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Caminhos da Liberdade

Summary:

Em um mundo onde cultivadores enfrentam não apenas as forças malignas, mas também as expectativas sufocantes de suas seitas, Wei Wuxian, um gênio indisciplinado, busca equilíbrio entre a liberdade e as responsabilidades que lhe foram impostas. Após um passado marcado por tragédias e rejeições, ele se encontra no tradicional Recanto das Nuvens, onde precisa enfrentar as severas regras da Seita Lan e o enigmático Lan Wangji, um cultivador cuja vida é pautada pela rigidez.

Entre punições, segredos e olhares roubados, Wei Wuxian desafia todas as expectativas, inclusive as suas próprias, enquanto constrói um vínculo inesperado com Lan Wangji. Mas em um mundo onde amor, preconceito e honra colidem, eles precisam decidir o que vale mais: obedecer às regras ou seguir o coração?

Esta história é uma jornada de autodescoberta, resistência e coragem, em um universo onde cada decisão molda os destinos de quem ousa trilhar seus próprios caminhos.

Chapter Text

Prólogo

Wei Ying está animado! É seu aniversário de 6 anos e ele vai visitar o aquário pela primeira vez. Ele mal conseguiu dormir de tamanha excitação. Com seus pés pequenos e corpo magro, ele corre de um lado para o outro na casa, corre em volta dos pais, animado demais para ficar parado mesmo que por poucos segundos.

Hoje eles vão ao Shanghai Ocean Aquarium para comemorar o sexto ano de vida do filho deles. Com um sorriso capaz de iluminar uma pequena cidade, Cangsen termina de arrumar a bolsa com os mantimentos necessários para a viagem, enquanto Wei Changze termina de botar as coisas no carro. Por ser uma viagem de 2h40 de duração até Xangai, eles vão se hospedar em um hotel para passar a noite antes de voltarem para Hangzhou. Fazia tempo que eles não viajavam, desde que Wei Ying nasceu na verdade. Viajar pelo país com uma criança não é tão fácil quanto eles pensavam. A-Ying precisa de estabilidade, de um lar...então eles se estabeleceram em Hangzhou, Changze trabalha no setor administrativo de uma empresa, enquanto ela ensina música para crianças. Ela gosta de muitos instrumentos, mas o seu favorito é o dizi preto que ela ganhou da mãe antes de decidir ir para a China. Apesar de ambos serem cultivadores, eles aprenderam cedo que ser um cultivador sem apoio de uma seita é muito complicado no cenário atual. Então ambos optaram por manter seus empregos e vidas na sociedade civil e só ajudar em casos que ocorrem em suas imediações.

Nenhum dos dois ganha muito, e apesar de dinheiro não ser um problema por causa da família de Cangsen, eles levam uma vida simples. Sem depender do dinheiro que sua mãe, Baoshan, insiste em oferecer.

Eles terminam de colocar as coisas no carro e saem para sua aventura. Changze assume o volante primeiro, conforme tinha combinado com sua esposa que está sentada no banco do passageiro enquanto distrai A-Ying com alguma brincadeira inventada. O clima no carro não poderia ser melhor.

Se tem uma coisa que todos da família Wei têm em comum, é seu amor pela liberdade. A sensação de desapego, essa inabilidade de ficar parado e permanecer em um lugar.

Por mais que Changze tenha demorado para admitir, o tempo que ele passou dentro da seita Jiang foi sufocante. Ele permaneceu o máximo que conseguiu, pronto para pagar uma dívida inexistente que garantiram, desde tenra idade, a ele que ele tinha que pagar. Changze vinha de uma família de comerciantes de tecido que foi morta por um Yao quando ele tinha 10 anos. Desde então a Seita Jiang o reivindicou como um deles. Changze não era idiota, conforme ele crescia ele entendia seu lugar ali, mesmo que Fengmian realmente o tratasse como amigo, ele sabia que não era valorizado pela Seita. Mas ele não queria abandonar a seita e simplesmente ficar à deriva no mundo, então ele nunca saiu. Até que um dia ele a conheceu, eles tinham 22 anos quando se viram e imediatamente se apaixonaram. Cangsen era talentosa, inteligente, linda... simplesmente perfeita, tão perfeita que chamava a atenção onde ia. Ele sempre soube que tinha uma boa aparência, mas nem acreditou quando ela olhou para ele, logo ele... Ele não tinha status, dinheiro, casa ou qualquer meio de mantê-los, mas quando o líder da seita disse que ele não poderia se casar com Cangsen, ele imediatamente foi embora. O amor que eles compartilhavam lhe dando força para cortar o último laço com a seita que achava que era dona de todo o seu ser.

Ele se lembra até hoje como se sentiu livre, tão leve como se pudesse flutuar. Ele seguiu em frente, saindo carregando seus poucos pertences em uma mochila qiakun, animado e ansioso por sua nova vida. Apesar da incerteza de sua situação, o medo que antes o tinha impedido nem arranhou sua convicção de que estava fazendo o certo. Como o medo poderia impedi-lo? Como seria possível se Cangsen tinha um sorriso tão lindo e brilhante que iluminava todo o seu ser? Um sorriso que esquentava as noites mais frias?

"Isso seria impossível" ele solta um bufo se divertindo com seus pensamentos.

Duas risadas altas o fazem sair do turbilhão de pensamentos. Pelo retrovisor, ele encara seu filho sorridente. Ele é tão parecido consigo que chega a ser desconcertante para Changze. Ele sempre foi mais estoico, pouco sorridente e ruim com as palavras, tão diferente de Cangsen, que à primeira vista ninguém pensou que eles iriam dar certo. Mas bastava olhar com atenção, para ver todo amor e carinho que tinha em cada olhar exasperado e cada piada sem sentido e provocadora.

A-Ying era uma mistura perfeita deles, vê aquele rostinho tão parecido com o seu, ostentando olhos brilhantes em meia lua e um sorriso grande que rivaliza com o sol, é desconcertante. Com uma insinuação de sorriso no rosto, ele encara a estrada e deixa seus dois sóis barulhentos e risonhos, preencher o carro com suas tagarelices.

Com o clima brincalhão e descontraído, a viagem de carro passa rápido. A família logo chega no hotel onde vão ficar essa noite. Com uma agilidade que parece ensaiada, eles deixam o que não irão usar durante o dia no quarto compartilhado e carregam o que se faz necessário em duas bolsas médias.

Quando finalmente chegam ao Shanghai Ocean Aquarium, já está no horário do almoço. Com muito esforço, o casal consegue arrastar seu pequeno para alimentar sua barriga faminta antes de finalmente olhar os animais que ele tanto gostaria de ver.

-Vamos, A-die, A-niang.- Wei Ying não consegue se conter com a quantidade de excitação percorrendo o seu pequeno corpo. Ele não anda, saltita levemente em torno dos pais enquanto eles caminham devagar demais para as exigências da criança.

A tarde passa como um turbilhão, a pequena família se diverte até que Wei Ying tenha que interromper sua tagarelice com grandes bocejos, em intervalos de tempo cada vez menores.

A noite no hotel é tranquila, e mesmo que queiram ficar mais e passear mais pela cidade, a hora de voltar para casa chega rápido demais.

A chuva começa devagar no início, eles começam sua viagem com gotas finas de chuva batendo no carro, o barulho insignificante demais para atrapalhar a conversa animada que ocorre no interior do veículo. Mas com o passar do tempo, a chuva que era vagarosa se transforma em torrencial.

- Lǎo-gōng, acho que é melhor parar o carro e esperar a chuva passar um pouco. - Cangsen diz enquanto acaricia a parte de trás da sua cabeça suavemente.

- Eu só vou procurar um lugar para a gente poder ficar, não deve ser confortável para o Wei Ying ficar nessa cadeirinha, ele já tá grande demais para ela.

De repente, antes que ele pudesse fazer qualquer movimento, o carro à frente freia bruscamente, uma curva traiçoeira e mal iluminada se aproxima. Changze aperta o volante, o som dos pneus deslizando na água tornando-se um grito surdo.

"Não... não agora!"

O carro deles derrapa. Cangsen grita, e, ao mesmo tempo, Changze tenta desviar, mas o tempo parece desacelerar. Ele sente seu coração disparar e um suor frio o percorre. A chuva não é mais apenas uma preocupação: ela é uma parede de água que obscurece a visão.

Em um instante aterrador, um carro vindo na direção contrária perde o controle também e, apesar da tentativa de Changze de desviar o máximo possível, a colisão é inevitável. O impacto é brutal. O som de metal retorcendo e vidro quebrando enche o carro, e o mundo ao redor deles se torna um turbilhão de dor e escuridão.

Wei Ying, ainda dormindo em sua cadeirinha, é projetado para frente, mas sua segurança é garantida pela cadeira, que o prende firmemente, ao contrário dos pais, que não têm a mesma proteção.

Quando a escuridão finalmente cede ao caos, a única coisa que Changze consegue ouvir é o som abafado da respiração de Cangsen e o silêncio que segue. Ele tenta mover-se, mas a dor em seu peito é insuportável, e a visão turva. Ele não consegue se concentrar, suas mãos estão frágeis e sem força. Ele olha para Cangsen, mas os olhos dela já não estão mais focados.

A última coisa que Changze vê é a expressão serena do filho, ainda preso ao seu assento, mas sua pequena face está pálida, os olhos fechados e a respiração quase imperceptível. O som ensurdecedor da colisão parece ir embora aos poucos, dando lugar a um silêncio profundo e assustador. O medo de não conseguir protegê-los, a sensação de impotência e a dor de ver a vida escorregando por entre seus dedos invadem seu peito. Ele tenta se mover, mas seu corpo parece pesado demais para reagir, e a vida, com sua fragilidade irreversível, parece escapar dele lentamente.