Chapter Text
O sepulcro de kelvin era uma cicatriz geológica, uma muralha de granito e gelo que parecia ter sido erguida como um vigilante eterno do extremo norte. À noite, sob a lua minguante que lançava sombras cor de hematoma sobre as geleiras, a montanha parecia respirar. Seu hálito era um vento catabático que descia dos picos como um monstro invisível, caçando qualquer traço de calor com dentes de geada.
A quilômetros dali, na tundra plana e escura, Bryn Shander brilhava. Era um ponto ridículo de luz amarela, uma constelação doméstica e frágil flutuando no oceano de escuridão. Para os homens na escavação, aquele brilho não era uma promessa de refúgio; era uma zombaria, uma lembrança de que o mundo continuava a girar, beber e rir enquanto eles apodreciam.
Na vala de escavação que parecia uma ferida aberta na neve suja, o som era o grunt rítmico de ferramentas cegas contra a pedra congelada. Cinquenta homens, reduzidos a silhuetas maltrapilhas, moviam-se com a lentidão dos condenados. O cheiro era uma mistura ofensiva de suor velho acumulado sob camadas de peles gordurosas, urina congelada e a doçura doentia da gangrena nascente.
No alto de uma crista, dois guias locais de Dez-Burgos se protegiam atrás de uma formação rochosa. Suas capas de urso estavam brancas de geada, pesadas como armaduras.
— Olhe para o rosto daquele sulista perto da borda — murmurou Jarl, um homem cujo nariz, quebrado em três lugares diferentes, estava roxo e descascando devido ao frio. Ele cuspiu, o catarro congelando antes de atingir o chão. — Aquele com a barba rala e suja de terra. Juro por Tempus, ele tem mais piolhos do que dentes. Vieram das sarjetas de Luskan, trazendo suas doenças de bordel e piolhos do tamanho de feijões para as nossas tavernas limpas.
— Deixe-os cavar — respondeu Sten, o outro guia, cujo rosto era uma máscara de cicatrizes antigas de queimaduras de frio, os olhos apertados contra a ventania. Ele ajustou o arco longo nas costas. — Enquanto estiverem aqui, não estão em Bryn Shander roubando cavalos ou engravidando as filhas dos pescadores.
Lá embaixo, um som quebrou a monotonia. Um urro gutural, agudo e úmido.
Sten e Jarl olharam para baixo. Um operário jovem, pouco mais que um menino, cujo rosto estava contorcido em uma careta grotesca de agonia, as pupilas dilatadas revelando o terror puro, caiu de joelhos. Seus companheiros pararam, os rostos vazios, ocos de esperança, observando com a apatia de quem sabe que a única diferença entre eles e o ferido era o tempo.
O jovem, soluçando abertamente, os poucos dentes podres batendo, agarrou a luva direita. Era um trapo de couro em camadas, endurecido pelo gelo e pela gordura de rena. Ele puxou. O som foi um estalo seco, como casca de árvore sendo arrancada, quando o tecido colado à carne morta cedeu.
Três de seus dedos estavam expostos. Não eram vermelhos, nem roxos. Eram negros. Uma necrose fosca e perfeita, como se tivessem sido esculpidos em carvão marinho. O gelo atacou a carne morta imediatamente, cobrindo-a de geada.
— Voltem ao trabalho, seus merdas! — berrou o capataz, um homem baixo e atarracado com um rosto vermelho e inchado pelo álcool, vestindo uma capa de pele de lobo que cheirava a urina. Ele brandiu um bastão de madeira pesado, acertando o ombro de um operário que demorava a retomar o ritmo. — O gelo não se quebra com orações! Quebrem a pedra ou a montanha come vocês hoje à noite!
O som das picaretas retornou, mas mais arrastado, um coro de martelos cansados. Dois operários, com trapos imundos envolvendo seus rostos, os olhos vermelhos e lacrimejantes, agarraram o menino ferido e o arrastaram pela neve funda. Suas botas de couro rústico escorregavam no caminho gelado em direção a uma das cabanas miseráveis da encosta — uma estrutura de madeira apodrecida que parecia se curvar sob o peso da nevasca.
Dentro da cabina, o ar era espesso e fétido. O cheiro de gordura de baleia queimando em uma lamparina misturava-se ao odor de corpos não lavados. Eles jogaram o garoto sobre uma pequena mesa de madeira lascada no centro, sob a luz fraca. O menino choramingava, o rosto pálido e úmido de suor e lágrimas, os olhos fixos nos dedos negros.
— Seis meses... seis meses revirando essa merda de montanha — murmurou um dos operários, um homem com uma cicatriz que lhe dividia a bochecha, os dentes podres e incompletos chacoalhando. — E para quê? Buracos. Só buracos no Alvorecer. Ninguém diz o que procuramos. O silêncio deles me dá mais calafrios do que o vento.
— Se eles têm tanto ouro para nos manter aqui — respondeu o outro, cujo rosto estava coberto de pústulas de frio —, por que não trazem um mago de Luskan com seus olhos mágicos para farejar o que quer que estejam caçando? Por que nos fazem roer a pedra com os dentes?
Eles seguraram o menino contra a mesa.
— Segura firme — ordenou um homem mais velho que emergiu das sombras do canto, o rosto uma teia de rugas duras, os olhos calejados pela indiferença.
Ele forçou um cantil amassado de metal entre os dentes do menino. O líquido que desceu era Fogo de Gelo, uma bebida barata e potente de Dez-Burgos que queimava a garganta como solvente. O menino engasgou, tossiu e tossiu violentamente, mas bebeu.
— Rezem para Ilmater, o Deus Quebrado, se tiverem coragem — disse o velho, voltando-se e pegando um cutelo de cozinha rústico e pesado. A lâmina estava coberta de ferrugem alaranjada e cega, o fio castigado pelo uso brutal e impróprio. — A reza de vocês não vai ajudar, mas talvez os mantenha calados.
Dois operários prenderam os ombros e o braço do menino contra a madeira. A mão com os dedos negros parecia uma pedra negra e grotesca sobre a superfície lascada da mesa.
O menino arregalou os olhos ao ver o cutelo enferrujado. O álcool não era suficiente para apagar o terror.
O velho ergueu o cutelo. O ar na cabana parecia ter parado.
CRUNCH.
O som foi seco, úmido e horrível. O cutelo cego não cortou; ele esmagou carne morta e osso congelado. O menino urrou, um grito gutural que abafou a ventania lá fora, jogando o corpo para trás com tanta força que os homens que o seguravam tiveram que usar todo o peso para mantê-lo na mesa. Sangue espesso e escuro espalhou-se sobre a madeira.
O velho ergueu a lâmina enferrujada novamente, o rosto impassível, calejado pela brutalidade de faerun.
— Um já foi — murmurou, o hálito condensando na luz fraca. — Faltam dois.
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A montanha uivava, mas o segundo urro do menino dentro da cabana cortou a ventania com a precisão de vidro estilhaçado. A porta de madeira podre havia ficado entreaberta. Um retângulo de luz amarela e doentia, alimentada por gordura de baleia, derramava-se sobre a neve pisoteada. Alguns operários haviam parado ali perto, encostados nos batentes congelados, os rostos enrijecidos e vazios de empatia, assistindo ao açougueiro trabalhar como se fosse um teatro de horrores barato.
Mais abaixo, no ventre da vala, a monotonia não parava. Um operário com a barba grudada em crostas de ranho e gelo cavava com a apatia de um boi no matadouro. A picareta desceu mais uma vez, mas o estalo que se seguiu foi diferente. Não o baque surdo de ferro contra rocha, mas um tinido agudo, quase musical.
A escuridão do buraco cedeu. Um feixe de luz azulada, pura e antinatural, sangrou pela fenda no gelo. A luz incandescente subiu e banhou o rosto do operário, revelando sem piedade cada poro sujo de terra, as marcas antigas de varíola, as veias estouradas em suas bochechas pálidas. Ele recuou, deixando a picareta cair, os lábios rachados tremendo. Não sabia o que fazer diante de tamanha beleza. Seus vizinhos de vala pararam, atraídos como mariposas febris para uma chama, amontoando-se ao redor da cratera luminosa.
Alguém assobiou. Um som fino que cruzou o desfiladeiro.
O líder da escavação, o capataz atarracado com a capa de pele de lobo, estava de costas para a vala. Ele observava a porta da cabana distraidamente, escutando os gritos do garoto com uma expressão de tédio, enquanto usava uma isca de pederneira para acender um cachimbo curto, esculpido em osso escurecido. O tabaco barato cheirando a estrume seco e alcatrão. Ao ouvir o assobio, ele se virou, irritado por ter seu fumo interrompido.
Quando viu o pilar de luz azul pintando a neve de anil, o cachimbo escorregou de seus dentes podres e caiu na neve.
Ele correu. Suas botas pesadas esmagando o gelo com ferocidade.
— Cavem! — ele cuspiu, empurrando um homem magérrimo para o lado com o ombro. — Cavem mais fundo, seus desgraçados!
O operário bateu novamente. O bloco de gelo cedeu de vez. O brilho azul explodiu para cima, tão agudo e intenso que os homens gemeram, erguendo antebraços fedorentos envoltos em trapos para proteger os olhos que já lacrimejavam. O azul era frio, mas queimava a retina.
O capataz praguejou, recuando um passo. Ele girou nos calcanhares e correu em direção à sua mochila encostada em uma rocha, voltando momentos depois apertando um saco de aniagem imundo contra o peito. Com as mãos trêmulas e grossas, ele desamarrou o cordão de couro.
O que ele tirou de dentro ofendia a sujeira do acampamento e a brutalidade da montanha. Era uma pequena e delicada redoma de vidro soprado com uma perfeição absurda, assentada sobre uma base de prata e latão entalhada com runas polidas. O contraste com o cenário lúgubre era grotesco; o objeto pertencia a palácios de reis ou torres de magos, não à lama da Espinha do Mundo.
O capataz limpou as mãos imundas nas calças com violência, esfregando a pele até arder. Puxou do bolso um papel amassado, manchado de banha e sangue seco. Apertando os olhos miúdos contra a luz azul e o vento, ele leu as sílabas ásperas da instrução mágica, mastigando as palavras com sua língua ignorante.
A redoma zumbiu. As runas na base acenderam com um brilho dourado e morno. A magia se ativou com um clique silencioso.
— Para trás, seus vermes! Para trás! — ele rosnou, distribuindo cotoveladas e empurrões bruscos, afastando a muralha de operários que se amontoava em volta da luz hipnótica.
Ele colocou a redoma aberta sobre a neve com cuidado reverencial e se abaixou. No fundo da cratera de gelo escavada, repousava a fonte: um pequeno fragmento cristalino, aguçado em todas as arestas, latejando com aquele azul profundo.
Com as pontas dos dedos ásperos, ele pinçou o cristal. O frio da pedra mágica parecia querer morder sua pele, mas ele foi rápido. Colocou o item no centro da base de prata. A redoma de vidro se fechou sobre ele como uma guilhotina suave.
Imediatamente, a magia de contenção entrou em vigor. O cristal perdeu a luz. O feixe azul que rasgava a noite foi asfixiado, e o fragmento estremeceu, apagando-se por completo. Enclausurado no vidro, parecia agora apenas um cristal opaco.
O capataz respirou fundo, o ar gelado rasgando seus pulmões. Um sorriso predatório esticou seus lábios, revelando gengivas cinzentas. Ele pensou em Vaelin Dosemen, o mago que o contratara. Parecia um lorde sulista. O homem de voz sedosa que pagava em platina maciça e prometia riquezas para quem desenterrasse o fragmento perdido.
Guardando a redoma de volta no saco sujo, ele o amarrou firmemente.
Ele virou-se então para a horda de homens congelados, mutilados e doentes que o encaravam em silêncio.
— Em fila! — ele berrou, a voz sobrepondo-se aos soluços fracos que ainda vinham da cabana onde o garoto jazia sem os dedos. — Em fila para a prata, seus cães sarnentos! O trabalho acabou! Peguem seu pagamento e sumam. Estão dispensados!
