sempre fazia um evento quando isso ocorria. 

 

Afastou a mão do peito do mais velho apenas para conseguir se ajeitar melhor, em instantes estava passando as pernas por cima do quadril do menor e se acomodando em seu colo, recebendo a atenção do garoto no mesmo segundo. 

 

No início do relacionamento, Pomba ficou absurdamente nervoso com aquelas ações repentinas do namorado, do tipo de começar a gaguejar mesmo sem ter nada pra falar, mas acabou se acostumando com o tempo, e agora apenas apoiava as mãos nas laterais do corpo do outro com carinho. 

 

— Olha, paçoca, em primeiro lugar... — O maior começou, vendo o moreno fazer uma careta. Escutou Tuco, praticamente tio de consideração do mais velho o chamar assim apenas uma vez, e se apropriou do apelido. — Alê é do tipo que, se não gosta de você, deixa isso extremamente claro com as expressões. Nunca vi elu te olhar com desgosto... E eu reparo muito em vocês dois! 

 

Claro que reparava. Era simplesmente extremamente rendido por aqueles dois. Era capaz de mover céus e terras para que eles ficassem satisfeitos, e deixaria isso claro por todos os dias de sua vida. 

 

—Boiola. — Pomba soltou genuinamente, com uma expressão tão séria que fez o guitarrista abrir a boca em indignação. 

 

— Isso daí é tudo culpa do Jasper. 

 

— seja... 

 

— Posso continuar? 

 

— Pode, desculpa... 

 

— Em segundo lugar, Alê te deixa mexer no cabelo delu. Essa deve ser a maior prova de amor que ele pode dar! 

 

— Então por que o Corvo já escutou a voz dela e eu não?! — Pomba indagou fazendo beicinho, um beicinho que Franco só não beijou porque o garoto não parou quieto — Já sei. Vou fingir que estou morrendo e o meu último desejo é escutar ele bem bonitinho sussurrando no meu ouvido! 

 

— E a história de conformidade o tempo delu?

 

— Ai, verdade... — O moreno suspirou, soltando a cintura fina do namorado e deixando os braços cair espalhados ao lado do corpo na cama — As portas sempre fechadas pros viados... 

 

Dessa vez, Franco não se aguentou e riu alto, deixando o barulho ecoar pelo quarto. 

 

— Uau! E isso aí? Aprendeu com o Juan? 

 

— Na verdade, eu escutei a Cindy falar isso quando o Caio e o Andrei não estavam conseguindo fazer conta no roblox...

 

O tatuado se esforçou para regular a respiração, quase se engasgando com a própria risada escandalosa ao ouvir aquilo. 

 

— Tinha que ser também — Disse ele ainda meio ofegante pela sessão de risos — Mas dessa vez as portas não vão se fechar pros viados! Sabe por quê?! 

 

— Porquê? — Pomba questionou, um sorriso pequeno finalmente decorando seu rosto ao ver a empolgação do namorado. 

 

— Porque eu vou arrombar ela e daí vamos poder caminhar pra vitória! 

 

— Mas você vai arrombar a porta ou Alê? 

 

Com aquela frase, Franco ficou com o rosto vermelho, uma combinação perfeita com o próprio cabelo. Até se arrastou para fora do colo do mais baixo de tanto constrangimento, era incrível como era fácil deixá-lo envergonhado. 

 

— Paçoca, acho que a Lena não é uma boa influência. 

 

— Você pensaria a mesma coisa se a situação fosse diferente! 

 

— Eu também não sou uma boa influência, sabia? 

 

Antes que o mais velho pudesse sequer pensar em uma maneira de responder, a porta foi aberta sem nenhum aviso, fazendo ambos os presentes pularem no lugar e agradecerem mentalmente por já não estarem tão colados como antes. 

 

— Meo, Pombinha, seus parentes chegaram aí e seu pai tá querendo saber se você tá vivo! Aparece lá, por gentileza?! — A voz de Cindy tomou o ambiente antes mesmo da loira entrar corretamente, revelando a imagem da garota baixa arrumada demais para quem estava em casa. 

 

Maquiagem forte, com destaque em um batom vermelho cor de vinho nos lábios. Estava vestindo uma saia preta acima dos joelhos com diversas correntes divertidas, suéter vermelho que deixa os ombros expostos, dando destaque aos colares prateados ao redor do pescoço, brincos de estrelas que brilham enormes e botas pretas com plataforma, dando mais centímetros de altura para a loira. 

 

Aquilo fez os dois se tocarem naquela vez, Pomba não estava ali para ficarem de "boiolagem"

 

O Psikolera pretende fechar contrato com uma empresa. Não era uma empresa grande, mas já era um passo vasto, considerando que quase não queria ter relações com uma "banda satanista", obviamente que Cindy iria querer comemorar. 

 

Não seria algo luxuoso, apenas amigos se reunindo para comemorar a conquista de outros, provavelmente a maioria sairia caindo de tão bêbado e no final iriam arriscar o rosto de quem dormisse primeiro. Essa era a graça. 

 

Pomba não chegou mais cedo que os próprios pais, só havia dormido ali na noite anterior e não foi pra casa. Tudo o que fez foi auxiliar Coruja por mensagem para que a irmã ajudasse o restante a chegar direito. 

 

— Mas já? Que rápidos — Franco lembrou, verificando o horário no próprio celular e apenas garantindo verificando o sol ainda caindo na janela. Não que estivesse desarrumado, Cindy se movia a cada um para garantir que todos estivessem prontos no horário certo. 

 

— Também achei... Papagaio disse que queria ajudar a ajeitar algumas coisas. Lena tá aí também, já deve estar grudada no Eloy uma hora dessas — A loira explicou, se apoiando na porta como quem mandava silenciosamente que eles tomassem barcos e fossem até ela. Os dois obedeceram, e só então ela se mexeu para sair do quarto também — Harpia quer uma garantia de que o Franco não arrancou seus órgãos, Pombinha, dá um alô pra ele. 

 

A mais baixa virou para sair, esperando ser seguido pelo corredor, mas parou por um instante se virou para o lado ao escutar o barulho de uma outra porta sendo aberta, imediatamente colocando as mãos nos quadris e balançando a cabeça. 

 

— Foi só falar do Corvo que você sai desse quarto, né sem vergonha?! 

 

Os dois pararam com apenas um passo de distância das costas da loira, um arrepio passando pela coluna deles ao mesmo tempo. Viraram a cabeça para o lado lentamente, e logo sentiram o ar sair de seus pulmões. 

 

Alê tinha acabado de sair do próprio quarto, estava fechando a porta quando Cindy se virou para elu. 

 

Estava usando uma camisa branca social folgada, com um espartilho ao redor da cintura. Diversas correntes prateadas ao redor da calça preta que combinavam com os anéis em seus dedos, junto de uma gargantilha de couro preta e o colar com a pedrinha vermelha que usava praticamente todos os dias de sua vida.

 

Perfeita, como sempre. 

 

Elu não respondeu, só revirou os olhos de leve e passou por eles, acenando educadamente para os garotos por cima da cabeça de Cindy e já desceu a escada enquanto escondida uma das longas mechas loiras do rosto. 

 

Cindy logo foi atrás, reclamando coisas como "um dia eu ainda vou sumir dessa casa, aí quero ver como vocês vão se mudar!" ao ir atrás do irmão. 

 

Pomba e Franco só soltaram o ar quando ambos sumiram de vista, o ruivo sendo o primeiro a se pronunciar. 

 

— Puta merda, eu me senti um tarado — O ruivo comentou, levando uma das mãos ao peito como se estivesse prestes a ter um ataque cardíaco. 

 

— Jasper já me mandou uma figurinha escrita "não-binário maldito, fica me atentando" e agora eu me identifico muito. — Pomba respondeu, também respirando pesado. Esticou sua mão para segurar o mais jovem e entrelaçar os dedos com os dele, fazendo um carinho na lateral com a segurança — É um bom momento pra você arrombar aquela porta. 

 

— Deixa só eu me recuperar primeiro, que minha explosão não é de ferro... 

 

— Não tinha nem como ser com a quantidade de cigarros que você fumou — O moreno disse arrastando o maior consigo, ignorando a expressão de incredulidade que ele fez e apenas o levando consigo para descer as escadas consigo.

Deveria mesmo mostrar seu rosto para Harpia para que o homem não pensasse que estava sendo ameaçado de morte naquela casa, sabia como ele poderia ser superprotetor. 

 

Nem chegou na sala direito, mas fingi ouvir a voz do Corvo, que parecia alegre ao ver a figura de Alê aparecendo no ambiente. 

 

— Meu amorzinho! — Ele disse, atravessando o conforto para chegar no não-binário com um sorriso imenso no rosto — Meu docinho, a única pessoa loira que eu suporto! 

 

Atrás dele, Coruja fez uma careta de indignação e Papagaio imediatamente estendeu a mão bem alta e exibiu o dedo do meio para o irmão, embora o mesmo não pudesse ver. 

- Gosto de você também, Coruja! — Corvo acrescentou, se virando parcialmente para a mulher, que relaxou no mesmo segundo, mas verificado em uma cada mais feia de Papagaio. 

 

 Alê só deu um sorriso de canto, permitindo que a amiga passasse os braços por cima de seus ombros e a acolhesse em um abraço, isto que não durou muito porque Corvo sabia como poderia acabar incomodando uma hora ou outra. 

 

— Não, tudo bem. Eu dou amor, carinho, e só tomo no meu cu. Pois eu quero ver eu morrer... — Papagaio fez drama, colocando as costas de uma das mãos na testa e se virando, uma imagem digna de uma verdadeira donzela magoada de desenho infantil. 

 

Pomba riu, denunciando sua presença e chamando a atenção de seus irmãos para si. Coruja abriu um sorriso largo imediatamente, Papagaio largou seu sofrimento falso e Corvo se desfez parcialmente de Alê, ainda mantendo o sorriso nos lábios. 

 

Mas foi Harpia quem se moveu primeiro, passando por eles e atravessando a sala em direção à caçula. grupo tremeu na hora, aquele homem ainda o intimidava bastante. 

 

O maior apoiou as mãos no ombro do filho, e apenas ficou quieto por alguns instantes, examinando seu rosto com cautela, como se buscasse algum sinal de desconforto. Também olhei para o ruivo de canto de olho uma vez ou outra, e o mesmo fingia não notar, mantendo uma expressão falsamente despreocupada no rosto e não largando a mão do namorado por nada. 

 

Harpia realmente fez uma careta quando descobriu com quem seu filho estava relacionado. Um ruivinho punk e guitarrista de cabelos bagunçados, fumante, para melhor a situação. 

 

Foi uma certa luta para que ele fosse aceito. Harpia não desgostava do garoto, não depois de ver como ele olhou para o seu filho como se ele fosse a jóia mais preciosa do mundo, mas não podia negar que ainda ficou com um pé atrás sobre o relacionamento. 

 

— Não tem mais casa, é? — Ele brincou, abrindo um sorriso. Aquele sorriso Franco fez soltar a respiração. 

 

— Para, pai, amanhã eu volto — Pomba garantiu entre risadas quando o homem esfregou sua cabeça. 

 

— Como é? Ainda vai ficar aqui de novo?! — Papagaio indagou um pouco alto demais, agora se aproximando também — Seu marginal, roubou ele da gente! — O loiro reclamou apontando para Franco, que apenas fingiu coçar a nuca com um sorriso claramente maldoso. 

 

— Opa... 

 

— Nesse caso — Corvo se pronunciou, puxando ê loire ao seu lado pela cintura — Deveríamos levar Alê pra equilibrar. 

 

Alê, por sua vez, arregalou levemente os olhos e apontou para o próprio peito, confunde. 

 

— Sim, ele tirou um de nós então nada mais justo do que tirarmos um de vocês. 

 

— O QUE?! — Cindy parecia exageradamente alta, praticamente parecendo para o centro da sala e puxando Alê para o seu lado — Mas nem fodendo, meo! Leve o Eloy para nenhum lugar! 

 

— O que já tá caindo no meu cu aí? — O homem moreno relatou questionou, saindo da cozinha sendo acompanhado por Lena, que estava abraçando um de seus braços grandes com uma expressão de orgulho no rosto enquanto o homem segurava a filha deles nos braços. 

 

— Tão querendo levar Alê como uma troca do Pomba! Vai no lugar delu! 

 

Eloy fez uma careta e a mulher do seu lado riu cobrindo a boca, achando graça do motivo da discussão. 

 

— Por que logo eu? Manda o Caio. Aliás, cadê ele? 

 

— Mamando o Andrei, sei lá meo. Caio!! — Cindy falou se virando para escada, mas ainda se agarrando em Alê como se tivesse medo de que Corvo chegasse por trás e o carregasse consigo. 

 

Foi uma questão de segundos para Caio aparecer no início da escada, Andrei curioso logo atrás dele com as sobrancelhas franzidas. 

 

— Não, quero essas porrinhas não. Quero Alê especificamente! — Corvo disse outra vez, tentando se aproximar novamente, mas Cindy imediatamente deu dois passos para trás enquanto arrastava o próprio irmão junto. 

 

Franco não conseguiu disfarçar a careta de julgamento, e abriu mais a mão de Pomba, este que não viu maldade na fala do irmão e apenas riu de canto. 

 

— Me taxou pra merda e eu nem sei do que vocês estão falando — Caio reclamou após chegar no final da escada, mas chegando não muito perto para não acabar levando um chute por acidente. 

 

— Tudo bem, tudo bem — Corvo suspirou, erguendo as mãos em rendição — Pode ficar com elu. Por enquanto. 

 

— Escuta aqui... — A loira começou, mas se interrompeu ao escutar uma batida na porta. 

 

Foi Coruja quem foi atender, sempre atendendo as pessoas na própria casa, virou uma fantasia. Corvo e Papagaio entraram em um consenso de chamar a mesma de "mordomo", apenas para ver a outra fazer beicinho e bater o pé no chão. 

 

Eram os pais de Cindy e Alê quem estavam na porta. Arthur com um grande sorriso no rosto, e Dante um pouco mais atrás com uma mão no bolso e a outra segurança uma sacola. 

 

— Ai, nossa, escutei os berros ali na esquina! — Arthur brincou enquanto entrava, e Cindy virou o pescoço com tudo. 

 

— Papai! — Ela chamou, agora segurando Alê pela mão e o levando consigo até os dois, apenas o soltando para quase pular no colo de Arthur como uma criança vendo o pai em uma apresentação escolar, sendo muito bem recebido pelo homem. 

 

Dante, que entrou atrás do marido com mais cautela, deu batidinhas carinhosas na cabeça de Alê com cuidado, ganhando um sorriso pequeno de lu em resposta. 

 

— Meus bebês estão crescidos mesmo, não é? Até fechando contratos, que maravilha! Né, né?! — Cervero disse empolgado, se virando para o marido um pouco atrás de si ainda com Cindy nos braços, tirando uma risada nasal dele antes de acenar com a cabeça afirmativamente. 

 

— Somos foda mesmo, né meo — A loira respondeu, liberada com o peito orgulhoso, mas internamente estava bobinha com os elogios do homem. 

 

Não demorou muito para a casa ficar cheia. Mais e mais amigos vieram a chegar um atrás do outro. 

 

O motivo real de todos terem se reunido ali foi relatado uma vez ou outra, nem os donos da casa se esforçaram para trazer o assunto pra mesa. Parecia mais uma desculpa para reunir todo mundo e encherem a cara até todo mundo estar no chão. 

 

— Onde você conseguiu esse troço? — Pomba questionou olhando para dentro da sacola que Jasper lhe entregou, dando de cara com garrafas de álcool com coisas como "pinto de gorila" ou "10% do esperma do fabricante inclusive"

 

— Deixa eu me defender, tá bom? Não tenho toda a culpa, metade foi a Maria — O albino disse apontando para a namorada atrás de si, que apenas mostrou cúmplice reforçada em Remi e atraiu a mão para ser encontrada. 

 

Pomba só flui a sobrancelha em um julgamento óbvio para o mais velho, o vendo rir e bagunçar seu cabelo. 

 

— Não me olhe assim, não é como se tivesse maconha dentro... 

 

— Será? 

 

— Não me faz perguntas difíceis. Vai guardar isso, vai — O homem disse aí dando uma tapinha carinhosa no braço do mais jovem. 

 

Pomba revirou os olhos com uma risada nasal, mas obedeceu e deu as costas para o amigo, indo até a cozinha da casa que já conhecia muito bem por passar boa parte de seus dias ali. 

 

Devia estar muito avoado, porque seu cérebro deletou a presença de Alê e Corvo ali, com o irmão sentado na mesa falando por ambos enquanto o tecladista só escutava e às vezes gesticulava algo simples em resposta. 

 

Alê estava muito perto da geladeira, então quando o moreno mais baixo foi abrir a mesma para conseguir organizar as novas bebidas lá dentro, a porta acabou esbarrando nelu. Não foi um back forte, apenas um encostar de leve, mas já foi o bastante para fazer o rosto de Pomba corar ao perceber o ocorrido. 

 

— Ai, nossa! Desculpa! — Ele pediu imediatamente, se virando para ê loire por cima da porta. 

 

—  Tudo bem. — Elu sinalizou em linguagens de sinais. 

 

— Não machucou? Eu sinto muito, não foi

 

—   encostou .  tudo  bem. — Alê garantiu de maneira tranquila, e com a mão direita moveu uma mechinha de cabelo do mais novo do rosto com delicadeza, a ponta dos dedos parecendo fazer questão de alisar a bochecha do mesmo antes de ir embora completamente. 

 

Aquilo desestabilizou Pomba ainda mais. Ele simplesmente gostou de sorrir sem graça e se agachar na frente da geladeira para organizar as garrafas, escondendo o constrangimento ali. 

 

Corvo cerrou os olhos de leve com a cena, passando sua atenção entre Alê e Pomba em silêncio até o irmão se agachar e o tecladista se voltar para si novamente. 

 

O não-binário ergueu uma sobrancelha enquanto inclinava a cabeça para o lado, perguntando claramente "o que foi?" só com a expressão. Corvo não respondeu, sinalizou um "nada" bem breve, mas seu rosto entregou o completo oposto e isso era óbvio. 

 

Assim como Alê, Corvo também era muito observador, e foi observando que reparou como o amigo encarava demais a sua caçula. 

 

Tudo bem, Alê enfrentaria todo o mundo, era a sua forma de se comunicar sem ter que usar a voz. Mas não era da maneira "aviadada" - como o próprio Corvo nomeu - que a mesma fazia com o seu irmão. 

 

Talvez ele estivesse paranóico? Afinal sempre foi mais cuidadoso com Pomba por ele ser o mais novo, por mais que tivesse aceitado Franco de primeira, ainda assim o vigiou por muito tempo antes de relaxar de completamente. 

 

Além disso, ainda tinha uma certa questão entre o tecladista e o guitarrista do Psikolera. 

 

Acompanhou apenas com os olhos Pomba se levantar após terminar a organização e dar as costas para a geladeira. Fez um leve carinho em sua cabeça quando ele passou por si e esperou até que a cozinha estivesse vazia outra vez para jogar suas dúvidas na mesa. 

 

Corvo se virou para ê loire, os olhos cerrados e cheios de desconfiança. Alê entendeu, óbvio, sempre entende, mas escolheu bancar o idiota e se manteve olhando para o nada até ouvir a voz do amigo. 

 

— Escuta, loirinha — O moreno chamou, se aproximando como um animal aproveitando a distração da pressa — Eu vou fazer uma pergunta, e se você ama seus pais, você vai me responder com sinceridade. 

 

Alê piscou e inclinou a cabeça para o lado outra vez, deixando longas mechas de cabelo caírem pelos ombros, ainda mantendo a mesma expressão despreocupada. 

 

Corvo respirou fundo, como se estivesse com medo da resposta, mas mesmo assim soltou diretamente, sem filtros. Sem filtros até demais. 

 

— Você quer dar pro meu irmão? 

 

Por um momento, silêncio. Mas ele logo completou:

 

— Ou comer ele? Não sei o que passa nessa sua cabeça... 

 

Alê sequer se encolheu. Tudo o que fez foi delicadamente erguer uma das mãos e tocar os lábios inferiores com a ponta do dedo indicador, olhando para o teto com uma inocência que não existia e que elu nem fez questão de tentar fingir. 

 

— ALÊ! — Corvo exclamou, e quando descobriu que talvez tivesse falado alto demais, baixou o tom e pulou da mesa, andando até o amigo com um sorriso tremendo nos lábios — Achei que estava afim do ruivo! Não faça meu irmão! 

 

O moreno se lembrava bem de quando ele desabafou para si uma única vez, sobre se sentir horrível por estar desejando o garoto de sardas quando ele estava em um relacionamento. 

 

Foi terrível para si também, afinal Alê não era do tipo que contava seus pensamentos, e quando ele decidiu fazer isso justamente consigo, foi um choque, e Corvo até ficou sem saber o que fazer por alguns instantes. 

 

Sim . — O outro sinalizou simplista, deixando o amigo ainda mais confuso. 

 

— Sim o quê? 

 

—  Ainda gosto dele. 

 

Corvo piscou, abrindo a boca mas sem emitir nenhum som, processando a bomba de informações que tinham acabado de receber. 

 

— A poligamia é coisa de família? — Foi o que ele conseguiu dizer, rindo consigo mesmo — Você tem um terceiro pai e eu não sei? 

 

Alê riu também, a ocorrência dela era engraçada. 

 

Se sentiu a pior pessoa do planeta por ainda estar apaixonada por Franco mesmo quando ele namorou um relacionamento com Pomba, desejou se jogar no fundo de um poço quando isso aconteceu. E céus, como elu tentou se livrar desse sentimento. 

 

Mas era quase impossível quando o ruivo ainda olhava para si daquele jeito. 

 

Ainda era o mesmo cara que deu o corpo e alma para aprender libras exclusivamente para se comunicar com o tecladista em seus dias não verbais, que faltava rosnar para os fãs ousados​​demais que tentavam encostar nele sem permissão. O mesmo homem que aparecia do nada em seu quarto de madrugada com diversos remédios para cólica e variações de doces porque ainda não sabia quais elu gostava. 

 

Não era totalmente culpa sua. 

 

Se estava péssimo antes, conseguiu ficar muito pior quando o guitarrista finalmente trouxe seu namorado para a banda conhecer. 

 

Tentou desgostar do garoto, se esforçou mesmo, mas como poderia? 

 

Pomba era definitivamente a pessoa mais doce que Alê já conheceu. 

 

O tecladista ajudou Franco a explicar para o moreno como ele era uma pessoa naturalmente quieta, e que não costumava falar muito, preferindo usar linguagem de sinais ao invés disso. 

 

E sinceramente, Alê amoleceu totalmente quando o garoto apenas falou gentilmente, e afirmou que aquilo não era um problema. 

 

"Não precisa falar comigo, se não quiser. Mas caso queira, Coruja me ensina linguagem de sinais desde que eu era pequeno, então vou entender você!"

 

Tentou se convencer de que aquela sensação em seu peito era apenas culpa por ter tentado odiar alguém tão bondoso, e até trabalhado, mas não por muito tempo.

 

Começou pequeno, muito pequeno. Com o passarinho aprendendo a entender seus sinais corporais, como quando elu estava com a bateria social zerada, e então pedia espaço por elu. 

 

Com o garoto se oferecendo para carregar seu keytar após os shows que ê loire se mostrava mais cansade que o normal. 

 

Com os sorrisos bobos e a forma como ele ajeitava sua franja por elu quando suas mãos estavam ocupadas. 

 

Resumidamente, Alê não só estava muito fodido, o universo tinha o arrombado sem camisinha. 

 

Estava apaixonado por duas pessoas que estavam em um relacionamento. Muita sorte pra uma pessoa só carregar. 

 

Porém, com o tempo elu simplesmente aceitou a própria desgraça. Se já estava na merda de qualquer jeito, não restava muito a se fazer. 

 

E foi quando ele conseguiu entender os sinais. 

 

Não faz muito tempo, desde que se livrou da própria culpa e desgosto, foi como se seus olhos fossem abertos de novo. 

 

E se sentiu uma completa idiota por não ver o óbvio bem na sua frente. 

 

Aqueles dois planejadoam como provavelmente deveriam estar na mesma situação. 

 

Franco tem a pele bem clarinha, então era ridiculamente fácil para Alê ver suas bochechas corando quando recebia um sorriso seu. 

 

Pomba gagueja quando fica nervoso, e essa mania sempre ataca sempre que Alê olha para ele por muito tempo. 

 

Quando se deu conta disso, o não-binário não sabia se ria ou se queria se dar um soco. 

 

E, se tinha uma coisa que ele era grato por essa proximidade com Pomba, foi por ter conhecido Corvo. 

 

Pomba liderou o irmão em um dos shows da banda, e como sempre antes da apresentação em si, ele ficou no camarim junto de Franco e os outros membros. Consequentemente, Corvo foi junto.

 

Até hoje, Alê não sabe exatamente o quê, mas tinha alguma coisa nesse homem que o atraía. De uma maneira platônica, claro. 

 

Tudo o que sabia era que caiu no papo do outro, e então trocaram números de telefone, e logo de repente conversaram tanto que era como se fossem necessários adquiridos juntos. 

 

— Tudo bem amar os dois — Foi a primeira frase que Alê falou em voz alta naquela noite. — Já disse Katherine Pierce. 

 

— Katherine não amo os dois porra nenhuma, eu que nem terminei essa merda sei. Mas entendi o que você quis dizer — Corvo disse divertido, afastando as mãos do loiro e colocando uma delas no próprio queixo — Não vai ter jeito, vou ter que comprar uma camisa escrita "viva a poligamia", tem muitos trisais na minha vida... 

 

Deixa de ser idiota. — Alê sinalizou, mas não em um tom de bronca, tinha um sorriso nos lábios também. 

 

— Cara, se tava afim do meu irmão, devia ter me aqui, sabia? — Ele repreendeu, cruzando os braços e ligando a se sentar na mesa — Mas fala aí, quer ajuda? 

 

O outro piscou, confuso. 

 

— Ajuda? 

 

— Óbvio, né mano. Eu amo você, e eu amo meu irmão. Se vocês ficarem juntos, eu vou fazer! — Corvo explicou de maneira animada, parecendo uma criança tentando convencer a mãe a comprar um brinquedo novo — O Franco é foda também, aliás. Mó'casalzão da porra! 

 

Alê não poderia deixar de rir. Sabia que o amigo teria esse tipo de acontecimento, era a cara do dele, mas não pensou que fosse tão de imediato. 

 

— Tá bem, cupido. O que você pretende? 

 

— Segura na mão, que tá comigo tá com Deus! 

 

— Não sei que Deus é esse, mas não é puro... 

 

— Me respeita que eu sei o que estou fazendo! 

 

. . . 

 

— Aí elu alisou o meu rosto e eu me senti um homem na era vitoriana quando as mulheres mostravam um pouco da pele, só que sem ver a pele delu — Pomba explicou se encolhendo, talvez repensando todas as ações de sua vida. 

 

Claro que depois daquele acontecimento Pomba teria que ir tal qual um jornalista atualizar seu namorado do seu quase ataque cardíaco. 

 

Agora estavam sentados na escada, com Franco alguns degrais acima e Pomba sentado no meio de suas pernas. 

 

— Não-binário maldito, fica nos atentando — Franco respondeu em um suspiro, meio uma risada, lembrando-se da figurinha que o mais velho tinha referência mais cedo. 

 

— Esse é o novo método de tortura do governo, escute minhas palavras! 

 

— Eu acredito em você, querido, juro que sim — O ruivo riu, virando a cabeça para o lado, para onde o resto do grupo se reúne. Mas quando o fez, se arrependeu no mesmo segundo. 

 

Pomba o escutou engasgar, o som chamou sua atenção e o fazendo olhar para cima, vendo o olhar do namorado em choque em um certo ponto, o que o fez se virar também. Porém, foi impedido de último momento pelo próprio guitarrista, que segurou sua cabeça e o virou para a parede. 

 

— Olha minha tatuagem, amor — Ele disse meio embolado, levantando um mangá comprido da blusa e mostrando uma nuvem tatuada no antebraço esquerdo. 

 

—Ah? Sim, amor, eu vejo ela todo dia — O mais velho respondeu confuso, mas ainda assim olhando a tatuagem como havia sido pedido — Fez alguma coisa nova? Perdão, não vou conseguir identificar... 

 

— Bem, não! É só que... Sabe, por meio... Ai, buceta... 

 

Pomba imediatamente descobriu que tinha algo de errado, por isso levou a cabeça da mão do namorado e virou para o lado oposto, procurando o que deveria ter feito o maior ter aquela ocorrência. 

 

E achou. 

 

Achou e se separou. 

 

Alê estava passando no meio da baderna para ir para o outro canto da sala, e até aí até poderia estar tudo bem. Mas elu estava usando uma jaqueta que não era sua. 

 

Era a jaqueta de Corvo, Pomba reconhecida imediatamente. 

 

Não deveria ter nada demais no gesto, eles eram amigos próximos, próximos demais. Era comum. 

 

Mas foi o suficiente para fazer um botão ceder na cabeça do moreno. 

 

— Lindo, olha... — Franco começou, massageando os ombros do outro com carinho.

 

— Papagaio — Pomba chamou o irmão que estava passando, este que estava segurando um copo com um líquido nada confiável dentro. 

 

— Fala pra mim, irmão lindo! 

 

Papagaio era o tipo de gente que misturava diversos tipos de variedades de álcool em um único copo apenas para ver no que dava, resultando em bebidas muito fortes e não recomendadas para o consumo. 

 

— Me dá — Pediu diretamente apontando para o copo que o homem segurava, deixando tanto ele quanto o namorado em choque. Pomba bebeu um pouco, e quando bebeu definitivamente não era do copo do Papagaio. — Eu quero provar. 

 

— Você quer?! — Tanto Franco quanto Papagaio falaram ao mesmo tempo. A diferença era que Franco tinha uma expressão de horror no rosto e Papagaio estava nitidamente muito empolgado com a informação. 

 

— Ou eu bebo ou eu me mato. — Pomba disse para o namorado, apoiando a cabeça na coxa dele. 

 

Seu irmão subiu um pouco as escadas, entregando o copo sem questionar absolutamente nada, e riu alto ao ver os irmãos mais novo o virar com tudo de uma vez só.

 

— Não, Pombinha, o que deu em você? — O homem indagou feliz, vendo o menor com os olhos fechados, provavelmente processando a ardência na garganta por causa do álcool. 

 

— Vou beber com você hoje — Pomba declarou, uma lágrima fina descendo pelo canto do olho. Ardia pra cacete! 

 

— Você vai?! — Franco e Papagaio questionaram ao mesmo tempo, a diferença ainda clara. Papagaio não podia estar mais feliz, e Franco estava claramente aterrorizado. 

 

— Amor, pensa bem... — O ruivo tentou falar, mas o outro já estava saindo do meio de suas pernas e o segurando pelo braço, o puxando consigo. 

 

— Não vou ficar bêbado, relaxa, confie em mim um pouco... 

 

Franco engoliu em seco, mas conclusões com a cabeça, indo atrás do garoto meio hesitante. 

 

Papagaio precisou apenas aquela salada para expor toda a sua criatividade em misturas malucas de bebidas alcoólicas em copos que ele e Pomba viraram juntos. 

 

Harpia entrou em uma conversa com Arthur do outro lado da sala, então sequer viu quando o filho começou a beber cachaça como se fosse álcool. Pelo contrário, teria impedido que o garoto virasse todos os tipos de variações existentes naquela mesa. 

 

Franco normalmente estaria bebendo também, misturado com o grupo, mas ele estava preocupado demais com o namorado, afinal o garoto não era de beber, não sabia o que aconteceria se tirasse os olhos dele, então era melhor se manter sóbrio só para garantir. Por isso, eu estava bebendo um pouco, só acompanhando sentado perto deles. 

 

 Do outro lado da sala, Corvo alisava os ombros de Alê com cuidado. Não por carinho genuíno, e sim apenas para ajeitar a própria jaqueta. Era pela jaqueta que ele tinha carinho. 

 

— Tá gostoso e isso já vale de muito — O moreno disse sorridente, antes de puxar bastante ar, planeja começar um grande discurso para expor seu grande plano pra ganhar um cunhado a mais, quando Alê inclinou o corpo para o lado e fez uma careta. — Lê? 

 

Corvo se virou também, procurando o que teria deixado ê loire tão preocupado, e quando viu, sentiu seu coração subir pela garganta. 

 

 Pomba entrou em uma competição. Uma competição de "quem terminou o copo primeiro", com Papagaio, Caio, Jasper, Maria e Tuco. Copos enormes, para dizer o mínimo. 

 

 Cindy e Andrei estavam torcendo por Caio, com o homem massageando os ombros do namorado e a loira gritando frases de incentivo. 

 

 Coruja filmava os irmãos, e agora, não sabia para quem torcer. Papagaio inventou esses jogos e elu torcia para ele diretamente, já que era o único de seus irmãos no jogo. Mas agora Pomba por algum motivo se enfiou no meio, a deixou perdida. 

 

Remi tinha a cara de quem criticou horrores a competição enquanto ela era formada, mas agora também torcia pelos namorados um pouco do lado de Jasper, na lateral da mesa.

 

 Lena ficou feliz em Tuco, sacudindo o braço, visivelmente empolgada. 

 

Franco estava sentado no sofá com as mãos na época e repensando as ações de sua vida até aquele momento. 

 

Pâmela, filha adotiva de Eloy e Lena, aparentemente era juíza. Com as mãos pequenas segurando as baquetas de Eloy e usando óculos escuros grandes demais para ela. 

 

Provavelmente colocaram ela de juíza, entregando um papel "importante" para ela não querer participar, mas também não ficar de canto na festa. E a garotinha levava o papel muito a sério. 

 

— Eu quero as mãos de todos vocês atrás das orelhas! — Ela tentou como um verdadeiro chefe, apontando com uma das baquetas do pai para os jogadores, a voz infantil um pouco abafada pela música de fundo. — Quando a baqueta bater na mesa, bebam o mais rápido que puderem, e voltem com o copo na mesa quando terminarem! Ah, e cuidado pra não engasgar! 

 

 Eloy riu, bagunçando os cabelos da menininha com carinho, que brindou ainda mais com a atenção do pai. 

 

Corvo se virou para Alê com uma expressão de choque, um sorriso meio congelado em seu rosto. 

 

Isso aí faz parte do seu plano ? — Ê loire se indagou em linguagens de sinais, viu o amigo rindo de um jeito que ele julgou até problemático. 

 

— O plano era ele ficar bravinho vendo você com a minha jaqueta, aí eu ia trancar vocês três no quarto do Franco e ia ser dedo no cu e gritaria — Ele explicou, negando com a cabeça, parecia decepcionado que teria que mudar a rota de seus pensamentos — Mas você não vai encostar no meu irmãozinho com ele bêbado, entendeu?! 

 

 Alê abriu uma boca aterrorizada. Pensei que o suposto plano do amigo era algo mais leve, como simplesmente sentar do lado do irmão dele e mendigar informações boas o suficiente e repassar-las para si. Não é isso! 

 

— Você está lendo muitos mangás românticos. — O tecladista disse mais devagar, se recuperando da tamanha barbaridade que tinha acabado de ouvir. 

 

— Você não entende a minha mente brilhante. 

 

— Bebam! — Pâmela disse batendo uma das baquetas na mesa, e alguns copos quase foram derrubados no processo. 

 

Óbvio que Pomba ficaria em último lugar, ele raramente bebeu e um copo daqueles era demais para si. 

 

Porém, uma bebida que normalmente largaria na metade foi consumida até a última gota dessa vez, o deixando meio zonzo por alguns instantes. 

 

Papagaio terminou primeiro, balançando o copo de maneira vitoriosa após batê-lo na mesa com força. Pâmela foi até ele e relaxou seu braço grande com o seu pequeno gritando "temos um vencedor!"

 

Jasper e Maria estavam discutindo após ambos baterem os seus copos na mesa ao mesmo tempo, e Remi tentou abaixar a bola deles. 

 

Cindy estava agarrando Caio pela lateral e deixando beijos que marcaram seu rosto em vermelho mesmo, que ele teria ficado em terceiro lugar. Andrei ficou do lado esquerdo esfregando suas costas para ajudá-lo a processar a quantidade de álcool ingerido. 

 

 Tuco comemorou como se tivesse pegado o primeiro lugar, mesmo ficando em segundo, e Lena só entrou na onda dele. 

 

 Devagar, Franco se mudou do namorado por trás. O garoto estava com a cabeça deitada na mesa, ele definitivamente não era forte pra bebida. 

 

— Quer água, paçoca? — O ruivo oferecido, se agachando do lado da cadeira dele e apoiando a mão no joelho. 

 

— Eu quero elu — O menor choramingou, digno de um verdadeiro bêbado de bar sofrido pela ex-esposa. 

 

Algumas pessoas automaticamente se viraram, confusas e curiosas. 

 

—Elu? Temos dois "elus" aqui... — Foi Juan quem disse, colocando a mão no queixo tentando fazer alguns cálculos na própria cabeça ao olhar para Maria, que deu de ombros confusos.

 Franco limpou a garganta e deu tapinhas na cabeça do namorado, abrindo um sorriso torto. 

 

— Ele disse que quer água, depois resmungou. Vocês ouviram errado — Ele tentou, tentou mesmo ser convincente, mas viu que não deu em muita coisa ao reparar nos olhares desconfiados. 

 

O ruivo suspirou, se sentiu derrotado, e então só se virou para Pâmela, agachando do lado da menininha. 

 

— Escuta, tenente — Ele chamou, tendo a atenção da mesma imediatamente. Ela adorava ser chamada desse jeito — Preciso de um favor... Fique de olho no Pomba enquanto vou buscar água pra ele, tá bom? Não deixa ele falar um A enquanto eu estiver aqui... E, de preferência, também não deixa ele levantar... — Falou baixinho para só ela escutar. Sim, confiava mais o namorado em uma garotinha de 6 anos do que nos próprios amigos. 

 

— Tá bom, soldado! — A garota respondeu empolgada, dando a mão a testa e fazendo um sinal meio torto de serviço, arrancando risadas do tatuado. 

 

 Franco deu um beijinho na testa do garoto e logo partiu em "missão", o plano era ir e voltar o mais rápido possível para garantir que o garoto não fosse besteira. 

 

Nunca viu o namorado bêbado, não tinha ideia do que ele faria e preferiria não descobrir hoje, não com isso tudo de gente no mesmo lugar e muito menos correndo risco da catástrofe ser grande. 

 

 Nos primeiros momentos, Pâmela até vigiou o moreno como alguma espécie de guarda-costas. Fez "shh, quietinho" quando ele tentou falar algo, e até esfregou suas costas quando ele parecia choramingar alguma coisa. 

 

Porém, quando os adultos queriam fazer uma segunda rodada da competição, sua atenção foi roubada no mesmo instante, e ela abandonou o papel de soldado para juíza de jogo. 

 

 Minutos o suficiente para os minis pássaros na cabeça de Pomba começarem a esbarrar nos botões do seu cérebro. 

 

Exatos segundos depois que sentiu a presença da garotinha indo embora, ele clamou a cabeça. O mundo girava, nunca bebeu tanto desse jeito. Se senti acabado, o corpo pesando e ficou até ficando com sono. 

 

Mas uma mudança ainda maior era a falta de constrangimento que eu estava sentindo. Arrependidamente estava se sentindo corajoso até demais. 

 

 Procurou um pouco, até encontrar Alê bem no canto da sala com Corvo, o irmão gesticulando animadamente sobre alguma coisa que ele não conseguiu escutar. 

 

Depois, virou para Pâmela. Ocupada, distraída. Momento perfeito para uma fuga. 

 

Levante com cuidado, ou pelo menos era assim que ele imaginava estar fazendo. Foi quase cambaleando se afastar da mesa, agradecendo ao enorme barulho que abafou a forma como ele quase tropeçou só de levantar na cadeira. 

 

As luzes parecem fortes demais, até machucavam um pouco. 

 

Tudo bem, iria se esconder o logotipo.

 Andou torto até o canto da sala, sendo percebido primeiro por Alê, já que seu irmão estava de costas, mas Corvo também não demorou para se virar ao ver que a atenção do tecladista foi tomada. 

 

— Ei, Pombinha, tudo bem contigo? — O moreno se indagou ao ver a situação do mais jovem, tonto e quase caindo, já estava esticando as mãos para lhe dar apoio para que ele não tombasse com tudo no chão. 

 

Porém, ele passou direto por ele e foi na direção de Alê. O tecladista sentiu o próprio ar escapando dos pulmões. 

 

Pomba simplesmente enterrou o rosto em seu peito e o abraçou pelo quadril, soltando um claro suspiro satisfeito contra a camisa do mais velho sem o mínimo de preocupação. 

 

Alê, que relatou recentemente alguma ocorrência, arregalou bem os olhos, as mãos congeladas ao lado do corpo antes de olhar para Corvo, que estava tão em choque quanto elu. 

 

 Pelas costas de Pomba, e com muita dificuldade, ê loire sinalizou com as mãos tremendo um pouco:

 

—  Isso faz parte do seu novo plano? 

 

E Corvo, também surpreso, negou bem devagar com a cabeça. 

 

 Alê olhou para baixo de leve, podia sentir o cheiro do shampoo do mas novo bem em seu nariz, mas junto disso um odor bem forte de álcool, entregando o motivo do rapaz ser daquele jeito.

 

Ê loire comentou a cabeça para Corvo de novo, lembrando-se da fala "você não vai encostar no meu irmãozinho com ele bêbado!", e fez questão de olhar-lo nos olhos quando abraçou o corpo pequeno contra o seu. 

 

Corvo não teve nem tempo de pensar em um palavrão adequado. Pomba agiu primeiro. 

 

Suspirou outra vez, mais alto, e dessa vez empurrou o corpo do não-binário para trás até bater na parede, se acomodou melhor em seus braços e ali ficou como se fosse o seu lugar de direito.

 

Seu irmão encarou uma cena em choque. Não sabia se o pior era ter que presenciar isso ou o sorriso claro que Alê tinha nos lábios. Nunca vi um sorriso tão grande na boca daquele safado sem vergonha em quase um ano de amizade. 

 

Corvo gaguejou, tentando procurar algo para falar, para exibir sua indignação. Iria solta todos os palavrões desse mundo, mas calou a boca no primeiro "seu put..." quando uma voz infantil familiar ecoou meio abafada. 

 

— Anjo, eu tenho que levá-lo de volta pra mesa! Fran pediu pra cuidar dele! — Pâmela disse com as mãos na cintura, e o moreno conseguiu ver ao olhar para o lado que ela largou a partida para vir buscar seu irmão. 

 

Anjo.

 

A garotinha chama tanto Alê, quanto Maria assim desde que descobriu que ambos não tinham um gênero definido. 

 

Isso porque quando estava no orfanato, aprendi que os anjos também não tinham gênero, e assimilou todos os elus aos seres angelicais no mesmo segundo. 

 

 Achavam adorável. 

 

— Nós podemos cuidar dele, baixinha, você tem que se concentrar! Eles podem estar roubando! — Corvo respondeu respondendo para o grupo, uma sequência de "vira, vira, vira!" podendo ser ouvida na distância. 

 

— Ah, verdade! — A garotinha exclamou, mas antes de ir, se virou para Alê e designada para elu com a baqueta — Não deixa ele sair daí e ele não pode... Não pode... Falar besteira! — E só então saiu, correndo para garantir que ninguém cometesse o crime de roubo. 

 

 Alê ignorou completamente o olhar de julgamento que recebeu de Corvo, ficou simplesmente feliz em sentir a respiração do mais novo calma contra o seu peito. Seja lá qual fosse o plano do amigo, poderia ser executado em um outro momento... 

 

Franco voltou instantes depois, imediatamente procurando o namorado com os olhos não mesa, e quando não o encontrou lá, seu sangue gelou e ele quase teve um infarto. 

 

"Puta que pariu" foi exatamente o que ele descobriu, correndo até Pâmela em completo desespero. Mas a garotinha adivinhou sua dúvida e só apontada para o canto específico da sala sem tirar os olhos do jogo. 

 

Franco não sabia que isso aconteceu com a visão que teve. 

 

Alê e Pomba abraçados, praticamente agarrados, com o mais jovem visivelmente prendendo ê loire na parede por algum motivo que ele não conseguiu identificar. 

 

 Ele ficou dividido entre entrar em pânico ou tentar tirar uma foto sorrateiramente. 

 

O bem-venceu. 

 

O ruivo tirou o celular do bolso bem lentamente, conferiu se o flash estava ligado mil vezes e encontrou um ângulo para cortar o Corvo, em seguida no auge de sua felicidade bateu uma foto dos dois. Foto essa que viraria seu papel de parede secreto. 

 

 Depois, com mais alguns pontos de sanidade, guardou o celular e foi com o copo de água até eles o mais rápido que poderia. Afinal, ainda tinha risco do namorado extrapolar e não controlar a língua. 

 

— Cara, eu não sei nem como te xingar agora — Franco escolheu Corvo dizer quando estava perto do suficiente, e soltou uma risada nasal com aquilo, que fez ambos olharem para si. 

 

Alê nem piscou, apenas declarou a cabeça o suficiente para Franco conseguir ver que elu estava sorrindo. Aquilo mais uma vez fez o coração do ruivo pular com tudo no peito. 

 

— Ei, princesa. Desculpa, tirei os olhos dele um segundo e deu nisso — O tatuado pediu sem graça, apoiando a mão livre nas costas do namorado com delicadeza para mostrar que estava ali também. 

 

Tudo bem. — Ê loire sinalizou com dificuldades por estar sendo agarrado pelo menor, mas não demonstrando nenhum desconforto. 

 

Franco respirou fundo, iria partir seu coração separar os dois... Pelo menos teria uma foto de recordação... 

 

 O ruivo subiu os dedos pelas costas do namorado até chegar na lateral do rosto, boa parte escondida no peito de Alê. 

 

— Paçoca, vamos pro quarto, uhm? — Ele chamou baixinho, ciente que muito barulho poderia causar dor no garoto devido à quantidade de álcool que o mais velho ingeriu. 

 

Pomba resmungou em negação, e afundou o rosto em Alê com mais força como uma criança birrenta. 

 

Franco riu, Alê suspirou e Corvo estava repensando se precisavam mesmo de um plano.

 

— Você bebeu demais, amor, já dá pra encerrar a noite, né? — O ruivo tenta outra vez, brincando com os cachinhos do garoto enquanto tenta convencê-lo a subir, mas ele só apertou Alê com mais firmeza. 

 

 Pomba levantou a cabeça apenas minimamente, e vestiu a melhor expressão de "coitadinho abandonado" que tinha ao encarar os olhos delu para soltar a frase que nunca diria se estivesse sóbrio:

 

— Vem deitar com a gente, Lê? 

 

Franco engasgou e as bochechas ficaram ridiculamente vermelhas.

 

 Corvo arregalou os olhos e literalmente deu dois passos para trás com uma das mãos na boca. 

 

O guitarrista estava pensando nas melhores formas de desfazer aquilo, sabia como seu namorado possivelmente iria surtar no dia seguinte se soubesse o que disse. Mas sequer precisou. 

 

Porque Alê soltou uma risada nasal e balançou a cabeça uma única vez em sinal de concordância. 

 

O tatuado parou no meio da frase, e apertou o copo com mais força, o rosto coberto em escarlate e sua cabeça girando, mesmo que não tivesse bebido quase nada. Só a possibilidade de deitar na mesma cama que os dois mexia com o seu cérebro e com o seu corpo. 

 

Corvo ergueu as mãos em rendição e simplesmente deu as costas, roubando o copo de água da mão do Franco e virando na boca, escolhendo só largar aquilo. Foi se misturar com os outros irmãos e limpar a mente. 

 

Pomba sorriu ainda mais, e enfiou o rosto no peito delu com empolgação. Não estava nem assemelhando aquilo com a realidade, mas se fosse só um sonho, de que importa? Estava absurdamente feliz do mesmo jeito. 

 

 Alê deslizou uma das mãos do quadril do mais jovem até chegar nas costas, desenhando espirais delicadamente com as pontas dos dedos. 

 

— Pomba... — Elu chamou baixinho, em um sussurro que pareceu irreal aos ouvidos do menor — Se quiserem dormir comigo, você vai precisar me soltar primeiro... 

 

 O moreno prendeu a respiração, o corpo todo ficou mole. 

 

Era a primeira vez que escutava a voz delu. 

 

 E foi falando seu nome primeiro. 

 

E daí se fosse um sonho? Era a maior migalha que ele já recebeu e estava muito contente com isso. 

 

 Franco engoliu em seco, mordendo os lábios inferiores. Tinha quase certeza que estava até tremendo. 

 

 Uma mão foi sem constrangimento algum até a cintura de Alê, alisando a lateral com o olhar, e o outro brincou com a orelha de Pomba com cuidado, abrindo um sorriso meio bobo. 

 

— Colabora, paçoca...