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Language:
Português brasileiro
Series:
Part 1 of O Caçador e a Senhora da Floresta
Stats:
Published:
2026-06-22
Updated:
2026-07-12
Words:
15,860
Chapters:
4/24
Bookmarks:
1
Hits:
31

Segunda Oportunidade

Summary:

Atormentada pela perda de Wulfgar, Catti-brie decide deixar o Salão de Mitral e cair na estrada. Um pesadelo marítimo assombra Lyra, impulsionando-a a se juntar à arqueira e a Drizzt Do'Urden. Após anos caçando piratas a bordo do Sea Sprite, um caçador de piratas suspeito e uma embarcação à deriva — [spoilers a partir daqui] — os guiarão por um caminho forjado em corrupção, comércio de escravos e a vingança silenciosa de criaturas das profundezas do mar. Status: Totalmente pré-escrita. Atualizações todos os domingos.
"Um herói toma a estrada porque essa é a verdade de seu coração. E assim tem sido desde então. Isso é ser um herói. É buscar a verdade em seu coração onde ela estiver. É aceitar o risco de negar a segurança conveniente." Drizzt Do'Urden

Notes:

Nossa série, O Caçador e a Senhora da Floresta, é uma releitura de Faerûn com uma abordagem mais realista e íntima. Nos primeiros volumes, nós usamos o sistema D&D 3.0 como nossa base mecânica. Nossa construção de mundo introduz o conceito de exaustão mágica: há um limite para o uso de poderes, ditado pelas restrições físicas e mentais do conjurador.

Este primeiro volume, intitulado Segunda Oportunidade, opera dentro da linha do tempo de Passagem para o Alvorecer. Leitores de R.A. Salvatore identificarão as poucas semelhanças que permaneceram com a linha do tempo canônica; quer você tenha lido os textos oficiais ou não, você tem uma obra original aqui.

Você pode se perguntar por que começar este universo alternativo com Passagem para o Alvorecer. Na verdade, eu comecei com A Estilha de Cristal. A razão para iniciar a publicação com Passagem para o Alvorecer, reentitulado como Segunda Oportunidade, é prosaica. Minha prosa não era boa o suficiente nos rascunhos anteriores para merecer publicação. Assim, os volumes anteriores serão publicados como uma préquel em algum momento, para que você possa aprender como os caminhos de Drizzt e Lyra se cruzaram. Mesmo assim, conteúdo de volumes passados aparece como flashbacks ou citações dos personagens.

[Alerta de spoiler a partir daqui.] Em relação à psicologia, nosso mundo diverge do maniqueísmo virtuoso que permeia tanto os RPGs padrão quanto as obras de R.A. Salvatore. A inserção de um triângulo amoroso, ainda incipiente neste primeiro volume, cumpre a função de explorar conceitos como dualidade e individuação. É um universo mais humano e visceral, sem deixar de lado as aventuras que amamos.

Para aqueles interessados na mecânica do sistema, vale a pena destacar a build da personagem original, Lyra Redbark. Ela sobe de nível nos livros seguintes, mantendo paridade de poder com Drizzt Do'Urden. Neste volume, ela opera como uma Druid 6 / Shifter 10, focada no uso do talento Monkey Grip para empunhar espadas superdimensionadas, combinando isso com habilidades de Pounce para executar cargas aéreas letais em seus inimigos.

Nós sabemos que há algum debate sobre a presença de cenas íntimas entre personagens e se elas são ou não necessárias. Minha visão particular é que não há realismo se você narra uma história entre indivíduos adultos onde uma parte relevante da vida de um indivíduo, neste caso, sua intimidade, não é mostrada. Há uma escolha narrativa para mostrar a vida íntima às vezes como uma recompensa para o herói, às vezes como uma metáfora para seu desenvolvimento psicológico, e às vezes como um contraponto importante a um mundo tão árido e violento quanto Faerûn. Aproveite a leitura!

Chapter 1: Prologo: A arquitetura do Nada

Chapter Text

O sepulcro de kelvin era uma cicatriz geológica, uma muralha de granito e gelo que parecia ter sido erguida como um vigilante eterno do extremo norte. À noite, sob a lua minguante que lançava sombras cor de hematoma sobre as geleiras, a montanha parecia respirar. Seu hálito era um vento catabático que descia dos picos como um monstro invisível, caçando qualquer traço de calor com dentes de geada.

A quilômetros dali, na tundra plana e escura, Bryn Shander brilhava. Era um ponto ridículo de luz amarela, uma constelação doméstica e frágil flutuando no oceano de escuridão. Para os homens na escavação, aquele brilho não era uma promessa de refúgio; era uma zombaria, uma lembrança de que o mundo continuava a girar, beber e rir enquanto eles apodreciam.

Na vala de escavação que parecia uma ferida aberta na neve suja, o som era o grunt rítmico de ferramentas cegas contra a pedra congelada. Cinquenta homens, reduzidos a silhuetas maltrapilhas, moviam-se com a lentidão dos condenados. O cheiro era uma mistura ofensiva de suor velho acumulado sob camadas de peles gordurosas, urina congelada e a doçura doentia da gangrena nascente.

No alto de uma crista, dois guias locais de Dez-Burgos se protegiam atrás de uma formação rochosa. Suas capas de urso estavam brancas de geada, pesadas como armaduras.

— Olhe para o rosto daquele sulista perto da borda — murmurou Jarl, um homem cujo nariz, quebrado em três lugares diferentes, estava roxo e descascando devido ao frio. Ele cuspiu, o catarro congelando antes de atingir o chão. — Aquele com a barba rala e suja de terra. Juro por Tempus, ele tem mais piolhos do que dentes. Vieram das sarjetas de Luskan, trazendo suas doenças de bordel e piolhos do tamanho de feijões para as nossas tavernas limpas.

— Deixe-os cavar — respondeu Sten, o outro guia, cujo rosto era uma máscara de cicatrizes antigas de queimaduras de frio, os olhos apertados contra a ventania. Ele ajustou o arco longo nas costas. — Enquanto estiverem aqui, não estão em Bryn Shander roubando cavalos ou engravidando as filhas dos pescadores.

Lá embaixo, um som quebrou a monotonia. Um urro gutural, agudo e úmido.

Sten e Jarl olharam para baixo. Um operário jovem, pouco mais que um menino, cujo rosto estava contorcido em uma careta grotesca de agonia, as pupilas dilatadas revelando o terror puro, caiu de joelhos. Seus companheiros pararam, os rostos vazios, ocos de esperança, observando com a apatia de quem sabe que a única diferença entre eles e o ferido era o tempo.

O jovem, soluçando abertamente, os poucos dentes podres batendo, agarrou a luva direita. Era um trapo de couro em camadas, endurecido pelo gelo e pela gordura de rena. Ele puxou. O som foi um estalo seco, como casca de árvore sendo arrancada, quando o tecido colado à carne morta cedeu.

Três de seus dedos estavam expostos. Não eram vermelhos, nem roxos. Eram negros. Uma necrose fosca e perfeita, como se tivessem sido esculpidos em carvão marinho. O gelo atacou a carne morta imediatamente, cobrindo-a de geada.

— Voltem ao trabalho, seus merdas! — berrou o capataz, um homem baixo e atarracado com um rosto vermelho e inchado pelo álcool, vestindo uma capa de pele de lobo que cheirava a urina. Ele brandiu um bastão de madeira pesado, acertando o ombro de um operário que demorava a retomar o ritmo. — O gelo não se quebra com orações! Quebrem a pedra ou a montanha come vocês hoje à noite!

O som das picaretas retornou, mas mais arrastado, um coro de martelos cansados. Dois operários, com trapos imundos envolvendo seus rostos, os olhos vermelhos e lacrimejantes, agarraram o menino ferido e o arrastaram pela neve funda. Suas botas de couro rústico escorregavam no caminho gelado em direção a uma das cabanas miseráveis da encosta — uma estrutura de madeira apodrecida que parecia se curvar sob o peso da nevasca.

Dentro da cabina, o ar era espesso e fétido. O cheiro de gordura de baleia queimando em uma lamparina misturava-se ao odor de corpos não lavados. Eles jogaram o garoto sobre uma pequena mesa de madeira lascada no centro, sob a luz fraca. O menino choramingava, o rosto pálido e úmido de suor e lágrimas, os olhos fixos nos dedos negros.

— Seis meses... seis meses revirando essa merda de montanha — murmurou um dos operários, um homem com uma cicatriz que lhe dividia a bochecha, os dentes podres e incompletos chacoalhando. — E para quê? Buracos. Só buracos no Alvorecer. Ninguém diz o que procuramos. O silêncio deles me dá mais calafrios do que o vento.

— Se eles têm tanto ouro para nos manter aqui — respondeu o outro, cujo rosto estava coberto de pústulas de frio —, por que não trazem um mago de Luskan com seus olhos mágicos para farejar o que quer que estejam caçando? Por que nos fazem roer a pedra com os dentes?

Eles seguraram o menino contra a mesa.

— Segura firme — ordenou um homem mais velho que emergiu das sombras do canto, o rosto uma teia de rugas duras, os olhos calejados pela indiferença.

Ele forçou um cantil amassado de metal entre os dentes do menino. O líquido que desceu era Fogo de Gelo, uma bebida barata e potente de Dez-Burgos que queimava a garganta como solvente. O menino engasgou, tossiu e tossiu violentamente, mas bebeu.

— Rezem para Ilmater, o Deus Quebrado, se tiverem coragem — disse o velho, voltando-se e pegando um cutelo de cozinha rústico e pesado. A lâmina estava coberta de ferrugem alaranjada e cega, o fio castigado pelo uso brutal e impróprio. — A reza de vocês não vai ajudar, mas talvez os mantenha calados.

Dois operários prenderam os ombros e o braço do menino contra a madeira. A mão com os dedos negros parecia uma pedra negra e grotesca sobre a superfície lascada da mesa.

O menino arregalou os olhos ao ver o cutelo enferrujado. O álcool não era suficiente para apagar o terror.

O velho ergueu o cutelo. O ar na cabana parecia ter parado.

CRUNCH.

O som foi seco, úmido e horrível. O cutelo cego não cortou; ele esmagou carne morta e osso congelado. O menino urrou, um grito gutural que abafou a ventania lá fora, jogando o corpo para trás com tanta força que os homens que o seguravam tiveram que usar todo o peso para mantê-lo na mesa. Sangue espesso e escuro espalhou-se sobre a madeira.

O velho ergueu a lâmina enferrujada novamente, o rosto impassível, calejado pela brutalidade de faerun.

— Um já foi — murmurou, o hálito condensando na luz fraca. — Faltam dois.

 

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A montanha uivava, mas o segundo urro do menino dentro da cabana cortou a ventania com a precisão de vidro estilhaçado. A porta de madeira podre havia ficado entreaberta. Um retângulo de luz amarela e doentia, alimentada por gordura de baleia, derramava-se sobre a neve pisoteada. Alguns operários haviam parado ali perto, encostados nos batentes congelados, os rostos enrijecidos e vazios de empatia, assistindo ao açougueiro trabalhar como se fosse um teatro de horrores barato.

Mais abaixo, no ventre da vala, a monotonia não parava. Um operário com a barba grudada em crostas de ranho e gelo cavava com a apatia de um boi no matadouro. A picareta desceu mais uma vez, mas o estalo que se seguiu foi diferente. Não o baque surdo de ferro contra rocha, mas um tinido agudo, quase musical.

A escuridão do buraco cedeu. Um feixe de luz azulada, pura e antinatural, sangrou pela fenda no gelo. A luz incandescente subiu e banhou o rosto do operário, revelando sem piedade cada poro sujo de terra, as marcas antigas de varíola, as veias estouradas em suas bochechas pálidas. Ele recuou, deixando a picareta cair, os lábios rachados tremendo. Não sabia o que fazer diante de tamanha beleza. Seus vizinhos de vala pararam, atraídos como mariposas febris para uma chama, amontoando-se ao redor da cratera luminosa.

Alguém assobiou. Um som fino que cruzou o desfiladeiro.

O líder da escavação, o capataz atarracado com a capa de pele de lobo, estava de costas para a vala. Ele observava a porta da cabana distraidamente, escutando os gritos do garoto com uma expressão de tédio, enquanto usava uma isca de pederneira para acender um cachimbo curto, esculpido em osso escurecido. O tabaco barato cheirando a estrume seco e alcatrão. Ao ouvir o assobio, ele se virou, irritado por ter seu fumo interrompido.

Quando viu o pilar de luz azul pintando a neve de anil, o cachimbo escorregou de seus dentes podres e caiu na neve.

Ele correu. Suas botas pesadas esmagando o gelo com ferocidade.

— Cavem! — ele cuspiu, empurrando um homem magérrimo para o lado com o ombro. — Cavem mais fundo, seus desgraçados!

O operário bateu novamente. O bloco de gelo cedeu de vez. O brilho azul explodiu para cima, tão agudo e intenso que os homens gemeram, erguendo antebraços fedorentos envoltos em trapos para proteger os olhos que já lacrimejavam. O azul era frio, mas queimava a retina.

O capataz praguejou, recuando um passo. Ele girou nos calcanhares e correu em direção à sua mochila encostada em uma rocha, voltando momentos depois apertando um saco de aniagem imundo contra o peito. Com as mãos trêmulas e grossas, ele desamarrou o cordão de couro.

O que ele tirou de dentro ofendia a sujeira do acampamento e a brutalidade da montanha. Era uma pequena e delicada redoma de vidro soprado com uma perfeição absurda, assentada sobre uma base de prata e latão entalhada com runas polidas. O contraste com o cenário lúgubre era grotesco; o objeto pertencia a palácios de reis ou torres de magos, não à lama da Espinha do Mundo.

O capataz limpou as mãos imundas nas calças com violência, esfregando a pele até arder. Puxou do bolso um papel amassado, manchado de banha e sangue seco. Apertando os olhos miúdos contra a luz azul e o vento, ele leu as sílabas ásperas da instrução mágica, mastigando as palavras com sua língua ignorante.

A redoma zumbiu. As runas na base acenderam com um brilho dourado e morno. A magia se ativou com um clique silencioso.

— Para trás, seus vermes! Para trás! — ele rosnou, distribuindo cotoveladas e empurrões bruscos, afastando a muralha de operários que se amontoava em volta da luz hipnótica.

Ele colocou a redoma aberta sobre a neve com cuidado reverencial e se abaixou. No fundo da cratera de gelo escavada, repousava a fonte: um pequeno fragmento cristalino, aguçado em todas as arestas, latejando com aquele azul profundo.

Com as pontas dos dedos ásperos, ele pinçou o cristal. O frio da pedra mágica parecia querer morder sua pele, mas ele foi rápido. Colocou o item no centro da base de prata. A redoma de vidro se fechou sobre ele como uma guilhotina suave.

Imediatamente, a magia de contenção entrou em vigor. O cristal perdeu a luz. O feixe azul que rasgava a noite foi asfixiado, e o fragmento estremeceu, apagando-se por completo. Enclausurado no vidro, parecia agora apenas um cristal opaco.

O capataz respirou fundo, o ar gelado rasgando seus pulmões. Um sorriso predatório esticou seus lábios, revelando gengivas cinzentas. Ele pensou em Vaelin Dosemen, o mago que o contratara. Parecia um lorde sulista. O homem de voz sedosa que pagava em platina maciça e prometia riquezas para quem desenterrasse o fragmento perdido.

Guardando a redoma de volta no saco sujo, ele o amarrou firmemente.

Ele virou-se então para a horda de homens congelados, mutilados e doentes que o encaravam em silêncio.

— Em fila! — ele berrou, a voz sobrepondo-se aos soluços fracos que ainda vinham da cabana onde o garoto jazia sem os dedos. — Em fila para a prata, seus cães sarnentos! O trabalho acabou! Peguem seu pagamento e sumam. Estão dispensados!