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Quando acordou, seus ossos doíam. Suas pernas e braços pareciam carniça, para uma vampira seria o ideal, ainda mais que estava próxima a mutação definitiva. Mas a ocasião era covarde. Ravenna tinha passado a noite acordada. Coisa que os vampiros não costumavam fazer. A “noite” como os humanos gostam de falar, era um momento de ações, porque como foram apelidados eram “seres noturnos”.
E a “infância”, de termo humano também, deveria ser priorizada nos momentos de Lua e na escuridão, fugindo do Sol. Entretanto, aquele era um tempo que não deveria ter ocorrido.
Dentro estava espaçoso e quente, mas com apenas os irmãos parecia errado.
A vampirinha estava com Bóris, agarrando-se a ele como um pobre filhote.
O som arranhado que saiu de sua garganta a faria corar de vergonha em outro momento, porém o Pai dos Vampiros abandonou-os na última semana e com ele o mínimo de compostura da menina. Eram uivos chorosos e lágrimas intermináveis que seguiam para a roupa do irmão, ecos que repetia apertando seu corpo.
Ela não parou com o barulho dos galhos batendo nas janelas, nos passos que ecoavam nos tacos do quarto ou quando a tampa do caixão foi aberta. Cansou apenas quando sentiu o cheiro de rosas vermelhas, baunilha e uma cantiga “Não temas” da deusa com uma voz suave entoando.
— Mamãe? — A palavra saiu tão rapidamente que seus olhos abriram.
Sua visão estava borrada. Seria surpreendente se conseguisse ver alguma coisa depois de chorar todo o rio Amada Trágica, os pensamentos zombaram dela. As íris tão claras como o céu sem estrelas, era certeza do pai que nunca existiriam olhos mais belos que o dela, arregalaram-se ao observar o mundo fora da madeira acolchoada.
Um dia que tinha sido ruim, como provavelmente este seria, Ravenna tinha chegado das aulas da Escola Real Primeiro Jardim. Ela não era jardineira, nem se importava com as plantas como sua tia Cassie, achava aquele nome bobo e teria nomeado o lugar como Prisão Com Idiotas, mas isso não era o importante.
A mãe não estava em casa e Bóris em sua calma habitual correu para o quarto comendo um pedaço de bolo, que por uns segundos tinha sido o bolo dela. O bolo de chocolate dela.
A menina sacudiu o casaco antes de pendurá-lo, acenou para o tio-sem-tempo-para-pirralhos enquanto pegava uma cadeira na sala de visitas.
Haviam cadeiras para onde ela iria, é claro.
— Eram feitas a partir de árvores mogno, — diria o tio que ela evitou conversa em meio à sua expedição para questionar pai, — de regiões quentes chamadas de Sempre-Sol. Locais como as cidades: Segunda Estação ou Refúgio Final, em que viviam e eram permitidos apenas humanos. Eram árvores de nomes nativos pouco conhecidos e de cores avermelhadas. Tinham sido cortadas e moldadas para servirem como móveis. Talhadas com morcegos, pinturas de espirais douradas e estofadas com couro.
Conseguia ouvir um zumbido após a explicação e pensou na Tia Sol dizendo: — Nos tempos de hoje, eles estão mudando, irmão? Vão fazer pactos conosco e diminuir as fronteiras. — Ela sorria. — Vamos ser um povo unido.
Ravenna parou no corredor e suas mãozinhas seguraram a madeira com força fazendo seus dedos embranqueceram com o esforço e a raiva, que fazia com que seus caninos aumentassem. Sua barriga roncou querendo sangue e ela virou o rosto para não atacar Nova, a gata da avó que deitou no sofá após expulsar seus irmãos: Cheio, MInguante e Crescente. A vampira escutou um miado choroso, a bola de pelos cinza brincava com a morte, e em resposta grunhiu um aviso: — Não.
Então, o cansaço abraçou seus braços, restando apenas a opção de arrastar a cadeira até o escritório.
O barulho era irritante e se fizesse com força marcaria o chão. O pai levantou uma sobrancelha, escondeu lábios em uma linha fina que parecia costurada pela avó.
— Pai — a menina começou — Por que não tenho olhos bonitos?
Ele examinou seus olhos. Será que agora vê como eu vejo? A pergunta rondava sua cabeça roendo cada memória em que tentou ver seus olhos no espelho. O reflexo mostrava apenas suas roupas e as câmeras digitais não conseguiam capturar sua imagem, deixavam apenas um borrão com um aviso: Ser mágico não identificado.
A menina piscou três vezes para evitar chorar. Eu não sou uma chorona, repetiu para si, Sou letal e perigosa.
— Não vejo olhos bonitos — disse o pai surpreendendo a filha.
Ela soltou um arquejo e pensou: O que? Abriria a boca apenas para xingar… Mas ele tinha sido honesto. Preferia sua mentira. Eu te odeio-
— Vejo joias, aqui — ele apontou para os olhos dela. — As mais raras joias que existem, foram feitas pelo amor da sua mãe e eu.
— Mas eles não são claros como safiras, esmeraldas e diamantes. — Replicou esquecendo aquele sentimento feio e restando perguntas para uma menina que parecia flutuar sem rumo.
O pai suspirou quando olhou para ela. Estava cansado e a menina parecia o atrapalhar. Ravenna encolheu-se e prontamente levantou para deixá-lo só.
A mão dele, tão grande quando comparada à dela, pegou seu braço. A vampira prestou atenção na boca dele.
— São tão claros quanto o céu sem estrelas, tão belos pelos mistérios que vai guardar um dia, minha filha. — Dimitri olhou para ela triste, quando abriu a boca suas palavras pareciam forçadas: — Hoje não lhe perguntei o por que você fez isso. — Os olhos dele, negros. Aquele céu sem estrelas brilhou em sentimentos desconhecidos para a filha. — Mas um dia espero que diga. — Sua voz parecia mais grossa. Ele poderia quebrar todos os vidros da casa, porém em sua cabeça pareciam sussurros de histórias infantis que ela esqueceria quando entrasse no reino dos sonhos. — Lembre que você veio da sua mãe e de mim, nunca poderia ser imperfeita. É a mais bela filha que poderia ter e ninguém poderia convencê-la do contrário.
O abraço dele era quente mesmo sem a reciprocidade. O pai queria esquentar o coração dela de amor, entretanto ela era uma vampira. Você é um vampiro também pai, esqueceu-se? A maldade agitou-se no veneno fluindo em suas veias.
Dimitri percebeu, mesmo que tenham sido milésimos de segundo, a recusa da filha. Seus ombros pareciam mármore quando os dedos da menina o alcançaram. Ela o segurou e deu um tapinha suave. Meu amoroso pai.
A calma a alcançou. Seu nariz captava o frescor de morangos e seus olhos meio fechados: as sombras. Minha amiga escuridão e... um ser vestido de carmim? Sua respiração vacilou, arregalou os olhos e enterrou a cabeça no pescoço do pai.
Garantiu que o pai não visse ela levantando a mão direita e acenando para o ser: "Olá, amigo". Uma corrente elétrica passou por seus cabelos e ela sorriu.
Não se importava com o sorriso de gato de Anelize ao dizer: — Ah, Ravenna, sou uma bruxa descendente de deuses. Como poderia ser mais bonita do que eu?
A vampira tinha rido e agora segurava a gargalhada.
Prometo que deixarei os olhos de Anelize da sua cor favorita, roxo, e com esse último pensamento os braços de Ravenna juntaram-se ao pai e ela inevitavelmente chorou.
Ela ergueu os dedos para coçar os olhos. A ardência não era apenas pela lembrança das falas do pai mas pelo presente. Suas bochechas encheram de ar em um gesto de medo. Quero dormir para sempre.
— Trouxe o coveiro, vovó? — Rouquidão saiu da sua boca junto a um bafo nada agradável. Para melhorar a sua aparência, parte do catarro estava seco e a outra parte brilhava na camisa de Bóris.
Ela mexeu o nariz em um gesto que faria a tia Cassie vomitar. A massinha amarela esverdeada caiu sujando o tecido vermelho do pijama.
A risada que seguiu a pergunta parecia com o grito no filme de terror ‘‘Não abra a porta’’, que tinha assistido com os amigos. Bom que também está triste, irmão. Ela mostrou uma joinha para ele.
Morgana passou a mão nas têmporas e resmungou: “Ilumine-me, deusa.”
— Só porque são vampiros não significa que devam brincar com humores tão podres ou agir como mortos. — A repreensão quebrou a risada do menino.
A avó suspirou, seus olhos estavam vermelhos quando observou os irmãos. O avô parado ao lado dela tocou seus ombros e sussurrou: ” Calma, meu amor.”
O tio-sem-tempo-para-pirralhos estava encostado na porta, a luz elétrica mostrando sua imaculada roupa, uma roupa branca. A roupa de honra aos mortos. Quando ele falou, a menina jurou que o som tinha sido como um arranhão no metal do carro de tão sofrido que foi, mas tinha sido apenas um: “Oi”. Mais um item fora do normal, realmente aquele era o dia anormal.
Os adultos tinham falado várias coisas sobre o que tinha acontecido. Muitas lamentações e lembranças. Isolde era… Lembram quando… ela tentou abafar em sua cabeça.
A vampira esfregou a ponta dos dedos na madeira. Um barulho mais agradável do que ouvira. O caixão era feito por árvores da cidade mais ao sul, presenteado no casamento pelos avós, acolchoado de sedas prateadas e azuis.
A menina e Bóris, sem agir como um dedo-duro, ignoraram. O irmão estalou os ossos e baixou o batimento cardíaco.
Ravenna diria que eles não queriam sair, mas a garganta dela não merecia ser arranhada novamente. Eles tinham deixado tanta água sair pelos olhos que esqueceram de beber sangue. Patético.
Vampiros não choravam. Eles devastavam, porém não aos outros. Era assim que a Lei da Convivência mandava, para que todos vivessem em paz.
— Bóris, vá com seu avô e seu tio Vladimir — a avó comandou. Tinha os olhos penosos. — Fiquem prontos até a próxima hora, Theodor — Morgana respirou pesado. Um efeito da falta de sono, ela evitava chamar o avô pelo nome. O avô aceitou e saiu segurando Bóris, com os olhos arregalados planejando fugir ao sair do quarto.
A neta desviou a visão da avó, as cortinas, de algodão pretas, permaneciam quietas enquanto os galhos estalavam pelo outro lado da janela. Suspirou bem sem aquela nojeira gosmenta e foi confortada em instantes.
A mãe gostava da inspiração Vampiro-Real. Os olhos dela, castanhos claros, brilhavam com toda a história da antiga realeza.
— Eles eram perigosos, sim. Mas… existe um sentimento de assombro tão belo. — A mãe tinha dito tantas vezes, que Ravenna tinha decorado. Podia sentir o cheiro de baunilha dos cabelos dela. A mãe abaixaria o tom de voz como se contasse um segredo: — A beleza no sinistro não é novidade. Uma vez, quando deuses andavam nesta e nas outras terras, a deusa do amor se apaixonou. — Havia sempre uma pausa quando seus olhares cruzavam na penteadeira. Ela parava de escovar o cabelo da filha para perguntar: — Sabe por quem?
A filha balançava a cabeça em negação. Bóris, sentado na cadeira próxima a janela, engrossava a voz para dizer: — Um demônio.
A mãe sorria confirmando e colocava o indicador na boca para que guardassem segredo.
— Neste continente viviam animais voadores. Eles tinham uma boca grande recheada de dentes, poderiam comer tudo que queriam e quando suas presas corriam. — Ela soltava uma risadinha. — O fogo era mais rápido. Por isso, dragões eram dos deuses tanto quanto nós. — Isolde parava em suspense. Era sua parte preferida. Começava as tranças nos cabelos da filha e continuava: — Apesar da ferocidade, eles estavam em tranquilidade com os humanos... Até que partiram para o oeste antes da Separação e ninguém sabe o motivo.
Seu irmão saia da janela e deitava no pequeno colchão do quarto de Ravenna. Faltava pouco para que um caixão ocupasse o quarto. As poças negras de Bóris brilhavam com as dela escutando a história da mãe. Estrelas formando uma constelação, o pensamento invadiu a lembrança, a constelação do Dragão.
— Quando o último dragão saiu daquele monte — ela apontava para o Monte De Anatres —, o amor dos deuses foi interrompido. O demônio que ela amava foi o responsável pela morte de seu povo, nossos ancestrais. Ela ficou furiosa.
“Então lutou com o irmão, Aewyn, para salvar a todos. Quando eles ergueram -se das cinzas eram: Aewyn, o Deus dos Vampiros e Tahcy, a Deusa dos Lobos. Ambos Deuses Da Lua Vermelha e equilíbrio de uma nação renascida das cinzas do monstro.
Aquele que traiu a deusa tem o nome proibido, porém é sabido a sua divindade. Ele reivindicou o poder das tempestades e agora ocorrem por sua causa.”
Os dois irmãos abriam a boca em suspiros de maravilha. Deuses, estrelas brilharam em seus olhos, era lindo. A garganta de Ravenna coçava para perguntar: — Como era ser um deus?
Mas ela apenas perguntava: — Porque controlar a água?
— Para que a água tente tranquilizar a raiva da deusa. — A mãe daria um sorriso tranquilo, movimentava a testa em uma pergunta brincalhona: — O que a água e seus raios fazem com uma terra queimada, meus amores?
— Nada — os irmãos gritavam empolgados. Um deus não era apaziguado, ele apaziguava.
Naquela última semana, a mãe desapareceu. Não tinha deixado bilhetes, mensagens de texto ou de voz, ligações ou por último caso… cartas.
Em um último dia de semana, ela — Isolde — estava com a família pintando quadros na Cidade dos Lobos e no outro estava ausente.
O pai falava calmamente sobre a volta dela, que tudo estava bem com um pequeno sorriso. Bóris sempre atento perguntava muitas vezes e não acreditava em nada.
— Quando é que a mamãe volta? — Se a impaciência fosse comestível, a irmã começaria a comer verduras para evitar seu gosto. Seu irmão expressava-se agitado. E como um crente do deus da paciência, que nenhum dos irmãos decorou o nome, o pai o apaziguava com gentileza.
Ravenna percebia os lábios do irmão prestes a chamá-lo de mentiroso. Sua nova palavra preferida, descoberta com o mito do Cavaleiro Escarlate.
— Não há nada para se preocuparem, meus filhos — o pai falava mesmo que seus olhos brilhassem vermelho. Ele estava usando magia. Por que? Ela deveria ter questionado.
Então, na noite anterior… tudo mudou.
Ravenna levantou-se do caixão. Seus pequenos ossos pareciam frágeis. Deveria ter me alimentado. Morgana, mesmo após a noite passada, agiu como se mandasse nos mortos.
Desejo ser tão corajosa.
— A vida não é sempre agradável, meu amor. Cuidado com suas palavras. — A avó suspirou e abriu um pequeno sorriso. — Vamos. Até sua tia Solaria veio.
A vampirinha pensou em como poderia escapar disso, mas… Algumas batalhas devem ser perdidas para uma vitória maior, tinha dito o avô ao contar a história do Cavaleiro Escarlate em tempos de alegria.
Eles perderam a filha. Poderiam me perder também?
Essa será minha derrota. Mas a próxima…
Dedos esfregaram sua cabeça, mãos mediram o vestido e enfim Ravenna estava esplêndida para a Casa de Descanso.
— Isso não me alegra, Ravie — a tia Sol resmungou quando perguntada dos vestidos. O ar estava quente em casa com tantos visitantes, os odores misturavam em algo ruim. Os olhos da mais velha ficaram paralisados e ela sussurrou para si: — Poderia ter sido outra pessoa.
A vampirinha segurou todas as suas emoções na saída da casa. Seus passos tinham sido contados, medidos e comandados por seu desespero. Não havia nada mais doloroso.
Desgastante, porque os aromas de lavanda e ameixas não serviam para apaziguar o cheiro podre que afetava a Casa de Descanso.
A podridão era azeda e selvagem como as entidades que a comandavam. Mas, ali sob a luz do sol de uma última honra, poderia ser tolerado.
A pedra de seu assento era amigável, decorada com morcegos pretos e folhas descascadas indicando que a criação em séculos antes.
Ravenna Cyr estava inquieta.
Seus olhos seguiam para frente e atrás, direita e esquerda, a luz e as sombras tentando guardar as mágoas para outro momento.
Ela não era invejosa, mas queria se sentir como Bóris. O irmão, sentado ao lado dela naquele templo arrepiante, não tinha que coçar os punhos cobertos de renda. Era sufocante. Tão ruim quanto o motivo para estarem lá.
— Fique quieta — o irmão sussurrou. Ele queria o bem dela. — Vai ser rápido, tá?
— Você não está usando um vestido ridículo como eu. — Retrucou a menina. Ela mordeu a bochecha para segurar um chiado de raiva.
Não importava do sangue maravilhoso que o pai dera para que bebessem. Porque ali ela se sentia apenas como a pior vampira do mundo.
Os olhos de Ravenna ficaram tristes e Bóris, com a réplica dos olhos dela, piscou como se estivesse suavizando o rosto quando disse com ternura: — Prometo que nunca mais usará algo assim.
Isso foi o suficiente para que as lágrimas secassem e ela perguntasse: — Verdade?
Não houve demora do irmão ao confirmar, balançar a cabeça e dizer: — Prometo por Aewyn.
Os irmãos se entre olharam e sorriram. A tia Cassie os repreendeu, fechou o rosto e moveu os lábios: — Prestem atenção no sacerdote.
A tia Cassandra ficava mais bonita sorrindo, mas nem Ravenna queria sorrir.
Era um rito vampírico, com a benção de Aewyn, embora a avó e outros acreditassem em uma deusa diferente.
A movimentação dos sacerdotes com mantos longos e laranjas, os declararam novos na religião. O sacerdote-chefe detinha uma coroa de flores roxas e manto feito de ouro, como disse a tia Sol em sua voz admirada de modista: — Puro ouro para a voz de Aewyn.
Nós bebemos sangue, não ouro. Deveria ser vermelho, a menina pensou impaciente. Não há nada melhor que vermelho.
O sacerdote-chefe levantou a cabeça para o teto. Ele deveria estar vendo a pintura do deus, Aewyn por tudo mais sagrado.
O Senhor do Vulcão, como a avó dizia sobre Aewyn, estava pintado em seu trono de ossos sob a luz da lua vermelha. Tinha olhos cintilantes na cor prata e trajava para o deleite da vampira uma roupa vermelha. A imagem era hipnótica. Um belo e sombrio vampiro.
Será que sua irmã, Tahcy, que os homens-lobo adoram era igual? Será que ela era tão feroz como os seus súditos? Não importava, ela se repreendeu. Ela não tem poder aqui. Não como Aewyn. Tão pouco como Lunyon dos humanos.
No templo, por graças a Aewyn, não ventava. Talvez tenha sido por isso que a coroa usada pelo sacerdote-chefe não tenha caído.
Eram tantos segundos esperando que Ravenna se perguntou se ele esperava que a pintura se mexesse, como ela já tinha tentado muitas vezes ver.
As mãos estavam levantadas e mesmo distante ela viu cicatrizes. O vampiro ficou assim por uns instantes. Ravenna teria bocejado se o tio Vlad não tivesse a cutucado mostrando que ela deveria copiar o sacerdote como ele e outros em respeito.
Era um gesto respeitoso… que babos- A menina mordeu a língua sentindo Bóris, de olhos fechados, dar um chute na canela dela.
Melhor se preparar, irmão, a raiva saiu. E Ravenna, tão obediente, repetiu o gesto do sacerdote e olhou para o irmão delicadamente.
Ela moveu a perna direita devagar, testou o espaço entre eles e em um momento perfeito chutaria. Os olhos das pessoas atrás deles, que o pai fez questão de cumprimentar cada um, estavam na frente. Até a tia Cassie não veria o movimento.
Apenas um segundo para acertá-lo se tia Sol tirasse a mão do ombro dela. A pequena vampira foi contida impedida de fazer qualquer ação, restava apenas observar.
Ravenna bufou e se concentrou no sacerdote chefe.
— A levada do vampiro para o próximo mundo não é fácil. Para a família sempre existirá um vazio, mas Aewyn, o Pai de todos nós, sabe os caminhos que percorremos.
“Estamos aqui hoje para homenagear Isolde Cyr — ele começou com o microfone na mão, olhou para eles, respirou e continuou: — Alguns devem ter a conhecido quando era humana. — O pai e outros da família assentiram como uma ordem — Enquanto, outros por infelicidade do destino, em seus poucos anos vampíricos concedidos por nosso deus. — Ravenna olhou para ele. Não para a falta de cabelo, os dentes retos, os olhos como um lindo céu azul. Ela olhou para a essência dele. Como a avó tinha tido que todos os seres existentes possuíam.
A avó estava na fileira da frente segurando a mão esquerda do pai, e a escondia a outra no vestido. A neta reparou um farfalhar no tecido branco, era uma versão adulta do vestido dela.
A tremedeira da avó não impediu Ravenna de se lembrar da “voz de senhora mandona”, como o avô Theo brincava, explicando: — Alguns chamam de almas. Mas eu assim como as minhas amigas, que acreditamos na Deusa Lunyon, chamamos de essência.
A gentil palavra de Lunyon, deusa dos humanos, sobre o fim. Essência. Do que aquilo importava quando a única pessoa que ela queria não voltaria?
—... era uma amiga. — Ravenna escutou choros. Galinhas faziam barulhos melhores.
— Foi uma filha. — A avó e o avô se abraçaram e os olhos azuis do sacerdote brilharam. Os avós pareciam lindos mesmo naquele lugar.
— Foi uma esposa — ele continuou a monólogo, olhando para o pai que estava imóvel.
O pai deveria falar sobre ela, era o que mandava Aewyn. A fala sobre os mortos era uma honra. Porém, a vampirinha viu apenas seus cabelos em bagunça. O pai continuou sentado.
— Isolde Cyr foi uma mãe — o sacerdote, que o nome dissera no começo quando Ravenna segurava vontade de rasgar as mangas do vestido, olhou para ela e o irmão. E aquele lindo céu azul parecia um lago morto. Ravenna não saberia dizer se aquele sussurro tinha sido real: — Pobres crianças.
Ela nunca mais visitaria um lago com a mãe. Nunca colocaria os pés em uma terra fofa e jogaria pedras na água competindo com o irmão em um jogo idiota.
Jogos idiotas eram de crianças que tinham mãe. E a dela…
A vampira não prestou atenção no resto discurso do sacerdote, do avô, da avó, das tias, dos tios ou de quem mais quisesse falar da mãe dela. A garganta de Ravenna parecia inundada, porque a respiração não era fácil.
Talvez ela estivesse em um pesadelo. A poucos meses tinha caído em um lago e quase não conseguiu sair. Eram a mesma sensação… Ah, mamãe, porque quis me deixar? Jurei pelo pai dos vampiros que não desobedeço mais.
O ombro de Ravenna moveu e ela pulou. Olhou para trás e viu o tio Vlad indicando o pai na frente dela.
O pai tinha as bochechas escuras quando olhou para ela. Ele passou a mão na garganta e começou com a voz fraca: — Me desculpe — ele sussurrou, talvez para ela, o irmão ou para a avó que pairava como uma leoa observando um filhote — Eu não deveria-
A avó o segurou murmurando nos ouvidos dele algo que Ravenna não escutou. Segurou os ombros enquanto ele desabava. O pai não chorava. Ele era a rocha de Ravenna e Bóris. Ele era alegre, feroz e bom.
As mãos de Ravenna aqueceram com os dedos de Bóris. Ele estava tão assustado quanto ela. Com os lábios abertos e olhos arregalados.
Talvez, no espaço entre estátuas do deus, uma criatura de asas brancas e orelhas pontudas, segurasse uma pequena viola. Ela olharia a todos com fascínio de seu mestre, a Morte, apreciando os choramingos, soluços e gritos dos vampiros como uma nova canção.
Sua pele arrepiava com a visão da criatura batendo duas palmas antes de começar, um som de preparação vocal e enfim um grito estridente no início da música. Seria desafinado no começo, é claro, até que conseguisse a melodia e cantasse como a Isolde cantaria.
A fada roubaria a voz dela e ninguém impediria.
A mãe dizia que a morte cantava para atrair suas vítimas e ali era a mais bela orquestra. Talvez a morte buscasse mais alguém. Talvez Aewyn os tivesse abandonado. Talvez…
Ravenna soltou as mãos do irmão. Ele tentou puxá-la e contê-la. A vampira sibilou e com as mãos nas orelhas ouvia nada. Silêncio e tum tum tum. Seu coração batia muito rápido.
Ela precisava… A mãe tinha morrido. Os joelhos tremiam com as batidas. Tudo estava girando. Estava claro e barulhento.
Bóris a abraçou com tanta força que tudo voltou, mas as cinzas continuavam no pote decorado. Não haveria um corpo para enterrar. Não estava certo.
O pai tinha sido inflexível com a avó para que sua essência fosse purificada. O corpo deveria queimar e parte da família deles junto.
Ela sabia que a morte da mãe tinha sido ruim. Ela sabia e quando escutou de manhã, o grito do pai: — Eles a violaram. Piorou a situação, embora suas perninhas tivessem disparado e ela não entendesse.
Ravenna tinha entendido que os tios tinham contido ele. Que tinham segurado e dito coisas boas como a mamãe fazia com ela e Bóris.
Seus tios que sempre iam para o pai. Porque um vampirinho sempre segue o mais velho. Mas o pai não seguia o Alaric.
Aquele avô era estranho. Não era como o pai da mãe dela. Gentil e bondoso contando histórias dos vampiros, humanos e até de homens-lobos.
Alaric não merecia a bondade de ser chamado de avô. Ele era “o patriarca” como tinha berrado ao pai.
Ravenna fungou abraçando Bóris enquanto olhava para o pai. Olhos negros em olhos negros. O pai os chamou. Esticou os braços segurando como fazia. Mas ela sentiu o vazio dentro de cada um. Existia medo, tristeza e… raiva.
Era a casca que Alaric cuspia em desdém dizendo: — Humanos.
Ela temia sua aparição. Era difícil. “Mínimo” como o tio Vlad gostava de dizer. O pai tinha brigado com Alaric, porque era isso que eles faziam. Era o amor deles de maneira diferente.
A menina sentiu apenas a mão de Bóris a guiando para o outro lado da Casa de Descanso.
Seus joelhos não doíam no chão, e seus olhos ainda não absorviam a estátua que o irmão escolheu honrar.
Ravenna desejou para o pai se reerguer. Oh, pai de todos, Aewyn, o vampiro, ajude meu pai. Ajude. Não o deixe assim. Deixe ele bom.
A voz dela se misturou com a de Bóris entornando “A misericórdia de Aewyn”.
No momento que suas pálpebras abriram, percebeu que era a "Aewyn, O Juíz". Ela não gostava tanto das aulas que aprendia sobre as faces do Pai dos Vampiros, mas reconheceu a figura e pensou na gratidão do conhecimento.
Talvez devessem clamar outra benção. Ela puxou a roupa do irmão.
— Devemos pedir com “O julgamento”.
— Sua voz saiu quebrada. Os olhos do irmão piscaram várias vezes. Era errado parar na metade de uma prece. Não seria errado naquele momento, porque eles fariam uma nova e mais poderosa.
A vampirinha quase desistiu com o suspiro do irmão.
— Desculpa. — A palavra saiu sem permissão. Sentia-se tonta. Igual uma criancinha boba com o olhar estranho do irmão. Ela quis perguntar: — Está com raiva de mim?
Aquela pergunta era boba. Ela deveria dizer: — Não olhe para mim assim.
A língua na boca dela estava travada para dizer essas coisas. O vampiro era irmão dela e não um inimigo.
Ele ficaria triste, ignoraria tudo sobre ela e então a mãe… Não haveria mais a mãe para juntá-los.
O irmão coçou o queixo e ajoelhou-se mais próximo dela. As palavras tiraram parte da tristeza da irmã: — Tá bom. Eu começo.
O sorriso da mini-vampira durou pouco. Os olhos piscaram para cima e finalmente contemplou a estátua.
Ali, o deus, tinha cabelos longos, roupas de um rei, caninos longos e a postura arrepiadora. Ravenna nem se importou que seu deus estava sem cor, o mármore não aceitava tintas.
— Aewyn… — O irmão começou a prece.
A vampira respirou fundo sentindo o cheiro de fogo. Não um fogo poderoso e chamativo que tivesse medo, eram as cinzas que sobraram no final de tudo, o frio da perda de calor e os pequenos grãos de poeira sobre sua cabeça.
A sujeira aumentava a cada verso, entoado pelo irmão e a continuação por ela, era gentil. Pareciam pequenos flocos de neve, mas a menina não abriu os olhos.
A prece era relaxante. Ravenna sentia seu coração bater de modo bom. Como se ela fosse humana.
Não havia raiva na mudança de cor que as cinzas traziam para seu cabelo branco. Aquela era a melhor coisa que já tinha sentido.
— Paz. — Nomeou a sensação. — Humanidade.
Mas, uma mão tocou seu rosto e ela sabia que não era alguém que ela conhecia. Não era áspero nem macia, apenas uma carga de energia.
Ela tentou ignorar o medo, o seu coração que batia muito rápido e o suor que brilhava a testa.
— Não pode ser — ela berrou. Abriu os olhos com o último verso da prece saindo da boca e olhou para o irmão.
Bóris ficou confuso com ela. Suas palavras começaram: — Tudo bem?
A boca dela abriu-se para que todas as suas próximas falas morressem.
À sua volta tudo continuava igual. Sua família parecia triste e todos aqueles que vieram honrar a mãe emanavam pena.
A decepção corroeu seu coração. Não tinha chovido cinzas sobre eles e nem estava frio. A chuva na Casa de Descanso seriam as lágrimas dela.
Até que tudo foi interrompido com o barulho de botas. Porque, entrando como se a porta oeste fosse sua, o Patriarca da família Cyr apareceu ao encontro de sua família deserdada.
Ele estava de preto. “Desrespeitoso” como qualquer uma das tias apontaram.
Curiosa com um gato, os olhos dela arregalaram quando reparou no bolso da camisa. Alaric trouxe uma rosa vermelha. Como a mamãe amava, pensou.
E um chapéu, que o Patriarca não teve o trabalho de tirar. Ele não deve ter cabelo para mostrar, Ravenna pensou malvada.
— Pensei que tinha educado cada um de vocês melhor. — Era o timbre de um trovão.
— Um invasor ao menos presta o serviço da roupa certa, pai. — Dimitri cuspiu. Movimentou os filhos até o tio Vlad. — Mas isso seria esperar muito de você.
— Continua recusando a educação, querido filho. Me chame de Senhor — Alaric sorriu. — O branco é apenas para quem deve ser honrado. E como vejo, não há ninguém. — Seus olhos, infelizmente iguais aos dela, circularam pelo templo. — Eu o avisei que seu brinquedo iria quebrar. — Ele disse em monotonia. Sua língua mexeu destilando veneno. — Poderia ter uma nova esposa. Uma não humana de preferência. Humanos são fracos e-
O velho vampiro iria começar mais um discurso. Ele gosta do som de sua voz, Ravenna não tinha interesse em escutar.
O pai dela estalou a língua. Se fossemos dragões…
Dimitri se aproximou do velho devagar.
— O que está fazendo, pai? — As palavras saíram da boca de Bóris.
A pele da vampira esquentou ao mesmo tempo de um soco. Ela e todos os presentes escutaram o barulho de osso contra osso. A bochecha de Alaric estava vermelha.
Os primeiros vampiros não machucavam tão fácil, mas esses estavam… mortos. Um choque elétrico percorreu seu corpo.
Se tivesse sido o nariz não teria essa marca feia. Ravenna enxergava vermelho. Poderia ajudar o pai. Teria sido deformado e é isso que merece.
Ela olhou para Bóris. Ele merece o pior não é, irmão? Existia alegria nos olhos dele. Suas mãos apertaram duas vezes em animação. Vamos ajudar o pai.
Era como uma noite de lua cheia, em que os homens-lobo da cidade abaixo uivavam com fervor e as luanisticas cantavam louvores.
— Não terei mais uma esposa — o pai tinha dito após o soco. Seu irmão resmungou: — Não entendo por que o pai responde esse homem.
— Nada é simples. — Tio Vlad sussurrou e moveu os irmãos para o lado direito dele. A vampira quis dizer que eles queriam ver aquele homem e enfrentá-lo do mesmo jeito que o Cavaleiro Escarlate venceu o gigante Enisro, mas ver o que acontecia a deixou cautelosa.
— Não aguentaria, não é? — o Patriarca perguntou feliz.
— Isso me faria igual a você. — Dimitri sorriu. — Se bem que… você também não aguentou. Funerais dão trabalho, concorda?
Alaric fez uma careta raivosa. Pai e filho olharam-se pelo gosto da violência.
A voz suave de Morgana estava ácida ao repreender Alaric: — Não é bem vindo no funeral de minha filha, Alaric.
O Patriarca apenas riu, mostrou os caninos pedindo para que a avó se aproximasse. Ela torceu o nariz e fechou as mãos ao lado do corpo. A avó se preparava para avançar enquanto ele expressava para o pai suas futilidades.
— Pensei que demoraria mais para isso — ele mexeu as mãos mostrando o salão após o funeral. Não tinha a decência de aparecer antes. Não tinha coragem.
— Minha mãe já lhe disse o principal: não é bem vindo. — O pai se controlou e apontou a saída. A mesma porta oeste.
— Essa fanática de Lunyon não é sua mãe. Trepei com uma vampira, não com essa bruxa. — Seus olhos brilharam em malícia enquanto os olhos do pai avermelharam e seus lábios escureceram.
— Tem muito para dizer sobre os outros, querido Alaric. — o avô Theo xingou: — Não usa a educação da família Cyr para falar da minha esposa?
— Sempre para meus estimados amigos, Theodor. — o Patriarca respondeu. — Tenho um filho muito malcriado — suspirou como se Dimitri não estivesse ali. O pai resmungou: — Você que me criou.
Mas o Patriarca estava surdo e continuava falando: — Pode ficar com esse também. — O vampiro riu baixinho. — Tenho coragem em admitir que fiz filhos fracos. — Ele apoiou a mão no queixo e apontou para os tios Vlad, Cassie e Sol. — Combinam com a humanidade. — Ele colocou a mão no queixo contemplando uma ideia. — Pelo menos você só errou uma vez, não é, Theodor?
O respiro do avô quebrava o templo. Como é sua raiva, vovô?
— Pensei que vampiros tradicionais como você odiassem a sensação de ficar “bêbado”, meu amigo. — O avô disse tão calmamente que a menina paralisou. O que era isso? Bêbado?
Ravenna olhou para Bóris, o sorriso do irmão crescia enquanto as sobrancelhas dela ficavam mais próximas.
— O que significa? — A voz dela não foi baixa, porém ninguém além do tio Vlad, que fez uma careta de nojo, notou que os irmãos estavam ali.
Deveria ser algo nojento, ela concluiu, como brócolis.
Pensar naquela arvorezinha asquerosa fazia sua garganta queimar de nojo. Como poderia gostar daquilo? Como o avô, corrigiu-se, Alaric gostava de se sentir assim?
Era injusto que o avô dela envelhecesse e esse sujeito..., Seus caninos doíam. Ravenna escutou um grunhido vindo do pai dela.
— Morgana é a mãe de minha esposa e me aceitou como filho. — Ele umedeceu os lábios: — Ela é tão minha mãe quanto Calista.
— Não arruíne sua mãe verdadeira. Mostre o mínimo de respeito, Dimitri. — Alaric rosnou. As pernas dele tombaram.
— Tomara que caiam e quebrem velhote. — Ravenna sussurrou e tia Cass se moveu rápido para tapar a boca dela. Ela escutou as risadas da tia Sol e do tio Vlad. A tia Cass bateu no ombro de Bóris para que ele não falasse nada.
— O mesmo respeito que demonstrou ao invadir minha casa? Ao cuspir merdas de minha mulher? Da mãe que considero? — o pai parou. Bufou e riu dizendo: — Diz que amou minha mãe mas não tem coragem de dizer o nome dela.
O salão estava em silêncio e todas aquelas pessoas olharam do pai ao velho. Esperando e julgando.
— Não tem coragem. Não conseguiu ir ao funeral dela — o pai sussurrou cansado.
O pai moveu a mão, machucada com o soco, apontou para o Patriarca: — Sinceramente, repetindo os erros do passado. — Então olhou com tédio e gritou: — Covarde.
“Covarde” ecoou pelas paredes de gesso da mesma maneira de um alto-falante enquanto os vitrais, em tons de vermelho e azul refletindo a luz do sol, pareciam gritar em conjunto.
Tudo por Alaric. Ele se tornava o centro das atenções na cerimônia da mãe de Ravenna. Da mulher que ele odiava. A vampira sentiu o amargo do sangue e pensou como “covarde” sairia da boca dela.
O Patriarca parecia doente com o brilho nos olhos de… orgulho? Ravenna piscou.
O Patriarca… não riu, sorriu ou disse alguma coisa. Ele segurou os ombros do pai por uns segundos. O pai, de olhos arregalados como ela, Bóris e os outros, abriu a boca para dizer algo que nunca saiu.
O silêncio pareceu assustador.
A surpresa era tanta que os passos da avó pareciam abafados quando ela estava do lado do pai. Segurou o medalhão de Lunyon espantando coisas ruins.
— Se fosse assim ele nem estaria aqui. — O bocão de Bóris foi aberto. Que o Pai dos Vampiros nos salve. Com sorte recebeu apenas um olhar da tia Cass.
Mas o velho, mais estranho do que poderia, soltou os ombros dele e entregou a rosa para a avó murmurando: — Sinto muito.
A avó pegou a rosa e a examinou. Não disse nada.
A cabeça do vampiro assentiu e ele olhou para os irmãos quando disse: — Cuidem de seu pai, vampirinhos.
Assim como uma tempestade, o Patriarca saiu e deixou para trás a destruição.
Ravenna apertou as mãos de Bóris. E o irmão sussurrou: — Odeio ele.
A menina sorriu e antes que pudesse concordar, o pai entrelaçou os braços neles. A proteção era tardia, mas não inútil.
Os irmãos não reclamaram, muitas desobediências já tinham ocorrido. O pai não precisava de mais uma.
Os fios do cabelo saíram espetados enquanto ela suspirava nos braços do pai. O mais velho, olhou para eles dizendo: — Vamos para casa.
Os três saíram juntos, tampando as cabeças com véus para evitar o sol.
Uma estranheza percorreu seu corpo e ela olhou para trás pela última vez. Sentiu o cheiro de rosas e… cinzas.
O caule da rosa estava na mão da avó enquanto queimava suas pétalas. O avô verdadeiro cantava “Purificação divina” olhando para a esposa.
As chamas refletidas no olhos deles cresciam e a neta percebeu como a Casa de Descanso parecia bela.
Mesmo que fosse tolo, ela abriu a boca para sentir o gosto das cinzas. Quando desistiu de seu gesto, segurou firme a mão do pai e percebeu o inevitável.
Não existia ninguém que odiasse Alaric Cyr mais do que Ravenna Cyr.
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O rancor era o seu maior defeito. Era incômodo, pesado, barulhento assim como a pedra que olhava.
O ar estava úmido com neblinas que poderiam perturbar um humano. O chão estava lamacento e fofo caso ela passasse a mão.
Um estalo ecoou quando ela esticou o corpo. Caminhar no bosque Almas Famintas no final da tarde era delicioso.
Poderia ver as árvores tortas, fazer pegadas na terra e sentir uma natureza selvagem. Ela sabia que aquele lugar tinha sido um monte de cinzas antes de Aewyn tê-lo feito florescer.
Não deveria ter construído o lago, as palavras invadiram sua mente e ela replicou em voz alta: — Desculpe. Não foi minha intenção.
Ravenna deveria ter cuidado. Os deuses, principalmente o dela, escutavam os pensamentos. Devo ter cuidado com minhas palavras, lembrou-se das palavras ditas a tantos dias pela avó.
Mesmo após dias pareço uma chorona.
O fôlego de seus pulmões aumentou. Falar que tinha saído de casa era simplista para a situação.
Quando desceu do carro, em que Bóris sentava ao seu lado e Tio Vlad dirigia, só pensou em trocar as sandálias por botas e colocar um casaco.
Correu para a porta da casa, jogando as sandálias. Saudou Calantha e Ramón com: “Oi” e “Tchau”.
Mesmo ficando no caixão com as pessoas que mais ama na vida, conseguia apenas planejar sobre o sexto dia da semana.
Em ritual há pelo menos dois anos, em razão de faltar um ano para sua transformação definitiva, ela poderia sair um dia na semana no bosque. Escolheu o dia pensando na saída da turbulenta Prisão Com Idiotas e o bosque porque era distante do qual brincava com a mãe.
Ela tinha pensado que visitar bosques diferentes trouxesse conexão com a natureza. Porque conheceria diferentes versões de um mesmo ser, a terra. Era obrigatório que conhecesse toda a sua casa.
Então, no começo do dia, quando o pai tentou convencê-la a ficar em casa, sua boca se retorceu com raiva: — Este é o meu dia.
Uma imaturidade que mostrava a razão do pai, mas a vampira completou para evitar ser mais rude: — O dia de Bóris foi ontem e não pediu que ele ficasse.
O irmão estava na sala ao lado, era um armarinho que os separava. (O pai tinha decidido essa parte da casa. Então não parecia com o Vampiro-Real de tons escuros e luzes amareladas. Era um ambiente de luz brancas, janelas espaçosas com vidros feitos para a pele sensível vampiresca, cadeiras de madeira mais leve e nas paredes viagens dos pais emolduradas feitas com fotografias coloridas. Poderia entrar deles se quisesse.) Ou seja, era uma cozinha com sala conectada. Não havia segredos e conspirações que conseguissem ser escondidas. A vampira observou seu irmão com a prima.
A prima era de quarto grau, um laço distante que o pai gostava. Ela trabalhava na limpeza da casa. Tinha sido grande amiga da mãe e agora mais uma viúva de sua ausência.
Bóris estava levantando e descendo Minguante rápido. O felino ronronava e gemia pedindo mais e mais. Calantha colocava a mão no rosto maravilhada: — Olha Bóris como ele encolhe as patinhas. — Deu uma pausa antes de dizer com convicção: — Ele te ama.
Seus olhos desviaram da cena com raiva. Bóris nem tenta me ajudar.
A tosse antes de falar estava se tornando duradoura. Ela coçou a cabeça e refletiu: Vampiros não adoecem.
— Pensei que poderia ficar comigo. — Pensa em mim como fraca. Ela entendeu.
— Ficamos todas as tardes menos essa. Qual a diferença de um dia?
— Uma tarde é muito, filha. — A voz dele esganiçou. — Sabe disso, sim?
Ravenna sabia o que ele queria dizer e a sua amiga, raiva, crescia nos olhos. Para disfarçar ela sorriu.
— A maioria dos vampiros vive muito. — Pensou suas palavras com cuidado mas o pai repetiu: — A maioria… Conheço esse tom, Ravenna.
Ela fingiu surpresa e levantou as mãos: — Minhas razões são boas. Esse é o meu dia.
Dimitri bufou. Bóris aproveitou para falar: — Oh pai, olha Minguante. Que barriguinha linda.
Assim o pai lançou-lhe um olhar e o relógio tocou. Hora de ser presa.
A vampira construiria um altar para o deus do tempo. Aprenderia seu nome, levaria oferendas porque seu poder era pontual. Ela deu uma risadinha silenciosa.
— Isso não acabou. — O pai disse a filha. Um aviso de: Fique em casa.
Entretanto, seria adiado. O dia dela de caçar, não poderia considerar uma fuga tão pouco rebeldia. Ele não tinha proibido só dado uma sugestão.
Ravenna olhou ao redor, fungou o nariz tentando sentir o cheiro de animais.
Cheiro de hortelã com as plantas as esquerda, a água atrás dela e… um cheiro animal. Um mamífero.
Seus passos foram feitos devagar, abaixou seus batimentos cardíacos e apurou sua visão. Teria um brilho vermelho nas suas íris e pequenas garras de seus dedos.
Ela esperou atrás de um tronco de um pinheiro. Contou um, dois e… Saltou no animal.
Escutou um: — Eu não sou comida. — Seu lanche berrou.
