Chapter Text
(Nico)
02.04.2018 - Campus da Escola Society High School - perto das sete horas da manhã
Eu estava com o meu típico look. Um moletom preto, uma camisa preta, uma jaqueta preta, uma calça preta e um chinelo amarelo. Eu estava atrasado, como se isso fosse novidade, mas, enquanto me aproximava da escola, vi muitas viaturas da polícia passando em direção a mesma. Tirei meu headphone preto e pus na bolsa. Havia poucos alunos andando por ali, já estava tarde e os alunos da Society High School são os melhores da cidade e todos chegam no horário, com umas poucas exceções, tipo eu e uma galera aí.
Eu apressei o meu passo de tartaruga e uma ambulância passou. Meu rosto ficou pálido. E se tivesse acontecido algo aos poucos amigos que eu tenho e tive nessa minha louca vida? Apressei mais ainda o passo e o enorme portão de ferro da escola estava cada vez mais perto.
Me apresentei como aluno de forma muito apressada, o guarda ficou irritado, que se foda. Após esse energúmeno contratempo, eu corri na direção advinda dos barulhos das sirenes, da ambulância e das viaturas policiais.
Quanto mais próximo eu chegava do fatídico barulho, mais pessoas se amontoavam à minha frente.
Vi uma van do telejornal e umas blogueiras da cidade populares nas redes sociais.
Seja lá o que tenha acontecido, foi muito estranho porque tinha muita gente lá, e, pra piorar, era o Campus dos alunos do Ensino Médio e eu era do primeiro ano do ensino médio na época.
E aqui vai um detalhe: eu era bem baixinho. Portanto, eu não enxergava merda nenhuma e estava muito apertado para eu abrir caminho. Mas eu avistei a luz, ou simplesmente vi um garoto branquelo e fofo usando uma camisa verde quase quebrando o pescoço querendo ver o que estava acontecendo, era o Chester, o "meu melhor amigo" - digo entre aspas porque sempre rola um clima bizarro entre nós dois desde que nos conhecemos.
— Chester, sabe o que tá acontecendo? — ele sorriu assim que me viu, ele tem o sorriso mais fofo do mundo e eu, todo gótico e trevoso, me atrevi a sorrir também, um meio sorriso, coisa que raramente acontecia.
— Nico, o negócio tá é louco, vamos achar a Alexa, ela sabe de tudo, eu não sei o que tá acontecendo. — saímos da multidão.
Entramos em um prédio que estava de frente para o povo e fomos até o primeiro andar. Estava difícil de ver o que rolava porque as pessoas estavam muito amontoadas, dificultando a minha visão, mas não a do Chester, que fez uma cara de choque assim que olhou para o centro da multidão. Seja lá o que fosse, foi forte, até porque o Chester é a pessoa mais difícil de se surpreender e chocar que eu conheço, embora não pareça - não importa se eu conheço só umas 6 pessoas, que se dane este detalhe.
Fomos até uma janela enorme que tinha no segundo andar, lá encontramos Alexa, uma amiga nossa, uma garota negra com os cabelos cacheados mais lindos que eu já vi, ela é bem alta, tendo mais de 1,70 de altura e usava o feioso uniforme não-obrigatório da escola, um uniforme verde e cinza ridículo. Ela olhava com uma cara indescritível para as pessoas lá embaixo. Chester foi o primeiro a se pronunciar.
— Isso é sério? Mataram alguém no Campus? É isso que eu vi? — agora eu entendi a cara de choque dele e a apatia, talvez fosse, dela.
— Sim, e... Eu não sei bem como reagir a isso. — ela voltou o olhar para a janela.
Eu, finalmente, depois de debater comigo mesmo, decidi olhar e o que eu vi me embrulhou o estômago.
Era um corpo de um garoto. O mínimo que eu vi foi muito sangue espalhado em uma área relativamente grande, estava bem óbvio que o rapaz estava morto, ele estava todo ensanguentado, era impossível enxergar alguma fratura àquela distância, mas, seja lá o que fosse, foi forte e foi feito na intenção de matar.
Isso me fez lembrar de um boato, mas alguém lembrou primeiro.
— Que estranho isso, não acham? — falou a garota que estava do lado de Alexa, eu não a conhecia ainda. — Mataram um estudante do horário noturno, meu pai estudou aqui à noite e disse que o horário noturno é bizarro e uns barulhos semelhantes a pessoas sendo torturadas são feitos. Eu achava que era crendice de velho, mas vocês não acham que a morte daquele garoto não possa ter relação com esses famosos "barulhos"? — Alexa encarou a garota descrente nela, eu só achei tudo bizarro até porque a história dos pais dela batia com a da minha mãe.
— Minha mãe também dizia isso. — falei.
— Isso é ridículo, gente. — disse Alexa.
— Meus pais e tios também. — falou Chester. — Alexa, você é nova na escola e seus pais não pisaram o pé na Society.
— Não sei de nada. — disse ela voltando a olhar para as pessoas lá embaixo de cara fechada.
— Qual o nome de vocês? — perguntou a outra garota, ela era branca e tinha cabelos escuros, usava um vestidinho florido muito fofo e o azul dos seus olhos era lindo.
— O meu é Chester, o do emo ali é Nico e a Alexa você já conhece. — eu quase matei o Chester por me chamar de emo, filho da puta.
— Meu nome é Jules, eu estudava em outra escola e vim parar aqui semana retrasada. Eu conheci a Alexa pela internet, ela é bem legal, só é meio fechada. — a voz dela era doce e calma, ela parecia ser uma pessoa dócil.
— Pois é. — concordou Chester.
— Gente, estão levando o corpo do garoto. — falou Alexa com uma voz próxima do medo e todos nós olhamos para a janela.
Uma equipe de paramédicos adentrou no meio da multidão empurrando curiosos. Eles estavam com uma maca e eram cinco paramédicos, ao menos eu vi cinco. Eles pegaram o corpo do aluno e colocaram em cima da maca e o levaram para dentro da ambulância, que partiu. A polícia isolou a área em que o corpo do aluno estava e expulsou as pessoas de perto, ao invés de isolarem o lugar da morte com aquela típica fita amarela, a polícia isolou o local com uma cabana azul de uns dois metros de altura e saiu esparçando a multidão com resquícios de agressividade.
Após isso, a voz da diretora da escola, Judith Selim, ecoou nos mil alto-falantes espalhados pelo Campus. Ela dizia: "atenção todos os estudantes, me encontrem no ginásio do ensino médio, irei fazer um breve comunicado, mas precisa ser pessoalmente, os encontro lá em 9 minutos". Finalizou com aquela voz arrepiante que ela tem.
Eu sempre tive medo da Judith. Ela é estranha. Usa muita maquiagem, parece um pedaço de gesso e tem uma personalidade meio difícil de definir. Tenho medo dela. Ela é muito estranha.
— Será que ela vai dizer que não vai ter aula? Tomara. — disse Chester.
— Talvez, mas acho que a polícia vai interrogar todos os alunos daqui mesmo com os pais não querendo, até porque que pai quer que o filho seja um assassino? Pois é, isso vai dar polêmica e essa escola vai ser assolada de repórteres, tenham fé no que eu digo, essa escola nunca mais será a mesma. — o pior de tudo é que Jules estava certa, a Society nunca mais seria a mesma (até porque nunca foi).
— Gente, vamos até o ginásio, talvez seja algo interessante, tomara que seja porque eu estou pensando em uma coisa grande. — disse Alexa toda misteriosa.
— O quê? — perguntei, finalmente falando algo.
— Vamos para o ginásio. — mudou de assunto e nós descemos e andamos em direção ao ginásio.
Aquele lugar virou uma feira, praticamente.
Tinha tantos alunos, mais tantos alunos que eu me senti até claustrofóbico. Quantos mais eu andava, mais adolescentes magrelos e cheios de acnes apareciam na minha frente. Eu esbarrei em tantas pessoas, mas pelo menos eu fiquei junto com o Chester, a Alexa e a Jules, e todos nós estávamos desconfiados.
Pegamos um lugar bem próximo do púlpito - chega a ser engraçado eles terem posto um púlpito ali para Judith Selim falar.
Estava um falatório terrível, principalmente entre os alunos do ensino médio, e, de acordo com um garoto chamado Ivan, a notícia do assassinato já percorria os principais jornais da cidade e a polícia não fazia ideia de quem fora o culpado. De início, eu achei normal, estava óbvio que um assassinato na escola mais famosa da cidade iria encher os jornais de reportagens e o fato da polícia não saber de nada ainda era normal, até porque o "crime" - vai saber - havia sido cometido a pouco tempo, mas a minha percepção mudou completamente após Judith Selim subir naquele púlpito e começar a falar.
— Amados alunos — ela usava um vestido enorme super ridículo, e o cabelo dela era mais preto que o céu à noite, e a voz dela estava mais raquítica que o normal — Sobre o horrendo caso que aconteceu hoje, a perícia acaba de nos informar que tudo aponta para um caso de suicídio. — um falatório percorreu o enorme ginasio, eu fiquei com um ponto de interrogação na cabeça. — Silêncio! De acordo com a perícia, várias lesões no tórax do garoto foram vistas e analisadas, ele portava uma enorme tesoura e ela estava cheia de marcas de sangue, ainda precisamos do exame de impressão digital pra podermos confirmar se foi suicídio ou assassinato. — ela pegou o microfone com as mãos — E quero que lembrem-se: caso tenha sido assassinato, o responsável será pego em breve pois a nossa muralha é implacável. — ela estava falando da muralha que cerca a cidade. — Obrigado, vão para as suas salas. — ela foi embora e todos nós saímos do ginásio e fomos para nossas salas.
Primeiramente, a hipótese do suicídio foi o auge do ridículo. Quem que se mata se cortando com uma tesoura? E ainda mais no peito? Se fosse no pescoço, dava de entender, mas... No tórax? Aquilo estava irreal demais, bizarro demais e confuso demais. Sem contar que eu percebi que Judith parecia estar mentindo, ela piscava muito e evitava olhar para a multidão de alunos que se encontrava naquele ginásio. De qualquer forma, isso é estranho e o assassinato foi estranho.
Precisamos investigar isso, e lá vem a bomba:
— Nós temos que investigar isso, gente. — disse Alexa após nos sentarmos na nossa sala de aula.
— Roubou minha ideia. — falei meio irritado.
— Eu já estava pensando nisso, tá tudo muito estranho, e suicídio? Como assim eles estão tratando aquilo como suicídio? Que coisa ridícula. Tá na cara que foi assassinato. Judith acha que os alunos são idiotas, só pode. — disse Jules.
— Eles estão escondendo algo. — pontuou Alexa.
— Agora o quê? O que eles estão escondendo a ponto de mentirem sobre um crime? — perguntou Chester e eu me meti.
— Não podemos acusar sem provas, precisamos investigar, só assim para podermos acusar a Judith e a escola de alguma coisa. Entenderam? Sem julgamentos, investigaremos primeiro. Ok? — todos concordaram.
— Como faremos isso? — perguntou Jules.
— À noite. — disse Alexa e todo mundo, inclusive eu, tremeu na base.
— Tem fantasmas aqui. — todo mundo olhou Chester com descrença, incluindo eu. — Ok, tem presenças estranhas aqui. — corrigiu e eu fiquei me perguntando cadê o Chester que dificilmente era surpreendido, as coisas mudam.
— Hoje à noite é ótimo. — disse Jules.
— É uma boa. — falei.
— Que horas exatamente? — perguntou Jules.
— No horário em que os alunos vão para os dormitório, dez da noite. — falei, e Chester ativou o modo medroso.
— Nem fodendo que eu venho aqui à noite e ainda mais às dez da noite! — ele falou meio alto.
— Fala baixo, porra. — falei meio irritado. — E você vai vim, querendo ou não. — ele bufou incrédulo. — Acha que não, espera pra ver, idiota. — falei brincando.
— Ok. — disse Alexa. — Como entraremos aqui à noite?
— O ginásio, querida. — falei com um ar de inteligência, me senti um agente secreto.
— Como assim "o ginásio, querida"? — perguntou Alexa.
— O vestiário, nossa, vocês são lerdos. — todo mundo soltou um "ah". — Nos esconderemos lá, mas antes falaremos com os nossos pais.
— Precisamos de uma boa mentira. — disse Chester.
— Se eles souberem que estamos investigando um assassinato, vai ser o fim. — disse Alexa.
— Vai ser emocionante! — disse Chester todo alegre e olhamos para ele com uma cara de cu.
— Você é bipolar, certeza. — falei brincando.
— Você é fofo, certeza. — corei, mas meu moletom impediu que eles vissem.
— Então, festa do pijama, o que acham? — sugeriu Jules. — Eu digo aos meus pais que eu e Alexa daremos uma festa do pijama na casa dela e ela dirá o contrário para os meus pais, vocês façam o mesmo. O que acham? —era o mínimo que tínhamos no momento mesmo.
— Ok, vamos fazer isso. — concordou Alexa e uma dúvida passou na minha cabeça.
— Que horas a gente se encontra? — todo mundo ficou se encarando, a barulheira dos alunos daquela classe não deixavam a gente pensar muito bem.
— Sete da noite? — sugeriu Jules. — Ou vocês acham que é muito cedo? Não sei, decidam aí.
— Tô' com a Jules, sete da noite. Dá tempo de nos prepararmos antes de agir. — falei.
— Também. — disse Alexa e Chester concordou pouco tempo depois, e eu sou um gênio.
— Lembrei de uma coisa: meu pai é policial. Eu sei a senha dos registros e posso acessar para descobrir o que eles sabem sobre os assassinatos, o que acham?
— Nico, você é um gênio. — falou Jules. — Isso é perfeito. — a professora entrou na sala.
— Quem vai apresentar o seminário de geografia? — eu, Chester e Alexa nos entreolhamos.
— A gente tá ferrado. — falamos ao mesmo tempo.
— Vou para minha sala, fui. — disse Jules saindo da sala.
//
Portaria Da Society - por volta das seis e meia da noite
— Cadê aquelas pessoas que não sabem o que é pontualidade? — na mesma hora em que me pergunto isso, eu vejo alguém vindo ao longe, e para a surpresa de ninguém, era Chester com uma enorme mochila, eu o encarei com a maior cara de cu que eu consegui. — Qual a necessidade da mochila? — falei sussurrando, ele se abaixou e jogou a mochila com tudo no chão, fazendo um enorme barulho. — Cuidado, Chester! — o repreendi com um sussurro. — O que tem aí?
— Comida, água, meu celular e lanternas.
— Lanternas?
— A gente não vai invadir a escola? Eles apagam todas as luzes, maluco. — disse abrindo a bolsa e tirando um biscoito recheado.
— Você não vai abrir isso, né? Faz um baru... — plac! — Estou prevendo que você vai estragar tudo.
— Não vou estragar nada. — disse enchendo a boca de biscoitos. — A Jules tá trazendo um amigo. — franzi o cenho.
— Amigo? Quem? — perguntei.
— Você deveria baixar o aplicativo de mensagens e tirar a porra do teu celular do silencioso. — chupou o dedo só recheio de biscoito.
— Eu detesto celulares, só uso o meu pra ouvir músicas, oras.
— Baixa o aplicativo de mensagens.
— Ok, quem é o amigo? — ele colocou 4 biscoitos na boca de uma vez e eu fiquei impressionado com isso, real.
— Irmão dela, ele é ótimo em escapar das coisas, de acordo com ela. — falou olhando as estrelas. — Que céu lindo, não acha? — mudou de assunto do nada. — As estrelas, a luz da lua, tá tudo tão lindo, até esse mini parque que fizeram em frente a Society é bonito, não acha, Nico? — ele me encarou com aqueles olhinhos de gatinho fofo que ele tem.
— Não sei, Chester. — falei desinteressado e mudei de assunto do nada. — Você acredita que existe vida fora da muralha? — conversa aleatória em pleno luar, eu gosto.
— Acho que sim, mas, se sim, por que a muralha existe? É uma bosta pensar isso. — falei.
— Quem sabe eles já não estão aqui. — Chester sentou do meu lado.
— Talvez, quem sabe. — olhamos para o céu. — Somos tão pequenos em relação à imensidão dessa cidade, se vermos por um lado somos equivalente a poeira cósmica.
— Isso foi muito nerd — rimos baixo - e depressivo.
— O que você tá ouvindo? — ele finalmente notou eu estava ouvindo música, ele pegou meu fone. — Música romântica? Que fofo. — corei. — Adoro essa música. — ri fofo.
— Idiota. — ele encostou a cabeça no meu ombro enquanto tocava uma música romântica e melódica, eu gostava. — O que você acha de mim? Todo mundo acha que eu sou depressivo e mórbido. — ele fez contato visual, não sei se era impressão minha mas os olhos dele pareciam brilhar a luz do Sol refletida pela Lua.
— Acho que o que você acha de você é mais importante do que eu acho. — falou sorrindo. — Mas, na real, eu te acho incrível, eu te admiro, você é uma pessoa cheia de nuances e cheia de superações, Nico, você é incrível, cara. — eu estava pasmo.
— Sério isso?
— E por que não seria? — me encarou com um olhar fofo.
— Por nada. — Chester enconstou a cabeça no meu ombro e eu pus a minha cabeça em cima da dele.
Ficamos nessa posição por uns dez minutos, de olhos fechados e sentindo a presença um do outro - até eu tirar ele de cima de mim por conta de um possível torcicolo. Ficamos comendo biscoitos e jogando baralho, as meninas estavam muito atrasadas, mas a gente tinha até às dez da noite, eu e Chester planejamos ficar ali até às dez horas, caso elas não viessem, iria entrar só nós e sabe se lá o que iríamos encontrar lá dentro.
Mas, para a surpresa de todos, elas chegaram. Uma hora depois, mas chegaram. Eu e Chester estávamos entupidos de biscoitos e comidas industrializadas.
— Onde caralhos vocês estavam? Já são quase oito e meia! Temos apenas uma hora e meia para planejar a entrada. — falei meio irritado, me ignoraram, carinha triste.
— Esse moleque aqui de camiseta e calção curto é meu irmão, o Mike, ele é bom em pensar rápido e mais ainda em fugir, caso algo dê errado, ele vai ajudar a gente. — disse Jules, apresentado o tal do Mike a mim e ao Chester.
— Como vai, caraí? — perguntou com um enorme sorriso para mim, nos cumprimentamos com um aperto de mão.
— Meu nome é Nico. — falei sorrindo.
— O meu nome é Mike, mas isso você já sabe. — riu, ele parece ser uma pessoa legal, tratei de apresentar o resto do pessoal a ele, vulgo o Chester, e começamos a discutir o plano.
— Ok, o que faremos mesmo? — perguntou Chester.
— Bom, entraremos. — disse Jules vagamente.
— Prestem atenção, caralho. — tirei meu tablet do meu moletom, liguei ele e abri o Faint (app de desenhos), onde eu havia desenhado a planta da escola com base nos mapas existentes dentro da Society. — Então, eu me dei o trabalho de desenhar esse mapa enorme, e isso tá bem feio, mas dá de entender. Eu trouxe walkie talkies para nós. — eles me olharam estranhos. — Que foi? É uma investigação e se tem algo que eu aprendi assistindo aqueles programas de investigação é que devemos nos separar sempre que formos investigar algo.
— Tá. Mas qual o seu plano? — perguntou Alexa enquanto eu entregava os walk talkies
— Invadir a sala da Judith, oras, qual seria? — respondi incerto.
— Sei lá, rodar a escola toda?
— Alexa, você é doida, o colégio tem o tamanho de 5 estádios de futebol e é tudo distante um do outro. — disse Jules.
— Espera aí, a gente deve invadir o lugar menos óbvio. — disse Mike se pronunciando, voz de maconheiro, nada contra, eu fumo mesmo.
— E qual seria? — perguntei.
— Refeitório? — falou como se fosse uma pergunta.
— Calma, gente. Tá óbvio que a polícia vai demorar a resolver isso, que tal investigarmos cada prédio por noite? O que acham? São apenas 4 prédios de Ensino Médio, caso não achemos nada lá, investigaremos os do Ensino Fundamental. Estão de acordo? — sugeri e todos concordaram.
— Meu mapa tá sendo inútil, tanto trabalho à toa. — falei decepcionado, mas me ignoraram.
— Eu não te disse que você é incrível. — Chester sussurrou no meu ouvido e eu senti um choque percorrer meu corpo.
— Ok, vamos entrar. — falei com a cara corada. — Mas antes, os grupos de separação, eu vou com o Chester e vocês vão juntos, ok? — todos concordaram. — Outra coisa, iremos nos separar após entrarmos, deixem os walkie talkies ligados no volume mais baixo, caso alguém mande algo, eles vibram e vocês atendem. Eu e Chester entraremos pela frente do Prédio 1 e vocês entram por trás, entendidos? — concordaram com a cabeça. — Nos encontramos aqui a meia-noite. Vamos nessa.
— São oito e meia da noite, idiota, ainda tem gente. — me dei conta disso.
— Ih, é mesmo, vamos ter que esperar o povo dormir, então, mas vocês já sabem como será tudo. — falei.
— Quem quer jogar baralho? — perguntou Chester e todo mundo foi jogar baralho.
//
Antes de mais nada, desistimos do vestiário porque estava óbvio que aquilo nunca iria dar certo nem se ficássemos desde da manhã na escola.
O lugar onde estávamos era um pouco próximo à entrada/saída do portão principal. Todos nós estávamos escondidos entre as árvores, que emitiam barulhos estranhos que estavam deixando o Chester assustado e eu tive de acalmar ele, ninguém merece - eu até gosto.
Era quase dez da noite e o movimento dos alunos era muito, passavam-se vários alunos ali a cada segundo, percebe-se que ninguém queria dormir na merda daquela escola, e, depois do assassinato, ninguém iria querer mesmo. Quase fomos pegos várias vezes porque Chester comia e mastigava muito alto e o mato quase pegou fogo porque o Mike decidiu acender um baseado logo ali, gosto muito do senso de responsabilidade dele, é admirável. Enquanto isso, eu, Alexa e Jules falamos das etapas do plano.
Isso que iríamos fazer era loucura, nós nem sabíamos porque estávamos fazendo aquilo. Nós sabíamos que havia algo errado, só queríamos saber o quê, mas o que viesse depois ninguém tinha como saber.
— Jules, o papai vai matar a gente e a culpa é tua. — Mike estava um pouco alterado, mas conseguia falar, ao menos isso, sua fala estava embolada, mas era audível.
— O portão fechou. — avisou Jules.
— A hora é agora. — falei com um ar de medo.
— Vamos descobrir a verdade sobre a morte daquele cara. — falou Chester já sem um pingo de medo, bipolar do caralho.
— Go! — gritou Mike.
— Fala baixo, porra. — repreendeu Chester e ele soltou um "desculpa", começando a rir.
— Por que trouxe ele mesmo? — perguntei com raiva.
— Ele vai matar a gente. — Alexa disse.
— Medida de emergência, ele será útil, aguarde. — Jules disse.
Nós andamos mato a dentro, o nosso objetivo era encontrar o muro que rodeia a escola e escalar ele por meio das árvores. Funcionou, mas o Mike caiu, e caiu rindo alto.
— Puta merda! — ele berrou. — Minha erva, eu perdi minha erva! — Jules tirou a cara de preocupada a transformando em uma cara de "isso é sério?", quem trás maconha para uma investigação? Que demência.
— Eu compro mais pra você depois. Sobe nessa porra, Mike. — ela estava com muito medo de ser pega, mas estava centrada na invasão, sem contar que ela estava muito puta com o irmão.
Todos ficamos sentados no muro de 4 metros de altura. Eu e Alexa checamos, nenhum sinal da segurança e nenhum guarda noturno comendo rosquinha. Silêncio reinava.
Do outro lado do muro, estava o prédio 1, o nosso objetivo final.
— Quer botar uma corda bamba e fazer a gente andar nela até àquela varanda ali? — disse Mike apontando para a ala do segundo andar do prédio segurando o riso.
— Se a gente se foder, a culpa é tua. — falei pra Jules, que me ignorou.
— Chester, cadê a corda? — ele estava comendo, de novo, porra, esse menino come demais.
— Oi? Que corda? — ele estava pouco se fodendo para a situação, achei lindo, o que era a cadeia? Certeza que era um lugar melhor do que está ali.
— Como assim que corda? — falou Jules puta da vida. — A corda pra gente descer, Chester! Eu te falei! — ela sussurrava com raiva e com uma voz de quem inalou gás hélio, aquilo estava engraçado, mas eu segurei o riso, ela estava muito bolada.
— Tá na minha mochila, bosta. — ele tirou uma corda super grossa da bolsa e entregou a Jules, que estava putassa com a brincadeira do Chester.
Ela pegou, prendeu (não vi como) na porra do muro e tacou no chão. Grudou.
— Desçam! — berrou sussurrando autoritariamente engraçada.
Uma coisa que eu esqueci de mencionar: estava fazendo um frio do cacete. Outra coisa: quando estávamos descendo, Chester escorregou e caiu de bunda em cima da minha barriga.
— Aí! Puta que pariu! — doeu, e não foi pouco.
— Quem tá aí? — era a voz de um guarda comendo rosquinha.
— Fodeu, gente. — falou Alexa.
— O arbusto. — disse Mike empurrando todos nós para de trás de um arbusto. — Fiquem quietos.
O guarda chegou e ficou em frente ao arbusto e ele iria descobrir que a gente estava lá por dois motivos, eu estava grunindo de dor e o Chester ficava me pedindo desculpas, parecia os murmúrios do inferno. Mas, graças ao Mike, tudo ocorreu bem. Seja lá o que ele tinha fumado, deixou ele esperto. Ele pegou uma pedrinha e a atirou na direção de onde o guarda tinha vindo. O guarda tomou um susto e saiu correndo para averiguar. Salvos pelo gongo.
— Eu falei que ele iria ser útil. — Jules disse toda convencida.
— O que faremos agora? — perguntou Mike.
— O combinado, drogado. — falei. — Você e as... Pensando bem, vão com o Chester.
— Não! — ele segurou no meu braço. — Eu vou com o Nico e vocês vão com... vocês, oras. Vão pelo fundo, subam até o quinto andar, iremos pela frente. Como o combinado, oras.
— Ok. — disse Jules e eles saíram correndo em direção à porta dos fundos do prédio.
— Ficou só nós. — eu estava puto com ele.
— Vai te catar. — levantei. — Vamos logo.
— Tá. — ele resmungou.
— Anda, Chester! Menino lerdo. — eu tava irritado sem motivo.
Eram duas portas de vidro. Ficamos uns 20 segundos checando se não tinha alguém lá dentro. Abrimos a fechadura usando um clipe de metal. Entramos. Estava o mais silencioso impossível.
E, não sei como, lá dentro estava fazendo muito calor. Chester e eu começamos a andar pelo enorme corredor que começava nas portas de vidro e terminava na sala de Judith Selim.
O barulho dos grilos, a claridade da lanterna, algum guarda nortuno idiota, tudo estava sendo vigiado por nós dois que estávamos atentos a tudo e andávamos muito devagar, aquele lugar à noite tinha uma vibe muito sinistra e o fato de não falarmos nada só me deixou com mais medo.
Estávamos no meio do corredor do primeiro andar e não vimos nenhuma alma viva, o assassinato, com certeza, afastou mais ainda os alunos da Society, mas a coisa mais bizarra disso tudo é que a popularidade da escola não cai, muito pelo contrário, sobe. E isso eu nunca vou entender. Todos sabemos que a Society é a escola mais famosa da cidade, mas outra coisa que todos sabemos é que a escola é bizarra e sinistra, mas isso não adianta, Society sempre é a escola mais popular e famosa da cidade, difícil de entender, e eu acho o ensino dessa escola uma bosta, sinceramente, ensinam mal pra caralho, não sei por que a escola tem todo esse prestígio, vai saber.
Eu e Chester estávamos perto da sala de Judith Selim, desligamos as lanternas e passamos a andar mais devagar ainda porque poderia ter algum filha da puta ali. Poderia.
E tinha, mas era o Mike, ele tava desesperado. Gelei na hora, alguma merda tinha acontecido.
— Um guarda. — sussurou ofegante. — Um guarda nos viu e saiu correndo atrás da gente. Eu me separei das meninas, precisamos achar elas.
— Puta que pariu, Mike. — sussurrei irritado e o Chester me cutucou. — Que foi? — me virei.
— Tem um homem com uma faca na mão olhando pra cá... — ele estava tremendo e bastante assustado.
Era um homem todo vestido de preto com uma faca que reluzia por conta da lua. Seu rosto não era visível pois estava coberto também. Ele era enorme e meio obeso.
— Corram! — gritei, Mike correu pra um lado gritando desesperado, eu e Chester corremos em direção ao elevador.
Para o nosso azar, o assassino (não sei se poderia chamá-lo assim ainda) correu atrás de nós. Estávamos ofegantes, o elevador ficava do lado da sala de Judith Selim, iríamos conseguir, mas o chão de porcelanato infernal estava meio escorregadio.
Juntamos todas as nossas forças e corremos de mãos dadas até chegarmos no elevador.
O assassino estava a, sei lá, 100 metros de nós?
Comecei a apertar desesperadamente o caralho do botão. Meu coração batia acelerado e eu suava frio, Chester olhava o assassino se aproximando, ele se tremia todo e suava frio, que nem eu.
Finalmente, o elevador apareceu. O assassino estava a uns 20 metros de nós, conseguimos entrar, mas, enquanto a porta se fechava, ele disse com uma voz chorosa e sofrível:
— Vocês estão se metendo aonde não deveriam. Fujam daqui enquanto há tempo. Retribuem minha misericórdia nunca mais voltando a esse lugar à noite. — e desapareceu após a porta se fechar, o mais incrível é que a voz dele me era familiar, eu achava que já tinha a ouvido em algum lugar, por isso fiquei o encarando antes da porta do elevador fechar, mas eu não conseguia enxergar nada nele, era impossível.
Eu e Chester nos sentamos no chão e ele me abraçou chorando um pouco - a situação abalou ele, e me abalou, mas eu estava focado em tentar identificar a voz.
— Que merda foi essa, Nico? — ele me apertava e eu fiz o mesmo, me permiti chorar um pouco. — A gente quase morreu, eu nunca mais volto aqui, nunca mais! — ele estava meio desesperado.
— Fica calmo, Ches, fica calmo. — fiz carinho nos cabelos macios dele. — Fica calmo. — beijei ele na cabeça e ficamos abraçados ali por um tempo.
O walk talk vibrou. Era o Mike. Agradeci por ele estar vivo.
— Onde você tá? O Chester tá contigo? Puta merda, que diabos foi aquilo? — ele estava um pouco desesperado e muito ofegante, desabracei o Chester.
— Estamos no elevador. — falei. — Chester tá comigo, aliás, Ches, liga o elevador e aperta o botão do quinto andar, as meninas podem estar lá. — voltei ao walk talk e Chester foi fazer o que eu mandei. — Nos encontre no quinto andar, ok?
— Tá bom. — a noite só tinha começado.
Ao chegarmos no quinto andar, o elevador abriu e fomos presenciados mais uma vez com a bizarra escuridão da Society.
— Vamos, Chester. — ele não queria sair do elevador, estava com muito medo.
— Não quero, eu não... Eu tô' com medo. — olhou pra baixo e eu peguei na mão dele.
— Ches, segura a minha mão, não a solte, nada de mal vai acontecer contigo comigo por perto, entendeu? — ele me encarou com uma carinha meio chorosa e me deu um abraço rápido e uma fungada no meu pescoço.
— Vamos nessa. — falou com um pouquinho de confiança entrelaçando nossos dedos. — Nico, obrigado. — sorriu fraco.
— Ok. — fiz um leve carinho na bochecha dele com a minha outra mão, fofo. — Agora, vamos.
Peguei meu walk talk.
— Jules? Alexa? Cadê vocês? — nenhuma resposta, o corredor do andar de cima era sinistro, fiquei tentando me comunicar com elas enquanto andávamos e nada.
Diferente dos outros andares, o de cima não tem vigia norturno porque não há ninguém lá à noite. Só medo pois, de acordo com a minha mãe, é lá no último andar que os barulhos sinistros acontecem.
E aconteceu.
Um barulho estridente e longo foi ouvido por mim e por Chester, que se encolheu todo e apertou minha mão, não sei por que eu achei isso fofo, embora estivesse na mesma situação.
— O... que porra de barulho é esse? — perguntou Chester assustado apertando a minha mão, paramos de andar, barulhos de passos, era tarde demais.
— Porra! — gritou Alexa irritada, acontece que as duas deram uma batida em nós dois porque vieram correndo.
— Estávamos procurando vocês, mas foram vocês que nos encontraram mesmo. — falei irônico e com a testa doendo.
— Precisamos sair daqui, o moço de preto está correndo atrás de nós duas. — disse Jules se levantando desesperada.
— Sabe quem fez esse barulho? —perguntou Chester.
— Não sei de nada. — respondeu Alexa.
— Vamos para o elevador. — falei e começamos a andar em direção ao mesmo.
— Cadê o Mike? — lembrei dele após essa pergunta da Jules.
— Puta que pariu, ele estava vindo pra esse andar. Espera. — chamei ele pelo walk talk. — Onde você tá?
— No elevador. — respondeu. — Achou as girls?
— Estão aqui com a gente.
— Tá ok. — desligou.
— Ele está bem. — apertei o botão do elevador.
— A gente, pelo visto, não. — Chester apontou para o assassino, que nos encarava embora não fosse possível ver o rosto do desgraçado, decidi dá uma de líder retardado ou suicida, tanto faz.
— Ei, moço de preto, por que matou aquele garoto? — ele nada respondeu e o elevador não subia, o homem ficou parado a poucos metros de nós.
— Fujam daqui. — disse e sumiu em meio a escuridão após criar/fazer, uma bomba de fumaça. Achei ridículo, mas eu estava muito assustado para soltar uma risada.
— Que porra foi essa? — perguntou Jules confusa e o elevador abriu, com Mike lá dentro.
— Vamos embora desse caralho é agora. — disse ele e todos nós entramos no elevador e descemos.
Mas a gente se ferrou, se ferrou bonito.
— Olá, crianças. — essa voz demoníaca e aquele rosto bizarro foi a primeira coisa que vimos após o elevador abrir, era Judith Selim, e os nossos pais estavam ali, parados, com os carros estacionados. — O que estavam fazendo estudando até essa hora? — sorriu falsamente. — Ir para casa sozinho a essa hora é muito perigoso. Assaltos em ônibus e nas ruas. Estupradores. Todo cuidado é pouco e eu zelo para que vocês tenham segurança. — sorriu largo, nos encarando com uma cara de demônia. — Boa noite, crianças. — entrou na escola, nossos pais vieram correndo até nós.
Essa noite foi uma porra.
//
(Jules)
Prédio 1 Do Ensino Médio - momentos antes dos eventos anteriores
Alexa, Mike e eu estávamos morrendo de medo. Estava fazendo calor e a escola à noite era o auge do sinistro. Ali beirava um silêncio absurdo, exceto pelos grilos e alguns pássaros noturnos, como as corujas.
Alexa, Mike e eu conseguimos despistar o guarda e entrar por detrás do Prédio 1.
Nico e Chester iriam cobrir o primeiros andares e nós iríamos direto para o último, embora eu não soubesse bem o que estava procurando.
Eu não falei que tínhamos conseguido despistar o guarda? Pois é, conseguimos, mas foi por pouco tempo.
— Quem tá aí? — ele pegou a lanterna e mirou na gente, nos viu, eu fiquei de cabelo em pé.
— Corram! — Mike, retardado com sempre, correu lá pro escambau enquanto eu e Alexa corremos até acharmos um arbusto, nos escondemos lá atrás. Sinceramente, não sei por que o levei para está investigação, já que eu só o meti em problemas.
Ficamos deitadas naquela grama espinhosa que parecia que ia furar a minha pele, e eu tenho uma pele bem sensível. O policial parou em frente ao arbusto e pegou seu celular e telefonou.
— Judith, tem três crianças aqui. Faça alguma coisa, eles não podem descobrir, vou procurá-los, se vira aí. — desligou e saiu andando pelo corredor.
Eu e Alexa nos entreolhamos assustadas.
— O que nós não podemos descobrir? —perguntei, Alexa estava avoada.
— Pode ser a identidade do assassino? Não acha?
— Pouco provável, sei lá, você conhece a Judith a mais tempo que eu, ela seria capaz disso? — Alexa perguntou.
— Sim, eu acho que sim. — Alexa se levantou. — Mas por quê? Por que esconder a identidade do assassino que matou um aluno na escola que ela tanto ama? — dúvidas sinistras.
— Lembrando que é apenas uma hipótese.
— Vamos, precisamos subir até o quinto andar, vamos pelo elevador do estacionamento. — ela disse firme.
— Ei, e o Mike? — Alexa me ajudou a levantar.
— Ele vai encontrar os outros dois, é pra lá que eles estão. Vamos. — disse ela indo na frente e eu a seguindo como se ela fosse meu cão guia.
Alexa é, sem sombra de dúvidas, a pessoa mais estranha, meio fria e complexa que eu já conheci na vida. A única reação que eu já tinha visto vindo dela foi apenas medo do desconhecido com um pouquinho de preocupação e só. Eu a conheci na internet, na verdade, eu a conheci em um aplicativo de jogos on-line, em uma partida de um jogo de guerra estratégica, e ela é uma ótima jogadora, por sinal. Ficamos amigas pois passamos a batalhar juntas e ajudar uma a outra no jogo, e eu vim estudar na mesma escola que ela e deu no que deu.
Eu tenho certeza que a Alexa esconde algo profundo, algo pesado, as pessoas mais caladas são as mais fodidas psicologicamente.
A Alexa é um mistério e, embora fosse fria, ela era uma ótima amiga.
— O que você espera encontrar? — perguntou com a sua típica voz fria enquanto andávamos até o estacionamento.
— Não sei, o culpado? — suspirei. — Eu só quero descobrir por que da Judith estar mentindo. Você tem uma noção? — a encarei.
— Nenhuma. — entramos no estacionamento.
— Eu acho que ela tá mentindo sobre porque ela tem medo de que um homicídio repercuta mal nos jornais e a escola perca prestígio. — ela riu baixo em escárnio, entramos na parte do estacionamento onde fica o elevador.
— Jules, isso não é de hoje. Sabe, a Society foi construída em cima de um antigo cemitério indígena assombrado. — gelei.
— Quê?! — ela riu, de uma forma estranha, mas riu, pelo menos ela sabia rir, já eu tomei um susto, muitos filmes de terror começam em cemitérios, tenho é medo.
— É brincadeira.
— Idiota.
— Mas é sério, não é de hoje que a Society é... estranha. Não é de hoje que a cidade de Früh é estranha. — fiquei atenta a tudo que ela dizia, ela respirou fundo. — Quando eu era pequena, fazia a quarta série, eu gostava de um garotinho, o nome dele era Paul. Paul era a pessoa mais extraordinária que eu já tinha conhecido na vida, eu amava tanto esse garoto, nós nos acabávamos nas brincadeiras idiotas dele. — ela estava tentando esconder a tristeza. — Mas, um dia, eu fui visitar ele em casa, ele era meu vizinho, a casa dele ficava a umas 4 casas ao lado da minha. Bom, eram nove da noite, eu iria passar à noite lá. Eu cheguei na porta, eu batia, eu batia, mas ninguém abria e nem falava nada. — eu andava olhando o rosto de olhar distante que era o dela. — Foi aí que eu resolvi abrir a porta, não tinha ninguém na sala, gritei e ninguém apareceu, aí eu subi para o andar de cima, a porta do quarto dele estava quebrada, me aproximei em silêncio e abri, ali eu vi a pior visão da minha vida: Paul estava morto.
— Nossa. — Ele tinha enormes cortes no peito e havia sujado toda a sua cama de sangue. Eu chorei tanto nesse dia.
— Não sei nem o que falar... Nossa, Alexa, que pesado. — ela me encarou, o elevador estava a poucos metros, eu fiquei com pena dela.
— Sabe por que eu estava apática quando vi o corpo do aluno hoje? — perguntou após um silêncio gritante.
— Não faço ideia, mas aquilo foi chocante.
— É que o Paul morreu da mesma forma. — chegamos em frente ao elevador e apertamos o botão, eu estava atônita.
— Vo... Você acha que as mortes estão relacionadas? — perguntei querendo não acreditar nisso, loucura demais.
— Não faço ideia — cruzou os braços e encarou a porta do elevador — mas é bem provável. — coloquei minha mão no ombro dela. — Sem contar que ele morreu no dia do fatídico incêndio no Estádio Ran.
— Nós iremos pegar o assassimo, prometo. — sorri.
— E eu irei matar o assassino, caso tenha sido ele que tenha matado o Paul. — a encarei.
— Você teria coragem?
— Meu pai é militar, eu sou, praticamente, uma bomba fight, qualquer coisa eu sei lutar, desde judô até o complexo krav magá. Eu sou a rainha do taekwondo, querida. — rimos, gostei muito dela estar se soltando um pouco, isso foi muito legal e a iniciativa foi dela, talvez ela não fosse o que eu pensava, talvez.
O elevador abriu.
— Onde estão as crianças, inferno? — era Judith no elevador, ainda bem que as portas abrem devagar pois deu tempo de mim e da Alexa se esconder entre os carros em um pulo, o mais bizarro era ter carro ali. — Eles não podem saber! — ela estava muito emputecida, fato e aquela voz anasalada dela tava deixando o negócio meio que engraçado. — Jeremiah, comece a arrumar tudo, daqui a pouco eu apareço aí embaixo. — ok, que bizarro. — No porão, Jeremiah, você é muito burro. — saiu do elevador. — Já tem o ingrediente? — ela parou de andar e pôs a mão na cintura. — Como assim de quem, seu retardado? Do garoto, Jeremiah! — nem eu iria aguentar esse tal de Jeremiah. — Ok, ok, daqui a meia hora eu apareço aí, tenho um enorme trabalho a ser feito... Esse tipo de sangue não pode.. Ela não gosta, Jeremiah! Eu vou te matar. O quê? — era bem engraçado ver uma dondoca com um vestido enorme berrando no telefone. — Prepare tudo e vá se foder, Jeremiah! — desligou o celular puta da vida. — Hora de ferrar aquele quinteto de merda. — entrou na escola, sumiu.
Alexa e eu entramos no elevador tentando assimilar o que Judith Selim havia dito.
— O que será que ocorre nessa escola? — foi uma pergunta retórica da Alexa, percebi.
— Será que é um ritual? — lembrei das aulas de história. — Sacrifícios? Será que envolve a muralha?
— Depois conversamos sobre. Vamos até o andar de cima. Talvez os garotos nos encontrem lá por causa do Mike. — disse Alexa me empurrando de leve dentro do elevador pra apertar o botão do andar que iríamos.
— Quem está usando o elevador? Jeremiah, é você? — meu coração gelou, era a Judith, ela me viu, pois as portas do elevador eram transparentes de uma forma que eu não consegui explicar, ela sorriu de forma amedrontadora. — Crianças, vocês não deveriam estar aqui. — falou com uma voz amedrontadora e o elevador saiu do primeiro andar, a perdemos de vista.
— Ela nos viu... — falei tremendo.
— Fica calma, vamos achar os meninos e vazar daqui, ok? — disse Alexa me encarando com uma cara preocupada.
— Tá bom. — o elevador abriu.
Tínhamos pegado o elevador errado e isso nos fez parar do outro lado do quinto andar. Ouvimos um barulho semelhante a um uivo, ficamos com medo.
— Quem é? Mike? Nico? — perguntou Alexa e ninguém respondeu, ninguém exceto pelo homem de preto que apareceu atrás de nós.
— Corram. — falou com uma voz grave e pesada e nós corremos feito loucas pois ele tinha uma faca e ele estava em posição de correr atrás de nós, ao menos era isso que ele aparentava.
— Caralho! — gritou Alexa puta da vida após uma enorme batida que levamos dos meninos.
//
(Nico)
02.04.2018 - Casa do Nico - por volta das onze e meia da noite
Toda a investigação havia ido por água abaixo. Judith Selim nos dedurou para os nossos pais, ela estragou tudo.
Quando chegamos ao portão da Society, encontramos todos os pais desesperados nos esperando.
Minha mãe estava morrendo de ódio e meu pai chorava um pouco, mas me encarava estranho. Quando ele me viu, correu para me dar um forte abraço, minha mãe nos encarou com raiva e nem sequer falou comigo.
Os pais do Chester vieram buscá-lo e a tensão entre eles três estava enorme. A mãe de Alexa foi abraçar a menina toda desesperada e chorando. O pai historiador e paranóico da Jules e do Mike os levou para casa brigando muito com eles, que ouviam tudo de cabeça baixa e sem questionar. Todos agradeceram Judith Selim, que forçava um sorriso e nos encarava com uma cara de dar medo quando nossos pais desviavam o olhar. Seja lá no que nos metemos, o bagulho era forte.
Após muito abraço e chororô, cada um foi para suas respectivas casas e o verdadeiro terror começou após eu pisar o pé na minha.
— O que você acha que estava fazendo?! — perguntou minha mãe furiosa puxando a minha orelha, nada novo.
— Não é da sua conta! — ela puxou meu cabelo e eu grunhi de dor, meu pai via tudo sem saber o que fazer.
— Não é da minha conta, é?! Tem um assassino rodando a solta, Nico! Você poderia ter morrido! — fingiu uma preocupação inexistente.
— Seria bom porque o seu maior desejo iria se realizar: a minha morte. Não é mesmo, mamãe? — a encarei sorrindo em escárnio, ela fechou o punho e grunhiu de raiva.
— É assim que você me trata, seu insolente?! Pra piorar, ainda estava com aquele maldito do Chester, ninguém merece. — ela odeia o Chester porque eu e ele nos beijamos no meu aniversário de 9 anos, aliás, eu odeio aniversários por conta disso, não do beijo, mas sim da minha mãe.
— Ele que não merece ter uma sogra tão ruim quanto você. — ela me soltou e me encarou com raiva.
— O que você acabou de dizer, desgraça? — doeu, mas eu não me importava, mesmo ela sendo minha mãe, eu a odiava e sempre a odiei, principalmente quando descobri uma coisa no meu aniversário de 9 anos.
— Que eu sou gay! Qual é, vai fingir que não sabia? A senhora sempre soube, não vem bancar a sonsa, não. — ela tremia.
— Eu sabia que esse garoto era uma péssima influência pra você, eu sabia. — ela fitou o chão.
— Péssima? Só se for na tua cabeça. —ela ia me bater mas meu pai interviu.
— Nico, vá para o seu quarto, por favor, depois nós conversamos, entendeu? — fiz que sim com a cabeça e fui para o meu quarto, que ficava do lado da sala e deixei a porta aberta.
Fiquei pensando no Chester porque o que eu menos queria naquele momento era chorar por causa do quanto a minha mãe me destrata.
— Tenta entender o menino, Maria. — meu pai começou a tentativa fatídica de explicar a minha mãe.
— Entender o quê? A única coisa que entendo é que ele está errado. E errado em duas coisas: a primeira é investigar um suicídio e a segunda é "namorar" — fez cara de nojo — um garoto.
— Maria... — disse meu pai tentando fazê-la raciocinar, coisa difícil. — E sobre o Nico namorar um menino: não vejo problema nenhum nisso. — minha mãe o encarou puta da vida.
— Eu coloquei aquele garoto no mundo porque eu queria netos — mentirosa — ou você acha o quê? Que o Chester vai engravidar ou que ele vai engravidar? Sinceramente, isso é um absurdo e uma abominação da natureza! — e olha que a minha mãe já causou queimadas florestais.
— Maria, para com isso. Como você não consegue entender o teu próprio filho? Você acha que a discussão que vocês tiveram aqui é saudável? Nós vivemos cercados pela porra de uma muralha de concreto e você vem me falar de normalidade! — silêncio. — Fala, Maria!
— É para o próprio bem dele.
— Que bem o quê! Você quer é controlar o menino!
— A sua cara. Eu só quero o bem do meu filho!
— Você quer o bem deixando ele mal, lógica do caralho, Maria.
— Rick, vai te foder, você não me dirá como criar o meu filho! — fechei a porta, não aguentava ouvir mais.
Eu só ouvia as vozes deles através da parede mas eu não entendia bem o que eles diziam. Eu dormi rapidamente, tentei não chorar e tentei ser forte, consegui parcialmente.
De madrugada, meu pai foi até mim, ele entrou devagar no meu quarto e sentou na minha cama. Acordei quando percebi que o colchão afundou.
— Olá, filho. — falou calmamente.
— Pai? Que horas são? Cadê a mãe? — me sentei do lado dele na cama, cocei os olhos e dei um longo bocejo.
— Pois bem, filho, é que... — ele parou de falar e aparentava nervosismo.
— É que o quê? — ele soltou um longo suspiro.
— Sem rodeios, eu e sua mãe vamos nos separar. — tomei um susto mas não fiquei tão supreso quanto achei que ficaria quando esse dia chegasse.
— Por... minha causa? — ele sorriu e fez carinho na sua cabeça.
— Sim, e por causa da sua mãe, nosso casamento virou uma merda há anos, você foi só a cereja do bolo para o divórcio. — falou sincero. — Sabe, nós sempre soubemos de que você é gay e de que você tem um crush, gíria estranha, no Chester. Aquele beijo não negou nada. — sorri.
— Sério?
— Sim, Nico. No seu aniversário de 9 anos, você tentou beijar o Chester, não lembra? Foi fofo, sua mãe ficou com raiva e decidiu acabar com a festa ali mesmo. — me entristeci um pouco, a lembrança desse aniversário era bem marcante em mim.
— Pai, por que a mamãe é assim?
— Dê tempo a ela, Nico. Ela sempre foi assim, nunca entendi o porquê, mas tenho certeza que envolve a família dela.
— Queria que ela me aceitasse. — falei triste e meu pai ergueu a minha cabeça e me encarou nos olhos.
— Não busque a aceitação dos outros, não os cobre para que te aceitem. O mais importante é você se amar e se aceitar, dê tempo ao tempo, a sua mãe uma hora irá tomar vergonha na cara e ver o filho maravilhoso que ela tem independente da sexualidade. — abracei ele com muita força, meu pai sempre foi um homem incrível.
— Obrigado, pai. — o apertei mais ainda.
— E lembre-se — me desabraçou. — Você é a pessoa mais importante da minha vida e eu te amo muito, filho. — ele se levantou.
— Eu também, pai, te amo. — o encarei sorrindo e ele andou até a porta, mas antes de fechá-la, ele soltou a seguinte pérola:
— Traga o Chester aqui, só não se amassem na minha frente. — falou rindo e trancou a porta.
Não demorou muito, eu dormi sorrindo e pensando no quanto meu pai é perfeito e em um futuro pedido de namoro.
//
(Jules)
02.04.2018 - Casa da Jules e do Mike - próximo da meia-noite
Papai ficou brigando para mim e para o Mike por um tempão enquanto estávamos na portaria da Society.
Eu conhecia a Judith há pouco tempo mas eu adoraria quebrar a cara daquela desgraçada.
Nossa casa fica bem longe da escola, uns 12 quilômetros, ficava bem na parte leste da enorme muralha que cerca a cidade.
Papai ficou o caminho inteiro brigando comigo e com o Mike.
— Poxa, vocês são fodas, eu me mato para vocês estudarem na melhor escola de Früh e é assim que vocês me retribuem? Agora, o que a Judith achará da nossa família? — disse enquanto ainda estávamos no carro, nem eu, nem o Mike falamos nada.
Quando chegamos em casa, eu fui direto tomar um banho. Eu precisava esfriar a cabeça, precisava organizar meus pensamentos.
Liguei a água da banheira, a deixei encher e entrei. E comecei a pensar.
Que merda era aquela de "arrume tudo"? O que Judith Selim tem a ver com isso? Quem é essa que não gosta "disso"? Será que tinha a ver com a muralha?
Sai do banho e fui para o meu quarto. Era um quarto como qualquer outro, o diferencial era o beliche que eu e Mike dividiamos, eu em cima e ele embaixo. Quando entrei no quarto, ele não estava lá. Conforme ia me vestindo, encarei a imponente muralha de concreto e cimento ao longe, toda cinza, erguida, pomposa.
Não sei o porquê, não podemos sair da cidade, meu pai nunca me explicou, acho que nem ele sabe, mas só o exército pode sair e eles raramente saem, todo mundo fica confinado ali dentro. Ninguém entendia bem o porquê e ninguém poderia questionar a autoridade de Lesson, o rei da cidade. Basicamente, um homem de meia idade autoritário.
Enquanto olhava para a muralha, passei a questionar se o que Judith Selim dissera tinha a ver com o que existe fora da muralha, coisa que ninguém pode saber.
Terminei de me vestir e estudei um pouco para a prova de geografia. Era idiota estudar geografia. Só conhecíamos a geografia da nossa cidade, que se resumia a uma planície baixa circular com climas bizarros e mais nada. Estudar outras formas de relevo beirava o inútil. Uma perda de tempo gritante.
Após muito tempo fazendo sabe-se lá o quê, Mike entrou no quarto, morto de cansado, era quase meia-noite e tínhamos aula no dia seguinte.
— Mike, eu e a Alexa ouvimos a Judith falando algo sobre sangue e coisas assim. — ele vestiu uma camisa e me encarou curioso.
— Conta tudo, maninha. — sentamos na cama dele.
— Ela falou algo sobre "arrume tudo", referenciando um porão, como se fosse um sacrifício humano, sei lá, uma merda assim. Ouvimos ela falar que era em um porão, a Society não tem um porão, não que eu saiba e ela falou coisas relacionadas a sangue, que ela não aceitava sangue de algo. Ela quem? — ele olhou a janela. — Será que isso tem a ver com a muralha?
— Não sabemos nada sobre a muralha, não sabemos nem a quanto tempo aquela porra está de pé, nem o papai sabe e ele é historiador. — ele se levantou. — Mas, caso tenha algo além da muralha, eu e seus amigos iremos descobrir.
— Quem escala a muralha, morre. É a primeira regra, Mike. — ele fez uma pose de quem estava pensando em algo.
— Uma ditadura. — ele falou como se fosse óbvio, não entendi de cara. — Isso! Nós vivemos em uma ditadura monarquista absolutista, Jules, isso estava tão na nossa cara, tão óbvio.
— Como assim, Mike? — eu estava curiosa.
— Não sabemos o porquê de estarmos nessa merda de cidade cuja circunferência é uma muralha, nossos pais, nossos avós, ninguém nessa cidade sabe, além do Lesson, eu acho. Não temos direito a voto, nós apenas estudamos, trabalhamos e vivemos com uma garantia: sustentar a monarquia. E eu te pergunto: por que devemos sustentar o babaca do Lesson e da família dele? Isso aqui é tipo uma prisão? Será que nós não passamos de escravos do Lesson e da família dele? Por que não nos deixam ir lá fora? O que tanto escondem de nós? São muitas perguntas, Jules. Sem contar que a família Braga é muito poderosa e manda na porra toda, o povo os odeia, mas ninguém pode protestar contra o regime de Lesson. Como eu disse, monarquia absolutista, ou uma ditadura, chame do que quiser. — eu fiquei atônita, desde quando o Mike é tão inteligente assim? Eu não sabia o que pensar, se bem que ele era muito inteligente em relação a computadores.
— Mike... — me interrompeu.
— E tem mais: Judith faz parte da família do Lesson. — fiquei sem reação.
— Como você descobriu isso? — ele sorriu.
— Eu roubei e fiz uma cópia do registro de cartório da Judith, o nome dela é Judith Selim Braga. O sobrenome do Lesson é Braga e só existem eles de Braga na cidade inteira, isso é até lei. — eu estava muito impressionada com a inteligência nunca vista antes por mim no Mike.
— Quando você descobriu isso?
— Ontem à tarde, mas eu já estava pensando em investigar a Judith há um tempo. A Society é uma escola cheia de mistérios.
— O que você propõe que façamos? — ele olhou para a janela.
— Precisamos saber o que tem após a muralha. — fez uma cara séria. — Mas antes vamos descobrir o motivo da morte daquele aluno, deveríamos saber o nome dele, real. — ri um pouco.
— Vamos dormir, amanhã contamos ao resto do grupo. — me deitei e ele fez o mesmo.
— Boa noite, mana.
— Boa noite, mano.
O pior de tudo é que ele estava certo, vivíamos em uma ditadura cujo objetivo era sustentar a monarquia da família Braga. Mas o que Judith, ou melhor, o que a Society tem a ver com isso? De acordo com os registros, quem criou a Society foi um arquiteto que não tinha ligações com a monarquia. Eu não sei como, mas a escola virou patrimônio da monarquia Braga há 8 anos. Eu agradecia por não estudar na Society, mas meu pai me obrigou, e obrigou o Mike também.
Às vezes, eu acampava no quintal da minha casa. A minha casa era de fundo com a parte leste da muralha. De vez em quando, logo depois do meu pai e o Mike dormirem, eu colocava um copo e tentava ouvir o que tinha do outro lado da muralha, eu havia visto essa técnica em desenhos animados, e às vezes funcionava. Eu ouvia o nada, e isso me amedrontava.
O Mike dormiu rapidamente, já eu fiquei acordado pensando no que havia depois da muralha e da ligação da família Braga com isso.
De qualquer forma, faremos uma coisa de cada vezes. Faremos primeiro o nosso objetivo principal: descobrir quem matou o aluno. Depois pensamos no resto.
//
03.04.2018 - Portaria do Ensino Fundamental da Society - por volta das sete da manhã
— Mike, você é um gênio! — elogiou Alexa com um meio sorriso no rosto.
— Após todas essas informações bombásticas, o que podemos fazer? — perguntou Chester comendo pipoca.
— Não faço ideia, mas não pode ser nada grande e alarmista. — falou Mike e eu me meti.
— Acho que devemos continuar investigando o assassinato do aluno, depois isso vem à tona. O que acham? — eles se entreolharam.
— Ok. — falou todos ao mesmo tempo.
— Tá, e o que faremos agora? Em relação a investigação? — perguntou Nico com a cabeça encostada no ombro de Chester, tão fofos.
— Continuaremos investigando. — respondi.
— Mas como? Os nossos pais estão na nossa cola. — tive uma ideia brilhante e clichê.
— Distrações! — todos me olharam com um ponto de interrogação no lugar da cara. — Precisamos distrair nossos pais com alguma coisa que os ocupem por um tempo longo o bastante, para podermos invadir a Society, pensem, gente.
— Jules, a gente manda o papai para o museu de história. — disse Mike e eu dei um sorriso.
— Deixa isso comigo, eu sou muito influenciável. — me gabei.
— Eu só eu dizer que vou para a casa da minha vó. — disse Alexa. — Lá não tem internet e o acesso é difícil. Minha vó também não usa telefone, nem celulares, então eu já tenho minha desculpas. — se explicou.
— Casalzinho, e vocês? — me referi a Nico e Chester, eles estavam tão grudados um com o outro, será que sempre foram assim?
— Eu falo aos meus pais que vou para a casa do Nico. — Chester é esperto.
— Eu invento algo súbito, só sei mentir na hora, mas eu vou. — Nico se explicou.
— Então, quando iremos? — Mike perguntou, Nico respondeu.
— Hoje à noite é ótimo.
— Concordo. — disse Alexa. — Jules, eu passo na tua casa, preciso dizer logo pra minha mãe que irei pra casa da minha avó, quanto mais cedo, melhor.
— Tá, te espero lá. — falei sorrindo, Alexa continuava séria, como sempre.
— Vamos descobrir o que tem naquela merda é hoje. — Mike disse, o sinal tocou. — E o martírio escolar começa.
