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tonta no amor

Summary:

— Eu, Lorena! – Percebendo o quão ridículo aquilo soava, corrigiu-se — Digo... o meu nome é Lorena.

— É um nome lindo. Igual você.

Onde Lorena começa o segundo ano do ensino médio em uma escola nova, esperando playboys e patricinhas insuportáveis, e encontra o amor de sua vida em uma aula de matemática. Agora só precisaria conseguir falar com ela sem parecer uma tonta. Talvez se fingisse de burra para conseguir uma monitoria particular da ruiva mais linda de São Paulo.

Inspirada na música "Stupid With Love" do musical de Mean Girls, com algumas referências ao plot e ao filme/musical, mas sem seguir rigidamente esse roteiro.

Notes:

finalmente consegui um período de paz das matérias e trabalhos da faculdade, e quando parei pra ouvir meus musicais favoritos, me deparei no meio da minha cantoria da belíssima farofa que é Mean Girls The Musical (quem falar o contrário está jurado) e pensei que a tontice da cady apaixonada pelo aaron combinaria muito com loquinha.

fiquem com uma fanfic bobinha, que deveria ser uma one-shot mas que deve acabar com três capítulos, porque fiquei inspirado. dedico aos loquinhers fãs de teatro musical.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: calculust

Chapter Text

Era o primeiro dia de aula na escola nova, e Lorena já não podia estar mais de saco cheio.

Em primeiro lugar, porque não suportava o fato de que o rumo de sua vida era ditado pelo pai, o grandioso Santiago Ferette, benfeitor da porta para fora e um tirano da porta para dentro. Por puro capricho do patriarca, que não se deu por satisfeito com o apartamento da família em que Lorena e Leonardo cresceram – o qual já ocupava um andar inteiro do antigo prédio –, mudaram-se para uma enorme cobertura em um edifício ainda mais luxuoso em Higienópolis. 

A porta de entrada era alta, larga e pesada o suficiente para resgatar metade do Titanic, o porcelanato que revestia o piso era tão branco e tão liso que um desavisado poderia acabar ou cego ou caído, e o pior de tudo, as janelas, além de altas como uma coluna grega, não davam chance alguma a quem quisesse manter qualquer senso de privacidade. Em resumo, o novo apartamento era o suprassumo do Comendador Ferette: brega, excessivamente burguês, frio e vigilante. Não era à toa que Lorena odiava o lugar.

Para além da necessidade de esfregar na cara de todos o luxo que podia bancar, o homem usou como argumento para a mudança repentina a maior proximidade que poderia ter aos maiores contribuidores – lê-se: máquinas de dinheiro – de sua fundação; afinal, “O Jardim Europa só tem rico metido a celebridade, os verdadeiros homens de negócios estão em Higienópolis!” Não somente eles, como também seus filhos, jovens tão polidos, tão ricos, tão mimados e tão presunçosos quanto os pais.

— Vai ser ótimo para os meninos, Zenilda. O Leonardo está na idade de se preparar para assumir a Fundação e os negócios da família, e aquela escola que eu te falei tem vários programas de administração. Todos os meus colegas colocam os filhos lá, o moleque ainda vai ter vários contatos para o futuro. É uma oportunidade de ouro!

— Engraçado que você só fala do Léo, mas e a Lorena? Ela estava tão animada que a escola ia começar a sediar o Sarau Literário, e você sabe que é importante pra ela.

— E eu lá tenho tempo ou paciência pra pensar nas frescuras que essa menina gosta, mulher? Se quiser ler, pode ler na escola nova também, que tem uma biblioteca enorme. Melhor ainda se aproveitar e começar a ler alguma coisa útil, porque lá não tem aqueles livros de comunista em que a cara dela fica enfiada o dia inteiro.

— Santiago, não fala assim da nossa filha…

— Sua filha, porque minha ela vai ser quando lembrar do sobrenome que tem e tomar juízo. Aliás, a escola nova vai ser o lugar perfeito pra isso, já que vai conhecer garotos muito bem criados, de família boa. Quem sabe já não arruma um futuro marido?

Lorena estava saindo do quarto para descer as escadas e fazer um lanche quando ouviu a conversa. Dormiu com fome aquela noite.

No auge de seus 15 anos, já sentia-se como uma marionete controlada pelo pai, que deveria agir, mover-se e comportar-se como ele queria, só porque ele queria; quase uma boneca de voodoo que sentia as dores de todos os destemperos daquela farsa de homem. Foi obrigada a mudar de endereço e de escola, a deixar suas amizades e seus planos originais para o ensino médio, e como se já não fosse o suficiente, agora teria que passar os últimos dois anos da educação básica em um lugar em que odiaria estar.

Por isso, mal começara o primeiro dia de aula e já carregava consigo um enorme desdém. Desdém daquele prédio, não menos caro que sua antiga escola, mas muito menos acolhedor, com a paleta de cores que resumia-se a diferentes tonalidades de branco que se esforçavam para transmitir um aspecto de limpeza, quase asséptico, ao lugar – como se aquilo fosse capaz de mascarar a sujeira do dinheiro dos pais que sustentava aquela instituição. Para além do desdém da parte material, o asco dos adolescentes que impestavam os corredores com uma mistura de perfume caro quase tão insuportável quanto os comentários preconceituosos e elitistas que ladravam em alto e bom som nos corredores e durante as aulas – porque é claro que os mini reis e rainhas também desrespeitavam os professores.

Enquanto saía da primeira aula, que havia sido de geografia, Lorena resmungava para si mesma uma mistura incognoscível de ofensas à garota que a proibiu de sentar-se na cadeira da primeira fileira porque “meu namorado é quem senta aqui, queridona” e de uma reclamação sobre a escola seguir o modelo estadunidense de obrigar os alunos a deslocarem-se para outras salas entre uma aula e outra. Para além de cansativo, cafona. A cara de Santiago Ferette.

Foi uma das primeiras a chegar na sala em que teria aula de matemática, então a maioria dos assentos ainda estava disponível. Sentou-se próxima à parede direita antes do meio da fileira, na tentativa de reduzir tanto o contato com outros alunos quanto o foco do professor em si. Não ia mal na matéria, apesar de possuir muito mais afinidade com as áreas de linguagens e humanas, mas sempre dedicou-se aos estudos de maneira geral e tirava notas boas em tudo. Mesmo assim, não queria ser uma das primeiras opções para responder às perguntas do professor Mauro, que, além de ser um gênio da matemática, tinha um gênio forte e “não tolerava gente burra”. Pelo menos era isso que tinha ouvido falar de outros colegas, e não estava particularmente ansiosa para servir de exemplo dos critérios de burrice do homem.

Aguardou o horário da aula imersa no livro de bolso que havia levado consigo para passar o tempo, já que ainda não tinha amigos para ficar conversando. O livro em questão era A Reunião de Poesias de Adélia Prado, autora que a sua antiga professora de língua portuguesa, por quem nutria grande admiração – e talvez um mini crush, porque toda jovem lésbica tem um em alguma professora em um ponto da vida –, havia lhe apresentado após ler o poema que a garota escreveu no rodapé de uma prova, incentivando-a a investir em sua paixão por poesia. 

— Licença… desculpa atrapalhar, mas posso sentar aqui na sua frente? 

Talvez a voz que interrompeu sua leitura para perguntar algo tão idiota fosse aumentar a irritação de Lorena – porque é claro que qualquer aluno pode sentar em qualquer cadeira disponível, eu não sou a loirinha chata da aula de geografia –, caso não pertencesse à menina mais bonita que já havia visto em toda sua vida.

A partir do momento que levantou o olhar e identificou a dona da voz melódica que lhe fez uma pergunta que já não parecia mais tão idiota assim, começou a registrá-la em uma sequência caótica e desordenada de gay panics.

A mais nova protagonista dos seus sonhos tinha os cabelos ruivos vibrantes um pouco abaixo dos ombros, ondulados do tipo mais produzido-por-babyliss do que o dormi-com-cabelo-um-pouco-molhado que caracterizava os de Lorena. O uniforme engomadinho da escola lhe caía perfeitamente, como se tivesse sido ajustado em um caimento perfeito para sua silhueta por algum mestre da moda – o que foi exatamente o que aconteceu, como descobriria algum tempo depois. Ela era mais baixa que Lorena, dava pra ver, mesmo que no momento pairasse sobre ela, já que uma estava em pé e a outra sentada.

À primeira vista – ou primeira secada, como talvez seja mais fidedigno –, já viu que a garota era inteiramente linda, e previu que dali em diante iria reparar muito mais detalhes porque faria questão de deixar de prestar atenção na matéria para olhar para ela. Entretanto, o que mais lhe encantou foram os olhos. Uma imensidão de castanho em que Lorena gostaria de se perder, brilhantes como se possuíssem verdadeiros refletores em seu interior, e, desde aquele primeiro momento, atentos e calorosos, capazes de convidar quem os mirasse com atenção a aconchegar-se em seu olhar que Lorena posteriormente descreveria como honesto.

Com Lorena em transe, a ruiva tomou o silêncio e sua expressão quase assustada como um sinal para justificar sua pergunta repentina.

— Eu tô perguntando porque imagino que vá atrapalhar um pouco a sua visão do quadro, mas a única outra cadeira disponível é mais lá atrás ainda e, bem, eu tô de lente de contato hoje então não dá pra saber, mas eu sou míope, então ia ser muito difícil pra conseguir enxergar. Desculpa mesmo atrapalhar sua leitura.

Lorena finalmente saiu do estado de choque e lembrou que tinha de responder a outra garota.

— Não, tudo bem! Não precisa se justificar. Fica à vontade. Não vai me atrapalhar. Mas se atrapalhar também tá tudo bem, é só eu arrastar a cadeira um pouco pro lado, não vai fazer mal. Talvez alguém até implique, porque todo mundo nessa escola implica com alguma coisa. Menos você, você parece ser legal. Já que você é legal, não tem problema… pelo menos eu acho, porque a gente não se conhece, né? Nem sei o seu nome ainda, mas só de você ter perguntado se podia sentar aqui já tá melhor que a maioria desse lugar e-

Ótimo, agora além da cara de peixe morto, tinha virado uma matraca falando nada com nada e passando vergonha na frente da menina mais linda que já tinha visto. Parabéns, Lorena. 

— Bem, então… — pigarreia mais alto do que deveria, o que aumentou sua vontade de se enfiar em um buraco — é isso. Fica à vontade.

Com a licença concedida, a ruiva põe no chão sua mochila – verde e lisa, mais simples do que o esperado pelos padrões dos ricos cafonas e espalhafatosos que compunham o ecossistema daquela escola – e acomoda-se na cadeira da frente, enquanto Lorena ainda sente as bochechas queimarem de vergonha e recolhe-se ainda mais em seu livro.

— Eduarda.

Lorena é pega de surpresa, e sente a breve impressão de estar tonta.

— Oi?

— É Eduarda, o meu nome. Você disse que não me conhecia, nem ao menos sabia meu nome. Agora você sabe.

— É… é um nome legal. — "Sério que esse foi o melhor que eu consegui? Burra, burra!"

— Legal… igual eu?

Parecia que Eduarda, como agora Lorena sabia que a garota se chamava, estava em uma campanha pessoal para fazer todo o sangue da morena parar em suas bochechas.

— Agora que você sabe meu nome, pode me achar legal também. Obrigada, aliás. Não é sempre que alguém aqui é simpático assim, como você. Sei que ainda não sei o seu nome, mas não sou tão restrita com os limites de quando posso começar a gostar de alguém.

Ai, meu Deus, ela disse gostar? 

Foco, Lorena Ferette, diz o seu nome pra ela!

— Eu, Lorena! – Percebendo o quão ridículo aquilo soava, corrigiu-se – Digo… o meu nome é Lorena. 

— É um nome lindo. Igual você.  

De queixo caído, Lorena não conseguiu vociferar mais do que alguns pequenos miados inaudíveis e irreconhecíveis antes do professor Mauro anunciar o início da aula e Eduarda virar o corpo de volta para o quadro, de costas para a morena.

A partir daquele dia, Lorena riscaria as datas no calendário e contaria os tiques do relógio para as aulas de matemática às segundas e quartas.

Não conversaram mais naquela aula, até porque no primeiro dia ninguém tinha a coragem de desafiar o desgosto do professor por conversas paralelas. Ainda. 

O que não impediu Lorena de se perder nos cabelos sedosos, nos olhos brilhantes, no nariz desenhado e no perfume inebriante da menina que parecia ter saído diretamente de um filme de romance, daqueles que te fazem querer viver uma paixão louca e intensa, com beijos na chuva e juras de amor eterno.

Talvez o seu momento de menor dignidade tenha sido quando quase deixou escapar um gemido ao ver Eduarda retirar o blazer do uniforme e expor seus braços surpreendentemente definidos para uma garota de sua idade. “Ela deve ser atleta, com certeza” foi a primeira coisa que passou pela cabeça da morena. A segunda foi uma súbita imagem da ruiva em roupas de treino que deixavam pouco para a imaginação, molhada de suor e levantando peso na academia. De repente, a escola nova não parecia mais tão ruim assim.

Eduarda não aparentava perceber os olhares que a penetravam, profundamente focada no conteúdo da aula.

“Além de linda, é inteligente. Obrigada, matemática, que pôs esse pedaço de mau caminho na minha frente! Eu definitivamente gosto muito mais de você agora.”

Era claro: ela precisava daquela mulher. E iria conseguir, se não carregasse o azar suas prévias experiências falidas de romance.

Quando tinha por volta de 6 anos, era apegada até demais em uma das amiguinhas da escola, cujo nome nem conseguia mais lembrar. Nunca esqueceu, porém, de como a menina a chamou de esquisita quando disse que queria que elas se casassem quando fossem adultas, e nem da expressão de desgosto no rosto de seu pai quando ouviu a história dos pais dela, que escorriam veneno pela boca ao falar da garotinha. Tão pequena, e já tão errada.

A última vez havia sido aos 13 anos, em uma viagem em família para o sul da França, onde conheceu Zoé, uma menina da mesma idade, filha do casal dono da vinícola favorita de Zenilda na região. Ela era esperta, gostava dos mesmos livros românticos trágicos que Lorena, que geralmente não eram lidos pela faixa etária a que pertenciam, e parecia a primeira pessoa interessada no que ela tinha para dizer em anos.

Passaram dois dias conversando sobre literatura, sobre suas famílias, sobre suas vidas na França e no Brasil, sobre tudo que puderam. Zoé elogiava o francês perfeito de Lorena, ainda que ainda com um pouco de sotaque abrasileirado. Dizia que era charmoso, o que deixava a morena corada.

Foi com ela que Lorena deu seu primeiro beijo. Na verdade, selinho. Um tímido e breve encostar de lábios de duas pré adolescentes que ainda tinham um mundo inteiro para descobrir. Lorena pensou estar nas nuvens.

Mas assim como Ícaro, que voou tão perto do Sol que suas asas derreteram, a garota logo despencou em queda livre em direção à dura tensão da água do mar – ou neste caso, da realidade. Logo quando se afastaram, Zoé lhe disse que não poderiam fazer aquilo novamente, porque seus pais poderiam pegá-las no flagra a qualquer momento, e que era melhor que elas não mantivessem contato quando Lorena voltasse para o Brasil.

Mas independente desse passado particularmente fracassado, teria sucesso desta vez. Tinha que dar certo, porque já conseguia envisionar Eduarda e ela com duas crianças ruivinhas e um gato ranzinza habitando uma casa aconchegante, cheia de porta-retratos da família delas. 

“Ok, talvez seja melhor falar com ela, de fato, antes de escrever nossos votos e escolher os nomes das nossas filhas. E do gato, claro.”

Estava decidido, então, que Lorena, que sempre foi o que ela descrevia como tonta no amor, de ter peito na vida e fisgar aquela ruiva maravilhosa que roubou seu coração. Se havia aprendido a ler os clássicos literários desde muito cedo, poderia aprender a jogar no amor agora.

Quando o sinal tocou, pegando a mais nova de surpresa, já que não havia saído de seus pensamentos, Eduarda foi a primeira a levantar. Andou diretamente até o professor e engatou uma conversa sobre uma possível monitoria de matemática, uma vez que essa atividade seria estendida aos alunos do segundo ano a partir daquele semestre. Lorena chegou a esperar por algum tempo, mas resignou-se a tentar conversar com a garota na próxima vez em que se vissem, já que se demorasse mais um pouco chegaria atrasada na aula de literatura, a única que despertou seu interesse quando viu sua grade de horários. Bem, até aquela aula de matemática.

“Tá certo, o início da Operação Amor da Minha Vida talvez não tenha sido o melhor, mas a gente vai se ver mais vezes, né? Vão ter outras oportunidades. Meu plano está só começando.”

 

 


 

 

Já era a hora do intervalo, e nada de Eduarda. 

Lorena procurou obsessivamente por qualquer vislumbre dos cabelos de fogo de uma aula para outra, mas não encontrou nada. Pelo visto, só teriam as aulas do professor Mauro juntas. Realmente, Deus não dá asa à cobra.

Engolia o choro que insistia em querer sair enquanto seguia meio perdida pelos corredores com seu sanduíche de pepino e cream cheese vegano nas mãos e a bolsa tipo de carteiro – porque é claro que a fashionista dos Ferette não teria um mochila normal – em busca do refeitório da escola. 

Quando viu a imensidão de mesas toda ocupada por adolescentes barulhentos que se dividiam em várias panelinhas, sentiu uma súbita vontade de vomitar, tanto foi o nervoso que lhe abateu no momento. Já era difícil o suficiente entrar em uma escola nova no meio do ensino médio, imagine sendo uma pessoa tímida que depende de um grupo para lanchar em uma mesa?

Contra todo o seu bom senso, foi lanchar no banheiro. 

Estava prestes a dar a terceira mordida em seu sanduíche, que agora parecia mais deprimente do que nunca, quando se assustou com fortes batidas na porta da cabine em que se escondia.

— Você está aí há um bom tempo… ou você está se drogando ou está muito constipada por uso de drogas!

Lorena sabia que seria taxada de esquisita, mas de drogada

— Não é nada disso. – Disse, saindo de seu casulo totalmente anti-higiênico e vergonhoso para desmentir a acusação e salvar o que restava de sua dignidade – Eu só tava…

— Oi! Eu sou a Sam.

— E Je M’appelle Maggye.

Ainda um tanto atônita por todos os sustos e estranhezas que aquelas meninas a proporcionaram em um espaço tão curto de tempo, Lorena percebeu que talvez aquelas duas garotas distintas – para não dizer loucas – fossem sua melhor chance em fazer alguma amizade naquele lugar.

— Bem… oi. Meu nome é Lorena. Eu sou nova aqui. Acho que deu pra perceber.

— Realmente, não é todo dia que a gente encontra alguém se refugiando no banheiro pra lanchar. – Disse a garota de pele negra e beleza estonteante, que havia se apresentado como Maggye – Que situação, hein, gata?

— É… eu sei como parece. Juro que não costumo fazer essas porquices.

Se fosse possível que um ser humano se transfigurasse em um tomate, esse certamente teria sido o destino de Lorena.

— Todo mundo já passou pelo vale da sombra da morte nessa escola alguma vez, minha flor. – Dessa vez, foi Sam que se manifestou, e Lorena não pôde deixar de reparar rapidamente que a garota era estranhamente muito parecida consigo – E é por isso que nós duas estamos dispostas a te adotar e te guiar por este pântano de porcelanato!

O amor de sua vida e duas amigas no mesmo dia. Talvez a sorte estivesse do lado de Lorena Ferette, afinal.

— Nossa, muito obrigada! Eu tô realmente perdida por aqui. 

— Bonitinha do jeito que você é, vai se achar rapidinho. Agora vamos, que a Maggye Só Para Baixinhos e sua Paquita Samantha vão te apresentar este umbral da burguesia paulistana!

— Por que eu sou a paquita?!

— Porque eu sou a protagonista, garota. Se liga!

A novata alternativa o olhar entre as duas amigas, incerta se aquilo era uma implicância de amigas ou uma real discussão. Percebendo o desconforto que estampava seu rosto, as  garotas entreolharam-se e suavizaram suas feições. Sam – Samantha, que deveria ser seu nome verdadeiro – foi quem falou primeiro.

— Olha, amiga, não se preocupa, tá? Sei que a gente te assustou um pouco, mas fica tranquila. Vamos ficar do teu lado.

— Pois é. A gente sabe que começos não são fáceis, ainda mais em um ambiente hostil desses, então estamos contigo, mesmo. Tá certo?

— Tá certo. – Assente Lorena, visivelmente mais tranquila.

— Dito isso – Maggye junta as mãos com um estalo – uma vez eu li numa ecobag que “tudo se encaixa em algum lugar”, então mantenha a mente aberta, e vamos lá pra fora para você começar sua vida nova!

Cada uma das garotas pega em um braço de Lorena e a guiam de volta para o refeitório, em direção às mesas ocupadas pelos grupinhos muito fechados e muito barulhentos.

Enquanto as duas alternavam entre si para explicar, apontando para uma mesa de cada vez, qual panelinha era qual, quem as integrava, e a reputação que tinham na escola – certamente os cabelos volumosos das meninas guardavam muitas fofocas –, os olhos de Lorena param em uma mesa um pouco mais ao fundo, seu olhar captando o ruivo como se sofresse ação de uma força magnética em sua direção.

Eduarda conversava animadamente com um garoto que parecia mais velho, com a barba já quase completa, e com cabelos lisos escuros que caíam para os lados, emoldurando seu rosto. Ele era alto, forte, tinha um sorriso charmoso e, naquele momento, fazia a ruiva quase cair da cadeira de tanto rir.

"Ótimo, o amor da minha vida está com um galã de novela das nove. Simplesmente ótimo."

— Quem são aqueles ali, na mesa perto da janela? A ruiva e o bonitão.

Samantha e Maggye novamente se entreolharam, mas em um teor mais sugestivo dessa vez.

— Eduarda Fragoso, atleta número um de tênis, e Paulo Reitz, capitão do time de futsal.

— Ou simplesmente Juquinha e Paulinho.

— Juquinha?

— É como ele chama ela. Os dois querem ser investigadores; o pai do Paulinho é policial e chama ele assim há tanto tempo que o apelido pegou em outros ambientes da vida dele, e como eles planejam trabalharem juntos, ele insistiu que ela deveria ter um também. Parece que “Juca” é como chamam os estagiários na polícia, ou algo assim, e como ela é mais nova que ele, virou a Juquinha.

"Então eles são tão melosos que ainda queriam trabalhar juntos e se davam apelidos carinhosos. De novo, simplesmente ótimo."

Por outro lado, se a visão de Eduarda suada na academia que havia imaginado mais cedo era deliciosa, imaginá-la de farda e distintivo conseguia ser ainda melhor.

— Ficou interessada, Lore?

— O QUÊ? – Lorena se engasga brevemente com o suco natural que tomava, e recebe algumas batidinhas nas costas de Samantha – Não! Claro que não. Por que eu estaria interessada em alguém que claramente já tem namorado? Óbvio que não. Foi curiosidade, só isso.

— Engraçado, porque ninguém aqui falou sobre em quem você estava interessada. Inclusive, pensei que fosse o Paulinho, já que você até chamou ele de “bonitão”.

Ainda dava tempo de cavar uma cova para si mesma e deitar nela?

— Bem.. eu… é…

— Relaxa, gata. Te muita gente escrota por aqui, mas você deu a sorte de encontar um dos poucos núcleos sensatos dessa espelunca. Eu mesma sou filha de dois homens muito chiques e muito bem casados, e a Sam é do tipo que caiu na rede é peixe.

— Ela quer dizer que eu sou bi, amiga.

— Não somente bi, como uma safada, né? Pense que eu esqueci que você tá enrolando a Lica e o MB ao mesmo tempo, pra você ver.

— Porra, não precisa me expor, criatura!

— Estou apenas apresentando tudo e todos para nossa mais nova joia, amiga.

— Eu vou perdoar só porque foi pra Lorena.

— Obrigada, eu acho…?

— Mas vem cá, fala pra tia Maggye, babou ou não babou pela ruivinha?

— É… talvez um pouco… — Se estás no inferno, abrace o capeta — A gente tem matemática com o Mauro juntas, e ela chegou em mim perguntando se podia sentar na cadeira na minha frente. Nisso eu meio que me embananei toda e acabei falando que ela era legal no meio do vômito de palavras que lancei, e aí ela disse que eu também era legal e que meu nome era lindo igual eu.

Maggye e Samantha a encaravam com os olhos arregalados.

— Uau. — Disseram ao mesmo tempo.

— Pois é, mas isso não importa, porque ela claramente tá com esse Paulinho que além de parecer um galã de novela, vai trabalhar junto com ela, então…

As suas recém-amigas explodiram em uma gargalhada, aumentando mais ainda seu estado de desorientação. Talvez realmente fosse passar mal.

— Ô, Lore — diz Sam, rindo — mais sapatona que a Juquinha só duas dela!

— Ela e o Paulinho são praticamente irmãos. — Continuou Maggye — A Gerluce, namorada dele, até chama ela de ‘cunhadinha”. A Eduarda é praticamente a filha-teste deles.

E não é que Deus existe?

Naquele momento, uma moça de cabelos ondulados e batom vermelho que poderia ser considerado forte demais para aquela hora da manhã, caso não ornasse perfeitamente com sua beleza quase divina, aproxima-se dos dois amigos com três latas de refrigerante, coloca-as sobre a mesa e senta-se ao lado de Paulinho, que passa o braço direito por seu ombro.

Lorena pensava que nunca havia ficado tão feliz com o relacionamento alheio.

— Então, bem… ela tá livre?

— Estar solteira está, mas não sei se vai querer um relacionamento, depois da Teca.

— Quem é essa?

— Ela e a Eduarda tiveram um lance ano passado. A Duda queria um relacionamento sério, mas a Teca era muito porra louca pra isso, até não-monogâmica ela é. O problema é que ela não quis largar o osso, porque a Juquinha tem uma pegada de deixar qualquer uma sem ar, pelo o que os corredores dessa escola revelam, e ficou iludindo a garota. Até ela encontrar a Teca se agarrando com uma menina do terceiro ano durante o horário do “cursinho” dela no mascote do time de futsal.

— Ela fazia a menina vestir a fantasia do mascote?

— Não, as duas se agarravam dentro da fantasia do mascote.

— Misericórdia…

— Enfim, isso foi em agosto do ano passado, e desde então ela não se envolveu com mais ninguém. E olha que antes da demônia de franja repicada ela teve suas aventuras. A fofoca que corre não é à toa.

— Não sobrou nada pra mim, é isso?

— Opa, também não é assim! Você é, de longe, uma das pessoas mais lindas que qualquer um aqui vai ver na vida, além de com certeza ser inteligente pra caramba. Seu rostinho angelical já me entrega que seu boletim só não dá mais inveja que esse cabelo sedoso e esses olhos verdes.

— Além do mais, ela já até deu em cima de você. Fala sério, quem diz “seu nome é lindo, igual você”, se não estiver dando mole? Ainda mais ela tendo o charme sapatônico que tem. Vai enganar outra simpatizante, eu não.

— O que eu faço, então? Eu não sou exatamente a melhor no que se trata de amor. Posso até ser inteligente, mas sou absurdamente tonta quando gosto de alguém. O máximo que já fiz foi dar um selinho em uma garota que me dispensou logo depois, e isso faz anos. Talvez não haja esperança para o meu caso.

Maggye segura suas mãos e olha no fundo de seus olhos.

— A gente disse que iria te ajudar, não disse? Pois bem, se o que você quer é a Eduarda Fragoso, a Eduarda Fragoso você terá.

— Exato. — Continuou Sam — Tá na cara que vocês são perfeitas uma pra outra. É só questão de construir a intimidade. Daqui a algumas semanas, ela não vai nem lembrar da fuça da malucona. Tonta ou não, ela vai te ver de verdade, e vai gostar de você.

— Confia na gente.

Lorena não sabia quem era mais doida, Maggye e Samantha por acreditarem fielmente que conseguiriam fazer Eduarda gostar de Lorena, ou ela mesma, por confiar nas suas loucuras.